10.6.09

Crise na Assembléia e Limites Políticos da Sociedade Civil Alagoana

(Golbery Lessa, historiador)

Em fevereiro do presente ano, a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) que abriu a possibilidade do retorno à casa de Tavares Bastos dos deputados estaduais afastados pela Justiça teve o efeito de despertar na sociedade civil maior vigor na busca de novos caminhos para a mobilização referentes à mudança da cultura política local. A postura anterior das várias entidades reunidas no Movimento Contra a Criminalidade e a Corrupção (MSCC) baseava-se no elitismo, num exagero na moderação prática e ideológica (algo fora do lugar num contexto de emergência política e ética) e no excesso de confiança no discurso jurídico (como se este fosse suficiente e o único pertinente). O esperado golpe da atual ilegítima mesa diretora de não instalar os trabalhos legislativos do ano de 2009 no dia marcado para uma significativa manifestação popular foi respondido, brilhantemente, com o contragolpe da ocupação do plenário e a instalação simbólica de uma “Assembléia Legislativa Popular”, contundente recado sobre a possibilidade real de um afastamento irreversível entre os poderes constituídos e a sociedade civil, com ocorreu em 17 de julho de 1997. Contudo, ainda há um logo caminho a percorrer para que os alagoanos encontrem forças suficientes para renovar o Poder Legislativo estadual e as suas práticas políticas. Será necessária principalmente uma profunda autocrítica do campo progressista.
Por quais motivos a sociedade civil não está conseguindo mobilizar-se com eficiência e efetividade contra as presumidas ilegalidades (mesmo respeitando o princípio do contraditório e sem querer julga no lugar da Justiça, temos o direito de dizer que existe uma montanha de indícios) praticadas na Assembléia Legislativa? As limitações políticas e ideológicas da mobilização popular estão expressando as limitações da sociedade civil alagoana na presente etapa de seu desenvolvimento, particularmente dos trabalhadores sindicalizados mais atuantes e dos setores empresariais “não-canavieiros”. Essas limitações têm relação com a configuração particular das classes sociais no Estado e a história das idéias e das práticas políticas locais. Deixemos os setores empresariais referidos para um artigo futuro e analisemos o outro sujeito social citado.
Os trabalhadores até agora mobilizados estão reunidos principalmente em entidade de funcionários públicos municipais, estaduais e federais, além de estarem nos movimentos de luta pela terra, cujos membros formam a massa disposta às ações mais contundentes e o grosso das passeatas. Segundo o site do MSCC, o movimento teria sido fundado pelos seguintes sindicatos e entidades: Sindicato dos Policiais Rodoviários (SINDPRF), Sindicato dos Servidores do Judiciário Federal e MPU (SINDJUS), Sindicato dos Urbanitários, Sindicato dos Trabalhadores em Seguridade Social (SINDPREV), Sindicato dos Servidores Públicos de São Miguel dos Campos (SIMESC), Sindicato dos Médicos, Sindicato dos Taxistas, Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTEAL), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Ordem de Advogado do Brasil – AL. Vê-se que o grosso das entidades fundadoras do movimento é formado de funcionários públicos, principalmente federais, secundados pelos servidores estaduais (urbanitários e trabalhadores na educação). Esse perfil manteve-se inalterado até o presente momento (junho de 2009); basta ver que os “deputados populares” escolhidos simbolicamente durante a ocupação do plenário foram, na maioria, os dirigentes das entidades apontadas e uma minoria de lideranças dos movimentos agrários. O grosso dos trabalhadores do setor privado, a maioria dos trabalhadores da capital e do interior, e suas entidades representativas estiveram ausentes; essa ausência tem tido um impacto decisivo nos rumos práticos e ideológicos do movimento. Por quê? Porque sem diálogo e aliança com os trabalhadores do setor privado o sindicalismo dos funcionários públicos tende a projetar alguns limites estruturais de sua natureza nas práticas e na subjetividade dos movimentos políticos dos quais participa.
Os principais limites do sindicalismo no serviço público são os seguintes: 1) a estabilidade no emprego, arma necessária contra o clientelismo, modifica bastante o significado da greve e de outros atos de rebeldia da força de trabalho; a greve torna-se burocrática e destituída do caráter épico que tem no setor privado, onde existe a angustia pela possibilidade de perder o emprego, o ódio natural contra os pelegos, a vigilância radical dos acordos feitos pelas lideranças, entre outros dilemas; o caráter rotineiro da greve no serviço público cria espaço para um sindicalismo marcado pela moderação, o desleixo com o debate fundamentado de questões mais amplas e a supervalorização política das ações judiciais; essas circunstâncias geram a perpetuação das mesmas lideranças, dificuldade a renovação dos quadros sindicais; 2) a significativa quantidade de servidores que entraram sem concurso público (antes de 1988) por terem “costas quentes” e o grande número de cargos de confiança acabam cooptando para o “patrão” (o governo) ou para as correntes de clientelismo relevante parte das lideranças existentes na categoria, o que dificulta a organização pela base e as mobilizações por bandeiras políticas concretas; e 3) o servidor tem o estado como patrão e não a diretoria de uma empresa privada, o que termina gerando uma identidade entre mobilização sindical e mobilização política, ou seja, os servidores se colocam contra o governo de plantão com mais facilidade do que os trabalhadores privados e parecem se politizar muito mais rapidamente do que estes; contudo, ocorre de fato mais freqüentemente uma “politicização” do que uma politização, isto é, os servidores tendem a limitar os temas políticos a aspectos superficiais e a prognosticar o moralismo como remédio para todos os males, tendo grande dificuldade de perceber os embates econômicos decisivos entre as forças sociais e econômicas que estão na base do universo político; essa dificuldade de perceber os verdadeiros interesses em jogo é ainda reforçada pelo fato de que o próprio exercício da função pública, que objetiva regular os conflitos sociais, gerar a ilusão em quem a exerce de estar acima das classes , de ser um juiz imparcial dos interesses em luta.
Em 1950, os trabalhadores da indústria eram 44% da força de trabalho urbana de Alagoas e os funcionários públicos tinham uma participação muito menor, em torno de 10%. A expansão das atividades estatais iniciada no Estado Novo, continuada na época do “milagre brasileiro” e reforçada pela Constituição Federal de 1988 inverteu esse quadro: em 2000, os funcionários públicos passaram a ser 25% dos assalariados urbanos e os operários industriais foram reduzidos para 18%. Os servidores agora recebem quase 70% da renda do trabalho no Estado e têm em média a metade da participação entre a população que recebe de 3, 5, 10 e 20 salários mínimos. O setor privado passou a ser formado pelos comerciários (13% em 1950 do emprego urbano, 21% em 2000) e pelos prestadores de serviço (24% em 1950 do emprego urbano, 23% em 2000) na maioria empregada em empresas pequenas, mas não apenas nelas. Essas modificações na configuração da força de trabalho acompanharam as modificações no PIB, que passou a ser formado, a partir de meados dos anos 1980, majoritariamente pelo setor de serviços, com forte presença neste das atividades do setor público (administração, saúde, segurança e Justiça), numa porcentagem só alcançada em outros estados menos desenvolvidos do país.
Esta nova realidade quantitativa criou as possibilidades de um mundo diferente na representação sindical e política dos trabalhadores. As lutas sindicais do passado, baseadas nos trabalhadores do setor privado e lideradas pelos comunistas e trabalhistas deram lugar, notadamente a partir de meados dos anos 1980, a lutas nucleadas pelos funcionários públicos e orientadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Uma minoria entre os trabalhadores urbanos protegida pela estabilidade no emprego, lotada em entidades com centenas de indivíduos e possuidora de 70 % da massa salarial, passou a hegemonizar o sindicalismo e a representação política dos assalariados, deixando na penumbra uma maioria formada por operários industriais dispersos nas duas dezenas de usinas, na construção civil e em outros ramos industriais de menor expressão demográfica (os químicos são poucos, mas produzem 20% do PIB alagoano), bem como uma grande quantidade de comerciários espalhados em milhares de pequenas lojas (com exceção dos supermercados) e de assalariados do setor de serviços pessoais e a empresas. Criaram-se, assim, as condições para a existência de duas culturas políticas específicas, com lideranças, idéias e lógicas distintas e, em várias dimensões, antagônicas. Os trabalhadores do setor privado passaram a agir e pensar a política fora dos marcos clássicos do sindicalismo de esquerda, já que foram praticamente abandonados - ou incompreendidos - por esta corrente ideológica, convergindo apenas em alguns momentos com as idéias e as ações dos funcionários.
De modo geral, os trabalhadores alagoanos do setor privado são mais difíceis de organizar devido à existência de um substancial exército laboral de reserva no Estado e da inexistência de estabilidade no emprego, entre outras variáveis. Além destas, cada uma das categorias desses trabalhadores possui dificuldades específicas. Os operários das usinas têm dificuldade de se organizar porque os seus direitos de associação e expressão são negados na prática pelos empresários e outras instâncias de poder (são mais vigiados porque podem parar o coração econômico da oligarquia canavieira); os trabalhadores da construção civil, apesar de estarem concentrados em poucas grandes empresas, têm a desvantagem de conviverem com uma intensa dispersão das equipes ao final de cada obra; os comerciários na maioria estão dispersos em milhares de pequenas lojas, onde o paternalismo patronal e a vigilância se exercem com o mesmo empenho, com a exceção dos grandes supermercados. Algo análogo ocorre com as trabalhadoras domésticas (60 mil em Alagoas) e os assalariados do setor de serviços a empresas. Apesar disso tudo, esses assalariados teriam uma chance de constituírem sindicatos mais fortes se o imaginário político alagoano não estivesse tomado desde meados dos anos 1980 por idéias feitas à imagem e semelhança dos limites do sindicalismo dos servidores públicos, sindicalismo que nega a importância política do trabalhador do setor privado (visto como um lumpemproletariado que vende o seu voto e atrapalha o progresso das idéias progressistas), por mais que esta negação não apareça formulada com sinceridade.
O dia 17 de Julho de 1997, jornada de protesto liderada pelos servidores públicos estaduais que motivou a renúncia do então governador Divaldo Suruagy, ponto culminante de uma crise econômica que se expressava, entre outras coisas, no não pagamento do funcionalismo, foi emblemático dos limites e possibilidades do sindicalismo alagoano contemporâneo. Sua análise ensina sobre as atuais dificuldades de mobilização. Os funcionários públicos estaduais, com o apoio de toda a sociedade civil, derrubaram o mesmo governador no qual tinham votado dois anos e meio antes; o tinham escolhido na esperança de que Suruagy trouxesse de novo uma época áurea para os vencimentos dos servidores. Só que o governador, que até aquele momento era um verdadeiro mito, não foi capaz de realizar a tarefa impossível de trazer de volta a conjuntura de seus primeiros mandatos, nas quais havia dinheiro suficiente para obras públicas e expansão do gasto com pessoal. O “acordo dos usineiros” havia acabado de debilitar os cofres públicos e uma série de circunstâncias legais e econômicas impediram rolagem da dívida do Estado. Diante do acúmulo de meses sem pagamento, os servidores transformaram o apoio em crítica, a simpatia em ódio.
O verdadeiro levante armado de 17 de Julho de 1997 foi uma saída democrática e popular para uma quadra histórica na qual as classes dominantes caíram na inércia porque não tinham coesão nem projeto político definido, não possuíam lideranças públicas com iniciativa e só assistiam sua hegemonia deteriorar-se progressivamente. A partir de um determinado momento, a quase totalidade da população apoiava, mesmo que não ativamente, a vanguarda de sindicatos e associações de servidores públicos que encetou vários tipos de protestos e formas de mobilização até conseguir a destituição do governador, tendo realizado a tarefa aparentemente impossível de impor a sua vontade à maioria folgada que Suruagy possuía na Assembléia Legislativa. Esse movimento político tão poderoso não foi, por outro lado, capaz de aprofundar significativamente o seu diagnóstico e os seus objetivos; virou-se para uma saída moderada demais e muito imprudente para quem havia sofrido tanto com as aventuras do status quo: apoiou uma candidatura (Ronaldo Lessa) sem um compromisso claro com mudanças estruturais e se absteve de eleger uma bancada de deputados progressistas ao lançar a principal liderança do movimento (Heloísa Helena) para o senado federal. Ronaldo Lessa fez dois governos de centro-direita, repetindo no básico os projetos políticos tradicionais (é sempre possível encontrar um roda-pé progressista em qualquer governo e seria possível encontrá-lo no de Lessa, mas isso não muda o seu rumo político essencial). Heloísa transformou-se em liderança nacional e o Brasil a furtou de Alagoas (sua volta com vereadora em 2009 parece ser a forma que a história encontrou para reparar esse erro). Após 12 anos do dia 17 de Julho de 1997, a esquerda alagoana demonstra ter perdido o rumo ideológico e os votos, tornando-se uma força temporariamente residual; o poderoso movimento popular pariu um rato porque expressou a força e os limites de sua principal base social: os servidores públicos isolados dos trabalhadores do setor privado. Muita moral, revolta e capacidade de luta, mas diagnóstico superficial e idéias tímidas.
A fragilidade relativa da atual mobilização da sociedade civil alagoana contra o status quo político na Assembléia Legislativa se explica, entre outras variáveis, pelos limites ideológicos e políticos da base social da vanguarda sindical mobilizada, que se expressa na subjetividade e na ação dessa vanguarda. Seu discurso tem sido abstrato, fragmentado, legalista e eivado de um moralismo empobrecedor do debate. Diz que o sistema político é corrupto porque as principais lideranças são corruptas (uma afirmação quase tautológica) e esquece-se de explicar quais variáveis permitem que os corruptos cheguem ao poder e permaneçam nele.
Os seguintes fenômenos estruturais que determinam a corrupção e a crise no Legislativo são esquecidos: 1) a universalização da aposentadoria rural, a estruturação dos sistemas nacionais de financiamento da saúde e da educação, o Bolsa Família e os programas oficiais de crédito aos pequenos agricultores, entre outros fenômenos análogos, bem como a diminuição radical do número dos moradores das fazendas (a partir de meados dos anos 1980) provocaram mudanças profundas na situação do eleitorado, dando-lhe mais independência das redes de clientelismo e tornando muito mais cara a manutenção das chamadas “bases eleitorais”; 2) a participação majoritária do setor de serviços no PIB, a partir dos anos 1980, determinou o aumento do nível de urbanização do eleitorado e o fortalecimento de novos atores, como o funcionalismo público, os comerciários e os prestadores de serviço a empresas, robustecendo a sociedade civil e o peso da opinião pública no resultado das eleições (na verdade, essa urbanização do voto constituiu-se numa “reurbanização”, já que nos anos 1950 a impossibilidade do voto do analfabeto fizera o voto urbano ter uma importância decisiva, representando por volta de 40% do eleitorado), fatos que “inflacionaram” ainda mais o voto rural e tornaram o voto citadino muito caro para ser “comprado” sem um rede dispendiosa de clientelismo; e 3) o fortalecimento do poder político da União em relação aos Estados a partir de 1995 (por meio do Plano Real e uma série de medidas implementadas pelos governos de Fernando Henrique Cardoso: Lei de Responsabilidade Fiscal, Lei Kandir, Programa de Apoio à Reestruturação e ao Ajuste Fiscal dos Estados, vinculação de recursos para as áreas da educação básica [FUNDEF] e da saúde [Emenda Constitucional n° 29], etc.) diminuiu as arbitrariedades nas contas dos Estados que eram aproveitadas politicamente pelas oligarquias; esse desequilíbrio do pacto federativo, apesar de suas intenções neoliberais, teve, em Alagoas, um impacto positivo no que toca ao fortalecimento do espaço democrático ao abrir espaço para a valorização da polícia federal e do Ministério Público, agora reestruturados por constantes concursos e melhorias salariais.
As presumidas irregularidades no uso do dinheiro público na Assembléia Legislativa explicam-se, em nossa opinião, pelo conflito entre as novas circunstâncias hostis ao antigo status quo político e sua disposição de resistir às mudanças democratizantes que a nova realidade impõe. A inflação dos gastos nas campanhas políticas alagoanas originou-se do aumento radical da monetarização dos laços políticos nas cadeias de clientelismo e dos gastos com o marketing necessário para amealhar o voto de um eleitor mais moderno e independente. Em decorrência, diferente do passado, no qual o mandonismo político se realizava com acordos a fio de bigode, o poder político passou a ser determinado, para aqueles que não desejaram trilhar o saudável caminho da disputa democrática, cada vez mais pela capacidade de amealhar dinheiro sonante em quantidades cada vez maiores, daí a busca de acesso irregular aos fundos públicos. A corrupção no sistema político alagoano contemporâneo não é, portanto, expressão da onipotência de um grupo de políticos e a pretensa prova de que tudo permanecerá igualmente miserável nessa terra de natureza luxuriante, é a demonstração que uma nova etapa de modernização se aproxima e de que a sociedade civil precisa superar os seus limites para atenuar as dores do parto e moldar o futuro de maneira mais generosa.

Maceió-AL, junho de 2009.

19.12.08


Para uma História da Indústria Têxtil Alagoana
[por Golbery Lessa] [1]
[Introdução: a história de Alagoas não é a história do açúcar]
Na historiografia alagoana clássica, surgida entre a segunda metade do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, não existe a proposta de exagerar o papel da atividade canavieira na história do Estado e subestimar o significado de outros setores econômicos, como a pecuária, o comércio, a lavoura algodoeira e a produção de tecidos. Nos textos de Tomás Espíndola, Dias Cabral, Moreno Brandão e Craveiro Costa, para citar alguns dos autores mais conhecidos, inexiste a tese de que a história de Alagoas seria a história do açúcar. Entretanto, os livros Açúcar e Algodão, [2] de Humberto Bastos, e O Bangüê nas Alagoas,[3] de Manuel Diegues Júnior, publicados em 1938 e 1949, foram interpretados de maneira distorcida por uma opinião pública impressionada com o poder adquirido pelas usinas a partir dos anos 1960 e ajudaram, involuntariamente, na invenção de uma teoria canavieira sobre a formação social alagoana que, mesmo sem conseguir impregnar a historiografia, tornou-se hegemônica nos discursos político, jornalístico e burocrático.
A partir da interpretação canavieira fica difícil escrever a história de municípios tão importantes como Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios, Arapiraca, Penedo e Maceió, estruturados por atividades agropecuárias, comerciais, de serviços e industriais muito distintas do setor açucareiro. Vastas regiões do Estado e mesmos momentos históricos decisivos de áreas do atual Leste Alagoano não podem ser suficientemente explicados por um raciocínio baseado na noção de “civilização do açúcar” ou qualquer um dos seus sucedâneos. Na trilha dos clássicos, historiadores contemporâneos de distintas perspectivas metodológicas, como Dirceu Lindoso, Sávio de Almeida, Douglas Apratto, Osvaldo Maciel, Fernando Medeiros e José Alberto Saldanha, têm sublinhado a importância de outras atividades econômicas, temas e regiões e, desse modo, deixado aberta a possibilidade para abordagens mais complexas da história de Alagoas.
Citemos alguns dos inúmeros fatos que não cabem na teoria que exagera o papel do açúcar: 1) a ascensão da cultura do algodão durante quase todo o século XIX e sua presença significativa até a primeira metade do século XX, envolvendo amplas áreas dos atuais Sertão e Agreste, definindo as bases da estrutura fundiária dessas regiões e chegando a ser cultivado na área tradicionalmente canavieira; 2) a proeminência econômica da burguesia comercial de Jaraguá (com decisiva presença de portugueses e outros europeus) durante aquele mesmo período, simbolizada pela centralização do poder em Maceió (1839) e pela criação da Associação Comercial (1866); 3) o papel decisivo do capital mercantil (alagoano, nordestino e estrangeiro) na constituição das primeiras grandes usinas locais (Brasileiro, Utinga Leão, Serra Grande e Sinimbu) e na constituição das doze fábricas de fiação e tecelagem; 4) o fato de que essas fábricas têxteis chegaram a rivalizar com a indústria do açúcar entre os anos 1930 e 1960 em termos de capital investido, valor produzido e número de operários; e 5) a grande descontinuidade existente entre o engenho e a usina, tanto em termos de suas lógicas econômicas básicas quanto no que se refere à origem de seus capitais.
É um universo de personagens e questões decisivas que tem sido negligenciado. Se observarmos apenas os casos da burguesia e da classe trabalhadora das fábricas têxteis, já entramos num espaço importante para entender melhor os descaminhos do ethos capitalista e das relações sociais mercantis em Alagoas, na medida em que esses sujeitos encarnaram a vanguarda desse mundo burguês entre o final do século XIX e meados do século XX. Isso implica em abrirmos a possibilidade de compreender melhor um dos momentos decisivos da reafirmação do caráter colonial, tardio e autoritário do capitalismo alagoano.
[Virada do século XIX para o século XX: entre a usina e a fábrica têxtil]
Após um primeiro momento de consolidação, vivido entre a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX, a indústria têxtil alagoana chegou ao seu amadurecimento entre os anos 1930 e 1950, passando a apresentar uma configuração que a colocava como pólo decisivo de uma alternativa econômica mais progressista. Pode-se iniciar a comprovação deste fato por meio de números que possibilitam a comparação entre o complexo têxtil e o setor canavieiro durante o período citado.
Em 1933, com o objetivo de dar publicidade às reivindicações que fizera a Getúlio Vargas, a Associação Comercial de Maceió publicou um livreto intitulado Alagoas na Economia do Brasil.[4] O texto assinado por Antonio de Mello Machado, presidente da entidade e um dos proprietários da União Mercantil, fábrica têxtil de Fernão Velho,[5] apresenta os seguintes números: em 1932, o setor canavieiro, contando com 27 usinas e 700 engenhos, alcançou um valor de produção de 52.388.580$000 (em contos de réis), constituído pelos seguintes itens: açúcar (46.969.260$000), álcool e aguardente (3.500.000$000), cana exportada para outros Estados (1.240.323$000) e cana consumida de outras formas (680.000$000); no mesmo ano, a cadeia produtiva têxtil, com 10 fábricas de fiação e tecidos, alcançou uma valor de produção de (40.516.800$000), a partir dos seguintes itens: tecidos (32.062.552$000), algodão (3.696.800$000) e caroço de algodão (1.620.000$000). Diante desses dados (o universo têxtil era responsável por 43,6% da soma dos valores produzidos pelos dois setores), fica difícil sustentar que a produção alagoana girasse apenas ao redor do engenho e da usina.
Para aquilatar o grau de desenvolvimento e as potencialidades trazidas pela parte industrial desses setores no início dos anos 1930, podemos calcular o valor médio da produção por unidade fabril e a contribuição da tecnologia tradicional e da maquinaria para o processo produtivo. A divisão entre o valor total do açúcar e o número de usinas tem como resultado 1.740.000$000, a divisão entre o valor total dos tecidos e o número de fábricas resulta em 4.050.000$00. A quase totalidade do tecido e dos fios era produzida nos dez grandes estabelecimentos fabris. Por outro lado, a partir de uma tabela do Instituto do açúcar e do Álcool (IAA) apresentada pelo economista Humberto Bastos, no citado livro Açúcar e Algodão, pudemos chegar à conclusão de que 30% da produção açucareira alagoana ainda eram efetivados por engenhos, fato demonstrativo de que a tecnologia tradicional ainda tinha um espaço relevante neste setor. A partir de dados relativos ao montante de capital investido apresentados no citado livreto da Associação Comercial, pode-se calcular que uma usina possuía em média um capital de 3.009.556$000 e uma fábrica têxtil, 5.763.383$000. Ou seja, uma fábrica representava quase o dobro de poder econômico de uma usina.
Em 1940 e 1950 a indústria têxtil tinha, respectivamente, 6.294 e 10.514 operários, pagava um total de 7.125 e 57.382 (em milhares de cruzeiros) em salários e produzia tecido e fios no valor de 64.663 e 353.457 (em milhares de cruzeiros). [6] Nestes censos a indústria açucareira foi submersa no conceito de indústria alimentar, o que dificulta um pouco a comparação, mas não a inviabiliza porque sabemos por outras fontes que o setor canavieiro deveria corresponder a 98% do valor da produção daquela indústria (a produção de álcool ainda não era relevante naquelas décadas, sua exclusão não macula nossas conclusões). Os números dessa atividade eram, a partir dos mesmos censos industriais de 1940 e 1950, os seguintes: empregava 4.419 e 6.917 operários, pagava um total 5.011 e 25.719 (em milhares de cruzeiros) de salários e sua produção valia 94.723 e 392.995 (em milhares de cruzeiros). Ou seja, a indústria têxtil superava a indústria açucareira no que se referia ao número de operários, ao montante dos salários pagos (mais do que o dobro em 1950) e chegava bem próximo no tocante ao valor da produção. Segundo o Anuário Estatístico Brasileiro, em 1954 a indústria têxtil teve um valor de produção um pouco maior do que a indústria de alimentos em Alagoas.[7]
Caso observemos a dimensão agrícola dos dois setores no século XX, perceberemos que o algodão abrangia uma área muito maior do que a cana pelo menos desde os anos 1930 até meados dos anos 1950 [8] e, devido ao costumeiro uso das propriedades rurais camponesas para seu cultivo, alcançava um maior número de trabalhadores. Em 1933, as lavouras de algodão e cana ocupavam, respectivamente, 66.700 e 26.060 hectares, enquanto os seus valores de produção eram 36.890$000 (somando o algodão em rama e o caroço de algodão) e 27.197$000 mil-réis.[9] No século XIX, o espaço agrícola do algodão foi maior desde as primeiras décadas até o início do último quartel. O aumento da demanda inglesa pela fibra fez surgir milhares de pequenas glebas algodoeiras nos atuais Agreste e Sertão da então Província das Alagoas.[10] Essas proporções se explicam pela retração do mercado para o açúcar brasileiro durante a primeira metade do século XIX e pelo fato de que a cana, com a tecnologia da época, não tinha capacidade de ir além das estreitas faixas de terra espremidas nos vales. O algodão alagoano era, como no Brasil inteiro, uma cultura de pequenos agricultores pobres, de descaroçadores remediados e de grandes comerciantes. [11] O baixo investimento inicial, o consórcio como o feijão, o milho e mamona e as conjunturas intermitentes de preços altos determinavam que o algodão se espalhasse com facilidade, chegando às vezes a ocupar parte da terra de engenhos de açúcar.
O universo industrial têxtil não era um mero coadjuvante do mundo canavieiro entre o início dos anos 1930 e o final dos anos 1950. A indústria de fiação e tecelagem foi se consolidando e constituindo-se num espaço econômico, ideológico e político bastante particular em relação aos antigos e novos espaços da sociedade alagoana, como os espaços dos bangüês, das usinas e do sertão agropecuário. Apesar de suas singularidades, esse mundo têxtil das fábricas com vilas operárias não era um elemento isolado na formação social alagoana, mas uma das formas particulares do processo de urbanização e modernização mercantil-financeira que transcorreu desde a metade do século XIX e concentrou-se em Maceió e outras cidades marcadas pelo comércio, como Penedo e Pilar. Compartilhava com o espaço das usinas a mesma lógica essencial determinada pelo metabolismo do capitalismo periférico e retardatário, entretanto tinha uma abertura maior para processos de superação dessa lógica, representava uma alternativa mais progressista do que o mundo centrado no açúcar.
Em um dos textos mais esclarecedores sobre a história alagoana contemporânea, afirma Dirceu Lindoso sobre as singularidades desse mundo fabril têxtil:
Geraram, as vilas operárias urbanas, pela primeira vez na cultura alagoana, formas culturais urbanas proletárias. Essas formas, embora contivessem ingredientes ainda rurais, revelavam um conteúdo de nítida oposição às formas tradicionais de organização social vigente na cultura rural. Embora, de início, essa oposição não se revelasse nítida, entretanto já registrava, em termos sociais, uma distinção com as formas sociais de vida de tradição rural. A integração urbana de mão-de-obra de origem rural, fixada em vilas e cidades, fez-se nas condições de existência social que as vila operárias representavam e através do regime disciplinar de trabalho nas fábricas. Esse processo de concentração de moradia em forma padronizada e na nova disciplina de trabalho industrial realizou a homogeneização das disparidades da mão-de-obra rural numa força de trabalho que representava um fato novo na organização do trabalho social em condições alagoanas: a padronização da vida nas vilas operárias correspondia à padronização do trabalho nas fábricas. E esse processo de padronização proletário-urbano diferia da dispersão e disparidade da organização do trabalho em situação camponesa. Marcava-se de um modo diferente do tempo tradicional camponês. A escrita e a alfabetização eram componentes da vida urbana, enquanto dominava na organização do trabalho em situação camponesa a hegemonia absoluta da oralidade e do agrafismo. [12]

Fica evidenciado que o espaço têxtil foi um dos principais focos de urbanização e modernização do cotidiano, do trabalho, da política e da subjetividade. Além de ser um dos pioneiros na apreciação sistemática desse papel progressista do universo têxtil, o autor ainda tem o outro grande mérito de identificar e descrever a metamorfose econômica, política e subjetiva vivida pela sociedade alagoana a partir da segunda metade do século XIX. Identifica uma nova etapa de desenvolvimento do capitalismo em Alagoas, marcada pela industrialização, a urbanização e o surgimento de um novo bloco histórico. Analisa a decadência dos senhores de engenho e sublinha a ascensão de um agrupamento de classes baseado nas cidades e no capital mercantil-industrial. Este novo bloco seria composto pelos usineiros, os donos de fábricas têxteis, os grandes comerciantes e os financistas. Por outro lado, os novos atores trouxeram as condições de existência que possibilitaram a autoconstrução das classes trabalhadoras urbanas em geral e, em particular, do proletariado fabril.
[Usina de açúcar: negação e afirmação da lógica retardatária]
Entre a Abolição (1888) e o fim do Estado Novo (1937-45), o sistema econômico vigente no Estado de Alagoas moveu-se no sentido de radicalizar, num primeiro momento, a proeminência do capital mercantil e, num momento posterior, de transferir a hegemonia econômica para a indústria, subordinando a esta a agricultura e o comércio. Repetiu-se o que se passou em outros Estados no mesmo período e o que ocorrera nos países centrais entre o início e a metade do século XIX. No entanto, Alagoas (repetindo a trajetória de Pernambuco) concentrou cerca de metade dos capitais disponíveis em um setor agroindustrial, o canavieiro, cujas especificidades materiais (caráter perecível da cana após a colheita, o que impede a existência de um mercado estadual, nacional e internacional dessa matéria-prima) tendem a construir um espaço produtivo no qual a lógica da parte fabril torna-se excessivamente dependente da lógica da parte agrícola.
Os engenhos bangüês sobreviveram relativamente pouco tempo à Abolição porque sua base técnica, marcada por um desenvolvimento muito vagaroso e pela dificuldade de ampliar as escalas de produção, era incompatível com a nova realidade na qual o valor dos produtos passava a ser determinado predominantemente a partir da quantidade social média de trabalho assalariado.[13] No que se refere a essas dimensões básicas, a usina representou uma grande ruptura com o passado e, ao menos para quem não prefira a escravidão ao trabalho assalariado, um passo adiante em vários aspectos. As três primeiras grandes usinas alagoanas (Brasileiro, Utinga Leão e Serra Grande, surgidas entre 1892 e 1894) [14] e as fábricas têxteis representaram o pioneiro estabelecimento da subsunção real do processo de trabalho ao capital, ou seja, constituíram relações capitalistas na sua forma típica: trabalho assalariado, maquinaria e desenvolvimento tecnológico contínuo.
O Barão Vandesmet (usina Brasileiro), representante do capital francês, Luiz Amorim Leão Filho (usina Utinga Leão), de família portuguesa enriquecida no grande comércio, e Carlos Benigno Pereira Lyra (usina Serra Grande), de clã pernambucano cosmopolita,[15] traziam capitais e ethos muito diferentes daqueles que moviam a prática econômica dos senhores de engenho. Entretanto a modernidade que traziam chocou-se com um obstáculo decisivo e até hoje insuperável no ramo que escolheram para aplicar seus capitais: numa circunstância na qual o caráter perecível da cana inviabiliza a existência de um mercado regional, nacional e internacional dessa matéria-prima, a planta fabril acaba tendo sua atividade condicionada pelos lentos ciclos biológicos dos canaviais próximos, o que ameaça a usina de ser contaminada pela lenta rotação de capital da parte agrícola e pela conseqüente queda na taxa de lucro. Para tentar escapar dessa armadilha estrutural, a usina obrigou-se a organiza-se também com empresa agrícola e não apenas como empresa industrial; por meio da chamada cana própria, procurou não ficar dependente do preço da matéria-prima proposto por seus fornecedores e apressar a rotação de capital nos canaviais a partir do uso de técnicas agrícolas modernas.
O novo desenvolvimento do setor canavieiro representou um avanço do capitalismo no campo e, contraditoriamente, uma “ruralização” da indústria, com conseqüências negativas tanto nas finanças quanto no ethos da vanguarda empresarial, o que foi decisivo para a diminuição do potencial de desenvolvimento capitalista que este segmento representava e um dos motivos do subdesenvolvimento econômico posterior. A cana própria consolidou o latifúndio no Leste Alagoano, dificultando o surgimento de um campesinato produtor de alimentos e matérias-primas a preços declinantes, uma das premissas para o barateamento dos meios de vida dos assalariados e da generalização da mais-valia relativa, muito mais progressista do que a mais-valia absoluta, pois possibilita que o aumento do lucro coadune-se com a melhoria das condições de vida do trabalhador. O fenômeno da entressafra açucareira obriga as plantas fabris a uma paralisia completamente irracional durante seis meses, o que se procura compensar pela diminuição radical da remuneração dos trabalhadores e pelos aumentos astronômicos nas escalas de produção, fato que amplia o risco de superprodução.[16]
[Fábrica têxtil: possibilidade de superação da lógica retardatária]
A outra metade dos capitais disponíveis nas Alagoas foi aplicada na indústria têxtil, movida por uma lógica significativamente distinta. As fábricas têxteis também usavam um produto agrícola como matéria-prima básica, mas a durabilidade do algodão após a colheita possibilitava a existência de um mercado regional, nacional e mesmo internacional dessa fibra, bem como a constituição de estoques nos armazéns das próprias empresas. As fábricas não necessitavam empatar capitais na compra ou arroteamento de terras e fazer gastos com seu manejo e administração. A existência de um mercado amplo de algodão e a natureza pulverizada da classe dos produtores diretos (pequenos agricultores) dificultava o monopólio dessa matéria-prima (apesar da existência de uma estrutura de comercialização que concentrava os lucros entre os atravessadores e descaroçadores) e possibilitava que as fábricas alagoanas pudessem obtê-la a preços razoáveis até os anos 1930.
Ao contrário das usinas, as fábricas não passavam por um processo anual de paralisia na entressafra agrícola. Funcionavam com uma lógica plenamente industrial, sem subserviência excessiva aos humores da agricultura. Suas singularidades tinham conseqüências bem mais progressistas do que aquelas provocadas pelas singularidades da usinas. Os salários eram melhores e as leis trabalhistas puderam ser aplicadas, a partir da Revolução de 1930, sem que as empresas fossem à bancarrota. A maior capacidade de oferecer empregos por unidade de capital e sua localização em cidades de grande relevância econômica e política (Maceió, Penedo, Pilar, Rio Largo, São Miguel dos Campos e Delmiro Gouveia) foram determinantes para que estas empresas cumprissem o papel modernizador sublinhado de modo pioneiro por Dirceu Lindoso.
As personas do grande capital alagoano (e estrangeiro em Alagoas) nas primeiras décadas do século XX apenas começavam a perceber as diferenças entre o setor têxtil e o açucareiro e ensaiavam investimentos nessas vias. Não se sabia qual deles iria vingar e tornar-se o caminho essencial do desenvolvimento; era uma época de experimentação e risco. A maior parte dos grupos empresariais escolheu uma das alternativas e alguns ensaiaram os dois ramos simultaneamente. Emblemáticas do tatear de alguns capitais entre os dois setores foram as compras, em 1938, da fábrica União Mercantil pelos proprietários da usina Utinga Leão, e da pequena usina Coruripe, em 1941, por Tércio Wanderley, rico comerciante, dono de fábrica de sabão localizada em Maceió, acionista minoritário de fábricas têxteis e proprietário, desde 1936, da Companhia Antunes de Fiação e Tecelagem (Nova Aliança, Sergipe, atual Neópolis). [17]
[Vazio de poder no bloco histórico dominante e violência política]
Em Alagoas não havia muitos adeptos da Revolução de 1930 antes que as tropas da nova ordem chegassem à capital.[18] Na terra de Pedro Aurélio de Góis Monteiro, um dos homens mais influentes no novo regime, houve dificuldades para estabilizar o novo poder porque os impasses do capitalismo local tinham constituído um bloco econômico dominante radicalmente contrário às propostas modernizadoras dos tenentistas.
Existiam setecentos engenhos bangüês sobrevivendo a partir da estratégia de diminuir os custos monetários da produção por meio da mistura entre o assalariamento e relações sociais pré-capitalistas. Os bangüês não aceitaram desaparecer sem luta. Competiram por força de trabalho, terras e mercado consumidor com as usinas.[19] As usinas ainda não estavam consolidadas financeiramente e nem tinham incorporado vários dos principais avanços técnicos agrícolas da nova etapa capitalista. [20] A cana continuava sendo plantada no massapê, terra que dificultava o emprego de máquinas e outros equipamentos pesados. Para não perder sua força de trabalho para os engenhos e para diminuir os custos monetários da produção, os usineiros reproduziram a figura do morador em suas fazendas e resistiam a qualquer legislação trabalhista.
O capital mercantil com sede em Jaraguá estava exclusivamente interessado na existência de boas condições para os seus negócios e de algum produto de exportação para os mercados brasileiro e internacional, tanto fazia que fosse açúcar ou algodão, couro ou mamona, madeira ou tecido; tanto fazia que fosse produzido por grandes ou pequenos proprietários, por moradores ou assalariados. Eram esses grandes comerciantes que ficavam com a maior parte da riqueza produzida pela economia alagoana. Somente as três maiores usinas eram capazes de fugir da subordinação ao grande comércio de importação-exportação. As fábricas têxteis tiveram que lutar muito para que a rede de distribuição de tecidos não ficasse com grande parte dos lucros do setor.
As reformas propostas pelos tenentistas também não encontraram apoio entre os industriais têxteis devido às singularidades desse setor no Estado. As fábricas locais tinham dois problemas principais : 1) o alto preço e a péssima qualidade do algodão produzido em Alagoas; e 2) o alto custo da produção da energia elétrica por meio de caldeiras abastecidas com lenha. Em São Paulo, maior produtor de tecidos do país, o início da década de 1930 foi marcado pelo começo de enormes safras sucessivas de algodão de ótima qualidade, resultado do retalhamento planejado das antigas fazendas de café e da intervenção do estado na lavoura algodoeira. As empresas bandeirantes passaram a ser independentes da matéria-prima nordestina. As várias quedas d’água existentes no relevo paulista, o amplo mercado consumidor e a abundância de capitais interessados em produzir energia hidroelétrica já tinham resolvido o problema energético do setor têxtil bandeirante desde a década anterior. O mundo têxtil alagoano estava começando a pagar caro a não resolução da questão agrária e a dificuldade de planejamento econômico do bloco social dominante, determinada pelo contínuo vazio de poder no seu interior.
Os senhores de engenho e usineiros estavam longe de ter os mesmo interesses imediatos e estratégicos, já que representavam etapas distintas do capitalismo. É anacronismo imaginar a existência de um setor açucareiro unificado e politicamente capaz de subordinar os outros segmentos das classes dominantes nesse período e nas duas décadas posteriores. Em 1930, três usinas fundadas pelo capital mercantil produziam 48% do açúcar branco alagoano (Leão, 234.000 sacos, Serra Grande, 183.000 sacos e Brasileiro 90.00, sacos); seis usinas menores, que produziam entre 30.000 e 47.000 sacos (Sinimbu, Coruripe, São Simeão, Alegria, Esperança e Uruba), eram responsáveis pela produção de 26 % do mesmo açúcar; várias delas, como a Coruripe, tinham surgido por iniciativa de senhores de engenho mais capitalizados, mas nem por isso eram capazes de evitar as freqüentes bancarrotas; as sete usinas restantes eram tão pequenas que contribuíam com apenas 3,7 % da produção. A maioria dos usineiros ainda não era financeiramente poderosa como seria no futuro[21] e a crise de superprodução determinada pela perda do mercado externo era uma espada de Dámocles sobre o setor.
Como afirmamos, a burguesia mercantil interessava-se por continuar parasitando o valor produzido por outros personagens econômicos e, por outro lado, em transferir paulatinamente parte dos seus capitais para investimentos que provassem ser lucrativos, como as usinas e as fábricas têxteis. Estas fábricas, por sua vez, já produziam quase metade do valor econômico do Estado, mas lutavam com obstáculos estruturais para continuar sobrevivendo e não tinham uma presença econômica e demográfica suficiente para alçarem-se à hegemonia política.
As insuficiências econômicas desses vários segmentos criavam um vazio de poder estrutural no interior do bloco histórico dominante, ou seja, produziam uma grande dificuldade para o estabelecimento de uma hierarquia política permanentemente renovada e legitimada por regras democráticas. Isso resultava em apelos constantes à violência e na tentativa de desmoralização dos adversários, bem como na busca por parte de cada grupo situacionista de constituir uma espécie de ditadura sobre o resto da sociedade, de restringir ao máximo as instituições republicanas para impedir o fortalecimento dos opositores. Até por instinto de sobrevivência e preconceito de classe, estes segmentos sociais uniam-se celeremente contra as classes trabalhadoras, como o campesinato e os assalariados; mantinham a ordem estabelecida com relativa facilidade, mas isso não significa que se unificavam de modo consistente para a efetivação de um programa avançado e coerente de desenvolvimento.
No início dos anos 1930, diante do impasse histórico provocado pela inércia das classes dominantes locais, os trabalhadores alagoanos aproveitaram os avanços da Revolução de 1930 para intensificar sua luta pela humanização do sistema econômico por meio das leis trabalhistas, dos direitos fundamentais e do fortalecimento das instituições republicanas. Os comunistas e socialistas reformistas que estavam à frente do movimento não propunham a revolução social imediata, restringiam-se a agitar as bandeiras de modernização que os liberais não assumiam. A liberdade sindical, por exemplo, consiste apenas no direito de o trabalhador negociar a sua força de trabalho como se faz com qualquer outro produto, representa o direito de gerir de modo racional, pacífico e burguês a mercadoria “força de trabalho“. No entanto, partir de 1933, muitos trabalhadores foram perseguidos, presos, humilhados e deportados para o Rio de Janeiro sob a acusação de estarem tentando subverter a ordem e o sistema social.
[Causas da decadência do setor têxtil e do seu proletariado]
O vazio de poder referido e o seu impacto no planejamento econômico inibiram as tendências renovadoras em todos os quadrantes da formação social alagoana; o sistema econômico não conseguiu alcançar novas etapas, restringindo-se a acomodar reativamente seu atraso às circunstâncias cambiantes ao seu redor. Nesse contexto, o setor local de tecidos entrou em decadência devido aos impactos da irresolução dos problemas estruturais do capitalismo alagoano numa conjuntura na qual seus concorrentes passaram a receber grandes benefícios da melhor articulação interna de suas classes dominantes e de um enfretamento mais eficiente dos obstáculos para o desenvolvimento do sistema.
Quando São Paulo passou a produzir algodão de ótima qualidade e em grande quantidade, deixou de ser importador da fibra nordestina e passou a ser exportador. A partir do início dos anos 1930, quando esta virada ocorreu, o setor têxtil alagoano (e o nordestino) perde um dos seus diferenciais competitivos básicos em relação ao Sul, já que o algodão correspondia na época ao principal custo variável na produção de fios e tecidos. A Revolução de 1930 impôs a limitação da jornada de trabalho e uma série de outros mecanismos legais (como o salário mínimo) que diminuíram a margem de mais-valia absoluta com a qual as empresas alagoanas podiam contar para aumentarem sua competitividade a partir de uma fuga para trás, uma volta a etapas anteriores do sistema.
Outro problema estrutural que diminuía a competitividade das fábricas alagoanas, pelo menos até 1955, era o alto custo da energia elétrica utilizada, dependente de um custoso setor de produção de lenha, seja o próprio ou o contratado. Enquanto isso, as fábricas de São Paulo, como já assinalado, contavam com energia hidroelétrica desde as duas primeiras décadas do século XX. A disparidade de custos de energia, que tinha relação com as maiores escalas do mercado paulista para as empresas do ramo elétrico, contribuiu muito para o atraso econômico relativo das fábricas alagoanas.
A partir dos anos 1930, São Paulo tinha as seguintes vantagens sobre Alagoas: 1) algodão mais barato e de melhor qualidade; 2) energia mais barata; 3) proximidade dos maiores mercados consumidores; e 4) uma legislação trabalhista nacional que estancava a possibilidade de seus competidores usarem o achatamento das condições de vida dos trabalhadores como principal arma competitiva. Não havia grandes diferenciais tecnológicos, já que as máquinas utilizadas até os anos 1960 eram de procedência estrangeira e as empresas nacionais ainda não investiam em desenvolvimento tecnológico autônomo. Os industriais do Rio de Janeiro e de São Paulo tentaram o tempo todo dificultar a proliferação de concorrentes no resto do país defendendo uma lei que impedisse a livre importação de teares, conseguindo que vigorasse um decreto nesse sentido entre os anos 1930 e 1936.
Para resolver o problema da qualidade e do preço do algodão em Alagoas, teria sido necessário um planejamento estatal ancorado num bloco histórico dominante coeso, internamente hierarquizado, capaz de práticas políticas pacíficas e possuidor de um projeto de avanço capitalista conseqüente. Era preciso enfrentar os atravessadores, as práticas abusivas dos poderosos donos dos descaroçadores e construir uma estrutura pública de crédito para o pequeno produtor de algodão, a base de todo o sistema. Essas mudanças beneficiariam muito as fábricas têxteis, mas seus proprietários precisavam convencer os outros setores e as lideranças políticas da necessidade de realizá-las. As mudanças na produção e no comércio de algodão requeriam o enfretamento de vários pequenos e médios poderes econômicos e políticos e, desse modo, necessitavam ser realizadas por atores poderosos.
As fábricas têxteis, mesmo sendo economicamente mais modernas do que as usinas, não tinham força suficiente para acabar com o vazio de poder no bloco histórico dominante e construírem um estado capaz de superar os gargalos que entravavam o desenvolvimento do setor. Esse impasse se expressava no conservadorismo político dos industriais têxteis e na sua aliança com os usineiros e a burguesia comercial; tratava-se, portanto, de um conservadorismo político objetivamente determinado. O caminho escolhido foi suicida, já que inviabilizou as mudanças necessárias para que o setor têxtil sobrevivesse; entretanto, a aliança com o proletariado e o projeto popular-nacionalista, representado por Ismar de Góis Monteiro, Muniz Falcão e o Partido Comunista do Brasil (PCB), também tinha a potencialidade de solapar as bases dessa indústria, na medida em que implicava em aumentos imediatos dos gastos com a força de trabalho para unidades fabris acossadas por competidores muito mais capitalizados e bem posicionados no mercado.[22]
Por outro lado e na outra ponta do espectro social, o proletariado têxtil esteve geralmente compondo a vanguarda contrária à barbárie social e ao atraso econômico e político de Alagoas. Dentro do setor que expressava o maior avanço da modernidade, foi seu pólo político mais ativo, progressista e generoso. Os operários têxteis alagoanos deixaram um legado decisivo para as novas gerações, em termos de idéias, práticas políticas e compromisso com uma modernidade coerente com suas próprias promessas, ou seja, comprometida menos com o mercado e mais com os valores democráticos, as instituições republicanas, a justiça social e, no limite, com o socialismo.

Maceió, 2008.

[1] Historiador, Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. O presente texto é um dos produtos do projeto Trama da Memória, Tecitura do Tempo: registro da memória e da iconografia das famílias de tradição operária têxtil residentes no bairro de Fernão Velho - Maceió/AL, desenvolvido pela Pró-reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), com o apoio do Ministério da Cultura (Programa de Apoio à Extensão Universitária - PROEXT Cultura 2007) e da Petrobras.
[2] Cf. BASTOS, Humberto Bastos. Açúcar e Algodão. Maceió: Casa Ramalho, 1938.
[3] Cf. DIEGUES JÚNIOR, Manuel. O Bangüê nas Alagoas: traços da influencia do sistema econômico do engenho na vida e na cultura regional. Rio de Janeiro: Edição do Instituto do Açúcar e do Álcool, 1949.
[4] Cf. ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE MACEIÓ. Alagoas na Economia do Brasil. Maceió: Casa Menezes, 1933, p.31-32. Trata-se de um livro bastante raro, mas pode ser encontrado para consulta no acervo do Arquivo Público de Alagoas.
[5] Pioneira empresa do ramo têxtil em Alagoas e um das primeiras do país. Foi fundada em 1857 e sua fábrica começou a funcionar a partir de 1862. Na atualidade (novembro de 2008), ainda está em funcionamento.
[6] Cf. IBGE. Censo Industrial de 1940. Rio de Janeiro: IBGE, 1940. IBGE. Censo Industrial de 1950. Rio de Janeiro: IBGE, 1950.
[7] Cf. IBGE. Anuário Estatístico do Brasil de1956, p. 126-29.
[8] Em 1952, o algodão era plantado em 57. 288 hectares e a cana em 59.022 hectares.
[9] Encontramos o valor total da produção de açúcar e não o da cana; desse modo, deduzimos o valor da safra desta a partir do pressuposto, aceito por vários autores, de que 70% do preço do açúcar são constituídos de sua matéria-prima básica. Cf. SZMRECSÁNYI, Tamás. O Planejamento da Agroindústria Canavieira do Brasil (1930-1975). São Paulo: Hucitec, Unicamp, 1979.
[10] Durante a primeira metade do século XIX, assim como ocorreu em outras Províncias do atual Nordeste brasileiro, em Alagoas o algodão rivalizou com o açúcar em termos de valor exportado. Cf. MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da Restauração Pernambucana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p.19-20.
[11] No Relatório ou exposição a respeito da plantação e cultura do algodão na Província das Alagoas, apresentado ao Excelentíssimo Senhor Presidente da mesma em 18 de fevereiro de 1875, documento anexo ao ofício da Associação Comercial de Maceió, da mesma data, há informações importantes sobre a estrutura agrícola e comercial da lavoura do algodão em Alagoas (Acervo do Arquivo Público de Alagoas, AS. 1856-77 maço 13, estante 02.).
[12] Cf. LINDOSO, Dirceu. Interpretação da Província: estudo da cultura alagoana. 2ª Ed., Maceió: Edufal, 2005.
[13] Gnaccarini, José C. A Economia do Açúcar: processo de trabalho e processo de acumulação. In: Cardoso, Fernando Henrique [et. al.]. O Brasil Republicano: estrutura de poder e economia (1889-1930). 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
[14] Essas usinas produziam a maior parte do açúcar alagoano nos anos 1930. As duas últimas até hoje continuam entre as maiores usinas do Estado.
[15] Para se ter uma idéia da visão ampla do clã, basta dizer que durante a segunda década do século XX o grupo adquiriu o Diário de Pernambuco, jornal decisivo na disputa por hegemonia ideológica e política em Pernambuco, com influência em todo Nordeste.
[16] Cf. SZMRECSÁNYI, Tamás. O Planejamento da Agroindústria Canavieira do Brasil (1930-1975). São Paulo: Hucitec, Unicamp, 1979.
[17] A trajetória de Tércio Wanderley é emblemática das relações econômicas e subjetivas entre os dois ramos. Antes de comprar a usina Coruripe, em 1941, com capital emprestado sem juros por Arthur Mello Machado (cuja família vendera a União Mercantil ao grupo Leão em 1938), seu amigo de longa data, o futuro comendador tinha aprendido muito com a participação nos conselhos fiscais e nas assembléias gerais de algumas fábricas têxteis. Segundo Aurino Vieira da Silva, um dos seus biógrafos, o jovem Tércio Wanderley tinha Gustavo Paiva como ídolo e absorveu muito do seu conhecimento em longas conversas privadas. Cf. Silva, Aurino Viera Da. Comendador Tércio Wanderley. Maceió: 2005.
[18] Cf. Gusmão, Carlos de. Boca da Grota. Maceió: Serviços Gráficos da Gazeta de Alagoas, 1970. RODRIGUEZ, Clódio. O Sorriso do Tempo. Maceió: Casa Ramalho, s.d. Tenório, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: HD Livros, 1997.
[19] Cf. Gnaccarini, op. cit.
[20] Cf. SANTANA, Moacir Medeiros de. Contribuição Para a História do açúcar em Alagoas. Recife: Museu do Açúcar, 1970.
[21] Cf. LIMA, Jorge de. Calunga. Agir: Rio de Janeiro, 1959.
[22] TENÓRIO, Douglas Apratto. A Tragédia do Populismo: o impeachment de Muniz Falcão. 2ª e.d. Maceió: Edufal, 2007.

4.3.08

Artigo sobre a crise na Assembléia

Mandonismo e Democracia em Alagoas: crise na Assembléia Legislativa e inédita hegemonia econômica de Maceió
Golbery LessaQuais são as variáveis econômicas, sociais e culturais que determinaram as características históricas do Legislativo alagoano e fizeram surgir dúvidas tão radicais quanto aquelas que hoje prevalecem na sociedade civil sobre o caráter democrático deste Poder? A insatisfação e mesmo o repúdio que parte da população vem demonstrando atualmente em relação à Assembléia Legislativa expressam, na essência, o conflito entre a crescente necessidade de modernização política de Maceió, cujo peso eleitoral tem recebido o reforço nos últimos dez anos de um aumento muito grande de sua participação no PIB do Estado (cerca 75% desde 1999, quando em 1996 detinha 50% e em 1949, 30% - Dados do IPEADATA), e a prevalência do mandonismo na maior parte das cidades alagoanas.
A clássica diferença entre as possibilidades de modernização no interior e na capital do Estado adquiriu um novo patamar com o expressivo aumento do peso específico da economia maceioense e com as necessidades de modernização política e cultural que este fenômeno vem impondo. Ou seja, a crise presente no Legislativo estadual surge como uma manifestação aguda do descompasso entre o novo peso de Maceió e o mandonismo político fundamentado no interior. A esfera política está se movendo, pelos mais variados canais (intervenção federal, mobilização dos trabalhadores, críticas da sociedade civil organizada, clamor de parte da classe média por segurança pública etc.) para adequar-se à nova configuração econômica, que não é compatível com o alto grau de mandonismo político vigente.
O particular atraso do capitalismo em Alagoas, expresso no significativo papel econômico da agricultura em relação à indústria e em outras dimensões decisivas, determinou uma sobrevida mais longa do mandonismo, com suas inevitáveis conseqüentes: o clientelismo e o patrimonialismo. A prevalência da agroindústria canavieira durante grande parte da nossa história, setor que submete necessariamente a dimensão industrial à dimensão agrícola (impondo a figura da entressafra e a dependência da parte industrial à lenta rotação de capital da agricultura, o que determina que a taxa média de lucro somente seja alcançada com a superexploração do trabalho, da natureza e dos fundos públicos), determinou a dispersão territorial das manchas industriais e sua submissão econômica e geográfica à ruralidade. Esse quadro econômico fez surgir, com o aparecimento da República, uma realidade política marcada pelo fato de que a maioria absoluta dos eleitores permaneceu espalhada em pequenas e médias cidades com economia ruralizadas e dependentes dos usineiros. Os operários das plantas fabris das usinas permaneceram dispersos numa vasta região e ilhados pelo próprio isolamento que a agroindústria impõe a cada usina e destilaria, além de estarem submetidos à concorrência de uma enorme população sem trabalho e a uma atmosfera política inibidora da liberdade sindical e de expressão. A existência de uma população rural submetida ao regime de moradia, fenômeno típico da zona canavieira, e a baixa divisão social do trabalho facilitaram muito a sobrevivência de várias formas de mandonismo.
Mas a história não deixou de avançar, mesmo que lentamente, e preparar a superação de vários dos principais anacronismos da formação social alagoana. As modificações vêm ocorrendo pela seguinte via: a economia baseada na agroindústria canavieira necessitou de uma cidade que fosse o seu pólo administrativo, comercial e portuário; com o passar do tempo, esta cidade criou e recriou necessidades próprias (típicas do mundo urbano) e, em determinado momento dessa trajetória, passou a ser uma antítese do mundo rural que lhe deu origem. Este fenômeno estrutural vem se expressando no universo político como um conflito entre as propostas de modernização originárias da capital e o antigo status quo baseado no mandonismo. Não é por acaso que as iniciativas mais radicais de modernização vêm sendo propostas pela vanguarda sindical maceioense e por amplos setores da classe média da cidade. A capital sempre foi mais progressista, mas houve uma mudança de qualidade no seu peso nos últimos dez anos, determinando um novo equilíbrio de forças que precisa se expressar na modernização das práticas políticas e no aprofundamento da cultura democrática. O conflito político hoje tem dois protagonistas principais: o setor canavieiro (com presença em 54 municípios do Leste Alagoano, 1 milhão de habitantes, 100 mil trabalhadores, 30% dos votos e 20% do PIB) e a cidade de Maceió (com 900 mil habitantes, milhares de trabalhadores, 25% dos votos e 75 % do PIB – setor de serviços, comércio, turismo, indústria da construção civil e indústria química). É preciso deixar evidenciado que esse novo equilíbrio de forças, no qual Maceió ganha um inédito protagonismo, luta para expressar-se também no Executivo. A hegemonia do setor canavieiro no governo Teotônio Vilela Filho é, portanto, um anacronismo, não corresponde mais à base econômica da formação social alagoana; este descompasso é o segredo da crise deste governo e de seu alheamento em relação às necessidades do povo. Ficou evidente, por exemplo, que a greve geral dos funcionários públicos contra as primeiras medidas de arrocho salarial propostas pelo Executivo teve o apoio de todos os setores econômicos de Maceió; os comerciantes sabem que suas vendas dependem do volume de recursos existentes nas mãos dos consumidores e que suas empresas não dependem diretamente de qualquer potentado interiorano.
Este quadro não implica, necessariamente, que estamos no limiar de uma era radicalmente democrática em Alagoas. O passado nos oprime com o peso de uma pirâmide e o mandonismo político está impregnado na subjetividade dos indivíduos. A cidade de Maceió, novo palco decisivo da economia e da política, esta dividida em classes sociais com interesses históricos antagônicos e com diferentes potenciais estratégias de desenvolvimento; sua classe dominante, mesmo precisando de práticas políticas e elementos culturais mais modernos do que os usineiros, tende a defender uma tipo de desenvolvimento capitalista excludente e periférico, baseado na superexploração do trabalho, na destruição da natureza, na especulação imobiliária e na dependência cultural e tecnológica. Ou seja, as classe proprietárias de Maceió podem ser aliadas da classe média e dos trabalhadores alagoanos contra o passado rural, mas têm seus próprios limites e problemas. Para os trabalhadores alagoanos resta, como sempre, agir no sentido de barrar os processos mais bárbaros do capitalismo por meio da luta por políticas públicas socialmente justas e, com calma e energia, preparar as condições teóricas e práticas da efetivação das propostas socialistas. No curto prazo, o principal desafio é preencher de maneira progressista o vazio de poder aberto com a desconstrução do papel político da Assembléias Legislava, que também enfraquecerá o Executivo estadual e outras instâncias estatais.
Maceió-AL, 13 de dezembro de 2007.

14.3.07

Outra Alagoanidade


Outra Alagoanidade
Golbery Lessa*
O que é alagoanidade? A quem interessa? Deve ser mantida na sua configuração atual ou precisa ser reconstruída? Como a alagoanidade se insere no moderno? Qual sua relação com as questões agrária, étnica, de gênero, social, democrática e republicana? São essas algumas das perguntas que se fazem hoje os nossos viventes. Houve vários outros momentos históricos nos quais existiu a urgência de identificar e responder essas questões. Cumprindo o destino de todas as identidades que relacionam uma população, um território e um aparato de estado, a alagoanidade teve que se reinventar ao longo da história, notadamente quando foi exposta a desafios colocados pelas várias etapas de modernização experimentadas pelo seu entorno.
O local foi periodicamente posto em cheque pelo regional, o nacional e o global; teve que lutar para adequar as suas relações sociais e visões de mundo às novas realidades circundantes. Mas é decisivo lembrar que o atraso radical da modernização em Alagoas, que constituiu um processo histórico extremamente marcado pela lentidão, torna um grave erro a tendência de superestimar a identidade entre o conteúdo das etapas de desenvolvimento exógeno e as modificações da alagoanidade. Do ponto de vista do desenvolvimento das etapas pelas quais passa o sistema capitalista na sua forma clássica, o capitalismo alagoano está radicalmente atrasado; entretanto evidentemente esse abismo estrutural, essa diacronia lógica (no sentido da lógica do sistema na sua expressão clássica), convive com uma sincronia cronológica (ou seja, Alagoas está inserido no mesmo tempo objetivo do entorno, usa o mesmo calendário vigente em Pernambuco, São Paulo e Nova Yorque), o que tem implicações decisivas na própria maneira como o atraso alagoano se configura, se reproduz e convive com outras realidades.
A percepção dessas intricadas mediações auxilia-nos a explicar, por exemplo, fenômenos tão complexos quanto a lógica do desenvolvimento da música eletrônica em Alagoas. Circunstâncias práticas e o corolário de ideologia pós-moderna com o qual esse tipo de música tem sido envolvido determinaram, no caso da Inglaterra, que os bailes surgissem nos galpões das fábricas desativadas pela reestruturação produtiva dos anos oitenta do século XX; em terras caetés, os bailes têm sido realizados na estação ferroviária ou nos desativados armazéns de açúcar, expressões arquitetônicas do final do século XIX e símbolos de uma etapa incipiente do desenvolvimento capitalista. Estaria a música eletrônica fora de lugar em Alagoas? Aqui precisamos de Roberto Schwartz. Como ser pós-moderno numa formação social na qual o moderno não se completou e nem está em vias de completar-se? Essa carência de chão social adequado para sua reprodução clássica vivida pelo ponto de vista pós-moderno também acomete as visões de mundo liberal, social-democrata e marxista, embora está última perspectiva possa compreender melhor o imbróglio por ter um compromisso radical com a percepção das contradições do sistema e, portanto, tenha potencialidade de apontar saídas para o impasse.
A identidade alagoana não é a soma aritmética de todos os costumes dos habitantes desta terra espremida entre a Bahia, Sergipe e Pernambuco; também não é a consciência que os alagoanos podem ter de suas singularidades culturais e de sua história comum. A alagoanidade não é só um fenômeno subjetivo, não é apenas um estado de consciência ou um jeito próprio de cada alagoano expressar sua individualidade, no sentido de possuir essas ou aquelas atitudes mentais. A alagoanidade é o conjunto articulado de sistemas que estruturam a formação social alagoana e possui singularidades em relação aos conjuntos análogos de outras formações sociais. Nesse sentido, a descrição analítica da alagoanidade passa pelo desvelamento das peculiaridades das nossas relações sociais básicas, das especificidades do relacionamento entre estas e o espaço geográfico em que se dão e das singularidades dos complexos sociais nos quais a subjetividade tem maior peso (arte, ciência, direito, culinária, folclore etc).
É comum se dizer que cultura é tudo aquilo que o homem cria e vive. Esse conceito torna-se muito próximo do conceito de práxis desenvolvido por K. Marx em suas célebres Teses sobre Feurbach, e significa a atividade própria do ser humano, que relaciona de maneira peculiar e complexa a subjetividade e a objetividade. Entretanto a maior parte da reflexão sobre a cultura acabou relegando a lição marxiana e dissolvendo a objetividade na subjetividade. Ora, mas o modo de produção também é cultura; é criado e vivido pelos homens; trata-se de um sistema de relações entre seres humanos, em que naturalmente estão presentes várias das dimensões da subjetividade, a partir do qual a sociedade distribui importantes elementos objetivos, como trabalho, o tempo livre e a riqueza socialmente produzida.
É fértil procurar no sistema econômico singularidades que são pólos de reprodução de singularidades de outros complexos da práxis alagoana. Isso não significa desprezar ou diminuir a importância da lógica interna de cada complexo social específico, como a arte, a culinária e as relações de gênero; significa apenas buscar conexões que são importantes para tornar as coisas caetés/palmarinas/calabarianas mais compreensíveis. Ao observar essas conexões, ao não restringirmos o conceito de cultura apenas à subjetividade e, portanto, substituí-lo pelo conceito de práxis, podemos perceber que o latifúndio canavieiro é tão alagoano quanto a violência política, o assassino de aluguel, o guerreiro, o pastoril, as praias, o rio São Francisco, a caatinga e a tradição religiosa e lingüística legada pelos bantos. O caráter oligárquico do poder político em Alagoas é tão alagoano quanto o sururu de capote. Isso implica, necessariamente, numa complexa atitude de aproximação e repulsa da alagoanidade. Para encontrar a saída do impasse, precisamos refletir sobre a consciência da alagoanidade, que por vezes é confundida com a alagoanidade em si. Antes, entretanto, é imprescindível fazermos uma rápida digressão teórica sobre os processos de construção das identidades nacionais.
Eric Hobsbawm, em seu erudito e esclarecedor livro Nações e Nacionalismos desde 1780: programa, mito e realidade, publicado pela editora Paz e Terra em 1991, corrobora a opinião de Otto Bauer, austro-marxista do início do século XX e um dos pioneiros dos estudos relativos à construção das interpretações sobre as identidades nacionais, quando este afirma que os movimentos nacionais tendem a percorrer três fases (ver o texto de Otto Bauer intitulado “A Nação”, in Gopal Balakrishnan (org) Um Mapa da Questão Nacional. RJ, Contraponto, 2000): 1) uma elite intelectual investiga as peculiaridades culturais e históricas de seu povo e propõe uma interpretação dessa identidade; trata-se de um momento de erudição e trabalho de pesquisa realizado por um conjunto pequeno e articulado de especialistas; 2) um número significativo de agitadores culturais e políticos fazem a propagada daquela interpretação da identidade nacional construída pelos acadêmicos e buscam estabelecer instituições públicas reprodutoras de suas idéias sobre a nacionalidade; 3) a interpretação proposta pelo grupo de eruditos e pelos agitadores culturais é aceita pela maior parte do povo e torna-se elemento componente do senso comum; o que ajuda a consolidar a unidade nacional e constitui uma das principais bases da formação de um Estado com soberania sobre um determinado território e uma população definida.
Otto Bauer, por encontrar-se no Império austro-húngaro, que estava eivado de nacionalidades mobilizadas, preocupava-se em demonstrar aos companheiros marxistas a necessidade de tratar teoricamente a questão das nacionalidades; procura então sublinhar principalmente as relações entre nacionalidade e classe social, desenvolvendo a tese de que em várias sociedades capitalistas da época as classes dominantes não estavam permitindo que o proletariado tivesse acesso à nacionalidade, ou seja, não demonstravam interesse de efetivar a terceira etapa de desenvolvimento dos movimentos nacionalistas. O proletariado alemão, por exemplo, estaria sendo impedido pela burguesia de ter acesso ao rico acervo da cultura erudita germânica, fato que seria demonstrado pelas dificuldades de os operários terem acesso à escola e à leitura. O austro-marxista reivindicará, em conseqüência, a socialização da identidade nacional. É importante observar que Otto Bauer não incluirá as singularidades do modo de produção de um povo no conceito de identidade nacional, que define como a consciência que uma população tem de uma trajetória histórica e cultural comum.
E. Hobsbawm, egípcio que foi muito bem acolhido na Inglaterra e desenvolveu uma profunda ligação com este país, está preocupado em justificar a existência do Reino Unido e, conseqüentemente, em tratar sem grandes romantismos as causas dos nacionalismos escocês, gaulês e irlandês. Procura demonstrar, entre outros pontos relevantes de sua fértil abordagem, o fato de ser muito comum que as interpretações das identidades nacionais elaboradas pelas elites acadêmicas estejam muito em desacordo com a realidade histórica e cultural, ou seja, grande parte do conteúdo dessas interpretações que fundamentam os movimentos nacionalistas são invenções, construções aleatórias, projeções do desejo de enaltecer a trajetória de um povo, tornando-a mais heróica do que realmente foi. Assim o autor demonstra, por exemplo, que somente dois e meio por cento dos habitantes da Itália falavam o moderno italiano quando ocorreu a unificação do país na segunda metade do século XIX. Fato análogo ocorreu na Alemanha, cuja língua tornada oficial só era conhecida por uma minoria erudita no momento da unificação. De modo análogo, no começo do movimento nacionalista irlandês, os militantes ensinavam de manhã para o povo os rudimentos de sua a antiga língua que estavam aprendendo à noite. Enfim, esses e outros fatos configurariam o que o historiador vai denominar de “invenção das tradições”.
Essas e outras reflexões sobre os movimentos nacionais podem ser adaptadas para discutirmos a questão da alagoanidade e de outras identidades estaduais, já que aqui também se trata de um processo no qual uma população luta para ter consciência de sua especificidade e para constituir instituições políticas com determinado grau de poder sobre um território específico. A principal diferença entre os dois fenômenos reside no fato de que, a partir de um determinado momento, essas “nacionalidades” aceitaram-se como partes de uma nacionalidade mais ampla, constituindo uma federação. Em vários casos essa aceitação não foi pacífica e teve muito de pura e simples imposição pela força das armas, como nos clássicos casos de Pernambuco e do Rio Grande do Sul. O conflito entre centralização e descentralização política na história brasileira tem evidentemente uma relação forte com a definição das bases da nacionalidade. Aureliano Candido Tavares Bastos, sem dúvida uma das mais importantes personalidades alagoanas, foi o primeiro grande defensor teórico dos direitos políticos e culturais das então províncias brasileiras.
Sabe-se que Téo Brandão, nosso admirável folclorista, preocupou-se em aprofundar seus conhecimentos de heráldica para, na segunda metade da década de cinqüenta, propor um novo brasão e uma nova bandeira para o Estado de Alagoas. Como outros indivíduos da época, acreditava que os símbolos vigentes até então não representavam adequadamente a história e a cultura alagoanas e teriam sido compostos sem o respeito aos mais razoáveis padrões heráldicos. O novo brasão ostenta as cores dos folguedos alagoanos, os símbolos dos três primeiros povoamentos, os ramos das duas principais culturas do Estado, uma estrela expressando o pertencimento de Alagoas à Federação e três tainhas herdadas da iconografia holandesa, representando Marechal Deodoro e as lagoas. A sociedade civil formadora de opinião e os poderes públicos aceitaram o novo brasão e a nova bandeira e estes passaram a fazer parte do senso comum e da vida cotidiana de todos alagoanos. É evidente que os símbolos propostos no novo brasão e na nova bandeira e mesmo a heráldica utilizada representam apenas uma das formas possíveis de perceber-se o passado e a cultura de Alagoas, do mesmo modo que os símbolos e a “heráldica” do brasão e da bandeira anteriores. Não há, por exemplo, referências ao Quilombo dos Palmares, que é um dos fatos fundadores da nossa história e contemporâneo do período holandês tão bem contemplado nos novos símbolos oficiais. Téo Brandão não foi só um grande folclorista, foi um dos contemporâneos mais ativos na construção de uma consciência da alagoanidade. A história de sua decisão de mudar o brasão e a bandeira (que se estendeu para o brasão e a bandeira de Maceió) revela a efetivação, numa determinada escala, das três etapas geralmente percorridas, segundo Otto Bauer, por propostas de identidade que relacionam uma população e uma máquina estatal.
No interior de cada época de elaboração da consciência da identidade alagoana as perguntas e as respostas foram naturalmente variadas, já que as diversidades regionais, municipais, éticas, econômicas, políticas e de gênero, entre outras, marcaram este solo como ocorre em qualquer formação social e, em conseqüência, semearam várias visões de mundo convivendo no mesmo espaço e no mesmo tempo. A diversidade de olhares no interior de cada época não evitou convergências, influências e acordos parciais, conscientes e inconscientes; isso ocorreu pelo fato de que a unidade de cada formação social impõe zonas de consenso até para os grupos sociais mais antagônicos entre si. O empresário mais neoliberal e o operário mais socialista precisam, por exemplo, de um ordenamento jurídico coerente que regule os vários momentos dos conflitos em torno da renda, das políticas públicas e de outros aspectos; precisam igualmente de uma língua comum e de um único sistema de pesos e medidas que facilitem a existência local das relações sociais básicas.
Nos casos das formações sociais que possuem mais de uma língua, as pessoas se acostumam a falar duas ou mais línguas para poderem se comunicar com os outros grupos. Um sotaque próprio de cada região ultrapassa as barreiras de classe e de etnia, convivendo com formas de falar próprias de cada um desses grupos. A língua de Alagoas é falada pelo usineiro e pelo pescador, mesmo que os diferentes anos de escolarização, a distinto acesso às viagens internacionais e os diversos contatos com a mídia e as tradições imponham divergências significativas no que se refere a determinadas pronúncias e mesmo no que toca às expressões utilizadas. Muitos brasileiros apreciam as interpretações de Djavan e não percebem que estão rendendo homenagem a uma das modulações do falar alagoano, na sua vertente maceioense, que sintetiza a língua originária da região portuguesa do Minho (região de onde provavelmente vem parte da prosódia de Maceió) e toda a herança de falares negros e caboclos específicos falados pelas populações trabalhadoras da capital. A mãe soprou-lhe a África nos ouvidos, os professores do Liceu Alagoano ensinaram-lhe as formalidades da gramática oficial e a fala da classe média, o menino sintetizou as fontes e produziu uma poesia de universalidade arrebatadora. Sofisticação inexplicável para quem não conectá-la às suas origens sociais e culturais.
A necessidade de complexos sociais que estruturem a formação social de Alagoas impõe algumas identidades às interpretações da alagoanidade propostas pelos vários grupos sociais (“interpretações” numa sentido muito amplo, que incorpora desde as opiniões do senso comum até as visões mais sofisticadas). Várias condicionantes constituíram em cada momento uma zona de acordo (limitada, mas efetiva) entre as diversas interpretações da alagoanidade conectadas a cada grupo social, Uma espécie de fundo simbólico comum que é imprescindível para operacionalizar dimensões importantes do cotidiano da reprodução social. Isso ocorre, por exemplo, no espaço das interpretações da economia propostas pelas duas classes sociais que possuem os interesses estratégicos mais antagônicos: o assalariado e o capitalista. O fato de o crescimento econômico tender a aumentar os salários e as oportunidades de emprego faz com que os trabalhadores alagoanos não sejam por princípio contrários aos planos de desenvolvimento da economia local, inclusive se estes planos representarem apenas etapas da tradicional modernização conservadora. Mesmo um líder operário marxista e com plena consciência de classe será obrigado a levar em conta a existência de uma realidade chamada “economia alagoana”, que se contrapõe, até certo ponto, às economias de outros Estados brasileiros. Desse modo, é certo que os assalariados alagoanos fazem coro com os capitalistas na defesa de mais verbas federais para Alagoas, mesmo que discordem destes na maneira de aplicá-las e no tipo de desenvolvimento e sociedade que aspiram.
Esse fundo simbólico comum de interpretação da alagoanidade é freqüentemente mistificado, no sentido de ser interpretado como prova de uma pretensa harmonia essencial entre classes, etnias e outros grupos sociais. Operação de mistificação que fica ainda mais deplorável quando é adicionada à transformação ideológica desse fundo comum em uma pretensa verdadeira, metafísica, atávica e imutável alagoanidade. O crime político, por exemplo, pode ser por este caminho naturalizado como uma derivação necessária e insuperável da natureza violenta do homem alagoano. A monocultura, por sua vez, também pode ser apresentada como imprescindível para a preservação de uma etérea alagoanidade, que transita num mundo mágico de arquétipos impregnados do cheiro doce do mel, da pretensa bondade no tratamento dos escravos e de uma bela paisagem marcada pelas ondas que o vento espalha nos canaviais. Para evitar este caminho é preciso compor, por exemplo, uma abordagem historiográfica da figura de Floriano Peixoto que não fortaleça o mito da violência inata do alagoano. O habitante de Santa Catarina teve o nome de Floriano imposto à sua capital, após ter visto vários concidadãos serem fuzilados pelo presidente; é fácil para o catarinense acreditar no mito da violência inata do alagoano, principalmente se o próprio alagoano o reforçar sublinhando os aspectos mais negativos do governo do marechal.
Evidentemente houve sempre interpretações hegemônicas sobre a alagoanidade, que geralmente estiveram associadas, como ocorre em toda sociedade de classe, às idéias e interesses dos grupos que estiveram no cume da pirâmide social. Entretanto é importante deixar evidenciado que os oprimidos sempre lutaram no campo simbólico, nunca foram ideologicamente passivos desde Zumbi dos Palmares, passando pela resistência indígena até chegar aos modernos sindicatos e movimentos agrários. A história é muito mais rica do que revela uma abordagem do tipo “malvados e coitados”, na qual uma visão paternalista, mesmo que bem intencionada como todas que calçam o inferno, acaba negando a dignidade dos oprimidos por percebê-los como vítimas inertes do destino. As interpretações hegemônicas da alagoanidade tiveram que conviver com várias insurgências que, em diversos momentos históricos, pareceram mesmo ameaçar-lhes. A obra de Graciliano, por exemplo, é uma bomba nuclear desconstruindo a visão dominante da alagoanidade; do ponto de vista dos argumentos literários, não fica pedra sobre pedra do status quo e, certamente por isso, a capital alagoana não possui uma estátua do nosso maior romancista.
No presente, como em vários momentos do passado, a sociedade civil local tem a sensação de que a consciência da identidade alagoana se esvai, que ela é frágil, qual uma chama de vela na ventania do processo de globalização. Percebe-se resistência em vários setores. Na academia, nas ONG’s, no jornalismo, nas artes, entre os trabalhadores e mesmo em alguns setores empresariais ligados ao mercado interno há muita inquietação em torno da alagoanidade. Por não perceberem um movimento análogo em torno da identidade alagoana, esses grupos olham para as vigorosas afirmações de identidade da Bahia e de Pernambuco com uma profunda dor. Qual seria a causa desse impasse, dessa impotência? Por que as várias interpretações da alagoanidade não têm sido revigoradas e nem têm contribuído para melhorar nossa auto-estima e a compreensão da realidade? Esse fenômeno pode ser explicado pelas características da alagoanidade em si, não simplesmente pela natureza de suas interpretações.
As singularidades da formação social alagoana têm determinado a constituição de interpretações hegemônicas da alagoanidade incapazes de cumprirem a meta de serem guias da nossa elevação a novos patamares civilizacionais. A particularidade do capitalismo caeté tem determinado uma consciência hegemônica da alagoanidade que não tem todos os elementos necessários para estabelecer as condições subjetivas de desenvolvimento desta formação social. O sentimento de sermos desterrados em nossa própria terra, a sensação de identidade esvaziada e sem auto-estima, a desvalorização da cultura local são elos necessários no processo de reprodução da incompletude e do caráter hiper-atrasado do sistema capitalista alagoano.
O principal núcleo da nossa economia, a monocultura de exportação, que prevalece desde a época colonial, por complexas razões históricas submeteu a manufatura (o engenho propriamente dito, os equipamentos de elaboração do açúcar) e depois a indústria (a planta fabril da usina) à lógica econômica da agricultura de exportação e a seus problemas estruturais, principalmente a vulnerabilidade às intempéries, a dependência do mercado externo e a lenta rotação do capital (que implica numa queda acentuada na massa de lucros); esta submissão do historicamente novo ao historicamente velho teve impactos desastrosos para o desenvolvimento do capitalismo em Alagoas, abrindo espaço às características mais desumanas deste sistema em detrimento de seus aspectos progressistas. A divisão social do trabalho foi paralisada, a sociedade continuou essencialmente rural, a existência de novos setores econômicos decisivos foi inviabilizada e o mercado interno tornou-se radicalmente restringido.
O principal setor da economia alagoana há mais de quatrocentos anos vende seus produtos para consumidores finais que não se encontram no nosso território, falam outras línguas e em muitos casos nem sabem da localização do Estado no mapa-múndi. O consumo interno é irrelevante para este setor da economia (Alagoas consome, atualmente, apenas dois por cento do açúcar que produz) e, em conseqüência, não entra no cálculo empresarial. Como demonstrou K. Marx, a produção capitalista cria tanto a mercadoria quanto constrói o seu próprio consumidor. No caso alagoano, há um distanciamento geográfico radical entre os dois pólos, o que inviabiliza a existência da forma mais progressista do ciclo econômico. Este fato, que é uma das expressões da paralisia da divisão interna do trabalho, tende a construir uma formação social abstrata, sem instituições sociais bem estruturadas que possam se articular e fundamentar um vigor coletivo.
A ruralização da indústria alagoana, que restringe muito a massa de lucros devido à lentidão que impõe à rotação do capital industrial, determina entre os empresários uma corrida tresloucada pela diminuição dos custos, via diminuição radical dos gastos com mão-de-obra, aproveitamento desordenado da natureza, luta por subsídios públicos, busca de moedas estrangeiras fortes (daí a preferência pela exportação para mercados de outros países) e o monopólio da renda absoluta da terra (a renda absoluta da terra é uma espécie de imposto que a sociedade toda paga ao proprietário rural sem que este precise investir um centavo em troca; está renda absoluta é distinta do lucro sobre o investimento na terra, o qual é proporcional ao capital que foi investido e à taxa de mais-valia obtida). Não se tratam de livres escolhas individuais de investimento; é a própria estrutura secular da economia que impõe suas necessidades retrógradas de reprodução à consciência da classe empresarial. O impacto dessa realidade objetiva e subjetiva tem um efeito extremamente negativo no desenvolvimento da consciência da alagoanidade.
Um dos principais resultados das circunstâncias econômicas apontadas e do divórcio entre a classe empresarial e as tendências mais progressistas do capitalismo é a extrema impotência da sociedade civil organizada, elemento que na modernidade é o esteio da identidade local, das instituições republicanas e dos valores democráticos, bem como das possibilidades da construção de perspectivas alternativas aos modelos sociais vigentes. A sociedade civil apresenta-se enfraquecida pelo fato de constituir-se de sujeitos sociais (classes, etnias e outros grupos) sem a completude, sem a inteireza, sem o pleno desenvolvimento econômico e social que possuem em sociedades de capitalismo mais desenvolvido; essa falta de completude se expressa em várias formas de incompletude política, cultural e ideológica, o que dificulta a constituição de um espaço republicano e capaz de mediar de modo civilizado distintos e claros projetos de sociedade.
Por capitanearem um modelo econômico capitalista que, contraditoriamente, paralisa os desenvolvimento qualitativo do próprio sistema, o núcleo principal dos empresários alagoanos aparta-se da visão liberal clássica da economia, que propugna a revolução constante do modelo econômico e o aumento contínuo da divisão social do trabalho, e aproxima-se de uma perspectiva conservadora e pouco sistemática da realidade local; isso torna muito frágil a situação do status quo em qualquer arena discursiva mais sofisticada, como a Universidade. Na verdade é impossível, sem se afirmar disparates, defender cientificamente o modelo, econômico, social e político vigente em Alagoas. Desse modo, a sociedade civil fica sem o auxílio dos mais poderosos de seus membros para elevar-se aos mais altos padrões políticos, ideológicos e culturais. Isso explica a irrelevância das verbas que as instituições culturais alagoanas recebem das maiores empresas locais; fenômeno bem diferente do que ocorre, por exemplo, nos EUA, país no qual várias grandes empresas financiam generosamente bibliotecas, museus e outras iniciativas.
Enfim, a interpretação hegemônica propõe sub-repticiamente uma alagoanidade tímida, cabisbaixa, carente de auto-estima, violenta, elitista, paternalista, hipocritamente racista, conservadora, passiva, apartada do compromisso com o progresso e a igualdade social, os valores democráticos e o aperfeiçoamento das instituições republicanas. É, como toda interpretação de uma identidade, tanto uma versão sobre o que existe quanto uma projeção sobre o que deve ser. Faz uma seleção dos piores aspectos que impregnaram a história alagoana, procura lhes dar um aspecto palatável, e os eleva à categoria de arquétipos imutáveis do homem alagoano. A violência seria apenas outro nome para a valentia; a timidez política seria expressão do desejo de ordem; o elitismo representaria a fidalguia; a monocultura seria uma vocação natural, um destino manifesto; o racismo nunca teria sido marcante e os escravos sempre teriam sido bem tratados; o conservadorismo é apresentado como um trunfo contra as idéias socialistas.
É necessária uma nova interpretação da identidade alagoana para que possa existir uma nova alagoanidade. Milhares de camponeses, trabalhadores assalariados, pequenos e médios comerciantes ligados ao consumidor interno, profissionais liberais, funcionários públicos das três esferas, índios, sem-terras, remanescentes de quilombos, aposentados, jovens e outros grupos sociais são o esteio objetivo da inquietação atual em torno da alagoanidade. O aumento significativo das verbas federais tem provocado, nos últimos vinte anos, o desenvolvimento de várias dimensões do mercado interno, principalmente no comércio e no setor de serviços, que são essencialmente independentes do núcleo central da economia alagoana; esses resultados econômicos positivos das políticas públicas federais, que representam um fortalecimento da União em relação ao Estado, aumentam o espaço democrático e a possibilidade de intervenção dessas camadas sociais no debate político e cultural. Esses setores têm a possibilidade de interessar-se por uma interpretação da realidade alagoana que venha a propor a superação das mazelas do passado e se fundamente em valores e conceitos coerentes com o patamar de desenvolvimento já alcançado pela humanidade. Talvez já existam as condições de a formação social alagoana alcançar à sua autoconsciência e superar a interpretação tradicional de si mesma, de chegar, portanto, à compreensão das suas reais necessidades históricas, momento imprescindível para a construção de uma outra alagoanidade._________________*Professor universitário, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp

18.3.06

Entrevista de Otávio Brandão sobre as Alagoas de 1917

Do site: (http://www.cpdoc.fgv.br)

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE
HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL (CPDOC)
Proibida a publicação no todo ou em parte; permitida a citação. A
citação deve ser textual, com indicação de fonte conforme abaixo.
REGO, Otávio Brandão. Otávio Brandão (depoimento, 1977). Rio
de Janeiro, CPDOC, 1993. 139 p. dat.
OTÁVIO BRANDÃO
(depoimento, 1977)
Rio de Janeiro
1993
Ficha Técnica
tipo de entrevista: história de vida
entrevistador(es): Maria Cecília Velasco e Cruz; Renato Lessa
levantamento de dados: Maria Cecília Velasco e Cruz; Renato Lessa
pesquisa e elaboração do roteiro: Maria Cecília Velasco e Cruz; Renato Lessa
sumário: Nara Azevedo de Brito
conferência da transcrição: Nara Azevedo de Brito
copidesque: Elisabete Xavier de Araújo
técnico de gravação: Clodomir Oliveira Gomes
local: Rio de Janeiro - RJ - Brasil
data: 15/01/1977 a 10/02/1977
duração: 6h 50min
fitas cassete: 05
páginas: 139
Entrevista realizada no contexto da pesquisa "Trajetória e Desempenho das Elites Políticas
Brasileiras", parte integrante do projeto institucional do Programa de História Oral do CPDOC,
em vigência desde sua criação, em 1975.
Esta entrevista subsidiou a elaboração da tese de doutorado de Dulce Pandolfi, publicada no
livro Camaradas e companheiros: memória e história do PCB (Rio de Janeiro, Relume-Dumará;
Fundação Roberto Marinho, 1995).
temas: Anarquismo, Astrogildo Pereira, Bloco Operário e Camponês (1928-1930),
Cooperativismo, Greves, Movimento Operário, Otávio Brandão, Partido Comunista do Brasil,
República Velha (1889-1930), Sindicalismo, Sindicatos de Trabalhadores.


"Sumário
1ª Entrevista: 15.01.1977
Origem familiar; formação escolar e intelectual; jornal A Semana Social; protesto contra a
Primeira Guerra Mundial e a prisão; os anarquistas; sindicalismo em Maceió; criação da
Socidadade dos Irreverentes e da Congregação Libertadora da Terra e do Homem; setores
ativos do operariado; sindicatos amarelos; anarquismo e anarco-sindicalismo; políticos e
movimento operário; anarquismo e revolução; Insurreição de Magé (1918); inviabilidade do
anarquismo; sindicatos anarquistas; a Coligação Social; Federação Operária; ação política
anarquista; caráter individualista do anarquismo; socialistas e positivistas; a imprensa e a
questão social; relações com Prestes; o Bloco Operário e Camponês; dificuldades do BOC em
São Paulo; Teotônio Sousa Lima; atividade política nas fábricas; aliança com o
tenentismo.............................. p. 1-37
2ª Entrevista: 21.01.1977
Contatos com anarquistas; reunião em Buenos Aires e liquidação do BOC (1930); expulsão do
Brasil (1931); influência do BOC entre os trabalhadores; I Conferência Comunista do Brasil;
difusão do anarquismo no Brasil; José Elias da Silva; desagregação do PC; popularidade dos
políticos entre os operários; os amarelos no porto; movimento cooperativista; jornal A Voz do
Povo; greve da Leopoldina (1920); deportações de anarquistas por Epitácio Pessoa; Lima
Barreto; organização das greves; greve dos gráficos (1929); adesão de Astrojildo ao
comunismo; o Partido Comunista e a disciplina partidária; a insurreição de 1935; Coligação
Social (1920); Everardo Dias; o grupo Clarté; o Partido Socialista; ligações dos sindicatos com
o coronel Bandeira de Melo; luta contra os anarquistas; Astrojildo Pereira; reorganização dos
sindicatos; insurreições da Internacional para o movimento no Brasil; atuação de Astrojildo
Pereira; criação do PC e propostas de trabalho; I Congresso do PC; perfil dos fundadores do
PC; o trotskismo; papel da esposa no movimento operário.......................................................
p.37-97
3ª Entrevista: 10.02.1977
Influência da Internacional na fundação do PC; reorganização dos sindicatos; órgãos do PC;
trabalho junto aos camponeses; vereador em 1946; organização interna do PC; interferência da
Internacional na linha do partido; atividades nos sindicatos; diferenças entre anarquismo e
comunismo; o PC e as leis trabalhistas; proposta de frente cínica entre o PC e os anarquistas;
tentativa de ligações com a Coluna Prestes; adesão ao comunismo; II Congresso do Partido;
política reformista burguesa nos anos 20; sistema eleitoral na República Velha; criação e
atuação do BOC; atuação como vereador; Revolução de 1930; reunião em Buenos Aires;
legislação eleitoral........................................................................................................... p. 97-139
1ª Entrevista: 15.01.1977
M.C. - Otávio, onde e quando você nasceu?
O.B. - Eu nasci a 12 de setembro de 1896, na cidade de Viçosa, de Alagoas, no interior,
a cem quilometros do litoral, no meio das plantações de cana-de-açúcar. Subiam,
desciam ladeira, até as portas da cidade, aquelas plantações de cana-de-açúcar. Viçosa é
uma cidade muito pequeno-burguesa, cercada de latifúndios, antigos engenhos,
engenhos de açúcar. Só muito depois é que apareceu uma usina. Então, o ambiente era
este: uma pequena burguesia urbana - uns progressistas, outros confusos, outros
reacionários - e aquele latifúndio cercando a cidade, latifúndios de plantações de canade-
açúcar. Lugar muito bonito, o rio Paraíba no meio dos pedregais, aquelas matas, às
vezes matas virgens. Uma coisa raríssima na história do Brasil a gente encontrar matas
virgens. Uma dessas, subindo a serra Dois Irmãos, atravessei com um grupo de amigos:
seis horas subindo e abrindo caminho com um facão, porque de outra forma não era
possível dar um passo - aquele entrelaçamento de cipós, da base até lá em cima, eram
matas virgens. Agora estive em Itatiaia e vi lá matas bonitas, mas os paus são finos, quer
dizer são recentes, e a mata não é virgem. A gente pode penetrar de um extremo a outro,
como na Europa.
M.C. - E qual era a profissão de seu pai?
O.B. - Meu pai era prático de farmácia. Era um homem democrata, progressista, um
homem de idéias muito avançadas para a época. Não esqueça de que, chegou 15 de
novembro de 1889, houve a Proclamação da República no Rio de Janeiro, e chegou lá a
notícia muito depois. Não havia telégrafo; não havia estrada de ferro. Então, os
pequeno-burgueses urbanos reuniram-se na Câmara Municipal e proclamaram sua
adesão à República. Bom; até aí, nada demais. Na hora dos triunfadores, sempre
aparecem os oportunistas. O diabo é que Viçosa ficava longe, no interior, e um dia
chegou a notícia: "Dom Pedro II recompôs a Monarquia". E todos começaram a dizer:
"Estamos perdidos, vamos ser enforcados, porque fizemos um documento público."
[risos] E, assim, um escândalo tremendo. Então, foram a meu pai para ele retirar a
assinatura. Estava lá: Manuel Correia de Melo Rego. Mas meu pai respondeu: "Não; eu
coloquei a assinatura; agora, acabou-se. Prefiro ser enforcado a retirar a assinatura."
Então ele deu coragem aos outros pequeno-burgueses e ficou o dito pelo não dito.
Depois é que chegou a notícia de que a República estava se consolidando, que a
Monarquia estava perdida. Ele disse: "Está vendo? Imagine que vergonha, nós, depois
de termos assinado esse documento, retirarmos a nossa assinatura! Teria sido uma
desmoralização total." Eu tenho aí uma cópia desse documento.
Era um homem assim, de caráter! Eu, do ponto de vista do pensamento, devo muito a
meu pai, e do ponto de vista do sentimento, devo à minha mãe.
Minha mãe era dessas mulheres amorosas, cheia de carinho, cheia de doçura. Uma
coisa admirável. Muitos anos depois saí pelo mundo... Mas ela morreu logo, quando eu
tinha quatro anos de idade.
M.C. - Você tinha irmãos?
O.B. - Tinha uma irmã - os outros morreram - que ainda está viva. Depois da morte de
minha mãe, eu cresci, saí pelo mundo procurando suas amigas. Chegava num lugar,
perguntava: "A senhora conheceu d. Maroquinha, da Farmácia Popular, rua do
Juazeiro?" Ela dizia: "Ah, eu conheci:" E eu perguntava: "Como era dona Maroquinha?"
Ela respondia: "Era uma maravilha de mulher." Para as amigas ficou aquela recordação.
Então, do ponto de vista do sentimento, devo muito a minha mãe. Está ali o retrato dela,
ao lado do meu pai.
M.C. - Otávio, o que você estudou? Onde?
O.B. - Bem; eu estudei em Viçosa. Aprendi a ler com a professora Maria do Â. Era uma
negra. [risos] Dava bolo a três por dois. Eu tinha muito medo dela! Ela, porém, nunca
me bateu. Aprendi rapidamente a ler. E é interessante que Graciliano Ramos, que hoje é
uma glória nacional, também aprendeu a ler com Maria do Â. Ele num dos livros, ataca
a Maria do Â; e eu, num artigo, no Diário de Notícias, no Suplemento Literário, a
defendi. Ela ensinou a ler a dois escritores: [risos] um é uma celebridade; o outro é
negado por todos os lados. É uma questão de classe! Mas, de qualquer forma, ela nos
ensinou a ler, além de outros e outros. É uma mulher pobre, negra, professora primária,
perdida no interior de Alagoas, vivendo só, naquela pobreza, e acabou na miséria Maria
do Â.
M.C. - E o ginásio?
O.B. - Bem; depois fui para outros colégios. Sobretudo o colégio do Professor Tibúrcio
Nemésio. Este homem tinha idéias progressistas. Era da pequena burguesia urbana,
progressista, lá de Viçosa. Ele também contribuiu para o meu desenvolvimento. Depois,
fui para Maceió, e aí quiseram converter num santo o caboclo rebelde de Viçosa. Era um
colégio de Irmãos Maristas, mas eu não queria aprender o catecismo. Meu pai não me
ensinou o catecismo, meu pai nunca me mandou à igreja. Ele só acreditava em Deus e
na madrinha dele - esta coisa de adotar uma santa, que era madrinha da Igreja de Santa
Rita, lá na região dos Canais e das Alagoas. Ele falava: "Só acredito em Deus e na
minha madrinha Santa Rita." Nunca me mandou à igreja. E os Irmãos Maristas queriam
me ensinar o catecismo. Eu não queria, então, fui castigado. Parece que era às quatro
horas da tarde a hora de ir brincar em Maceió. Quatro horas da tarde, eu era castigado. Ia
para um salão, ficava olhando a parede [risos] durante duas horas. Parece que foram
trinta e tantas horas de castigo para eu me tornar católico! Eu, de fato, não era católico e
não conhecia o catecismo. No fim, eu, desesperado, sem ter para quem apelar, penso:
"Se eu recusar, volto a Viçosa, e lá não tem nada, não tenho futuro. Que fazer?" No final
aceitei e me tornei católico.
M.C. - E quando é que você rompeu com o catolicismo?
O.B. - Fui católico dois anos e meio. Em 1912, rompi totalmente e nunca mais voltei ao
catolicismo. Fui o primeiro a romper na família. Então foi um escândalo, uma coisa
tremenda. Meu tio, Alfredo, que pagava meus estudos, ficou desesperado e dizia:
"Quando eu morrer, vou pagar este crime de ter contribuído para educá-los, e você saiu
assim contra a Igreja!" Havia um tio padre, irmão da minha mãe. Foi também uma luta
tremenda contra ele. Havia o bispo de Alagoas, que também era Brandão. Tudo era
Brandão e tudo católico. E essa gente toda caiu em cima de mim. Uma coisa
terrível! Foi uma luta desesperada, que durou de 1912 a 1919. Em 1919 tudo se
complicou, porque havia nossa luta no seio da família, mas também havia a luta social,
em Maceió, ajudando os operários a conquistar o dia de oito horas, conquistar aumento
de salários, liberdades sindicais. Aí fui metido na cadeia de Maceió, e a única solução
era fugir de Alagoas. A família se opunha, mas havia já um bandido para me matar.
Então, foi em 1912 a ruptura. Claro que eu não podia ter a base teórica que tenho hoje:
falta de livros, falta de amigos. Fiquei sozinho naquela luta, anos e anos. E a família
toda dizendo:" Volta, volta ao catolicismo."
M.C. - Você participou de algum grupo anticlerical?
O.B. - Não.
M.C. - Existia algum em Maceió?
O.B. - Não; não havia ninguém. Eu falava com uns, com outros, ninguém queria. Eu
sozinho, absolutamente só, anos e anos. Tal o atraso! Não havia livros, não havia
ambiente, não havia nada. Fui estudando literatura em geral, como, por exemplo,
hindus, que consegui, os gregos sobretudo, os alemães, os russos etc. E, estudando
filosofia, li o livro de Büchner, Força e matéria, li Darwin, li Haeckel, biólogos. O que
encontrei, eu fui lendo e devorando com aquela ansiedade. Para poder resistir àquela
pressão toda do ambiente. Li Nietzsche. E isto me salvou. Eu digo:" Não; não volto
nunca mais, nunca mais."
M.C. - Isso foi na época em que você estava na faculdade?
O.B. - Sim; eu estava no Recife, em 1912, estudando farmácia. Estudei três anos e
completei o curso no Recife. Mas, paralelamente, estudei os naturalistas, ciências
naturais, teoria e prática. Saía pelos arredores de Recife estudando botânica,
mineralogia, geologia. E estudando literatura universal. Aí conheci os hindus; conheci o
Rig-Veda, que é o mais bonito dos quatro Vedas. Li o Rig-Veda; li Sa Kuntale,1 de
Kalidaga; li o que encontrei. Até hoje eu guardo esse exemplar do Sa Kuntale. Eu
admirei muito os hindus. E fui procurando os materialistas, aqui, ali e acolá.
M.C. - E como você entrou em contato com as idéias anarquistas?
O.B. - Isso já foi depois, em Maceió. Em Maceió, houve um tipógrafo, Antônio
Bernardo Canelas. Ele era tipógrafo, jornalista, tudo. Ele editou o jornal A Semana
Social, em Maceió. Ele não estudava. Acreditava demais na própria intuição, mas era
muito inteligente. Tinha antenas; pegava as coisas no ar. Canelas editou esse jornal.
Esse jornal teve muita importância, porque, quando o governo declarou guerra à
Alemanha, A Semana Social botou lá a manchete: "Abaixo a guerra imperialista."
Somente Maceió, Rio e São Paulo é que protestaram contra a guerra. A esmagadora
maioria dos intelectuais: Rui Barbosa, Coelho Neto, toda essa gente apoiando os
Aliados contra os alemães. E nós contra os Aliados e contra os alemães, de modo que
foi um coisa impressionante. E Canelas tinha amizade com Astrojildo Pereira, aqui no
Rio de Janeiro. Astrojildo morava em Niterói, a correspondência vinha para o Rio de
1 Sa Kuntale (o anel perdido) é uma peça do poeta indiano Kalidaga (Sec. V).
Janeiro. Então, Astrojildo começou a dar indicações. Aí eu li Bakunin, Deus e o Estado;
li Kropotkin, A conquista do pão; li Sebastião Faurre; li Malatesta. O que encontrei, fui
lendo. E li Nietzsche, que contribuiu muito, porque, como ele mesmo diz, no prefácio lá
de um dos seus livros: "Retirai deste livro amargo, razões para tudo." [riso] É como a
Bíblia, a gente tira dali o que bem quer. E então, Nietzsche serviu para eu resistir àquele
ambiente clerical, àquela pressão da família, àquilo tudo. Ele representou um papel
positivo. E as outras idéias dele, em filosofia e em sociologia, eu repudiei. Admirei
sobretudo as poesias, como aquele "Canto da Noite", que ele escreveu em Roma.
Quanto às idéias, muitas das idéias dele, que depois contribuíram para o nazismo, eu
rechacei já em 1916, 1917, quando ele diz: "O Estado é o mais frio dos monstros..."
Porque Nietzsche tem muitas coisas anarquistas e tem coisas que serviram para Hitler. A
primeira parte foi a que eu adotei. O livro dele O anticristo, que é uma crítica ao
cristianismo, também li. E foi o que eu encontrei em Maceió. Sobre a Rússia, o único
livro que encontrei foi um livro do século passado... Stepniaquim descrevendo os
Narodnaiavolia, os terroristas do século passado. Foi o único livro que encontrei, não
encontrei mais nada de lá. Ou então artigos de jornal, mas artigos caluniosos. Todos
esses jornais caluniando a revolução na Rússia.
M.C. - A Semana Social foi fundada quando?
O.B. - Mais ou menos em 1916 ou 1917, por aí assim.
M.C. - E você começou a escrever para o jornal em que época?
O.B. - Escrevi artigos contra, por exemplo, aquelas coisas do Olavo Bilac, o
militarismo, a defesa nacional, aquilo tudo. Escrevi um artigo de que ainda me lembro.
Fui à redação, sentei-me num canto qualquer e fui ditando, Canelas escreveu e publicou.
E um outro... Eu li A mãe, de Máximo Gorki, que exerceu uma influência muito grande
em mim, porque eu vi a mãe proletária, a mãe operária, que, levada pelo carinho e pelo
amor do filho, foi-se transformando até se tornar uma revolucionária. A mãe, de
Máximo Gorki, exerceu grande influência na minha vida. E escrevi [risos] influenciado
pelo livro de Gorki, um apelo à revolta. Foi um escândalo! Saiu em A Semana. Foi um
escândalo, uma coisa terrível, chamando o povo todo à revolta contra os comendadores,
os latifundiários, a burguesia.
M.C. - O jornal tinha uma tiragem grande?
O.B. - Não; grande não podia ser, porque era boicotado. Somente grupos de operários,
em Maceió, e pequeno-burgueses urbanos progressistas é que liam A Semana Social.
M.C. - Ele era boicotado de que forma?
O.B. - Bem; dinheiro não tinha. Canelas deixava de comer para juntar dinheiro para
poder comprar papel, e havia sempre dificuldades.
M.C. - Ele era o único editor do jornal?
O.B. - É; ele era o tipógrafo, o jornalista, o doutor, o escritor, tudo, tudo. Ele não tinha
cama. Havia, assim, um lugar debaixo... Não tinha linotipo, era tipógrafo.
Debaixo daquelas caixas dos tipos, um cantinho, era ali que ele dormia.
M.C. - E os operários em geral liam esse jornal?
O.B. - Liam; os operários de Maceió liam esse jornal. Grupos de operários. Acabou tudo
na cadeia de Maceió. Uns 14!
M.C. - Por quê?
O.B. - Imagine! A Igreja Católica zangada, porque eu fiz conferências, mostrando a
origem da terra alagoana através de milhões de anos, e perguntavam: "E Deus?" Eu
respondia:" Deus não tem nada a fazer nesse terreno. É a geologia. Deus não entra nesse
terreno." Então a Igreja muito zangada, pois queria que eu fosse um esteio da Igreja
Católica como os outros Brandões. Por exemplo, se a gente chegava num lugar e
perguntava: "Quem construiu aquela igreja?" A resposta era sempre: "Foi um tal
Brandão." Mais adiante, a gente perguntava: "E essa outra?" "Foi um tal Brandão." E
quando não construiu, pelo menos reconstruiu. O irmão da minha avó, o vigário
Francisco de Borja Barros Loureiro, reconstruiu a igreja de Viçosa, que até hoje está lá.
M.C. - Quer dizer que a sua família é uma família tradicional em Alagoas?
O.B. - E clerical, com aquele fanatismo danado, muito duro, muito duro. E essa coisa de
virgindade de Maria! Eu dizia: "Não me aborreçam com bobagens." E eles reagiam:
"Como bobagem? Isso é uma coisa sagrada, e não sei o quê." Eu dizia: "Ela foi mãe e
ficou grávida, não podia ser mais virgem." Eles respondiam: "Mas que escândalo!" E os
tios ficavam ofendidos, não queriam discutir. Eles diziam: "Mas que desaforo, que
ofensa." Eu explicava: "Não estou ofendendo o senhor, não estou dizendo nada." "Um
menino que vi nascer outro dia quer me dar lição." "Eu não quero dar nenhuma lição,
mas estudei religião, e o senhor não estudou." "Que desaforo, que ofensa." Não havia
meio de discutir. Nesse ambiente era muita coação, sempre. Os parentes todos, um
bando de beatos. Precisava ter paciência, se não eu os mandaria: "Vão para o inferno,
que se danem!" Mas eu não dizia.
M.C. - Mas como é que os operários foram presos? O senhor estava contando...
O.B. - Bem; isso já foi depois. Em 1917, esse protesto contra a guerra repercutiu muito.
Maceió teve essa glória - Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo. Ninguém mais protestou.
Um avacalhamento geral. A massa dos intelectuais era toda de aliadófilos, como Rui
Barbosa. Todos diziam "Esta é a última guerra! Esta é a guerra da justiça! É a guerra do
direito contra a força! Eu sou pela força do direito, contra o direito da força!" E diziam
"Muito bem! Viva Rui Barbosa!" Essa palhaçada toda. E nós, contrários.
Isso abalou aquilo tudo. O jornal foi fechado. Canelas teve que ir embora para o
Recife, não pode mais ficar. E, pela primeira vez, penetrei na vida ilegal. Passei 15 dias
no interior. Veio a multidão - imagine -, a multidão envenenada: empregados do
comércio, estudantes, cerca de cinco mil pessoas. Fizeram um comício na praça dos
Marítimos e, depois, saíram para a redação de A Semana Social. Lá, bateram à porta,
que estava fechada, pois o Canelas estava dormindo. Uma vizinha veio e acordou o
Canelas. Ele acordou com aquele barulho: "Lincha Canelas! Mata Canelas! Espião
boche!" (Chamavam os alemães de boches.) Então, a vizinha passou pelos fundos...
Sabe como são essas casas no interior: não têm quintal, e passa-se de uma casa para a
outra. Essa senhora levou Canelas para a sala de jantar e botou a rede por cima dele. Ele
ficou ali encolhido, ouvindo esse barulho de cinco mil pessoas gritando: "Espião boche!
Acaba com isso! Mata! Lincha o bandido!" E, naquele meio, um sujeito, não sei quem,
gritou: "Quem escreveu o artigo contra a guerra não foi Canelas, foi Otávio Brandão!
Vamos quebrar as costelas dele!" [riso] Minhas costelas não são de ferro! Eu já previa
isso e estava no interior, lá em Viçosa. Então, no final, os amigos que estavam na
multidão, disseram: "Não; não foi Otávio Brandão que escreveu o artigo contra a
guerra."
Passou; mas o jornal morreu. Minha família aí embrulhou tudo, e todos
começaram a dizer: "Antes era por causa do catolicismo; agora já se mete no meio
desses desordeiros e é acusado de espião boche." Eu digo: "Eu não; não tenho nada de
espião boche. Essa guerra é um crime, nós somos contra os alemães e contra os
Aliados."
Depois, no final, houve a insurreição de 1918, dos operários aqui, e Oiticica foi
deportado para Maceió. Eu fui visitá-lo no engenho Mundaú, da família dele. Então,
conversamos um pouco. Sei que aproveitaram umas conferências de um espírita e
lançaram um manifesto. A Polícia saiu atrás do autor do manifesto, e o encontrou.
Meteram-no na cadeia. Fui visitá-lo e, por crime de solidariedade, fui preso. Creio que
13 ou 14 pessoas, inclusive operários, foram presas, acabaram na cadeia de Maceió.
M.C. - O manifesto era sobre o quê?
O.B. - Não me lembro mais. O manifesto foi provocado por esse Viana de Carvalho,
que era espírita e andava fazendo propaganda do espiritismo. Então, parece que Oiticica
escreveu este manifesto. Não tinha grande importância, mas a questão era que antes nós
tínhamos levantado esses problemas todos, e a Polícia aproveitou para acabar com o
movimento. Invadiu os sindicatos, deu pancada a torto e a direito...
M.C. - Que sindicatos?
O.B. - Ah! Nós criamos um sindicato de operários. Era o Sindicato de Ofícios Vários.
Quer dizer, da Igreja Católica, zangada por causa da nossa explicação materialista da
origem da terra alagoana, perguntavam: "E Deus?" Eu dizia: "Deus não entra, não tem
nada a fazer na geologia." A burguesia zangada, por que os operários trabalhavam 12,
14, 16 horas na fábrica de tecidos de Fernão Velho, em Rio Largo, por um salário
miserável, e nós lutávamos pelo dia de oito horas. E fomos conquistando aqui, ali e
acolá, o dia de oito horas, aumento de salários e liberdades sindicais. Bom: a burguesia
zangada; a Igreja Católica zangada; os agentes do imperialismo, que vendiam gasolina e
essa coisas todas, zangados, porque provei que Alagoas tinha petróleo, e eles diziam
sempre: "O Brasil não tem petróleo! O Brasil não tem petróleo!" E eu provei que
Alagoas tinha petróleo. Isto em 12 de outubro de 1917. Os latifundiários zangados,
porque nós penetramos no interior pregando divisão das terras. "A terra aos
trabalhadores de enxada." Então se juntaram todos: a Igreja Católica, os agentes do
imperialismo, a burguesia, os latifundiários. E o ódio. Então, publicavam:
"Maximalismo em Maceió." Aquelas manchetes e aquilo tudo.
M.C. - Quer dizer que você também atuou politicamente na cidade?
O.B. - Isso em 1917; e fui ao interior, aos engenhos dos meus parentes, procurar lá os
trabalhadores de enxada e dizer: "A terra pertence a vocês! Divisão das terras! A terra ao
trabalhador de enxada!" A família se reuniu e disse: "Ainda mais essa! O homem é um
inimigo de Deus, um inimigo de Cristo, e agora é inimigo dos próprios parentes, quer a
desgraça dos parentes!" Houve um conselho da família proibindo que eu visitasse, lá, os
latifúndios.
R.L. - Otávio, só havia anarquista em Maceió?
O.B. - Houve o Canelas, que era anarquista; houve o... Rosalvo Guedes; que foi meu
amigo, uma criatura excelente, ele foi preso. Houve um que tinha um nome estrangeiro
mas era brasileiro.
M.C. - Mas todos morando em Maceió?
O.B. - Todos vivendo em Maceió.
M.C. - E fora de Maceió?
O.B. - Fora de Maceió, houve o meu amigo Alcides Pimenteira, um alfaiate. Um dia a
Polícia foi lá prendê-lo e o encontrou: "Onde é que está Alcides Pimenteira?"
Mostraram o morro do cemitério e disseram: "Está ali; vão buscá-lo." Estava morto.
M.C. - E ele morava onde?
O.B. - Morava em Viçosa, na rua Elói Brandão.
M.C. - Em Viçosa, tinha alguma fábrica?
O.B. - Não; não tinha fábrica, mas havia o descaroçador de algodão, havia os padeiros,
havia assim um movimento. Em 1946, criaram uma célula e deram o meu nome a essa
célula. Célula do Partido Comunista. Mas isso em 46.
M.C. - E, em Maceió, era grande a classe operária?
O.B. - Não era grande; havia muito artesão, operário de construção civil, alfaiate
artesão, alfaiate a domicílio. Juntando esta gente toda, dava alguma coisa. Fizemos um
comício com quinhentas pessoas na sede do Sindicato de Ofícios Vários. Aquela massa
ali, e nós falando.
M.C. - Existia outro sindicato?
O.B. - Existia um outro na rua 16 de Setembro: Sindicato de Ofícios Vários. O que
houve foi que nós fomos procurar e mexer essa gente toda; mas nós não tínhamos,
assim, uma base teórica. Depois eu lhe dou o meu livro, Caminho, que descreve esse
movimento em Maceió, de 1916, 1917, 1918, até março de 1919. Acabou tudo logo, na
cadeia de Maceió.
M.C. - Quer dizer que nem todos esses artesãos eram sindicalizados?
O.B. - Não; não eram sindicalizados. Nós ainda fazíamos um trabalho de propaganda,
de congregar essa gente toda. Sindicato de Ofícios Vários, isto é, de qualquer um.
Qualquer um, de qualquer que fosse o ofício aderia ao sindicato. A gente jogava a rede,
dizia: "Nós somos pescadores. Nós lançamos a rede de arrasto e puxamos. O que vem
está certo." Não podíamos, por exemplo, fazer um Sindicato dos tecelões. Havia fábrica
de tecidos em Jaraguá, mas aquilo era como fortalezas, muito difícil de penetrar; havia
a fábrica de tecidos de Fernão Velho, em Rio Largo, mas era também muito difícil
penetrar.
M.C. - Porque era difícil, Otávio?
O.B. - Porque eu morava em Maceió, e era preciso ir morar naqueles lugares. E a
vigilância era tão grande! Havia os capangas, bandidos pagos pelas fábricas para vigiar,
espiões e tudo isso. O atraso era tão grande que a pessoa se arriscava muito. Eu me
arrisquei indo lá nos engenhos e fazendas, fazendo propaganda no meio dos
trabalhadores. Havia capangas por todos os lados.
M.C. - E, em Maceió, como é que vocês faziam a propaganda?
O.B. - Bem; nós, lá nos sindicatos, fazíamos conferências, fazíamos comícios. A Polícia
foi deixando, até certa hora.
M.C. - Vocês tinham algum jornal além de A Semana Social?
O.B. - Não; só A Semana Social e, depois, manifestos. Imagine: havia uma roubalheira
para aumentar o preço do açúcar. Nós conseguimos descobrir isso e denunciamos os
nomes daqueles capitalistas. Reuniu-se a Associação Comercial de Alagoas para rebater
a acusação. Nós lançamos um manifesto e grudamos nos postes em 1918. Foi um
escândalo, uma coisa pavorosa. E o título era este: "Povo, à revolta!" E terminava
dizendo que o Brasil só endireitaria no dia em que - hoje não faria assim - o último
burguês fosse enforcado com as tripas do último político. [riso] Cada coisa dessas era
um escândalo. Uma cidade pacata, pequeno-burguesa, cheia de funcionários públicos,
aquela vida vegetativa, aquilo tudo, e aparece um grupo assim!
Primeiro, fundamos a Sociedade dos Irreverentes, o nome já... Mas entrou lá um
espírita e veio pregar espiritismo. Então, dissolvemos a sociedade. Dizíamos: "Não; já
tem espírita de mais aí. Não precisa mais."
M.C. - Isso foi quando, a Sociedade dos Irreverentes?
O.B. - Mais ou menos em 1917. Então, dissolvemos a Sociedade dos Irreverentes. Mas,
em 1918, fundamos uma coisa mais séria, que se chamou Congregação Libertadora da
Terra e do Homem, pregando a divisão de terra, aumento de salários, a valorização da
cultura brasileira, uma série de problemas. A questão agrária, li, discuti. E fomos
penetrando nas fazendas e engenhos, pregando "terra aos trabalhadores de enxada", a
divisão das terras. Um escândalo pavoroso.
M.C. - Você fundou a Congregação com quem?
O.B. - Fui um dos fundadores.
M.C. - E quem mais?
O.B. - Na maioria, eram pequeno-burgueses; os operários aderiram depois. Pequenoburgueses;
jornalistas; o poeta Faustino de Oliveira, uma criatura excelente, ainda está
vivo; o Rosalvo Guedes, que era um pequeno empregado; Umbelino Silva, também um
pequeno empregado.
M.C. - Canelas não participou disso?
O.B. - Não; já tinha sido expulso. A Polícia obrigou-o: "Ou você vai embora, ou será
preso e expulso." Então, ele foi para Pernambuco, e lá editou um jornal dos operários.
Depois, foi para Paris. Esteve aqui e acolá. Esteve em Moscou, num congresso. E, de
volta, ele disse: "Na hora de votar o projeto de Lenin, eu votei contra. Fui o único voto
contra." Eu lhe disse: "Foi uma asneira que tu fizeste; tinha que votar a favor." [riso] Ele
achava que ele era uma glória, mas eu disse: "Foi uma asneira; tinha que votar a favor."
[risos] Ele guardou o anarquismo até a morte. O Canelas tinha qualidades. Era corajoso,
valente, não se avacalhou. Mesmo no meio desses perigos, de tudo isso, era corajoso.
Mas acreditava na intuição e não estudava nada. Mesmo em Paris, não estudou nada.
Então, morreu anarquista. No final, acabou brigando, descompondo. Foi para o jornal A
Pátria, na seção operária, descompondo. Mas isso já foi uma história de 1923, 24.
M.C. - Voltando, então, para a época sobre a qual a gente estava conversando. Na
Congregação Libertadora da Terra e do Homem, vocês tinham o apoio de algum setor
da classe operária?
O.B. - Tínhamos operários.
M.C. - Que participavam?
O.B. - Sim; era, em geral, um movimento... Os russos chamam de stirrina2 um
movimento espontâneo dos operários. Um atraso muito grande. A macumba de lá se
chama xangô. Eram trabalhadores que não iam às reuniões para ir ao xangô. A cabeça
deles, cheia de xangô e iemanjá. Era uma luta muito grande. Para você ter uma idéia do
ambiente, eram fetichistas, quer dizer, xangô e toda esta coisa, espíritas, protestantes e
aquela massa de católicos, oficialmente católicos, mas na realidade eram católicos
fetichistas.
Eu trabalhava numa farmácia, e vinham aqueles doentes. Apareceu lá um doente
com uma úlcera muito grande na perna. Eu lhe disse: "Vamos tratar desta úlcera, tomar
injeções e lavar isso. Eu lavo." Lavei muita úlcera, muita ferida. Ele disse: "Quanto o
senhor cobra?" Eu respondi: "Nada." Ele perguntou: "Mas por que? Em nome de que o
senhor quer fazer isso?" Eu lhe disse: "É amor ao Brasil e à humanidade." Ele
continuou: "Mas nem um tostão?" Eu respondi: "Nem um tostão." Ele falou: "Vou
pensar." Dias depois, ele voltou e disse: "Não aceito. Sou espírita. Cometi muitos crimes
numa encarnação anterior, e agora esta úlcera é uma provação. Quando eu me
reencarnar, então, não terei mais úlcera e não terei mais esses sofrimentos todos. É uma
2 Em russo, no original, significa movimento espontâneo.
provação. Deus quis assim, Jesus Cristo quis assim, e isto ainda é uma bênção." Eu aí
dei uma tunda danada em Alan Kardec e na religião, mas ele ficou irredutível. Eu lhe
disse: "Você vai morrer, dá gangrena, e você morre." Tempos depois pedi notícias dele,
e ele tinha falecido. Era um ambiente assim.
M.C. - Quer dizer que a massa do operariado era toda...
O.B. - É; operários, assim, empesteados de fetichismo, de espiritismo, de catolicismo
misturado com fetichismo. Era uma luta muito grande e muito difícil.
M.C. - Mas que tipo de organização era a Congregação? Era um sindicato ou era uma
sociedade?
O.B. - Não era um sindicato; era uma associação, assim, para lutar pela reforma agrária,
no melhoramento das condições de vida e trabalho dos operários, por uma cultura
nacional, para aproveitar o folclore alagoano, que foi e é muito rico. Tudo isto. Mas isso
foi 1918, veio 1919, e a Polícia esmagou tudo.
M.C. - E quais foram os resultados práticos da ação desenvolvida pela Congregação?
O.B. - Bem; melhor dizer sobre todo esse processo... como A Semana Social e tudo isso.
O resultado prático foi o seguinte: em certas fábricas, conquistamos o dia de oito horas e
aumento dos salários. Trabalhavam 12, 14, 16 horas! Conseguimos aumento dos
salários e liberdades sindicais e essas idéias todas foram sendo espalhadas entre aqueles
intelectuais.
Imagina, houve uma exposição, com cento e tantos quadros. Eu fui à exposição.
Fui ver. Não havia um quadro inspirado por Alagoas. Nada. Nem a paisagem alagoana,
nem os homens alagoanos. Havia cópias de coisas japonesas, cópias de paisagens da
Europa, de Alagoas nada, nada. Uma escola de pintura, cento e tantos quadros, e não
havia um único de Alagoas. Então, fizemos um apelo para que se inspirassem na
natureza brasileira, no trabalhador alagoano, descrevendo a vida alagoana. E aí foram
surgindo. O Moreira e Silva passou a pintar homens e mulheres do povo: um vencido,
uma mulher fazendo renda e paisagens alagoanas. O outro, o Lima, este também
dedicou toda a vida às paisagens alagoanas. Paisagens lindas! Coisas maravilhosas.
Toda a vida, imagina! Em 1960, quando voltei a Alagoas, reencontrei-o. Ele me
prometeu um quadro, mas não deu. Dedicou toda a sua vida às paisagens, quer dizer, um
resultado concreto da nossa propaganda.
M.C. - E as reivindicações, como, por exemplo, aumento salarial, diminuição da jornada
de trabalho, foram conseguidas através de greves?
O.B. - Não; foram dessas agitações. Os patrões com medo! E os jornais escreviam:
"Maximalismo em Maceió! Cuidado! Perigo!" Era assim. Os patrões ficaram com medo.
M.C. - Quer dizer que eles concederam isso...
O.B. - Era a primeira vez, a primeira vaga de movimentos em geral. E eles diziam que
iam parar a fábrica. Os patrões ficaram com medo. Eram patrões muito reacionários,
muito atrasados, burrinhos, burrinhos. E, então, foram cedendo aqui, ali,
acolá. E os resultados só não foram maiores, porque, em 1919, como eu lhe disse, os 13
melhores militantes acabaram na cadeia de Maceió e os outros, espalhados aqui e ali,
perderam os empregos.
M.C. - Quais eram as principais pessoas que trabalhavam na Congregação Libertadora
da Terra e do Homem?
O.B. - Seu criado, Rosalvo Guedes, Alcindo de Oliveira, Umbelino Silva.
M.C. - Os mesmos que fundaram o Sindicato de Ofícios Vários?
O.B. - É; os mesmos.
M.C. - E, no campo, vocês conseguiram organizar um pouco os trabalhadores?
O.B. - Não, não; era muito difícil, muito difícil. No livro Caminho, eu escrevo que
chego num lugar e vem logo a religião: "Mas Deus fez o mundo assim, desde o começo
do mundo. O trabalhador ali, no cabo da enxada; e os donos das terra. É o Senhor. Foi
Deus quem fez assim. E o senhor quer acabar com isso?" Outros faziam outras
alegações. E, no final, os mais inteligentes disseram: "Bem; suponhamos: nós dividimos
a terra, retalhamos a terra, acabamos com isso. Vem o soldado imediatamente de
Maceió. O senhor garante que o soldado não virá para retomar a terra, restituir a terra ao
dono?" Eu não podia garantir. Eles falavam: "E como é que o senhor propõe uma coisa
que não pode garantir?" Então, eu vi que aquela propaganda não daria nada, que
teríamos que rolar muitos anos, teríamos que estudar a questão agrária a fundo, criar
organizações próprias para poder fazer alguma coisa no campo.
M.C. - Vocês não tiveram tempo de criar essas organizações próprias?
O.B. - Não; nós queríamos criar. Aliás, a Congregação Libertadora da Terra e do
Homem já era com esse espírito. Nós pregávamos a revolução... A revolução não, a
reforma agrária, o imposto sobre herança - que seria dedicado à compra de terras, que
seriam entregues aos trabalhadores.
M.C. - E quando a Congregação foi fechada?
O.B. - Nós é que a fechamos por que não podíamos mais nos mover. Na cadeia de
Maceió, todo o tempo, um sujeito do lado de fora das grades ficava me olhando. Quando
saí, perguntei: "Quem é esse sujeito?" Disseram: "É o Horato Maurício; é um pistoleiro
político. Tem promessa de ser oficial da Polícia Militar de Alagoas, caso liquide você."
E os amigos diziam: "Não saia de noite. O Horato Maurício está aí de tocaia, esperando
para matá-lo." E, no final, em março, fui preso.
M.C. - Março de que ano?
O.B. - De 1919. Fui preso na cadeia de Maceió.
M.C. - Você foi preso por quê?
O.B. - Porque fui visitar o Rosalvo Guedes. Solidariedade moral. O Rosalvo Guedes foi
preso porque descobriram que foi ele quem mandou imprimir o manifesto. O tipógrafo
denunciou. Mais um manifesto. Então, os amigos me diziam: "Não saia de noite, que o
Horato Maurício liquida você." E o secretário do Interior disse à minha família, ao meu
tio, Manuel: "Não me responsabilizo pela vida de Otávio Brandão." Ele manda matar e,
depois, a família estava avisada... Minha família ficou aterrorizada. Eu não podia mais
me mexer, vivia vigiado pela família, que se opunha que eu partisse. No final, eu
organizei a fuga. Corri para Jaraguá, comprei uma passagem com o nome mudado e
saltei no Rio de Janeiro. A família disse: "Volta." Eu levei 41 anos sem poder voltar.
Escrevi aos amigos: "Eu agüento a cadeia de Maceió e agüento uma surra. [riso] Posso
voltar?" Os amigos diziam: "Não volte. A questão não é de cadeia, nem de surra, é que
liquidam você. Você prejudicou os agentes do imperialismo, com a luta pelo petróleo;
prejudicou a Igreja Católica, explicando a origem da terra alagoana durante milhões e
milhões de anos sem Deus; prejudicou os burgueses, lutando pelo dia de oito horas; e
prejudicou os seus parentes latifundiários, pregando a divisão das terras, a terra ao
trabalhador de enxada. Não volte, não volte." E rolaram 41 anos sem que eu pudesse
voltar.
M.C. - Havia alguma ação organizada por parte dessas forças contra o movimento de
vocês?
O.B. - Sobretudo com a guerra, já houve uma mobilização, porque os Aliados tinham
agentes pagos por toda a parte. Foram eles que organizaram esse comício, que depois
desfilou para liquidar o Canelas. Havia o governo; havia a Igreja Católica, que botava
aqueles artigos: "Maximalismo em Maceió." Pavor, havia um ambiente de pavor. E eu
era considerado o chefe, o dirigente.
M.C. - Havia sindicatos da burguesia em Maceió?
O.B. - Não, não.
M.C. - Eles não eram organizados?
O.B. - Havia a Associação Comercial, que era um centro de reação e de tudo mais. Eram
burgueses muito reacionários e burros, ignorantes até. Muito ignorantes. Tinham medo.
Tinham medo de tudo: medo de Deus, medo do Diabo, do inferno, medo de tudo.
Morriam e deixavam lá no testamento: tantos contos de réis para dizer tantas missas,
para construir uma igreja, para isso e para aquilo.
M.C. - E quando é que vocês fecharam a Congregação Libertadora?
O.B. - Ela morreu em 1919.
M.C. - E o Sindicato de Ofícios Vários também morreu?
O.B. - Bem; a Polícia invadiu, bateu, deu surras de sabre, imagina você! Batendo, assim,
nos operários e fechou aquilo tudo.
M.C. - Também em 1919?
O.B. - Sim; em 1919.
M.C. - E essa invasão foi provocada por algum movimento?
O.B. - Não; nenhum movimento. Então, o ambiente era assim, de pavor, no meio
daquela pequena burguesia e da grande burguesia.
M.C. - Existiam em Maceió organizações operárias ligadas à Igreja Católica?
O.B. - Não; a Igreja só pensou nos operários muito depois. [riso] Antes, ela combatia a
reforma agrária e dizia: "Nada disso. A terra pertence a Deus; ninguém pode tocar na
terra" E uma das razões da condenação da Igreja também foi essa. Eu queria a reforma
agrária, e a Igreja era contra. E a Igreja não pensava nos operários. Os operários,
largados, abandonados. Depois, a Igreja, muito esperta, muito politiqueira, começou a
criar esses sindicatos operários [riso] e, ultimamente, é a maior propagandista da
reforma agrária. Eu digo: "Quem te viu, quem te vê!" [risos]
M.C. - Quais eram os setores mais ativos entre o operariado?
O.B. - Havia alfaiates artesãos, que não eram bem operários, eram alfaiates artesãos;
havia a construção civil; havia um ou outro tecelão; havia empregados no comércio, que
eram muito ativos; havia gráficos, mas estes não se diziam operários: "Eu sou artista."
[riso] Eu achava uma graça enorme e perguntava a eles: "Por que você não é operário?"
Eles me respondiam: "Não; operário é uma categoria inferior. Eu sou artista." [riso]
M.C. - Isso entre os gráficos?
O.B. - Sim; diziam: "Eu sou artista." Não eram operários. Para você ver a mentalidade!
E a lutar contra essas muralhas todas, um pequeno grupo corajoso, bravo. Eu dou os
nomes deles no livro O caminho. Precisava muita coragem, desprendimento, porque,
por exemplo, Rosalvo Guedes passou anos e anos desempregado, passando
necessidades.
M.C. - Não conseguia emprego.
O.B. - É; depois, era o pavor. Encontrei-o, em 1960, magro, envelhecido, doente, um
filho louco. Uma tragédia.
M.C. - Mas você me contou que os comerciários participaram daquele movimento
provocado pelo seu artigo na A Semana Social, ao lado dos estudantes, movimento
contra o Canelas, não é? Agora, você me falou que eles eram um setor bastante ativo,
mas...
O.B. - Empregados no comércio, mas era uma minoria. Ao passo que ali, contra nós,
era uma multidão, mobilizada pelos agentes dos Aliados. Era uma multidão...
M.C. - Quer dizer que desses setores todos...
O.B. - O mais ativo era aquele pequeno grupo de empregados no comércio; o Umbelino
Silva, Faustino de Oliveira, e este outro que eu disse o nome, que foi preso e eu fui
visitá-lo na cadeia... o Rosalvo Guedes, que também era empregado no comércio. Todos
esses eram os mais ativos. O trabalho de Canelas rendeu, espalhou-se, mas o jornal foi
fechado, Canelas foi embora. A penetração no meio dos operários ficou mais difícil,
porque não tínhamos mais um jornal, só um manifesto de tempos em tempos. Ao passo
que com A Semana Social, aquilo ia penetrando nos operários em Maceió.
M.C. - Quer dizer que o Sindicato de Ofícios Vários era pequeno, não é? Era um
sindicato pequeno.
O.B. - Sim; mas num comício que fizemos na sede do outro sindicato, apareceram
tantos trabalhadores, que no final eu falei da janela do sindicato. E o trabalhador ficou
ali. Esse sindicato ficava na praça da cadeia. Eu olhei assim, vi a cadeia e disse: "Mau
negócio. [riso] Nós escolhemos uma sede, que daqui não teremos que caminhar muito
para ir parar na cadeia."
M.C. - E sindicatos amarelos existiam em Maceió?
O.B. - Não; não havia. Bom, parece que havia no cais do porto. Uma vez Oiticica fez
uma conferência lá.

(...)"