<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664</id><updated>2012-02-09T13:35:23.794-02:00</updated><category term='Zumbi dos Palmares'/><category term='Ivo dos Santos Farias'/><category term='Golbery Lessa'/><category term='Dirceu Lindoso'/><category term='Tchello d´Barros'/><category term='Otávio Brandão'/><category term='Alfredo Brandão'/><category term='Acervo Arquivo Público de Alagoas'/><category term='Antonio Filipe Pereira Caetano'/><category term='Edson Bezerra'/><category term='Gabriel Magalhães Beltrão'/><category term='Sidney Wanderley'/><category term='Graciliano Ramos'/><category term='Bruno César Cavalcanti'/><category term='Lelo Macena'/><title type='text'>NOVO ÍRIS ALAGOENSE</title><subtitle type='html'>O Novo Íris Alagoense é um instrumento do pensamento crítico de Alagoas.
Será editado por Golbery Lessa até se formar um conselho editorial democraticamente eleito pelos leitores do Blogger.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-697784002824980019</id><published>2011-08-13T11:04:00.000-03:00</published><updated>2011-08-13T11:04:13.182-03:00</updated><title type='text'>Lições de Tavares Bastos sobre o Brasil</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A produção de Aureliano Cândido Tavares Bastos (1839-75), filho da antiga cidade das Alagoas, marcou o pensamento social e político brasileiro e divide-se entre livros, panfletos, artigos, discursos, anotações, relatórios e cartas. Esse universo de escritos conforma um importante patrimônio para a ciência nacional, tanto pelo que representa de capacidade de compreensão da realidade em si como pela profunda influência que exerceu sobre outros intérpretes do Brasil. Joaquim Nabuco, por exemplo, reconheceu com todas as letras as dívidas que possuía com a perspectiva do teórico deodorense. Não é difícil perceber as teses de Tavares Bastos nos textos de autores tão basilares quanto Caio Prado Jr., Sérgio Buarque e Gilberto Freire, bem como encontrar provas do interesse acadêmico atual pela sua interpretação do país, principalmente no que se refere à sua abordagem das causas do atraso brasileiro, das deficiências políticas do país, dos conflitos em torno do pacto federativo e dos defeitos do sistema publico de educação. &lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A ausência de reedições mais freqüentes de suas principais obras contrasta com o fato de que o pensador alagoano tem sido objeto de reflexão privilegiado de estudiosos da realidade brasileira, notadamente entre os pesquisadores de sua dimensão política. Apenas para dar alguns exemplos, há várias dissertações e teses sobre o parlamentar alagoano concluídas nos último vinte anos nas melhores universidades do país e suas idéias têm sido referências obrigatórias no debate acadêmico, com rebatimento no Poder Legislativo nacional. É tempo, portanto, de superar a coexistência entre a grande valorização contemporânea de suas idéias e a dificuldade de acesso às suas principais obras. A nação brasileira tem problemas demais para dar-se ao luxo de conhecer o pensamento de um de seus filhos mais lúcidos apenas através de resumos e paráfrases feitos por comentadores. Seus escritos precisam ser disponibilizados para sociedade civil da maneira mais fidedigna, ampla e democrática possível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A escassez de edições das obras do autor alagoano, cuja importância ninguém ainda colocou em dúvida, causa mais estranheza pelo fato de que seus livros já estão sob &lt;i&gt;domínio público&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;. Em nossa opinião, as reedições não têm ocorrido devido aos vários defeitos do campo editorial brasileiro, marcado pelo descompasso entre as necessidades da ciência e os interesses comerciais. Entretanto, como é comum no campo das ciências humanas, também há motivos ideológicos e políticos para o fenômeno.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;O primeiro livro de Aureliano Cândido Tavares Bastos, denominado &lt;i&gt;Cartas do Solitário&lt;/i&gt;, de 1862, foi um sucesso tão retumbante que obteve uma reedição revista e ampliada no ano imediatamente posterior. A boa recepção do livro parece ter sido derivada de três variáveis: 1) uma sensação generalizada na sociedade civil de repulsa à ineficiência do Estado e ao Partido Conservador, há décadas no poder; 2) a qualidade e a profundidade da análise feita pelo autor sobre os principais problemas da cultura política brasileira; e 3) o fato de que o livro foi composto a partir de artigos publicados anonimamente, com enorme repercussão, no influente jornal carioca &lt;i&gt;Correio Mercantil&lt;/i&gt;. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A obra elevou a consciência da sociedade civil relativa aos males nacionais numa conjuntura na qual a opinião pública estava disposta a essa aprendizagem. Sua terceira edição somente ocorreria em 1938, na famosa &lt;i&gt;Coleção Brasiliana&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;, da Companhia Editora Nacional, no contexto pós-Revolução de 1930, quando as explicações clássicas do Brasil moderno estavam se fazendo e o clima subjetivo trazido pelo Estado Novo, marcado pela repulsa a autores liberais, ainda não se estabelecera. A quarta edição somente ocorreria em 1975, pela mesma editora em consórcio com o Instituto Nacional do Livro e o Departamento de Ação Cultura, quando a ditadura já dava sinais de desgaste e a opinião pública procurava uma alternativa democrática.&lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Sua segunda obra, &lt;i&gt;O Vale do Amazonas&lt;/i&gt;, de 1866, também foi muito bem acolhida e igualmente refletia um debate fundamental para a sociedade civil da época: a abertura do comércio do rio Amazonas aos outros países, o que tinha reverberações evidentes no debate sobre o modelo econômico nacional e o fortalecimento da fronteiras brasileiras. Contudo, numa trajetória parecida com a experimentada por &lt;i&gt;Cartas do Solitário&lt;/i&gt;, a obra só obteria uma segunda edição em 1937, uma terceira em 1975 e uma quarta em 2000. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;O terceiro e o mais importante livro do autor, publicado em 1870, denomina-se &lt;i&gt;A Província&lt;/i&gt; e consiste tanto num monumental estudo sobre o Estado brasileiro quanto numa proposta federalista para os seus males. Foi acolhido como um clássico desde seu aparecimento e passou a ser cultuado por várias gerações de intelectuais brasileiros. Uma prova muito prática desse acolhimento da posteridade é o fato de que os poucos exemplares desse livro existentes no acervo bibliográfico de uma instituição acadêmica tão representativa quanto a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) são provenientes das bibliotecas pessoais (transformadas em fundos) de Eduardo Prado, Sérgio Buarque de Hollanda e Maurício Trautemberg, entre outros intelectuais desse quilate. Apesar dessa importância científica, o livro também sofreu da má sorte editorial dos dois anteriormente citados. Sua segunda edição só surgiria em 1937, sua terceira em 1975, seguida de mais duas, em 1996 e 1997. Ou seja, somente quatro edições após cento e quarenta anos de sua publicação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;O quarto livro, editado pela primeira vez em 1939,&lt;i&gt; &lt;/i&gt;na citada &lt;i&gt;Coleção Brasiliana&lt;/i&gt;, é de fato a reedição de importantes panfletos publicados pelo autor e ganhou o inspirado nome de um dos textos que carrega: &lt;i&gt;Males do Presente, Esperanças do Futuro&lt;/i&gt;. Para se ter uma idéia da importância desse volume, basta sublinhar que no texto que lhe dá nome há a primeira exposição da tese original que liga os males do Brasil às características retrógradas do Estado português e da colonização lusitana, tese que será decisiva no pensamento social e político brasileiro posterior, como podemos constatar em Caio Prado Jr., Sérgio Buarque e Raimundo Faoro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Enfim, as desventuras editoriais das principais obras de Aureliano Candido Tavares Bastos parecem se explicar pelo fato de que seu pensamento radicalmente democrático chocou-se com várias décadas de hegemonia do pensamento autoritário na sociedade civil e no Estado brasileiro. O federalismo propugnado pelos republicanos positivistas era antípoda ao proposto pelo intérprete alagoano, pois se baseava no elitismo político e na idéia de estabelecer as mesmas instituições em todos os quadrantes do país, desrespeitando as especificidades regionais. Com a criação do Estado Novo (1937-45), o centralismo e a desconfiança em relação à democracia chegaram a um dos seus momentos mais intensos na história do país. A esquerda marxista da época, olhando apenas o liberalismo econômico do autor, não percebeu o forte caráter subversivo das teses do parlamentar alagoano sobre o fortalecimento do espaço público. Os integralistas, pela própria natureza antidemocrática de sua doutrina, viam o filho da atual cidade de Marechal Deodoro como um dos seus principais adversários ideológicos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Com a ditadura de 1964-85, surgiu outro momento em que o caráter libertário do pensamento&lt;i&gt; tavaresbastiano&lt;/i&gt; não facilitava as iniciativas de reedição de suas obras. A pressão da direita contra as instituições republicanas e os valores democráticos juntou-se à desvalorização do caminho pacífico e institucional pelas mais influentes agremiações políticas da esquerda no pós-1964 para deixar o autor novamente nas sombras. Somente com a volta do Estado de Direito Democrático, estabelecido na Constituição de 1988, criaram-se as possibilidades para uma vivência com a liberdade política suficientemente longa para ensejar novo interesse acadêmico e científico pela obra de Aureliano Candido Tavares Bastos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Entre 1988 e 2007, foram defendidas doze dissertações e teses sobre Tavares Bastos, com foco no seu pensamento político, econômico e educacional. O Senado Federal reeditou o livro &lt;i&gt;A Província&lt;/i&gt; duas vezes, em 1996 e 1997. A editora Itatiaia reeditou o livro &lt;i&gt;O Vale do Amazonas&lt;/i&gt; em 2000. Em 2001, a editora Topbook reeditou o livro &lt;i&gt;As Idéias Fundamentais de Tavares Bastos, &lt;/i&gt;de Evaristo Moraes Filho. No ano de 1999, a editora 34 publicou o livro &lt;i&gt;Centralização e Descentralização no Império: o debate entre Tavares Bastos e o Visconde de Uruguai&lt;/i&gt;, de Gabriela Nunes Ferreira. Finalmente, a editora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) lançou, em 2002, o livro &lt;i&gt;A Utopia Federalista: estudo sobre o pensamento político de Tavares Bastos&lt;/i&gt;, de Walquíria G. D. Leão Rego. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Seria importante que outras instituições reforçassem esta tendência generosa de levar ao público brasileiro o genuíno pensamento de um dos mais lúcidos filhos deste país.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif; font-size: 12pt;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Golbery Lessa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-697784002824980019?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/697784002824980019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=697784002824980019&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/697784002824980019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/697784002824980019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2011/08/licoes-de-tavares-bastos-sobre-o-brasil.html' title='Lições de Tavares Bastos sobre o Brasil'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-7070412594881805833</id><published>2011-08-05T09:50:00.001-03:00</published><updated>2011-09-11T08:46:34.340-03:00</updated><title type='text'>Caos urbano e holocausto de jovens em Maceió</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 24px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/--mOsn-slNdw/TisxY0-rwOI/AAAAAAAAKQY/FtGaQ5dXge0/s1600/revolver2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="292" src="http://2.bp.blogspot.com/--mOsn-slNdw/TisxY0-rwOI/AAAAAAAAKQY/FtGaQ5dXge0/s400/revolver2.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 18px;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Na última década, a capital alagoana tornou-se a cidade brasileira com o maior índice de mortes violentas e os jovens das classes trabalhadoras são a maior parte entre as vítimas e os algozes. O proletariado está dizimando o próprio proletariado. Trata-se da realização do mais acalentado sonho maquiavélico da burguesia: a guerra no interior das classes subalternizadas. Esse fenômeno é resultado do caos social e urbano maceioense historicamente cultivado pelas elites da cidade e pela hegemonia canavieira no estado. A superação da hecatombe de jovens trabalhadores e de uma lagoa Mundaú de lágrimas entre seus pais depende de um projeto de poder alternativo para a cidade e o estado que organize a massa dos oprimidos com o objetivo de efetivar um planejamento urbano democrático e uma economia alagoana inclusiva e diversificada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Até o final dos anos 1950, Maceió nunca tinha recebido um fluxo avassalador de pessoas expulsas do campo. Nos períodos anteriores, as usinas utilizavam técnicas agrícolas rudimentares, o que concorria para reter uma grande quantidade de força de trabalho no interior, e a maior diversificação da economia agrícola contribuía igualmente para estancar o êxodo rural. Sempre houve extrema pobreza na capital, mas a prevalência das relações sociais personalizadas e o peso da cultura tradicional limitavam os conflitos no seio das classes trabalhadoras. Havia falta de saneamento, fome, desemprego, prostituição, moradia precária e outros problemas que subsistem, mas não havia a fria impessoalidade e a falta de referências culturais integrativas que foram estabelecidas nos últimos cinquenta anos pela influência de um mercado agindo sem um poder público com capacidade de contrabalanceá-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Nas últimas décadas, a captura de Maceió por determinadas elites chegou ao seu mais alto grau. Os vários prefeitos que se sucedem têm confiado continuadamente a cidade às imobiliárias, à classe média alta, às empresas de transporte público, às empreiteiras, às empresas de coleta de lixo e a uma série de pequenos grupos interessados em lucrar com o caos urbano. A especulação imobiliária é amplamente permitida, inviabilizando a racionalização espacial, cultural e econômica da cidade. A verticalização da Ponta Verde, por exemplo, passou de tal maneira dos limites que o abastecimento de água do bairro tem sido suprido por meio de caminhão-pipa, como ocorre com a mais desassistida pequena cidade do Sertão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;O trabalhador que mora na periferia paga com seu desconforto o caos urbano que enriquece as empresas referidas e dá prestígio à classe média alta. O caráter caótico da expansão imobiliária em Maceió inviabiliza um efetivo planejamento do tráfego, o que aumenta muito o tempo gasto no transporte público e mesmo no transporte individual. A valorização vertiginosa dos apartamentos do Farol ou da Ponta Verde eleva o aluguel em todos os bairros, penalizados os casais jovens de baixa renda.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Na primeira gestão do atual prefeito, o alargamento e a abertura de novas ruas, bem como a racionalização do tráfego e a construção de viadutos, pareciam elementos de um caminho eficaz para diminuir o tempo gasto pelo trabalhador dentro do ônibus. Contudo, as referidas obras não vieram acompanhadas do planejamento global da cidade; após três anos, as ruas alargadas e os viadutos serviram apenas para estimular a compra e o uso do veículo individual e complicar novamente o trânsito, talvez numa dimensão mais grave que a vigente no período anterior. A maioria dos taxistas deixou de defender o prefeito Cícero Almeida. O trabalhador da periferia está novamente horas enlatado no ônibus, tempo que ele subtrai do próprio lazer, do trabalho e do estudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Apesar de ser geral, o caos urbano de Maceió atinge menos os espaços destinados ao trabalho do que os espaços dedicados ao lazer e a outras dimensões da integração social. Como o universo do trabalho absorve a maior parte do tempo dos adultos, estes ficam mais protegidos da desorganização do urbano, mas as crianças e a juventude são diretamente atingidas, pois seu mundo é justamente presidido pelo lazer e a integração social. O sistema escolar é precário e culturalmente excludente, o sistema de saúde não chega à criança e ao jovem com a presteza e a qualidade necessárias, o sistema de creches existente é residual, as praças e equipamentos coletivos de lazer são precários e sem a presença de programas públicos integrativos, as moradias são inadequadas e expulsam por si a criança e o jovem de casa, os mais velhos são postos na trágica situação de terem de cuidar dos menores sem a presença dos pais, enfim, a fragmentação e a ineficiência das políticas públicas colocam o peso de uma pirâmide sobre o caráter em formação das nossas crianças e jovens das classes trabalhadoras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Isso explica a presença da cola, do crack, do furto, do roubo, do latrocínio, do estupro, da prostituição e do assassinato entre parcelas dessa população juvenil. A solução para a desintegração das políticas públicas em Maceió, que é a causa dessas e de outras anomalias sociais, é a construção de uma ampla aliança política entre os vários setores das classes oprimidas (e parte das classes médias) para superar esse estado de coisas por meio de um projeto democrático e racional de cidade e de estado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;Golbery Lessa&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-7070412594881805833?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/7070412594881805833/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=7070412594881805833&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7070412594881805833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7070412594881805833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2011/08/caos-urbano-e-holocausto-de-jovens-em.html' title='Caos urbano e holocausto de jovens em Maceió'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/--mOsn-slNdw/TisxY0-rwOI/AAAAAAAAKQY/FtGaQ5dXge0/s72-c/revolver2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-7129165811257528814</id><published>2011-08-05T09:47:00.003-03:00</published><updated>2011-08-05T09:48:21.335-03:00</updated><title type='text'>Pós-modernismo caeté</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-j8ZIHFbXZcM/TjcjuLG2_AI/AAAAAAAAKQk/tjgirM7vfrM/s1600/160111cavalo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;img border="0" height="266" src="http://1.bp.blogspot.com/-j8ZIHFbXZcM/TjcjuLG2_AI/AAAAAAAAKQk/tjgirM7vfrM/s400/160111cavalo.jpg" width="400" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;A modernidade é restringida em Alagoas e esse fato é determinado pelo caráter retardatário do capitalismo local. O individualismo, por exemplo, que é um dos seus elementos mais importantes, convive com a fragilidade das instituições que o contrabalançam, como o Parlamento e a imprensa livre, e evitam que se estabeleça o domínio total do egoísmo mercantil.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Diante da incompletude da modernidade no estado, seria possível enxergar com certa plausibilidade uma Alagoas pós-moderna?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;A modernidade é um tipo de civilização e o capitalismo consiste apenas em um modo de organizar as relações econômicas. O modo capitalista de produzir alavancou radicalmente a modernidade, lhe impôs possibilidades e limites, mas não se identifica com ela, pois esta abarca mais dimensões e tem relações mais necessárias com as características universais do gênero humano.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;O capitalismo desenvolve-se como um sistema-mundo resultante da articulação dos capitalismos particulares de vários países. É um universo no qual há os capitalismos clássicos, como os do EUA, da Inglaterra e da França, os capitalismos prussianos, mais atrasados, como os da Alemanha, Itália e Japão antes da Segunda Guerra Mundial, e os capitalismos periféricos, como os do México, Brasil e Argentina, mais atrasados ainda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Essa tipologia de capitalismos particulares articulados num sistema-mundo projeta-se numa tipologia de modernidades particulares também mundialmente articuladas. O capitalismo e a modernidade são, portanto, sistemas planetários formados por partes desiguais e combinadas. Esse caráter desigual e combinado das relações capitalistas e das instituições modernas também ocorre no interior de cada nação, cidade, setor de atividade e dimensão da vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Para realizar-se plenamente em sua configuração clássica, o capitalismo de uma formação social qualquer precisa alimentar de modo cada vez menos custoso a própria população por meio do aumento da produtividade agrícola, edificar um setor industrial de bens de consumo corrente com base no mercado interno, construir um setor fabricante de bens de produção e erigir um sistema financeiro sólido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;O sistema produtivo alagoano, a partir do final dos anos 1950, perdeu completamente o rumo da complexificação capitalista que vinha esboçando desde o início do século XX. Desfez parte das primeiras etapas de seu desenvolvimento com a destruição da agricultura de alimentos e da indústria têxtil, fixando-se num modelo agroexportador que trava a sua trajetória como sistema.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;A agroindústria canavieira torna-se a parte mais dinâmica da indústria alagoana sem superar a perversa característica de ter sua componente fabril capturada pela lenta rotação de capital da agricultura. A decorrente queda na taxa de lucro é compensada nas usinas por meio da superexploração do trabalhador, dos fundos dos públicos e do meio ambiente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Isso gera um salto para trás: a recriação das precárias condições de trabalho típicas do século XIX, a destruição das políticas públicas, a fragmentação da sociedade civil, a fragilização das instituições produtoras de cultura e o domínio político oligárquico.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Esses fenômenos têm um impacto nefasto decisivo nas instituições modernas, como a ciência, a educação formal, os meios de comunicação, o Estado de Direto, o sistema público de saúde, o desenvolvimento tecnológico, o respeito à infância, a liberdade de expressão e a valorização da alteridade, entre outras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;O pensamento pós-moderno teme os universais propostos pelo modernismo, bem como suas grandes narrativas, como o liberalismo e o marxismo. Propõe o fortalecimento das tendências de fragmentação que teriam passado a existir na alta modernidade e surgido a partir das duas últimas décadas do século XX. Nega qualquer utopia totalizante e propõe a luta no micro, mais segura e controlável.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Por quais caminhos as supostas tendências pós-modernas surgiriam na Alagoas contemporânea se a estagnação do capitalismo local tornou frágeis e imaturas as principais instituições da modernidade? Como os alagoanos estariam vivendo numa sociedade pós-industrial se sequer conseguimos efetivar as instituições modernas? Como temer e superar os universais se eles sequer foram estabelecidos?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Não temos sistemas dignos de saúde, de educação, de energia e de água potável, entre outros. O cidadão ainda sofre mais por falta de assistência médica do que por não ter sua especificidade cultural respeitada no sistema de saúde. As pessoas penam mais pela ausência de leis trabalhistas e de grandes narrativas agregadoras do que pela hegemonia dos stalinistas, que sempre foram minoritários e reprimidos. O alagoano perde mais por não ser cidadão do que por está sob o julgo dos universalismos da ideologia liberal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Como observaram Marx, Lênin e Trotsky, as formações sociais mais atrasadas podem absorver as novíssimas tendências históricas sem possuírem as condições para criá-las internamente, contudo, essas tendências são filtradas, mescladas e até subvertidas no seu conteúdo essencial pelo contato com uma modernidade incompleta e um capitalismo retardatário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Os computadores de última geração incorporados nas usinas azeitam uma máquina econômica que recria continuadamente condições de trabalho próximas àquelas do escravismo. O garoto que dança música eletrônica e sabe o nome de todas as bandas inglesas é o mesmo que herdará o lugar do pai como representante da oligarquia num município sertanejo. Já se fez&amp;nbsp;&lt;i&gt;raves&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;&amp;nbsp;na Mansão Farias, considerada por setores da opinião pública como um símbolo do patrimonialismo ocorrido durante o governo Collor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Na Alagoas de hoje existem elementos que alguns consideram pós-modernos, como as redes sociais na internet, a música eletrônica e o enfraquecimento do amor romântico; entretanto, é evidente que esses e outros traços não têm o mesmo peso e significado que possuem em formações sociais de modernidade clássica. Nesse sentido, a pós-modernidade caeté é tão frágil e contraditória como a modernidade alagoana.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Cá com os meus botões pregados na China, penso que o conceito de pós-modernismo é insustentável, entre outros elementos, porque se define apenas pela negação. Aquilo que é apenas “pós” alguma coisa é algo ainda indefinido, é algo que não tem uma diferença específica. O pensamento pós-moderno isola o singular, o fragmento, e o exagera, projetando-o como único e principal fenômeno.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;A internet e os movimentos nacionalistas dos últimos tempos, por exemplo, são muito mais expressões do fortalecimento do universal, da nação e do Estado do que o contrário. Bem diferente do que se pensava, a internet não fragmentou o mundo e tornou possível a recomposição de muitas das identidades afetadas pelas mudanças do final do século XX. A unificação da economia planetária é cada vez mais radical e evidente. Os trabalhadores espalhados por centenas de cidade se unificam usando uma simples lista de e-mail.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Por essas e outras é que não devemos nos espantar ou alienar quando vemos uma carroça atravancando o trânsito na Av. Fernandes Lima. Arreios do tempo do Império, molas de caminhão, pneus Ford e o indefectível pangaré. Eia! Eia!&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 24px;"&gt;Em Alagoas é assim: dialética ou a perda da razão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 24px; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 24px; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Golbery Lessa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 24px; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Secretário Político do PCB-AL&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-7129165811257528814?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/7129165811257528814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=7129165811257528814&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7129165811257528814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7129165811257528814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2011/08/pos-modernismo-caete.html' title='Pós-modernismo caeté'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-j8ZIHFbXZcM/TjcjuLG2_AI/AAAAAAAAKQk/tjgirM7vfrM/s72-c/160111cavalo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-2869122835803524194</id><published>2011-02-22T23:47:00.000-03:00</published><updated>2011-02-22T23:47:08.027-03:00</updated><title type='text'>Proposta de Nota Técnica</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;SR-22 – Maceió, AL&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;Gabinete da Superintendência&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 13.5pt; line-height: 115%;"&gt;Proposta de Nota Técnica&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 13.5pt; line-height: 115%; mso-bidi-font-weight: bold;"&gt;Precondições normativas para um planejamento do desenvolvimento integrado do Projeto Especial AGRISA-AL&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;por Golbery Luíz Lessa de Moura&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;[Assessor do Gabinete da SR-22, Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão - MPOG]&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Maceió, julho de 2010&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="western" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;Introdução&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;Não existe qualquer normatização expedida pelo INCRA para aquilo que alguns técnicos vêm denominando, por necessidade lógica e coerência conceitual, de Plano de desenvolvimento Integrado (PDI) de área reformada.&lt;a href="file:///C:/Documents%20and%20Settings/Cliente/Meus%20documentos/incra/Proposta%20de%20nota%20t%C3%A9cnica%20sobre%20o%20planejamento%20AGRISA-AL1.doc#_ftn1" name="_ftnref1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="mso-special-character: footnote;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 115%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: EN-US; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Na prática essa noção tem sido usada no planejamento dos projetos especiais de assentamento definidos a partir de 2007 pelo presidente da autarquia e pelo ministro do desenvolvimento agrário. A idéia de &lt;span style="mso-bidi-font-style: italic;"&gt;desenvolvimento integrado&lt;/span&gt; tem efetivamente movido setores do INCRA para o foco em ações mais eficientes, eficazes e efetivas naquelas áreas reformadas particularmente extensas. Além da celeridade, essas ações têm primado por um planejamento mais cuidadoso, a simultaneidade de sua execução e a tempestividade em relação às necessidades dos assentados. Entretanto, é importante destacar que, mesmo já influenciando positivamente a implantação de novos assentamentos, a noção de PDI de áreas reformadas carece de uma melhor delimitação no que toca à sua aplicação na política nacional de reforma agrária e necessita de uma normatização adequada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;Nos projetos especiais que foram erigidos como assentamentos únicos, como os projetos MAISA - RN, Harmonia - PE e Bordolândia - MT, a contradição entre Plano de Desenvolvimento de Assentamento (PDA) e PDI não veio à tona. O PDA terminou funcionando como um PDI, ou seja, ganhou uma dimensão geográfica e uma complexidade produtiva muito maior por abarcar área e recursos mais amplos do que os comumente envolvidos em um único assentamento. A necessidade de trabalhar com o PDI também não apareceu com força nas SR’s que conviveram muito tempo com a implantação de PA’s pequenos e significativamente isolados no tempo e no espaço. Em situação bem distinta, a SR-22 precisa lidar com uma área que combina grande extensão e fragmentação em 28 (vinte e oito) PA’s; nesse caso, a inexistência de norma do INCRA instituindo o PDI como privilegiado elemento de planejamento tem causado problemas agudos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;Os esforços para a definição de um modelo produtivo e de gestão para o projeto especial AGRISA-AL acabam, desse modo, sendo dificultados pelo fato de que a normatização não prevê sequer a integração dos PDA’s, o que termina desestimulando a elaboração de uma perspectiva de totalidade dos rumos daquela área reformada no interior do órgão e mesmo entre as empresas de assistência técnica. Os esforços de superar a lacuna normativa por meio da construção de um consenso entre os vários atores em torno da integração informal dos PDA’s esbarram na resistência consciente e inconsciente de setores do órgão, das empresas de ATES e dos movimentos sociais a atuarem à contrapelo das normas, além de serem dificultados por não se poder contar com dotações orçamentárias para as ações necessárias.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;No sentido de contribuir para a solução do impasse no planejamento do projeto especial AGRISA-AL, na presente &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;nota técnica&lt;/i&gt; procuramos detalhar o problema e propor uma alternativa para solucioná-lo. Faremos uma breve justificativa para a normatização pelo INCRA &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;da noção de Plano de Desenvolvimento&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt; &lt;/i&gt;Integrado (PDI) de área reformada, buscando superar o problema particular de planejamento do projeto especial AGRISA-AL por meio de uma proposta de mudança geral no planejamento dos PA’s.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;1. O PDA e seus limites para o desenvolvimento integrado dos PA’s&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;A INSTRUÇÃO NORMATIVA/INCRA/N&lt;sup&gt;o&lt;/sup&gt;29, de 12 de abril de 1999, é uma das primeiras que trata do Plano de Desenvolvimento de Assentamento (PDA) e já o coloca como principal ferramenta de planejamento dos PA’s. A seguinte passagem demonstra como aquele instrumento era concebido: &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;c) &lt;u&gt;o Plano de Desenvolvimento do Assentamento deverá ser elaborado no contexto do Plano Municipal de Desenvolvimento Rural,&lt;/u&gt; quando existir, e deverá conter como principais componentes, os seguintes: [grifo nosso]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;1) levantamento dos recursos naturais; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;2) perfil sócio-econômico dos assentados; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;3) organização espacial, incluindo plano de parcelamento, se for o caso, e a localização coletiva das habitações; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;4) as atividades econômicas agrícolas e não agrícolas a serem desenvolvidas em função da demanda do mercado; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;5) educação, saúde, cultura e lazer; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;6) questões de gênero e juventude; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;7) infra-estrutura básica ( estradas de acesso, água para consumo humano e energia); &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;8) gestão ambiental. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;"&gt;d) os beneficiários poderão selecionar e contratar livremente a assessoria técnica para a elaboração do Plano, recrutada dentre pessoas, empresas ou entidades previamente credenciadas no &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;INCRA ou no Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, quando existir; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;e) &lt;u&gt;o Plano de Desenvolvimento do Assentamento - PDA será elaborado com base em um roteiro técnico de orientações, objeto de Norma de Execução, a ser editada pela Diretoria de Assentamento – DP.&lt;/u&gt; [grifo nosso]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;O PDA deveria, portanto, tratar de maneira integrada de todos os aspectos relevantes do desenvolvimento de um assentamento e já era percebido no contexto do município no qual seria implantado, de onde decorre a preocupação de que levasse em conta o Plano Municipal de Desenvolvimento Rural, quando esse existisse. A NORMA DE EXECUÇÃO/INCRA/N&lt;sup&gt;o&lt;/sup&gt;2, de 28 de março de 2001, cumprindo o disposto na alínea “e” acima citada, detalha a natureza do PDA por meio de um “Roteiro Básico para a Elaboração do Plano de Desenvolvimento Sustentável de Assentamento – PDA”, inscrito no Anexo II. Nesse roteiro fica ainda evidente que o planejamento do assentamento deveria adequar-se ao seu contexto, o qual compreenderia principalmente o município e a microrregião. Isso pode ser exemplificado com a citação de duas alíneas do item “3”, intitulado “&lt;span style="mso-bidi-font-weight: bold;"&gt;Cenário Sócio-econômico e Ambiental da Região de Influência do Projeto de Assentamento”, nas quais se exige que sejam descritas&lt;/span&gt;:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;"&gt;d) [a] situação social, demográfica e fundiária do município e micro-região: população urbana e rural, densidade demográfica, migração, estrutura fundiária, nível educacional e de renda da população, infra-estrutura física e social, etc.;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;"&gt;e) [a] economia do município e microrregião: principais atividades econômicas, principais produtos agropecuários, evolução recente da economia, projetos/programas de desenvolvimento regional e municipal, existência de Conselho e/ou Plano Municipal de Desenvolvimento Rural e Ambiental, etc.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin-bottom: 6.0pt; margin-left: 4.0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 6.0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Para os nossos objetivos, é relevante sublinhar apenas duas dimensões daquele documento: 1) a concepção subjacente à expressão “Região de Influência do Projeto de Assentamento” presente no título do item “3”, que parece superestimar a capacidade de influência de um único assentamento, notadamente quando desconectado de outros e incrustado em um ambiente hostil à agricultura familiar; e 2) a ausência da preocupação em garantir a convergência dos PDA’s de PA’s localizados no mesmo município ou microrregião. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;Essas duas características iram subsistir na normatização do INCRA referente ao PDA até o presente momento, quando começam a demonstrar mais claramente seus efeitos deletérios. O Manual Operacional de ATES em vigor, aprovado pela NORMA DE EXECUÇÃO/INCRA/DD/N.78, de 31 de outubro de 2008, ainda traz as conceituações acima referidas quando traça o roteiro para a confecção do PDA. O item “4” do “Roteiro Básico Para o Plano de Desenvolvimento de Assentamento”, por exemplo, é intitulado “Diagnóstico Relativo à Área de Influência do PA”. O item “4.1”, por sua vez, é intitulado “&lt;span style="mso-bidi-font-weight: bold;"&gt;Contexto Sócio-Econômico e Ambiental da Área de Influência do Projeto de Assentamento”. As propostas deste item repetem quase literalmente as alíneas “d” e “e” do “Roteiro Básico para a Elaboração do Plano de Desenvolvimento Sustentável de Assentamento – PDA”, inserido no citado Anexo II da &lt;/span&gt;NORMA DE EXECUÇÃO/INCRA/N.02, de 28 de março de 2001.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;O primeiro problema apontado, a concepção subjacente à expressão “Região de Influência do Projeto de Assentamento”, parece ser resultado da convergência de uma crença exagerada nos efeitos econômicos, sociais e políticos de um assentamento isolado e de uma perspectiva despolitizada sobre os conflitos de interesses entre atores do mundo rural. Na prática, na maior parte dos casos é a microrregião que influencia o PA e não o contrário, como espera a norma. Quando, por exemplo, se implanta um PA isolado e relativamente pequeno num município da zona canavieira alagoana, esse empreendimento de reengenharia social tem que enfrentar um contexto que lhe é decididamente hostil, pois toda a cultura da microrregião e as instituições que sustentam os sistemas produtivos locais estão tradicionalmente focadas no chamado agronegócio e não na agricultura familiar. Assim, o assentamento tende a ter o seu desenvolvimento embargado por constituir-se numa espécie de corpo estranho no organismo do agronegócio, problema que só pode ser superado com a unidade das forças locais interessadas no desenvolvimento da agricultura familiar e com a intervenção dos governos local, estadual e federal no sentido de garantir a pluralidade dos sistemas produtivos agropecuários. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;A partir da concepção de que o planejamento estatal implica em escolhas técnicas que têm impactos no equilíbrio econômico, social, cultural e político, ou seja, aceitando o pressuposto de que não há escolhas técnicas relevantes em política pública que sejam neutras,&lt;a href="file:///C:/Documents%20and%20Settings/Cliente/Meus%20documentos/incra/Proposta%20de%20nota%20t%C3%A9cnica%20sobre%20o%20planejamento%20AGRISA-AL1.doc#_ftn2" name="_ftnref2" style="mso-footnote-id: ftn2;" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="mso-special-character: footnote;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 115%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: EN-US; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; seria imperioso para o INCRA perceber, sublinhar e normatizar os conflitos que a implantação de assentamentos acarreta e não contorná-los ou dá-los como resolvidos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;Devido ao alto grau de organização das partes em disputa (associação de proprietários rurais e movimentos de trabalhadores sem-terra) e do potencial desagregador dos seus conflitos, o INCRA não tem cometido erro análogo no que se refere à política de obtenção de terras, mas pontos decisivos das normas relativas ao PDA pressupõem uma harmonia entre PA e seu contexto que não é plausível nem empiricamente comprovada, bem como se contrapõe à maior parte da literatura sobre a reforma agrária no Brasil e no mundo. Essa é uma das variáveis que parecem explicar a não existência de uma preocupação de fazer convergir os PDA’s de PA’s do mesmo município, microrregião ou Estado, entre outras possibilidades de articulação de atores que vivem situações análogas e possuem interesses convergentes. O reconhecimento normativo da necessidade de articulação dos PDA’s de uma área reformada, que implicaria na existência de um PDI, pressuporia a constatação dos conflitos entre agricultura familiar e agronegócio (e entre outros atores do mundo rural) e a aceitação de que a primeira precisa desenvolver estratégias econômicas, sociais, culturais e políticas para fortalecer-se diante de adversários mais poderosos e articulados. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;O fato de a obtenção de terra ter permanecido residual e esparsa até meados dos anos 1990, sendo relativamente rara a simultaneidade da implantação de vários assentamentos em uma área reformada, tornava desnecessário o PDI e dificultava a percepção de que este instrumento de planejamento integrado se tornaria imprescindível quando houvesse a obtenção sistemática de grandes áreas com PA’s bastante próximos ou contíguos e numerosos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;2. O Plano de Desenvolvimento Integrado (PDI) de áreas reformadas&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Para justificar a necessidade da aceitação conceitual e da normatização do PDI pelo INCRA &lt;u&gt;nos casos em que uma grande área reforma é constituída por mais de uma PA&lt;/u&gt;, começaremos por sublinhar os ganhos de escala comercial e sinergias produtivas (entre outras) que a articulação dos PDA’s de PA’s geograficamente próximos ou economicamente aproximáveis promete efetivar. No caso do projeto especial de assentamento AGRISA-AL, por exemplo, é evidente que a articulação comercial dos 28 PA’s já implantados diminuiria muito os custos dos insumos agrícolas e fortaleceria as posições de venda das famílias assentadas. Seria possível a racionalização do uso de máquinas agrícolas, armazéns e outros elementos de infra-estrutura. No que se refere à agroindústria, a articulação dos PA’s possibilitaria o aumento das escalas de produção e maior segurança quanto ao fornecimento regular de matérias-primas, o que seria importante para aumentar a rentabilidade e estabelecer uma imagem de eficiência perante o mercado consumidor. Ganhos de escala também poderiam ser conseguidos no que se refere aos investimentos em tecnologia e capacitação de mão-de-obra, bem como no que toca o manejo sustentável dos recursos naturais. Enfim, a articulação dos PA’s por meio de um PDI da área reformada na qual se encontram possibilitaria o uso de uma estratégia parecida com aquele de constituição de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;complexos agroindustriais&lt;/i&gt; que vem sendo usada com sucesso pelo agronegócio no Brasil e no mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;A proposta da formação de complexos agroindustriais baseados na agricultura familiar pressupõe a percepção de que os assentamentos são implantados num espaço competitivo e hostil e são na maior parte das vezes vizinhos de atores muito mais poderosos. Pressupõe também que as tradicionais formas de resistência da agricultura familiar, por demandarem custos humanos muito altos (a superexploração da mão-de-obra do próprio agricultor e de sua família; a aceitação de uma renda familiar muito baixa, incapaz de proporcionar os mínimos sociais; etc.), não são socialmente eficientes e eticamente aceitáveis nas condições contemporâneas, além de inviabilizarem o exercício dos principais direitos do cidadão inscritos na Constituição da República. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Para significar um ganho efetivo no planejamento, o PDI não poderia ser a articulação &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;a posteriori&lt;/i&gt; dos PDA’s. Se assim o fosse, seria apenas um amálgama, um retrato da desconexão, da desintegração. O mais adequado seria o PDI ser construído junto com os PDA’s de uma área reformada, o que pressuporia dois níveis de planejamento e uma distribuição particular do poder deliberativo das famílias assentadas envolvidas no processo de elaboração dos dois documentos. Seria necessário delimitar as dimensões gerais e particulares (as do complexo agroindustrial a ser constituído e as de cada PA) do planejamento, atribuindo as primeiras ao PDI e as últimas aos PDA’s. Isso implicaria, é certo, na renúncia por parte das famílias de cada assentamento em definir todos os aspectos do desenvolvimento do seu PA de maneira independente da opinião das famílias dos outros PA’s,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;renúncia que seria recompensado pelas sinergias advindas da constituição de uma complexo agroindustrial. Tratar-se-ia de uma convivência federativa entre os PA’s de uma área reformada, se nos for permitido usar uma analogia que facilita a explicitação do que estamos a propor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O PDI, por outro lado, não poderia ser usado em todos os casos, restando aos gestores a avaliação de sua pertinência em cada situação. Por exemplo, no caso de assentamento muito grande que não tenha como vizinhos uma quantidade significativa de outros PA’s, a sua complexidade e vastidão de recursos possibilitam que se torne um complexo agroindustrial isoladamente, sendo o PDI, portanto, dispensável, pois se confundiria com o PDA. No caso de um assentamento pequeno e isolado no interior de uma área reformada, situação em que um PDI também não teria sentido, sua integração com assentamentos de outras áreas reformadas poderia ser feita por meio de uma política comercial conjunta, entre outras formas de articulação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Por meio de norma de execução da Diretoria de Desenvolvimento de Projetos de Assentamentos, o PDI deveria ser normatizado no curto prazo como mais um dos instrumentos de planejamento do INCRA para evitar os efeitos deletérios que têm sido percebidos mais claramente nas dificuldades de planejamento integrado do projeto especial AGRISA-AL. Em consonância com o que se disse até aqui, a execução do PDI deverá caber às empresas de ATES que já são responsáveis pela constituição dos PDA’s e seguir os princípios e diretrizes gerais desses documentos, com adaptações pertinentes à sua especificidade de documento integrador de vários PA’s. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Realizada esta normatização e deslocados recursos financeiros para a execução dos PDI’s, acreditamos que os principais obstáculos para planejamento integrado do projeto especial AGRISA-AL estariam superados. As precondições subjetivas (consenso em torno da necessidade de um projeto produtivo integrado) e objetivas (disponibilidade orçamentária) para o sucesso de um planejamento integrado já existem, mas não têm sido efetivadas plenamente devido à ausência de um instrumento de planejamento capaz de realizar suas potencialidades. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 14.0pt; line-height: 115%;"&gt;3. Referências&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;1. BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA. INSTRUÇÃO NORMATIVA/INCRA/N.29, de 12 de abril de 1999.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;2. BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA. NORMA DE EXECUÇÃO/INCRA/N.02, de 28 de março de 2001.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;3. BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA. NORMA DE EXECUÇÃO/INCRA/DD/N.78, de 31 de outubro de 2008.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;4. BRASIL: II PLANO NACIONAL DE REFORMA AGRÁRIA.&amp;nbsp;&lt;i&gt;Paz, Produção e Qualidade de Vida no Meio Rural&lt;/i&gt;. Edição Especial para o Fórum Social Mundial 2005. Brasil: 2005. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 150%;"&gt;5. OLIVEIRA, Francisco de. &lt;b&gt;Elegia para uma Re (li) gião&lt;/b&gt;. RJ: Paz e Terra, 3ª edição, 1981.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="mso-element: footnote-list;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;br clear="all" /&gt;  &lt;hr align="left" size="1" width="33%" /&gt;  &lt;!--[endif]--&gt;  &lt;div id="ftn1" style="mso-element: footnote;"&gt;  &lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///C:/Documents%20and%20Settings/Cliente/Meus%20documentos/incra/Proposta%20de%20nota%20t%C3%A9cnica%20sobre%20o%20planejamento%20AGRISA-AL1.doc#_ftnref1" name="_ftn1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;span style="mso-special-character: footnote;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 10.0pt; line-height: 115%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: EN-US; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt; BRASIL: II PLANO NACIONAL DE REFORMA AGRÁRIA.&amp;nbsp;&lt;i&gt;Paz, Produção e Qualidade de Vida no Meio Rural&lt;/i&gt;. Edição Especial para o Fórum Social Mundial 2005. Brasil: 2005. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn2" style="mso-element: footnote;"&gt;  &lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///C:/Documents%20and%20Settings/Cliente/Meus%20documentos/incra/Proposta%20de%20nota%20t%C3%A9cnica%20sobre%20o%20planejamento%20AGRISA-AL1.doc#_ftnref2" name="_ftn2" style="mso-footnote-id: ftn2;" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;span style="mso-special-character: footnote;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 10.0pt; line-height: 115%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: EN-US; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt; Cf. OLIVEIRA, Francisco de. &lt;b&gt;Elegia para uma Re (li) gião&lt;/b&gt;. RJ: Paz e Terra, 3ª edição, 1981.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-2869122835803524194?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/2869122835803524194/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=2869122835803524194&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/2869122835803524194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/2869122835803524194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2011/02/proposta-de-nota-tecnica.html' title='Proposta de Nota Técnica'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-7891957328005410778</id><published>2010-10-11T10:09:00.000-03:00</published><updated>2010-10-11T10:09:45.935-03:00</updated><title type='text'>Blog do Odilon - Alagoas 24 Horas: Líder em Notícias On-line de Alagoas</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.alagoas24horas.com.br/blog/?vCod=52#3107"&gt;Blog do Odilon - Alagoas 24 Horas: Líder em Notícias On-line de Alagoas&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-7891957328005410778?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.alagoas24horas.com.br/blog/?vCod=52#3107' title='Blog do Odilon - Alagoas 24 Horas: Líder em Notícias On-line de Alagoas'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/7891957328005410778/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=7891957328005410778&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7891957328005410778'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7891957328005410778'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2010/10/blog-do-odilon-alagoas-24-horas-lider.html' title='Blog do Odilon - Alagoas 24 Horas: Líder em Notícias On-line de Alagoas'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-8482128675273070396</id><published>2010-06-30T15:55:00.004-03:00</published><updated>2010-08-19T11:14:15.474-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antonio Filipe Pereira Caetano'/><title type='text'>"Existe uma Alagoas Colonial?"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Existe uma Alagoas Colonial?”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Notas Preliminares sobre os conceitos de uma Conquista Ultramarina&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antonio Filipe Pereira Caetano*&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Universidade Federal de Alagoas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Resumo&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É sabido que a região que hoje conhecemos como Alagoas pertenceu até os idos de 1817 a Capitania de Pernambuco, fazendo-se, assim, integrante ao Império Ultramarino Português. Apesar da expressão “Alagoas” ser recorrentemente utilizada para designar aquele espaço mesmo antes da sua emancipação, alguns historiadores e estudos rejeitam tanto o uso da terminologia como a própria existência de uma região constituída isolada do mundo Pernambucano. Assim, o presente artigo pretende analisar os limites e os problemas nestas interpretações, visando construir um esboço conceitual para definir, enquadrar e delimitar os territórios posteriormente conhecido como Vila das Alagoas (1817).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Palavras-chave: colonização portuguesa; conceitos; Alagoas Colonial.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Abstract&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;It is known that the region known today as Alagoas belonged to the back in 1817 the captaincy of Pernambuco, becoming thus integral to the Portuguese Overseas Empire. Although the term “Alagoas”; is repeatedly used to describe that space even before emancipation, some historians reject both studies and the use of terminology such as the existence of a region made up from the world Pernambucano. Thus, this article analyzes the limits and problems in these interpretations, in order to build a conceptual sketch to define, govern and define the territory later known as the Village of Alagoas (1817).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Key words: Portuguese colonization; concept; colonial Alagoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em um certo momento, Élcio Gusmão Verçosa, trazia a luz uma pergunta, no mínimo, provocativa: existe uma cultura alagoana? Tal questionamento, o educador tentava responder em uma obra homônima de caráter ensaístico, simplório e com traços de inovação[1]. Tentando se afastar de uma história ufanista – o que descaradamente não consegue fazer no final – enxerga a formação cultural desta localidade como algo plural e atemporal, levantando a pista de que uma sociedade se constrói a partir de manifestações próprias, principalmente no que se refere aos elementos culturais. Sem dúvida, uma das maiores argumentações de seu trabalho, mas não chega a ser uma novidade pensando no debate teórico “atual”[2].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Retrocedendo à história balizada pelos Institutos Históricos e Geográficos espalhados pelo Brasil ao longo do século XIX, destacava que a formação da cultura alagoana passava pelo entendimento da fusão dos elementos potiguaras (caetés, em uma linguagem local), da introdução dos descendentes de Zumbi dos Palmares e a das imposições dos proprietários como Cristóvão Linz. No entanto, para o autor, dois momentos consagrariam a construção da identidade cultural regional: o movimento de 1817, que culminou na independência alagoana frente à Capitania de Pernambuco, mas que ao mesmo tempo demonstrou a inexistência de grupos letrados para a condução da política regional; e a efetivação da subsidiária da escola positivista em terras alagoanas, o IHGAL, destacado como o responsável por delinear a civilidade e salvaguardar o pilar documental do Estado. Ah, deve-se se ressaltar também um salutar destaque dado aos partidos políticos que ganhariam escopo profissionalizante, auxiliando na construção do “ser alagoano”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais crítico, erudito e aprofundado, Dirceu Lindoso entra nesse debate qualificando a cultura alagoana com aspectos “anfíbios”, marcada por sedimentações e rupturas[3]. Com um conceito de cultura muito próximo ao de Verçosa, este autor se afasta completamente ao pensar o IHGAL como preservador cultural e não como reprodutor, bem como apresenta a idéia de intelectual “medíocre” formador da imagem do passado alagoano cuja intenção era reforçar o êxito histórico das classes senhoriais em detrimento daqueles que se opunham ao regime estamental. Estes últimos seriam dignos de serem estudados, como os Cabanos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outro ponto que aproxima Verçosa e Lindoso diz respeito à escolha da data de 1817 como divisora de águas na formação do que é ser alagoano. Se para o primeiro, o episódio descortinaria as falhas locais, para o segundo entende-se como o resultado das especificidades do território. Assim, para Lindoso, as peculiaridades da cultura alagoana já estariam explícitas na documentação do período, então recorremos a uma delas para identificar tais elementos. Em 20 de janeiro de 1818, o ouvidor geral das Alagoas, Antonio Batalha escrevia carta ao governador geral da Bahia [D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde de Arcos] sobre o quadro no qual se encontrava a localidade após a “revolução” de Pernambuco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em meio a este corpus, encontra-se cópia de uma proclamação registrada pelo escrivão da comarca, Antonio David de Souza Coutinho, feita pelo Tenente Coronel Antonio José Vitorino Borges, em 15 de dezembro de 1817, após sua fuga da região. Dizia o militar:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[...] a minha ausência de entre vos meus honrados Patriotas não foi desamor, nem tão pouco a intenção de desampara vos, antes pelo contrario; o sincero desejo que tinha de proteger hum Povo tão benemérito como fiel ao grito da razão, e aos interesses da Pátria, cuja causa é também a nossa, mas que se achava desprovida de meios e de forças para propugnar pela sua defesa e segurança, quando desígnios perversos, e malvados, tramavam conjurações atrozes, e procuravam desunir os Cidadãos formando cizânias e partidos opostos a nossa liberdade tão bem começada quão fundada na justiça, e nas Leis da Razão da natureza e das gentes[4].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A afirmação valorizava o “povo alagoano” resgatando o papel heróico dos habitantes na perspectiva de manutenção da união da coroa portuguesa em terras americanas. Interessante é perceber já o uso do termo “pátria”, talvez ainda relacionado ao ideal luso-brasileiro, característico do momento de virada do oitocentos para o novecentos. Com uma identidade ainda híbrida, destaca-se a contraposição daqueles que lutavam para um rompimento das amarras lusitanas [os pernambucanos] e aqueles que visavam à paz. O que o levava a conclusão:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[...] o que agora vos levo para de uma vez estabelecer a ordem, e o sossego publico nesse feliz país; onde direis esperar me qualquer dias tranqüilos, e certos de que acabarmos de uma vez com esses malvados, que pretendem perturbar a nossa paz, e união, e roubar a nossa felicidade que o céu protege, e há de prosperar[5].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enfim, olhar este documento e pensar no contexto produtor daqueles episódios nos faz concluir que a maior especificidade daqueles que viviam no território que hoje conhecemos como Alagoas fora justamente não se entender como integrantes e contemplados com as reivindicações dos amotinados da Capitania de Pernambuco contra a Coroa Portuguesa, ainda em território americano. O que, automaticamente, implica em dizer que os “alagoanos” acreditavam que ao se manterem aliados ao monarca poderiam lhe render benefícios mais interessantes e vantajosos. É maquiavélico pensar dessa forma? Claro que é! Mas ao mesmo tempo não podemos deixar de pensar que a lógica da cultura política do Antigo Regime era permeada de negociação, barganhas e pactos essenciais para a construção da governabilidade[6]. Recurso usado em tempos remotos pelos vitoriosos pernambucanos no pos bellum holandês, como bem destacou Evaldo Cabral de Mello[7].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas, enfim, o fato é que a emancipação da região alagoana conquistada naquele episódio nos traz recorrentemente a dúvida sobre a formação da identidade local delineada naquele momento. Lindoso diz que sim, Verçosa tem mais certeza ainda sobre isso. Porém, se avaliarmos que 1817 é um negócio muito bem tramado por uma elite local, pode nos levar a sugerir a hipótese de que ali se tem o start dessa identidade, mas seus contornos seriam desenhados a posteri, mesmo que usando de elementos ab initio. Ou seja, os elementos alagoanos estariam cravados exatamente quando este lugar não era Alagoas. Ou era? Afinal, o que era o território que hoje conhecemos como Alagoas entre 1500 e 1817? Podemos chamar de Alagoas? Ou isso era Pernambuco, já que a independência só se dá em 1817? Ops, encruzilhada! Momento bom para o historiador!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lindoso e Verçosa são equânimes quando apontam o período colonial como a ocasião em que é moldado o ser alagoano. Então o ser precede o território ou o território precede o ser? Se não existisse Alagoas como existiria o ser alagoano em 1817? Voltemos, então, a questão inicial: existe uma Alagoas colonial? Ops, dúvida para o historiador! O grande problema a resolver! Dificuldade esta que se propõe as linhas que se seguem a partir deste momento. Desta feita, o que se pretende aqui é exatamente esboçar uma resposta para essa pergunta capciosa, que nada é mais do que dar um nome a um lugar. Para isso, é importante ser dito que o caminho que vai ser traçado tem como base o uso da documentação que entrelaça às três localidades em tela: o reino português, a capitania pernambucana e a localidade que hoje conhecemos como Alagoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;São correspondências, cartas, requerimentos, enfim, uma gama de vestígios que revelam o cotidiano local e, mais do que isso, descortinam como o local se denominava e era designado pelos outros. O uso da documentação do Arquivo Histórico Ultramarino não sei se é o melhor caminho para responder a esta pergunta, mas, sem dúvida, o se debruçar sobre estes corpus documental é o que se tem para o dia, para o momento... um vestígio do passado, que como nos ensina, Gizburgo, podem revelar sinais de um paradigma indiciário[8]. No entanto, antes de recorrer a ela, é necessário fazer um delineamento teórico e conceitual, aparar as arestas e demonstrar o que nos entendemos por América Portuguesa e, consequentemente, Alagoas Colonial.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um conceito, uma palavra, um lugar...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Reza o bom funcionamento da lingüística que toda palavra/signo é formada por um significante e um significado. O primeiro nos remete a idéia de como este signo é escrito ou falado, enquanto o segundo nos transporta para a concretização do objeto, ou seja, a representação do conteúdo, de uma idéia. De uma forma simplória, podemos dizer que quando escrevemos ou falamos açúcar identificamos a forma usada pela língua portuguesa para corporificar linguisticamente esta palavra, sendo este seu significante; porém, quando olhamos ou escutamos esta palavra e a associamos aqueles grãozinhos brancos, refinados em um usina e usados para adocicar a vida e as coisas, temos seu significado, que permanece intacto mesmo que alterássemos o seu significante para sugar, em inglês.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isto implica dizer que toda palavra expressa uma idéia, um significado, um sentido; mas podemos falar, então, que todo signo nos anunciaria um conceito? Para Reihnhart Koselleck, a resposta é negativa! Tentando construir uma história dos conceitos, este historiador alemão nos instiga primeiramente a separar palavra e conceito, apontados como elementos distintos[9]. O que atribui uma palavra a se constituir como conceito seria exatamente esta possuir sentidos que interessam, resultado de um entendimento reflexivo e de uma teorização historicamente construída. Uma palavra, por si só, expressaria somente um sentido, um conteúdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outro elemento que define um conceito remete-se aos critérios de sua seleção. Dessa forma,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todo conceito articula-se a um certo contexto sobre o qual também pode atuar, tornando-o compreensível. Pode-se entender esta formulação tornando-o mais instigante. [...] O que significa dizer que todo conceito está imbricado em um emaranhado de perguntas e respostas, textos/contextos[10].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, a relação entre texto e contextos também seria essencial para demarcar a peculiaridade de um determinado conceito. Como o conceito reflete um contexto específico em uma determinada época, logicamente ele é singular, exclusivo para aquele determinado fato. No entanto, para Koselleck, mesmo que o significante permaneça inalterado, circunstâncias podem alterar o significado daquele conceito conforme a época que estamos nos remetendo. Para o nosso caso, por exemplo, usar o conceito de nobreza para identificar aqueles detentores de poder no Antigo Regime, deve ser balizado para os dois lados do Atlântico, já que a nobreza do reino, costumeiramente, estava associada ao grupo que hereditariamente possui ascendência nobre, que atravessa gerações e, por conta desta característica, tinham direitos à aquisição de benefícios; cruzando o mar, a nobreza das conquistas, apesar da permanência de seu significante, explicitaria o grupo ligado à obtenção de terra, proprietários de uma farta escravaria, ocupantes de cargos administrativos e melhorados de condição se fossem oriundos dos “primeiros conquistadores do território”[11]. Ou seja, com uma mesma palavra podemos forjar novos conceitos, atribuindo outros sentidos históricos e interpretações contextuais aos signos. Como mesmo o autor remonta: a palavra é a mesma, mas ganhou outro valor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apropriando-se desta discussão e tentando buscar um denominador comum, pensando “Alagoas” como uma palavra nos remeteria a um Estado, localizado no Nordeste, marcado por sua economia açucareira e por suas belíssimas praias. Fazendo este mesmo esforço no que tange ao enquadramento como conceito, ela sozinha, não expressaria resultado algum. “Alagoas” como conceito não nos remete a nenhum “fato indicador”, nem mesmo único, reflexo de uma situação. É pueril! Apenas nos conectando ao território cortado por inúmeras lagoas, demarcando uma característica que seria usada para denominar e/ou nomear a localidade: “a terra entre as lagoas”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diferentemente acontece quando recorremos ao signo “colônia” de maneira isolada, o que nos possibilita o enquadramento da expressão como um conceito. Colônia ou colonização nos transporta para um fato específico que percorre a história da humanidade. Apesar estarmos preocupados com o signo na conjuntura moderna, o mesmo significante pode ser verificado no mundo antigo e na época contemporânea. Evidentemente que a acepção modifica conforme o contexto histórico, o que implica em dizer que a colonização dos romanos sobre os gregos, pouco ou nada possui de semelhante ao imposto pelos lusitanos para fazer valer suas intenções mercantilistas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No caso brasílico, a conceito de colônia ganhou fôlego não só na historiografia tradicional do século XIX demarcada por Francisco Adolfo Varnhagem, como também pelos autores do início do século XX que tentaram imprimir seus olhares sobre a realidade daquele momento culpando o mundo colonial como o grande responsável pelas mazelas do país contemporâneo[12]. Neste caso, o antagonismo colônia versus metrópole fazia jus à sobreposição do último sobre o primeiro, e da extrema dependência política e econômica dos “brasileiros” em relação aos lusitanos. Assim, se forjava um Estado centralizado e um “sentido da colonização” voltado única e exclusivamente para o atendimento dos anseios econômicos de Portugal, ou seja, o escoamento da produção açucareira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Logo, o conceito de colônia usado desta maneira implicaria, automaticamente, na inexistência de uma vivência própria daqueles que estavam no outro lado do Atlântico, e mais do que isso demonstrava que os interesses locais eram deixados de fora em detrimento de um anseio maior e centralizador. Usando de uma historiografia renovadora, sobretudo construída por “brasilianista”, uma nova visão tem sido descortinada nessa relação entre Portugal e suas terras no Atlântico[13]. Opta-se, neste caso, pela substituição do conceito de colônia pela expressão conquista ou domínio, desvendando por traz uma intenção de suprimir as relações unilaterais e demarcando a idéia de um império vasto, hiper-conectado, diferenciado e ajustado conforme a lógica de cada uma das localidades.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, a idéia de império em detrimento a de colônia apesar de tentar resolver a equação mal resolvida nos dois lados do Atlântico, também pode pender para uma supervalorização dos elementos ultramarinos de maneira totalmente autônoma e sem relação alguma com o reino. Por conta disso, em nosso entendimento pensar o conceito de colônia e seus derivados demanda uma critica constante, não só fugindo da relação enrijecida do colonizadorversus colonizados/colonos – totalmente démodé – mas também reconhecendo os interesses mercantilistas e exploradores da política-econômica metropolitana que demandam a imposição de padrões de comportamentos, de anseios financeiros e atitudes políticas. No entanto, não se pode perder de vista que nessa relação de “estica e puxa” a negociação é o elemento moderador tanto para a garantia da autoridade política como dos interesses daqueles que cruzam o Atlântico para construir uma nova vida nos Trópicos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E o que falar então de “Alagoas Colonial”? Em primeiro lugar devemos pensar que esta se configura nada mais do que uma expressão. Se formos utilizar a referência teórica exposta por Koselleck, a mesma não pode ser entendida como um conceito, pelas questões já referendadas acima; ao pensarmos como uma palavra, não tem sentido, por sua própria natureza lingüística. Por conta disso, o uso desta expressão remete-se unicamente a fusão de dois signos que remetem a um significado e um significante. Ou seja, por mais que soubéssemos que esta não era utilizada no período vigente, o termo “Alagoas Colonial” pode ser pensado como uma expressão que traduz o período alagoano entre 1500 a 1822. Neste caso até dispensamos o 1817! Evidentemente que isso é um risco, mas preferimos ponderar seu uso como uma convenção, da mesma maneira que indiscriminadamente se usa o termoBrasil para qualificar o território existente neste mesmo corte cronológico, quando na verdade durante um bom tempoBrasil era sinônimo apenas de Pernambuco, Rio de Janeiro e Bahia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, por mais que apontemos Alagoas Colonial com uma expressão no sentido macro, uma análise das expressões locais também deve ser levada em consideração. Assim, o que estamos querendo dizer é mesmo que usássemos este termo para determinar um território em uma dada época, seria fulcral ver nos papéis como eles se denominavam e como Portugal e Pernambuco nomeavam estas conquistas. É exatamente ai que começa a confusão, e vamos à ela..&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Várias Conquistas imiscuídas a Capitania de Pernambuco...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando D. João III [o piedoso], em 10 de março de 1534, instaura a política de distribuição de capitanias hereditárias visando um melhor controle do território para afastar a presença de monarquias inimigas do território americano, este concedeu a Duarte Coelho os seguintes chãos:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sessenta léguas de terra [...] as quais começarão no rio São Francisco [...] e acabarão no rio que cerca em redondo toda a Ilha de Itamaracá, ao qual ora novamente ponho nome rio [de] Santa Cruz [...] e ficará com o dito Duarte Coelho a terra da banda Sul, e o dito rio onde Cristóvão Jacques fez a primeira casa de minha feitoria e a cinqüenta passos da dita casa da feitoria pelo rio adentro ao longo da praia se porá um padrão de minhas armas, e do dito padrão se lançará uma linha ao Oeste pela terra firme adentro e a terra da dita linha para o Sul será do dito Duarte Coelho, e do dito padrão pelo rio abaixo para a barra e mar, ficará assim mesmo com ele Duarte Coelho a metade do dito rio de Santa Cruz para a banda do Sul e assim entrará na dita terra e demarcação dela todo o dito Rio de São Francisco e a metade do Rio de Santa Cruz pela demarcação sobredita, pelos quais rios ele dará serventia aos vizinhos dele, de uma parte e da outra [...][14]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, a configuração do território da Capitania de Pernambuco era demarcada de um lado pelo rio Santa Cruz e do outro pelo Rio São Francisco, denotando a idéia de que a ocupação teria como referência às margens dos rios caudalosos. No entanto, se para a maioria das cartas de sesmarias régias concedidas para este momento o fracasso fez parte da experiência, no caso das terras doadas a Duarte Coelho não se pode falar a mesma coisa. O sucesso da ocupação fez valer as determinações endereçadas a um capitão donatário que incluíam a composição de uma estrutura administrativa (ouvidor, tabeliães), desenvolver o sistema jurídico (punição de crimes), aplicar a defesa do território, organizar as eleições, desenvolver a economia (navegação, impostos e monopólios) e, o mais importante, dar estatuto de vila a qualquer povoação da capitania, tendo cada uma por termo três léguas sertão adentro[15].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por isso, a grande particularidade destes primeiros tempos de conquista refere-se à configuração da capitania de Pernambuco de cunho privado, o que, de uma certa maneira, possibilitava uma relativa autonomia ao capitão-donatário guardando dentro de sua administração elementos de cunho público e privado. Diferente do que aconteceu em outras regiões brasílicas quando se instituiu a falência da experiência das capitanias hereditárias, levando a coroa portuguesa a uma redistribuição de sesmarias e um controle administrativo sobre estas novas regiões. O caráter privado fica latente ao perceber a listagem dos governadores pernambucanos até a invasão holandesa em 1630, se denotando a presença da família Duarte e Albuquerque instituindo um padrão de colonização e ocupação do território[16].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Verticalizando a discussão, nesta primeira etapa (1534-1630), a região “alagoana” seria identificada em seu principio pela menção ao Rio de São Francisco, marco de um dos espaços ocupacionais do território. Todavia, a delimitação do ambiente vai ser resultado da política de controle das conquistas, da ampliação dos tentáculos físicos e do desenvolvimento da economia açucareira implementada por Duarte Coelho. Porém, não se exclui, antes disso, as experiências exploratórias sobre a região como ocorridas em Barra Grande (Maragogi), as expedições de Gonçalo Coelho (1512) e a contenção dos franceses por Gaspar de Lemos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, o primeiro passo para o desenho dos chãos “alagoanos” deu-se com a fundação de Penedo, em 1570. Dirceu Lindoso considerou esse território como uma savana sertaneja às margens do rio São Francisco[17]. Devido a uma grande presença indígena se desenvolveria ali uma colonização sertaneja, com poucas plantações, elevada criação bovina e uma forte presença religiosa. Logo, o espaço de Penedo demarcou a introdução do sertão e o aumento da exploração do extremo sul da Capitania de Pernambuco, ou seja, os limites mais intensos que percorreriam o rio São Francisco. Sua elevação a condição de vila somente se deu em 1636, sob o controle flamengo, dotando-a de mais liberdade na gestão administrativa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fruto de uma estratégia de defesa militar pernambucana, Cristóvão Linz receberia carta de sesmaria, em 1575, numa zona permeada por quatro rios [Manguaba, Camarajibe, Santo Antonio Grande e Tatuamunha] dando origem a ocupação de Porto Calvo. A concessão da terra tinha por intenção a criação de uma espécie de cordão de isolamento dos índios selvagens que permeavam a banda sul da capitania, conhecimento adquirido após o massacre dos Caetés na região de Coruripe, em 1556. Desta feita, o território da Nossa Senhora de Apresentação de Porto Calvo se desenhou com contornos muito semelhantes aqueles encontrados em Olinda, sede da capitania, a saber: grande concentração de escravos, produção e comercialização da economia açucareira e desenvolvimento de um grupo senhorial que disputava o poder local. Interessante é perceber que Porto Calvo eleva-se também a condição de vila no mesmo ano de Penedo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por fim, a composição territorial é encerrada com a formação do pólo lagunar entre Mundaú e Manguaba. Segundo Josemary Ferrrare existe uma controversa sobre a real ocupação daquelas localidades de acordo com a duplicidade de distribuição de sesmarias, já que Diogo Soares da Cunha e Diogo de Melo e Castro teriam recebido as mesmas faixas de terras em 1591[18]. No entanto, o primeiro que teria de fato ocupado o território em 1614 construiu um povoamento com sede em Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul. Por sua posição centralizada, as lagoas do norte e do sul canalizavam a produção das outras duas localidades acima citadas, contribuindo, também para estabelecer as relações entre elas. Além disso, também havia se transformado em vila no ano de 1636.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diante deste quadro, podemos dizer que entre 1534 e 1630, a expressão Alagoas remete-se exclusivamente a esta última vila central e lagunar, porém um território vasto que se estendia desde a atual Santa Luzia do Norte até Marechal Deodoro, ou se formos mais ousados, São Miguel dos Campos. A expressão para abrigar todo o território não era percebido. Muito pelo contrário! Mesmo com uma parca documentação para este momento, percebe-se o uso das três localidades Penedo, Porto Calvo e Santa Luzia como termos para definir localidades que faziam parte de uma mesma faixa de terra, a saber, Capitania de Pernambuco. Logo, isto implica em dizer que as regiões eram vistas como independentes e autônomas entre si, devendo obediência ao governador e/ou capitão-donatário da região pernambucana.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O período subseqüente a este, 1630-1654, que coincide com o momento da ocupação batava da capitania de Pernambuco o quadro de nomeação do território permanece inalterado. No entanto, há de se ressaltar que, com base em Moreno Brandão, as três vilas foram ocupadas em momentos distintos, demonstrando a compreensão de autonomia entre elas; mas, por outro lado, grande parte daqueles territórios se tornavam um refúgio propício para os pernambucanos assolados pelos holandeses[19].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O fim do período holandês trouxe a necessidade de uma redefinição territorial e a abertura de novos espaços para negociação. Porém, a inexistência de um centro administrativo e o poder dos proprietários de terras que permaneceram em momento de luta contra os batavos deixariam marcas sublinhares da composição política-econômica local. Por outro lado, a preocupação em ocupar efetivamente Maceió e desenvolver sua proteção fora colocado como ponto de pauta no governo de Fernando de Souza Coutinho [1670-1674]. Outro problema latente do território remetia-se a grande presença de formação quilombola, transformando-se em questão prioritária na gestão da capitania. O crescimento da economia açucareira e a conseqüente entrada exacerbada de africanos contribui para desencadeamento de resistências nas Matas regionais. Por conta disso, talvez se explique a falta de percepção ou expressão do território no momento pos bellum.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contudo, foi justamente nesta conjuntura que a documentação do Conselho Ultramarino nos descortina uma visão, no mínimo curiosa, para aquelas localidades. No primeiro documento da coleção especificamente sobre Alagoas referente a uma Informação prestada sobre os serviços de um capitão, em 1680, assim percebemos:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O capitão Miguel da Cunha Leite conta que tem servido a Vossa Alteza na Capitania das Alagoas de Juiz dos Órfãos, Escrivão da Câmara, Juiz Ordinário, Capitão de Infantaria da Ordenança desde o ano de 1670 até o de 1674 em que veio para o reino com licença, havendo-se acabado em o ano de 1688 na entrada que fez ao Palmar [...][20].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O relato é interessante porque demonstra um súdito português que atuava na manutenção e crescimento da conquista, e ao contrário de muitos documentos dessa natureza, não solicita absolutamente nada ao monarca, apenas informando suas atividades. Também pudera, Miguel Leite possui nada mais, nada menos do que quatro cargos que envolviam arrecadação de riquezas, defesa e atuação administrativa. O que nos interessa, neste caso, é a forma que o próprio Conselho Ultramarino usa para se referir ao local onde o capitão atuava: Capitania das Alagoas. Situação até nova e inédita em documentos. Sabemos, evidentemente, que seria uma exceção, uma demonstração isolada, porém não deixa de ser singular detectar que o olhar administrativo já via aquelas territórios distintos como fazendo parte de uma única região: a Alagoas. Mesmo que os próprios habitantes ainda não enxergassem dessa forma, já que os documentos subseqüentes a estes revelam o uso das expressões “vila de Porto Calvo” “Vila de São Francisco” ou “Vila das Alagoas”, esta última se referindo a Santa Maria Madalena. Mais sui generis ainda se torna quando pensamos que a criação da comarca somente se daria na centúria seguinte. Vejamos o impacto desta alteração.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma Comarca, uma delimitação, uma identificação...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em 26 de Maio de 1712, os membros da câmara da Vila de Santa Maria Magdalena Alagoa do Sul escrevia carta a D. Pedro II agradecendo o bom cuidar de seus vassalos. Nas linhas, apontavam:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não há muitos anos que esta Câmara da Vila das Alagoas representou a Vossa Majestade o quanto convinha ao Serviço Real, e a conservação dos seus moradores, que houvessem nela um Ministro de vara branca que ocupasse o cargo de Ouvidor Geral com jurisdição na Vila de Porto Calvo, e no Rio de São Francisco, e sem demora na resolução, foi Vossa Majestade logo servido responder a esta câmara que mandaria um Ministro de toda a suposição que administrasse justiça [...][21]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E complementavam:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[...] foi Vossa Majestade servido, pela sua real grandeza (sem mais atenção do que olhar pelo bem e aumento de seus vassalos) eleger ao Dr. Joseph da Cunha Soares para que viesse exercer nesta Vila o cargo de Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca com jurisdição na Vila do Porto Calvo, e do Rio de São Francisco [...][22]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esses trechos corporificam um dos momentos mais importantes para o entendimento do “mundo colonial alagoano”: a criação da comarca. Explicitamente nele percebemos os súditos da região central entendendo-se como fazendo parte de uma nova realidade, reflexo de anseios antigos daquelas conquistas. Segundo os moradores da “Vila das Alagoas” a opção por esta localidade abrigar a sede seria a mais sensata, já que Porto Calvo encontrava-se muito distante da Vila do Rio São Francisco, considerada uma das mais perigosas e tumultuosas entre elas. Além disso, em Santa Maria Magdalena já havia uma estrutura de cargos que ajudava na composição da comarca [almotaçaria e escrivão dos órfãos]. No entanto, há de ser ressaltado, que este não foi um consenso entre aquelas vilas, pois três anos antes, os moradores da Vila de Porto Calvo e Rio São Francisco também tinham escrito ao Conselho solicitando a criação dos cargos de Ouvidor-geral exclusivamente naquelas localidades[23]. Acreditamos que tal fato demonstra o quanto estas conquistas ainda se viam de forma isolada e com pouca conexão entre elas a não ser o vínculo com a Capitania de Pernambuco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De qualquer forma, a criação da comarca das Alagoas, oficialmente se procedeu em 6 de outubro de 1706 transformando “Vila da Alagoa do Sul” como sua cabeça e Vila de Porto Calvo e Vila de São Francisco [Penedo] como termos da comarca. Segundo Isabel Loureiro, apesar da criação da comarca ter ocorrido nesta data, os entreveros na Capitania de Pernambuco entre senhores de engenho e comerciantes [evento que ficou conhecido como Guerra dos Mascates, 1710-1711] acabou adiando a concretização efetiva do funcionamento do novo órgão administrativo[24]. Situação que pode ser constatada facilmente na documentação, pois a referência a mesma só começou a acontecer a partir de 1712, com as fontes acima citadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, a instituição de uma Comarca remete a uma delimitação judiciária nos espaços ultramarinos, já que o Ouvidor tem as funções tanto do cotidiano jurídico, passando pelo controle dos ânimos/tumultos até a administração do político[25]. Na prática ele funcionaria como uma espécie de governador de capitania quando as localidades não possuíam este ofício, para aquelas que já a tinha o mesmo ficaria restrito ao mundo legal. No que tange a comarca das Alagoas, o que se percebe é que ao mesmo tempo em que a nova administração institui um personagem [muitas vezes persona non gratta aos súditos locais] com poderes importantes sobre moradores, também institui um novo olhar sobre o território, uma nova nomenclatura, ou seja, uma nova forma de denominar a parte sul da Capitania de Pernambuco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Voltemos então à documentação para compreender um pouco essa tessitura de designações...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na carta acima apontada, percebe-se o uso das vilas ainda como autônomas cada uma se remetendo a sua realidade, normalmente atrelada a expressão “Capitania de Pernambuco” no ato da redação das linhas. No entanto, um elemento já se percebe a partir do inicio do Setecentos, a adoção do termo “Vila das Alagoas” em substituição a Santa Maria Magadalena Alagoa do Sul. Essa mudança seria fulcral para designação posterior do que viria a ser este território, momento em que essa expressão passaria de fato a abranger todas as vilas daquelas bandas. E mais do que isso, sendo naturalmente usada tanto pelo corpus administrativo como por aqueles que viviam naquela localidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, entre 1706 [ou se preferimos, 1712] até 1817 há uma intensa oscilação na maneira de denominar a região, dependendo daqueles que escrevem o documento, informando ou fazendo solicitações. Por exemplo, Simião de Araújo, queria uma provisão para o ofício de escrivão, escreveu a coroa portuguesa, em 21 de Agosto de 1732, em busca do atendimento de seus anseios, e assim se identifica:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz Simião de Araújo morador na vila de Penedo, Comarca da vila de Alagoas, que a serventia do oficio de Escrivão da Ouvidoria da mesma Comarca se acha vaga e nele suplicante concorrem todos os requisitos necessários para bem poder servir o dito oficio[26].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mesma situação acontece com Miguel de Amorim, que solicitava o pagamento pelo serviço prestado em uma Igreja em 26 de Outubro de 1736:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz Miguel de Amorim morador no termo da Vila do Porto Calvo que pela suplica que a Câmara e vigário da dita Vila fez a Vossa Majestade foi servido fazer mercê a Matriz dela de um conto de réis para se fazer a Capela mor [...][27]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ou, para encerrar esse grupo, um requerimento de José Pereira de Castro, escrito já na virada do século, em 18 de janeiro de 1800:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz José Pereira de Castro, que ele foi nomeado pelo Governador do Estado de Pernambuco, nomeado Mestre de Campo do Terço auxiliar da Villa das Alagoas como foi ver da Patente inclusa, e por que precisa que Vossa Alteza Real lhe confirme[28].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos três casos percebe-se o uso da expressão vila identificando o lugar de origem, o que implica em dizer que estes indivíduos se identificavam pertencentes aquelas localidades, ou seja, antes de pertenceram a uma Comarca, se inseriam no espaço a partir da acepção mais local ou de procedência. A relação vila/comarca fica evidente no texto de Simião de Araújo, que insere uma na outra, primeiro se remete da onde vem [vila de Penedo] e depois aponta a onde está essa vila [Comarca das Alagoas]. Esta seria uma forma recorrente daqueles que viviam nas conquistas “alagoanas” se expressarem junto aos órgãos administrativos. O grande perigo desta situação é a percepção de quando o termo “Vila das Alagoas” se refere à região somente entre os rios Munduá/Manguabá e quando a mesma expressão remete-se a quase toda região que hoje compreendemos como Alagoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Situação percebida, em uma certidão feita pelo escrivão Manuel de Santiago Nogueira, em 23 de Setembro de 1744:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Manoel de Santiago Nogueira escrivão da Câmara nesta vila de Santa Maria Magdalena da Lagoa do Sul e seu Termo distrito da Capitania de Pernambuco por Sua Majestade que Deus Guarde Etc. Certifico que a folhas cento e trinta do livro que serve de Registro das ordens neste Senado fica Registrada há nova ordem de Sua Majestade de vinte de Março deste presente ano que trata sobre as sesmarias e posse o Referido na verdade do dito Livro a que me Reporto é que passei a presente por duas vias por mim assinadas a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Governador e Capitão General de Pernambuco nesta Villa das Alagoas aos vinte e três de Setembro de 1744 anos[29].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aqui podemos detectar o uso das três expressões de uma mesma localidade “vila de Santa Maria Magdalena da Lagoa do Sul”, “Vila das Alagoas” e “Capitania de Pernambuco”. A primeira para informação do lugar de atuação do oficial, a segunda fazendo menção a quem pertencia àquela vila e a terceira já sinalizando a compreensão de um espaço que abrigaria todas as localidades [Alagoas, Porto Calvo e Penedo]. Neste caso, podemos sugerir uma hipótese de que a partir de 1712, o uso da expressão “Vila das Alagoas” começava a se referir ao território inteiro [comarca e seus termos], quando esse significado não procedia, ela viria associada diretamente com o uso dos termos das outras vilas e para se remeter a Vila das Alagoas ou se retornava a expressão de Santa Maria Magdalena como também se inseria a palavra “sul” para diferenciar da terminologia de toda a comarca.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tal costume fica translúcido quando olhamos a documentação dos próprios gestores coloniais naquelas conquistas. Em consulta do Conselho Ultramarino, de 4 de abril de 1724, assim se remete ao espaço:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vendo-se neste conselho a carta inclusa de 4 de Novembro do ano passado em que o ouvidor geral da Villa das Alagoas Manoel de Almeida Matoso dá conta a Vossa Majestade da causa que o obrigou a prender a Seu antecessor João Vilela do Amaral[...][30]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ou ainda pensando em um caso mais específico, o requerimento do próprio ouvidor Antonio Rabelo Leite, em 21 de fevereiro de 1733:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz o Doutor Antonio Rabelo Leite, Ouvidor da Vila das Alagoas, por seu procurador, que Vossa Majestade foi servido despachar para Ouvidor da dita Vila ao Bacharel João Rodriguez da Silva Ayala e para efeito de Se tirar Residência ao Suplicante Necessita que Se lhe passe ordem [...][31]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enfim, nos dois documentos, oriundos da estrutura administrativa oficial, o uso da expressão “Vila das Alagoas” já possuía o significado de todo o território que compreendia as três vilas, demarcando a inserção jurídica e política que o espaço adquiriu a partir de 1706. Isso também pode ser percebido, em caso de documentos de outras regiões do “território alagoano”, que ainda não tinham ganho o estatuto de vila, ainda permanecendo como freguesia ou paróquia. Caso exemplar encontra-se no documento de um militar, em 6 de julho de 1740, quando assim se expressa: Diz o capitão mor reformado João Marinho Falcão morador na freguesia de São Miguel da Vila das Alagoas que ele serviu a Vossa Majestade com toda a satisfação no posto de Capitão mor da dita Freguesia [...][32]. Logo, neste caso, o uso do termo Vila das Alagoas remeter-se-ia exclusivamente a composição espacial que abrigava tanto as três vilas como outras freguesias que faziam parte daquela região. Sem dúvida, há uma complexificação do uso desta expressão que acabou transformando um termo que nomeava uma administração jurídico-político para uma expressão que dava contornos, delineamentos e, nome, a um determinado lugar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por sua natureza de dependência administrativa à capitania de Pernambuco, o termo “Vila das Alagoas” acabou por se consolidar e se popularizar na documentação como o recurso interessante de expressão de identidade, pelo menos geográfica, já que em relação aos súditos ainda não temos bagagem e dados suficientes para afirmar tal suposição. Entretanto, levando em consideração que a organização espacial da América portuguesa era formada por Capitanias, compostas por vilas e, por conseguinte, estas distribuídas em freguesias e paróquias, a convenção “Vila das Alagoas”, neste caso, expressa uma unidade territorial, mas não uma independência, nem muito menos a identidade de um povo, talvez, quem sabe, um incentivo para o mesmo!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para complicar ainda mais toda esta historia de denominações, vamos dar uma olhada no documento 21 e que se desmembra no documento 22 da coleção do Arquivo Histórico Ultramarino sobre Alagoas. O mesmo se refere a uma consulta feita pelo próprio Conselho Ultramarino ao rei sobre a substituição do ouvidor João Vilela do Amaral por Manuel de Almeida Matoso, circunstância permeada de acusações, intrigas e disputa pelo poder. Formada por diversas cartas entre gestores, o documento descortina a complicada relação entre capitania/vila. Quando o governador de Pernambuco [Manoel de Souza Tavares] escreveu ao ouvidor das Alagoas, em 6 de abril de 1720, assim se expressou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Senhor Doutor Ouvidor geral da Villa das Alagoas que esta vossa mercê fazendo nessa Capitania das Alagoas do Porto Calvo, e Rio de Sam Francisco, nomeações e provimentos de ofícios, não devendo vossa mercê por nenhum título intrometer se em semelhante procedimento porquanto El Rei meu Senhor, só ao Governador de Pernambuco concede jurisdição para prover geralmente todos os ofícios de justiça e fazendo destas capitanias e não a nenhum Ministro que venha servir nelas[33].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em outra carta, do próprio João Vilela do Amaral, neste conjunto, no mesmo dia, aponta:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Senhor Governador de Pernambuco Manoel de Souza Tavares, nos deu conta em carta do mês de julho deste ano da qual vossa mercê esta provendo todos os ofícios de justiça das Vilas dessa Capitania das Alagoas, não lhe tocando, escrevendo outros danos, vendo o resoluto que cobra os novos direitos que é estilo pagar nessa dos ditos provimentos a fazenda Real e que querendo evitar este procedimentos[...][34]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, por fim, os membros da câmara de Porto Calvo, suplicavam:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[...] todos juntos clamam, e pedem humildemente aos pés de Vossa Majestade que como Rei Católico, e Príncipe piedoso lhes comuniquem o remédio de que necessitam suas aflições e que nesta vila se tire a residência deste Ministro donde os molestados deporão suas queixas por quanto os moradores e capitania das Alagoas, cabeça da comarca que dista desta vinte e cinco léguas não tem cabal notícia de que se queixam os moradores deste lugar[...][35]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nas três circunstâncias, o termo Capitania das Alagoas foi usado para nomear o espaço alagoano de uma forma ampla! No primeiro caso, a impressão que se dá é que o governador de Pernambuco transformava as três localidades em uma capitania só; no segundo pedido o ouvidor associa vila e capitania como termos distintos, separados, como se a Vila das Alagoas estivesse presente na Capitania das Alagoas, ou seja, a primeira referia-se a Santa Maria Magdalena; e por fim, a câmara de Porto Calvo denomina a Vila das Alagoas como Capitania das Alagoas, já que associa a expressão cabeça da comarca. Sem dúvida é um cenário rico e instigante para interpretação, dentre as várias possibilidades de análise, sugerimos, quem sabe, a consolidação para os grupos ligados ao poder (pelo menos), bem como aqueles entrelaçados na malha administrativa régia no ultramar, a plena consciência de estar se tratando de uma região com características próprias, contornos específicos e um cotidiano político, econômico e social, nem tão diferente, mas um pouco distinto da Capitania de Pernambuco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ainda nesses casos não percebemos o uso da expressão capitania atrelada ao estatuto de independência, porém nos leva a uma tentadora concepção destes contornos físicos se desenhando. Assim, afirmamos mais uma vez que mesmo que a autonomia não seja o resultado da criação da comarca, a instituição deste órgão muito mais do que instituir um regime jurídico-administrativo na região também fora a grande responsável por mapear fisicamente suas três vilas, constituindo-a de um desenho bem diferente da Capitania de Pernambuco, por mais que ainda permanecesse atrelada a ela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A independência conquistada em 1817, concordando com Lindoso, foi uma resposta imediata a uma consolidação física territorial ilustrada em 1706/1712, como também fruto de uma elite local que buscava um aparelho estatal livre da intervenção pernambucana, ampliando as possibilidades de aquisição de cargos e benefícios. Mas, não foi só isso! Acreditamos que 1817, também sinalizou uma posição, uma tomada de lado e adoção de um projeto. Este que pregava o afastamento de Pernambuco [que visava à emancipação frente ao reino] e a aproximação e manutenção da fidelidade ao monarca lusitano “tropicalizado” no Rio de Janeiro. Em resposta, a comarca das Alagoas passava a ganhar o estatuto de Província, autônoma e submissa diretamente a corte carioca/metrópole interiorizada[36]. Desta forma, todos os 61 documentos da coleção referente a Alagoas do período posterior a insurreição pernambucana lançam as expressões Província das Alagoas, Junta Provincial das Alagoas ou Ouvidor Geral das Alagoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Interessante assinalar que por mais que a partir deste momento o uso da expressão Alagoas (atrelada ou não a Província) possa ser usada de maneira confortável, não acreditamos que anteriormente a isso também não poderia ser feito. O cuidado que se deveria tomar era o da associação do termo Alagoas ao de independência, ai sim extremamente anacrônico! Por mais que usemos Vila das Alagoas entre 1706/1712-1817 temos sempre que sinalizar a submissão desta região à Capitania de Pernambuco. Pois, acreditamos que ainda nesse período seus moradores, e consequentemente, os súditos da coroa portuguesa ainda se viam como pertencentes à Vila de Porto Calvo, Vila de Penedo [ou São Francisco] ou Vila de Santa Maria Magdalena Alagoa do Sul. O problema de toda essa história é a identificação dos súditos como pertencentes a esta região, ou seja, a diminuição do uso dos termos de vila para a utilização de Província. O que implicaria dizer que seus habitantes antes de se denominarem “Porto Calvenses” se entenderiam como “alagoanos”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sabemos se isso se funda no ato de 1817, muito pouco provável, até pelo jogo político e clientelístico que envolve tal feito. De qualquer forma, essa seria a grande função do aparelho estatal forjado neste momento: a construção de uma identidade alagoana, ou mais do que isso, a consolidação do desenho político-administrativo e geográfico feito em 1706 para o reconhecimento daqueles que habitavam naquelas bandas de suas características culturais e sociais semelhantes. Não queremos aqui defender, assim, a fundação da cultura de um povo, até porque cultura não se funda, ela é inerente ao ser humano, a uma sociedade e a um tempo. Acreditamos na fundação e/ou invenção de um Estado, o Estado Alagoano! Estado este que buscaria características similares desse povo, elementos já existentes, frutos do processo colonial e da formação territorial para a definição do que seria aidentidade alagoana.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enfim, o que se tentou fazer nestas linhas foi um esforço de buscar um nome para um lugar em um determinado período histórico. Nesta procura sugerimos o afastamento do uso desse nome como um conceito, seguindo a linha interpretativa de Reinhart Kosselleck. Desta forma, se apropriando do termo expressão para nomear aquelas bandas imiscuídas na sesmaria de Duarte Coelho em 1534. Por isso, defendemos a legalidade do termo “Alagoas Colonial” como uma expressão genérica que abarcaria um período entre 1500-1822 de uma região conquistada pela coroa portuguesa e submetida até 1817 ao domínio administrativo pernambucano, quando consegue sua autonomia. Esta convenção – sempre entre aspas, por favor – funda-se no próprio risco atribuído ao uso da expressão Brasil Colonial, talvez também um equívoco se for tomada “ao pé da letra”!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, é preciso delimitar as características dessa expressão, percebendo até que ponto ela nos remete a idéia de uma identidade alagoana. Por conta disso, acreditamos que entre 1500-1630, a localidade era denominada por suas regiões de sesmaria e conquista [Porto Calvo, Penedo, Alagoa do Sul], ainda extremamente dispersas e sem uma conexão, significando Alagoas estes três territórios. Durante e depois da invasão batava, 1630-1706/1712, o quadro permanece inalterado, mas, sem dúvida, a experiência flamenga e a consolidação da colonização auxiliaram no fortalecimento das vilas e das freguesias. Em um terceiro momento, 1706/1712-1817, mais precisamente com a criação da comarca, uma identidade física começava a se moldar, percebendo-se o uso das expressões que denominavam a vila de forma isolada, tanto quanto a idéia de Vila e Capitania de Alagoas como um espaço único, porém, ainda submetido a Pernambuco. No último momento, 1817-1822, não só o termo Província das Alagoas remontaria a toda região, como representaria uma autonomia à Pernambuco e a costura identidária daquelas não tão mais dispersas regiões[37].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fontes e Bibliografia:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ALBUQUERQUE, Isabel Loureiro de. História de Alagoas. Maceió: Sergassa, 2000.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documentos 1, 8, 10, 21, 27, 76, 81, 93, 103, 113, 282 e 471.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: EDUFMG, 2007.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BICALHO, Maria Fernanda Baptista. “As Câmaras Ultramarinas e o Governo do Império” In: FRAGOSO, João; GOUVEIA, Maria de Fátima &amp;amp; BICALHO, Maria Fernanda Baptista (Orgs.) O Antigo Regime nos Trópicos – A Dinâmica Imperial Portuguesa (Séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp. 189-222.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BRANDÃO, Moreno. História de Alagoas. Arapiraca: Edual, 2004.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2 volumes, 1994.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;DIAS, Maria Odila Silva. "A Interiorização da Metrópole" In: Carlos Guilherme Motta (Org.) 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972, pp. 160-186.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;FERRARE, Josemary. Marechal Deodoro: Um itinerário de Referências Culturais. Maceió: Catavento, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas &amp;amp; Sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;GREENE, Jack P. Negotied Authorithies - Essays in Colonial Political and Constitucional History. Charlottesville/Londres: The University Press of Virginia, 1994.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;HESPANHA, Antonio Manuel. As Vesperas do Leviatã – Instituições e Poder Político, Portugal Século XVIII. Coimba: Livaria Almedina, 1994.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;HOLLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_de_Pernambuco, data 02/04/2010, 11:55.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Publifolha, 2000.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;KOSELLECK, Reinhart. "Uma História de Conceitos: Problemas Teóricos e Práticos" In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, Volume 5, Número 10, 1992, p. 134-146.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;LINDOSO, Dirceu. A Interpretação da Província: Estudo da Cultura Alagoana. Maceió: Edufal, 2005.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;LINDOSO, Dirceu. Formação da Alagoas Boreal. Maceió: Catavento, 2000.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;MELLO, Evaldo Cabral. Rubro Veio – O Imaginário da Restauração Pernambucana. Rio de Janeiro: Toopbooks, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1995.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;RUSSELL-WOOD, A. J. R. O Mundo em Movimento: os Portugueses na Ásia, África e América. Lisboa: Difel, 1998.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;SALGADO, Graça (Coord.). Fiscais e Meirinhos – A Administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;VERÇOSA, Élcio Gusmão. Existe uma Cultura Alagoana? Maceió: Catavento, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;* Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco e professor adjunto do Curso de História da Universidade Federal de Alagoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[1] VERÇOSA, Élcio Gusmão. Existe uma Cultura Alagoana? Maceió: Catavento, 2002.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[2] Para isso ver CERTEAU, Michael de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2 Volumes, 1994; ou BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: EDUFMG, 2007.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[3] LINDOSO, Dirceu. A Interpretação da Província: Estudo da Cultura Alagoana. Maceió: Edufal, 2005.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[4] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 471, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[5] Idem, Ibidem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[6] GREENE, Jack P. Negotied Authorithies – Essays in Colonial Political and Constitucional History. Charlottesville/Londres: The University Press of Virginia, 1994.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[7] Ver MELLO, Evaldo Cabral. Rubro Veio – O Imaginário da Restauração Pernambucana. Rio de Janeiro: Toopbooks, 2002.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[8] Cf. GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas &amp;amp; Sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[9] KOSELLECK, Reinhart. “Uma História de Conceitos: Problemas Teóricos e Práticos” In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, Volume 5, Número 10, 1992, p. 134-146.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[10] Idem, pp. 166-137.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[11] Sobre esta questão ver: BICALHO, Maria Fernanda Baptista. “As Câmaras Ultramarinas e o Governo do Império” In: FRAGOSO, João; GOUVEIA, Maria de Fátima &amp;amp; BICALHO, Maria Fernanda Baptista (Orgs.) O Antigo Regime nos Trópicos – A Dinâmica Imperial Portuguesa (Séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp. 189-222.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[12] Só para citar três exemplos: JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Publifolha, 2000; HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002; NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1995.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[13] Cf. BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português. São Paulo: Companhia das Letras, 2002; RUSSELL-WOOD, A. J. R. O Mundo em Movimento: os Portugueses na Ásia, África e América. Lisboa: Difel, 1998; HESPANHA, Antonio Manuel. As Vesperas do Leviatã – Instituições e Poder Político, Portugal Século XVIII. Coimba: Livaria Almedina, 1994.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[14] http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_de_Pernambuco, data 02/04/2010, 11:55.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[15] SALGADO, Graça (Coord.). Fiscais e Meirinhos – A Administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 128.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[16] A título de informação segue a lista: 1534-1561, Duarte Coelho; 1561-1577, Duarte Coelho de Albuquerque; 1578-1602; Jorge de Albuquerque Coelho; 1603-1630, Duarte de Albuquerque Coelho. Todos eles entremeados por regentes e lugar-tenente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[17] LINDOSO, Dirceu. Formação da Alagoas Boreal. Maceió: Catavento, 2000, p. 38.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[18] FERRARE, Josemary. Marechal Deodoro: Um itinerário de Referências Culturais. Maceió: Catavento, 2002, p. 15.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[19] BRANDÃO, Moreno. História de Alagoas. Arapiraca: Edual, 2004, pp. 42-57.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[20] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 1, fl. 1. O texto foi transcrito conforme a escrita atual e os grifos são nossos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[21] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 10, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[22] Idem, Ibidem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[23] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 8.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[24] ALBUQUERQUE, Isabel Loureiro de. História de Alagoas. Maceió: Sergassa, 2000, p. 70.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[25] SALGADO, Op. Cit.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[26] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 76, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[27] Arquivo Histórico Ultramarino. Alagoas Avulsos, Documento 93, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[28] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 282, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[29] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 113, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[30] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 27, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[31] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 81, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[32] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 103, fl. 1, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[33] Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documento 21, fl. 48, grifo nosso&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[34] Idem, fl. 49, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[35] Idem, Ibidem, fl. 24, grifo nosso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[36] Aqui apropriando-se da expressão forjada por DIAS, Maria Odila Silva. “A Interiorização da Metrópole” In: Carlos Guilherme Motta (Org.) 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972, pp. 160-186.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[37] Queria fazer um agradecimento especial ao Arthur Curvelo, Dimas Marques, Alex Rolim, Mariana Marques, Jacqueline Castro, Claudio Cerqueira e Lanuza Pedrosa, bolsistas e colaboradores do Grupo de Estudos Alagoas Colonial (GEAC) que tem me auxiliado na transcrição desta “nova” documentação, bem como no debate destas “outras” idéias teóricas sobre a região em questão, sem os quais seria impossível redigir e pensar estas páginas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ALBUQUERQUE, Isabel Loureiro de. História de Alagoas. Maceió: Sergassa, 2000.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arquivo Histórico Ultramarino, Alagoas Avulsos, Documentos 1, 8, 10, 21, 27, 76, 81, 93, 103, 113, 282 e 471.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: EDUFMG, 2007.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BICALHO, Maria Fernanda Baptista. “As Câmaras Ultramarinas e o Governo do Império” In: FRAGOSO, João; GOUVEIA, Maria de Fátima &amp;amp; BICALHO, Maria Fernanda Baptista (Orgs.) O Antigo Regime nos Trópicos – A Dinâmica Imperial Portuguesa (Séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp. 189-222.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BRANDÃO, Moreno. História de Alagoas. Arapiraca: Edual, 2004.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2 volumes, 1994.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;DIAS, Maria Odila Silva. "A Interiorização da Metrópole" In: Carlos Guilherme Motta (Org.) 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972, pp. 160-186.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;FERRARE, Josemary. Marechal Deodoro: Um itinerário de Referências Culturais. Maceió: Catavento, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas &amp;amp; Sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;GREENE, Jack P. Negotied Authorithies - Essays in Colonial Political and Constitucional History. Charlottesville/Londres: The University Press of Virginia, 1994.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;HESPANHA, Antonio Manuel. As Vesperas do Leviatã – Instituições e Poder Político, Portugal Século XVIII. Coimba: Livaria Almedina, 1994.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;HOLLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_de_Pernambuco, data 02/04/2010, 11:55.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Publifolha, 2000.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;KOSELLECK, Reinhart. "Uma História de Conceitos: Problemas Teóricos e Práticos" In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, Volume 5, Número 10, 1992, p. 134-146.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;LINDOSO, Dirceu. A Interpretação da Província: Estudo da Cultura Alagoana. Maceió: Edufal, 2005.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;LINDOSO, Dirceu. Formação da Alagoas Boreal. Maceió: Catavento, 2000.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;MELLO, Evaldo Cabral. Rubro Veio – O Imaginário da Restauração Pernambucana. Rio de Janeiro: Toopbooks, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1995.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;RUSSELL-WOOD, A. J. R. O Mundo em Movimento: os Portugueses na Ásia, África e América. Lisboa: Difel, 1998.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;SALGADO, Graça (Coord.). Fiscais e Meirinhos – A Administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;VERÇOSA, Élcio Gusmão. Existe uma Cultura Alagoana? Maceió: Catavento, 2002.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-8482128675273070396?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/8482128675273070396/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=8482128675273070396&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/8482128675273070396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/8482128675273070396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2010/06/existe-uma-alagoas-colonial.html' title='&quot;Existe uma Alagoas Colonial?&quot;'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-7288853006412872366</id><published>2010-04-27T10:33:00.000-03:00</published><updated>2010-04-27T10:33:56.828-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ivo dos Santos Farias'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/S9bnaUIaRJI/AAAAAAAAKIg/4mE9yp-HQOQ/s1600/ferrugem4.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/S9bnaUIaRJI/AAAAAAAAKIg/4mE9yp-HQOQ/s320/ferrugem4.jpg" tt="true" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;CARNAVAL OPERÁRIO&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ivo dos Santos Farias&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;RESUMO&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O carnaval aparece como uma manifestação extraordinária de uma coletividade que se faz presente em diversos povos, em várias regiões do mundo, criando uma espécie de “a segunda vida do povo” (BAKHTIN, 1987) ou numa dialética do trabalho e da casa, do cotidiano e do extraordinário (DAMATTA, 1997). Entretanto, o carnaval operário aqui estudado surge concomitantemente como meio de resistência, dominação, continuidade e/ou ruptura para com a vivência na vila operária de Fernão Velho, numa análise comparativa e simbólica entre dois diferentes blocos (o Ferruge e o Boi), existentes em dois diferentes momentos (o de vila operária e o de cidade dormitório, respectivamente).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Palavras-chave: Carnaval. Vila operária de Fernão Velho. Cidade dormitório.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;1 INTRODUÇÃO&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O carnaval é considerado uma das mais representativa e antiga manifestação coletiva da humanidade, na medida em que consegue passar por uma grande e variada quantidade de povos em todo o mundo, no entanto, o que marca sua existência é a necessidade de “uma alternância entre o tempo profano, caracterizado pelas rotinas do trabalho e pela vigência da ordem, e o tempo sagrado, marcado pelo desenfreamento coletivo e pelo excesso” (ALMEIDA, 2003, p. 13); ou seja, o carnaval caracteriza-se como “a segunda vida do povo” (BAKHTIN, 1987), por ser uma forma de burlar a seriedade e a oficialidade da vida cotidiana; ou até mesmo uma “inversão do cotidiano” (BURKE, 1993)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, iremos fazer aqui uma análise comparativa entre dois blocos (o Ferruge e o Boi) situados na vila operária de Fernão Velho , e em momentos históricos diferentes (vila operária e cidade dormitório), a fim de tentar compreender a representatividade existente dentro destes dois carnavais, buscando perceber nestas festas os nexos com o cotidiano, com as relações sociais e relações de trabalho, construídas e incorporadas em cada um desses diferentes contextos históricos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todavia, para que entremos no “ritmo” deste carnaval operário (embalado pelo frevo) é necessário que tenhamos em mente a situação política, econômica e territorial no qual ele está inserido, com o propósito de conseguirmos visualizar suas características, bem como sua constante analogia simbólica, enquanto um dos responsáveis pela criação de um “habitus” do “agente em ação” (BOURDIEU, 2007), peculiar a esta forma de administração da força de trabalho, ou seja, o “sistema fábrica com vila operária” (LEITE, 1988), que se fez presente entre meados e fim do século XIX até as décadas de 1970 e 80 no Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nas duas próximas sessões, passaremos a adentrar no “mundo do carnaval” (BURKE, 1989) operário, de forma a buscarmos as relações simbólicas existentes nestes diferentes carnavais, correspondentes a situações de continuidades ou rupturas para com os modos de produção, servindo como caso limite dentro das relações sociais existentes na comunidade, pois a interpretação destas representações consiste num ato extremamente complicado, na medida em que condiz com a ousadia de interiorizar e compreender os nexos de uma metáfora que se realiza num “tipo coletivo” (DURKHEIM, 2008) peculiar, onde tal interpretação corre o risco de não estar em conexão com a realidade social correspondente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Portanto, a abordagem que veremos a seguir está ligada a uma dialética do trabalho e da casa, do cotidiano e do extraordinário (DAMATTA, 1997), na medida em que se constrói como alternativa artística às relações de trabalho, ao mesmo tempo em que confirma as relações de poder, interessantes a grupos que bancam e patrocinam a festa (no primeiro momento a Fábrica, no segundo candidatos à política). Por isso que a tentativa de mergulhar na interpretação desta, como de qualquer outra, corresponde a um imaginário coletivo e de diversas maneiras de compreender.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;2 O “FERRUGE” E O CARNAVAL CONSTITUÍDO SOB A POLÍTICA DE CONTROLE DE FORÇA DE TRABALHO&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O bloco Ferruge foi criado em 1951, no auge de uma política de controle de força de trabalho denominada “sistema fábrica com vila operária” (LEITE, 1988) e, portanto, sua existência está metaforicamente ligada a uma possível dubiedade de interpretações, pois pode representar tanto uma rejeição à vida cotidiana, imposta pelas relações de trabalho e pelo controle patronal; como pode ser um dos mecanismos de controle utilizado pela fábrica como meio de confirmação das relações de poder, pois ao fim das festas ou dos rituais, todos voltam para casa e para a rotina do cotidiano, de volta à “realidade da vida” (DAMATTA, 1997, p. 39).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, este bloco está inserido dentro da vila operária da primeira indústria têxtil do estado de Alagoas (União Mercantil Têxtil, atual fábrica Carmen), fundada em 1857, no atual bairro de Fernão Velho, “ainda no Brasil imperial e escravista” (ALMEIDA, 2006, p. 17), sendo que este tipo industrialização só terá o amadurecimento de seus ethos capitalista e das relações mercantis em Alagoas entre os anos 1930 e 1950, “passando a apresentar uma configuração que a colocava como pólo decisivo de uma alternativa econômica mais progressista” (LESSA, 2008), em contraposição a um tradicionalismo econômico colonial, onde predominava a cana-de-açúcar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, a condição de vila operária correspondia ao seu total domínio sob a fábrica, pois tal sistema está inserido numa política de controle da força de trabalho existente após a Revolução Industrial na Europa e tem, portanto, “o intuito de disciplinar tanto a sua vida profissional como o seu cotidiano para que pudesse render o máximo possível e evitar incidentes na vila-operária” (FARIAS, 2008). A materialização de tal fato é vista no oferecimento de casas, água, luz, espaços de lazer, festas, entre outras formas de promover “a vida extra-fabril da localidade” (LEITE, 1988, p. 17), sendo todas estas “benfeitorias” descontadas nos salários de seus trabalhadores. Tal aspecto dá condição para entendermos como é viva e contraditória a herança patriarcal e escravista dos antigos senhores de engenho no modo de produção capitalista brasileiro, porque apesar de estar inserido num sistema industrial e capitalista, onde todo pagamento é convertido em dinheiro, “desprovido de qualquer sentimento” (MARX; ENGELS, 1998, p. 12), aqui ainda prevalece a idéia de troca de “favores” como ideologia das relações de trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Também, podemos considerar que esta vila operária está historicamente sobreposta ao “estágio sólido da era moderna”, (BAUMAN, 2001, p. 20), porque parte de um período de necessidade de rigidez para com a criação de proletarização de uma classe não especializada, onde há uma carência de engajamento ativo do patrão com sua classe trabalhadora, pois ao mesmo tempo em que oferece estas “benfeitorias”, participa (vigia) pessoalmente também em muitas das festas (dos “rituais”), dos dias de lazer e das solenidades formais atuando como um pai extremamente zeloso para com seus filhos (a comunidade), os quais lhe garantiriam o lucro no dia seguinte, da mesma forma que sua presença em corpo reforça seu poder dentro deste modelo de relação social.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Neste contexto aparece o bloco que vai ter maior representatividade na vida carnavalesca e cotidiana desta comunidade, pois apesar de ter findado em 1995, consegue permanecer vivo e saudoso na memória dos que presenciaram e vivenciaram sua existência. Este bloco chama-se Ferruge.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seu próprio nome pode indicar inicialmente uma tentativa de contrariedade com as máquinas, na medida em que a palavra ferrugem traz a visualização de uma corrosão dos ferros, o que pode representar metaforicamente uma aversão ao instrumento (não à pessoa) que lhe dá uma vida estafante e brutal. Assim, o que caracteriza o Ferruge – que saía às ruas nas segundas e nas terças feira de carnaval – é o fato de que as pessoas se sujavam de melaço, óleo queimado, lama, ovos e tinta; e, não só se sujavam, como sujavam toda a vila operária, desde as casas, os prédios, carros, ônibus ou qualquer pessoa transeunte ou que estivesse nas portas a olhar o bloco passar. Além disso, havia regras para quem participasse do bloco: homem não podia usar camisa, nem cueca, pois seriam rasgadas pelos demais foliões.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que representa de fato o episódio de sujar os bens da fábrica? Seria algum tipo de manifestação de desregramento? Será algum tipo de anomia jurídica, tal como diria Durkheim (2004)? Seria uma forma de os operários manifestarem sua insatisfação para com o controle de suas vidas e de seu trabalho? Ou então seria uma forma de a fábrica “dar brecha” para desafogar o cotidiano de sua classe operária a fim de melhor controlá-las? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estamos aqui numa grande e perigosa interpretação desta festa, pois nos posicionamos numa espécie de meio-termo das relações, na medida em que não a entendemos simples e unicamente como uma forma de controle, nem como uma forma de resistência organizada, ou seja, nenhuma das duas relações é autônoma, pois estão umbilicalmente entrelaçadas, porque o carnaval, com seu mundo de inversão, de não oficialidade e de comicidade, representa metaforicamente uma rejeição para com os traços concernentes à moral diária e às formas de poder em que cada sociedade está inserida; talvez ele represente um meio de se esquecer momentaneamente os acontecimentos cotidianos e o fechar-se num mundo peculiar, onde se apresenta como uma “peça imensa, em que as ruas e praças se convertiam em palcos, e a cidade se tornava um teatro sem paredes” (BURKE, 1989, p. 206). &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contudo, o momento do carnaval não distingue os atores sociais. Apresenta-os tão somente como membros uniformes de uma massa que se envolve, se mistura e que brinca, tal como diria um ex-operário desta fábrica, no documentário Memória da vida e do trabalho (BRANDÃO, 1986): “os quatro dias de carnaval você não se lembrava de nada na vida, só de Deus, porque era lindo, todo mundo brincava”. Vemos que tal fala faz paralelo com DaMatta (1997, p. 54): “o tempo do carnaval é marcado pelo relacionamento entre Deus e os homens, tendo, por isso mesmo, um sentido universalista e transcendente”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por isso, uma de nossas preocupações principais é entender o Ferruge não só enquanto acontecimento, mas compreender o que acontecia após estes quatro dias de carnaval, após a “quarta feira ingrata”, pois não queremos nos fechar em seu cotidiano, mas compreendê-lo enquanto mecanismo de resistência ou de controle dentro das condições materiais, políticas e econômicas apresentadas acima. O que representava os dias posteriores à Quarta feira de cinzas? Será o início da espera da próxima festa?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acreditamos que o carnaval seja mais que um momento hermético, porque está relacionado com o terreno ao qual está inserido. No nosso caso, o bloco Ferruge finda em 1995, o que coincide com o fato de a Fábrica Carmen de fiação e tecelagem vender praticamente toda a vila operária e entregar grande parte de suas casas, como forma de indenização a seus operários, decretando estado de falência. Em 1997, a fábrica retoma suas atividades, mas agora sem envolvimento com a comunidade, pois enquanto que em seu momento de apogeu econômico chegava a possuir cerca de 5.000 operários, na sua volta de atividades, mal tinha 400 operários, devido principalmente ao desenvolvimento das máquinas, que substituía diversas sessões por uma única sala. Assim, não mais interessava à fábrica o antigo modelo de administração de sua força de trabalho, transformando a antiga vila operária em cidade dormitório e alterando radicalmente as suas relações sociais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Portanto, nosso bloco está situado num contexto único à sua existência, pois ele representa o momento peculiar de uma comunidade que teve em si uma “violência simbólica” (BONNEWITZ, 2003) correspondente à sua forma de trabalho e de vivência de indivíduos e grupos que vieram de várias regiões do interior de Alagoas e que usou artifícios diversos para driblar as condições brutais que tal sistema lhes impunha e o Ferruge aparece como um dos maiores símbolos de criatividade de manifestação coletiva, porque apesar de ter sido mantido em sua maior parte pelos bolsos da fábrica, este bloco foi construído, idealizado, vivido e aceito por um grupo com identidade firmada nas relações de trabalho e na vivência na vila operária, e conseguiu perpassar sua época, sendo, como já dissemos forte elemento de reflexão sobre uma “identidade perdida” e saudosa. Segundo o depoimento de outro ex-operário, cantor da antiga orquestra local, afirma que o Ferruge surgiu da seguinte maneira: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Ferruge, quem formou o Ferruge foi um lá da oficina, o Xixiu, o finado Xixiu é um dos fundadores do Ferruge. Então fizeram lá, eles conversando, ai vamos formar um bloco e tal, ai fizeram o bloco, né e botaram o nome de Ferruge. Quando saíram no primeiro ano eles saíram todo sujo, mas não sujava as casas não, sabe. Só eles mesmos quem se sujava de ferrugem da oficina, daquele pó e alguém que queria se sujar eles faziam assim e melava um pouquinho, mas depois virou bagunça (grifo nosso), saíram aqueles caras que tomavam conta do bloco, aí começaram rasgar roupa, jogar as coisas nas paredes, as paredes tudo limpinha e era a maior imundície (grifo nosso), mas que graças a Deus acabou, né. Eu queria que ficasse o bloco sem melar as paredes. Quando chegava perto de carnaval ninguém limpava as paredes, ninguém fazia nada, por causa do Ferruge, esse tal Ferruge, aí relaxou, Xixiu ainda ficou tomando conta uns tempos depois, depois se afastou acabou. (2008)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, podemos entender neste breve relato da trajetória do tal Ferruge, como ele parece constituir-se inicialmente por uma certa ordem, uma sujar-se a si, mas não as casas e com o tempo virar bagunça. No entanto, é justamente na fase que vira bagunça que ele toma a sua maior dimensão representativa de sua inversão, de contrapor a uma ordem que se chocava com uma vida regrada pela rotina dos apitos impertinentes da fábrica, que ditava os horários de entrada, de saída, de acordar e de dormir de sua classe operária. Esta bagunça, esta imundície, portanto, são símbolos de uma alegria existente numa festa que se acaba, que perde seu sentido. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contudo, os antigos atores não mais existem, as condições de inversão não são mais necessárias após o abandono do controle da fábrica e isso ocasiona um não entendimento do sentido de tal bloco que tem seu fim também devido a um tipo de violência diferente da anterior, que é a violência gerada por parte dos freqüentadores de outros locais, os quais não compreendem as “relações simbólicas” existentes naquele contexto. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Portanto, após o fim do Ferruge, o foco festivo da localidade de Fernão Velho tomará outra direção, a qual iremos analisar mais na próxima sessão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;3 O BOI NA CIDADE DORMITÓRIO&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao analisarmos o Ferruge, pudemos perceber como esse carnaval operário esteve entrelaçado às relações sociais, políticas e econômicas existentes no contexto histórico peculiar a sua existência; e agora, como possível resposta dual a continuidades e/ou rupturas para com as antigas relações, estudaremos outro bloco correspondente a nova situação (de cidade dormitório) em que se encontra a comunidade. Este bloco denomina-se Boi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, é-nos conveniente perguntar: quais representações estão contidas na figura deste Boi? O que representa ou pode representar um animal confeccionado como figura simbólica e metafórica de um bloco? Ele é um transbordamento ou um desligamento com a situação de dominação da antiga vila operária? Será simplesmente um mecanismo que os moradores desta comunidade criaram para reincorporarem, num dia do ano, o momento de identidade cultural e social que vivenciaram nos tempos da vila operária? Ou será uma forma de se desvincularem por completo de suas antigas relações?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A primeira discussão que aqui se deve proporcionar é a de que o carnaval desta comunidade não mais corresponde aos quatro dias que antecedem a quaresma (ou seja, o carnaval na data oficial do Brasil), mas nas festas de reis, ou seja, no dia 06 de janeiro ou no primeiro domingo do ano. Assim, a própria figura do boi , muito comum nos Reisados e Guerreiros alagoanos, aqui não mais corresponde ao fim das festas natalinas, mas a preparação do carnaval (carnaval que praticamente não mais existe na comunidade, pois no período do carnaval muitas pessoas se deslocam para outras localidades a fim de apreciarem os carnavais dos outros, justamente por não mais haver o entusiasmo para com as festas e rituais carnavalescos de seu lugar).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contudo, este aspecto carnavalesco existente nas festas de reis não é tão estranha, pois segundo Théo Brandão (apud Nina Rodrigues, 1932, p. 263):&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O rancho ou Reisado é um grupo de homens e mulheres, mais ou menos numeroso, representando pastores e pastoras que vão a Belém e que, de caminho, cantam, e pedem agasalho pelas casas de família. Os ternos não vão quase nunca à Lapinha, só cantam nas portas das casas conhecidas nas quais entram, comem e bebem e às vezes amanhecem dançando quadrilhas, polkas e valsas; todos eles cantam e dançam nas casas por dinheiro [...] num charivari impossível de descrever-se&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A partir da descrição anterior, podemos perceber como o aspecto carnavalesco está entrelaçado às festas de reis, da mesma forma em que aparece nos mais variados folguedos, pois a relação religião e carnaval acaba sempre se misturando, porque “os festejos do carnaval, com todos os atos e ritos cômicos que a eles se ligam, ocupavam um lugar muito importante na vida do homem medieval [...] quase todas as festas religiosas possuíam um aspecto cômico popular e público, consagrado também pela tradição” (BAKHTIN, 1987, p. 4). Daí, podemos compreender as possíveis origens desta característica das festas religiosas, que apesar de o carnaval já existir em momentos mais antigos da história, a característica da ideologia e moral cristão só aparece na Europa a partir da época medieval e desemboca inconscientemente no imaginário contemporâneo como uma possível forma de resistência intrínseca às mais variadas formas de sociedade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, outro aspecto que é importante destacarmos refere-se as características da figura do boi, a qual sempre foi elemento primordial e de destaque nas festas de Reisados, pois&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;nos pobres ele é arranjado com uma cabeça legítima de boi, pintada, ou uma cabeça de boi esculpida em madeira que o dançador de ‘entremeio’, um tanto curvado, segura; enquanto que um grande lençol de chita, cheio de florões, recobre-lhe as costas, a imitar o corpo do boi (BRANDÃO, 1997, p. 86).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, o que nos chama atenção é a aproximação das características deste boi dos reisados descrito pelo folclorista alagoano Théo Brandão, com o Boi de Fernão Velho, pois é interessante salientar que ele se diferencia bastante dos bois de concurso de carnaval de Maceió, onde toda sua confecção está repleta de ornamentação e brilho, além da diferença rítmica e de apresentação: o de Fernão Velho é um bloco acompanhado por orquestra de frevo, onde os atores se misturam; enquanto que o boi existente nos concursos de Maceió é de caráter apreciativo, de platéia, embalado por instrumento de percussão, com cantor e coreografias, em parte ensaiadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, o que nos convém aqui analisar é o aspecto simbólico deste Boi operário e a tentativa de compreender quais representações estão incutidas nesta festa, que, apesar de já existir desde a década de 1960 na comunidade, só veio a ter relevância a partir da desistência do Ferruge, em 1995; e, portanto, dentro das condições históricas de cidade dormitório. Isto é, o Boi tanto pode representar uma tentativa de trazer de volta uma “identidade perdida” (enquanto transbordamento das antigas relações sociais), na medida em que muitos dos antigos moradores se reencontram dentro do Boi e reconstroem temporariamente e inconscientemente o período de convivência na vila operária; da mesma forma que pode simbolizar um mecanismo de ruptura, de reinvenção, de uma manifestação autônoma e, no entanto, como recorte com as antigas formas de dominação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Porém, a correlação do fortalecimento do Boi com o fim do Ferruge é-nos claro na fala de uma das organizadoras do bloco, quando diz que “o Boi é uma tradição de Fernão Velho. O Boi representa muitas coisas. Coisa que nunca teve aqui. Tinha o Ferruge, acabaram, aí ficou o Boi”; da mesma forma em que vemos este bloco vagarosamente tomar maior dimensão com pouca ou quase nenhuma interferência da fábrica, pois, segundo afirma o fundador do bloco: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;esse Boi ta com tanto ano no mundo, tem mais de quarenta anos. Comecemos ele, saía numa caixa de sapato, sabe, numa caixa de papelão. Depois eu cismei de inventar esse Boi, de fazer esse Boi, aí virou tradição. [...] Aí saímos com lata veia, tocando na lata veia, depois a gente inventemos uma rifa falsa [...] Aí peguemos os instrumentos da escola de samba e encaixemos um bucado de surdo tarol, o diabo a quatro. Aí depois quando o Veríssimo pagou uma parte da orquestra, depois passou para o Hermínio ficou pagando, pagando, pagando, ai ficou essa multidão, aí a turma foi juntando, juntando. Porque no início era quatro pessoa acompanhando, agora ta aquele mundão como você vê, né. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, podemos analisar esta festa sob estes dois vieses possíveis neste contexto intrinsecamente contraditório e ambíguo, que está pintado numa época pós vila operária, vila essa que constitui em relações capitalistas, com pinceladas de escravismo; ao mesmo tempo em que suas resistências podem velar, em alguns aspectos, a dominação imbricada em suas relações e representações dialéticas entre o “cotidiano” e o “extraordinário”, pois &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;o rito estando na sua situação extraordinária, ele se constitui pela abertura deste mundo especial para a coletividade. Não há uma sociedade sem uma idéia de mundo extraordinário, onde habitam os deuses e onde, em geral, a vida transcorre num plano de plenitude, abastança e liberdade. Montar o ritual é, pois, abrir-se para esse mundo, dando-lhe uma realidade, criando um espaço para ele e abrindo as portas para a comunicação entre o ‘mundo real’ e um ‘mundo especial’ (DaMatta, 1997, p. 38, 39). &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entendendo-se a festa como este momento extraordinário da comunidade, passamos a adentrar em sua dialética, em seu movimento dentro dessa dinâmica social que apesar de se inserir no período de “modernidade líquida”, que vivenciamos na atualidade, correspondente a um repúdio e a um destronamento do passado, desfazendo-se assim das tradições; e onde os “senhores ausentes” (isto é, a elite global contemporânea) não mais necessitam se engajar ativamente na vida das populações subordinadas (BAUMAN, 2001), nosso objeto acaba se contrapondo a este modelo, no momento mesmo em que a comunidade em estudo (como tantas outras) reanima seus laços através de uma tentativa de criar e preservar uma tradição simbólica numa “identidade perdida”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Concomitantemente, o Boi não mais representa uma identidade operária, onde as ligações criadas pelas suas condições lhes ofereciam um ar de ambiente em família, mas sim uma certa distância para com os que participam, onde o sujar a si próprio e aos outros não é mais permitido, provavelmente a fim de evitar-se atritos entre os participantes, que se misturam entre moradores atuais, ex-moradores e pessoas “de fora”; e essa mistura não mais contem a unidade de relações de controle e de resistência social. Assim, o Boi é um mecanismo que abre espaço a reinventar possibilidades artísticas coletivas não mais presas às antigas relações, ao mesmo tempo em que sua dialética incorpora todo o processo e o espaço anteriores que permitiram sua criação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sendo assim, o Boi pode representar uma grande variedade de interpretações, na medida em que meche com o imaginário de seus participantes e dos espectadores que saem à porta para ver o bloco passar. O carnaval é por si mesmo um momento de excitação dos sentimentos, das memórias e, portanto, do saudosismo. Sua constituição está imbricada numa dialética, numa negação de si para afirmar-se enquanto produto de uma coletividade e o Boi é atualmente o símbolo maior desta dialética nesta comunidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;4 CONSIDERAÇÕES FINAIS&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pudemos perceber que não há como dissociar a existência destes blocos num diálogo de trocas de interesse, pois em seu primeiro momento, o carnaval está relacionado às condições de dominação patronal, que controla não somente a vida fabril, mas a vida cotidiana da vila operária e de seus moradores; enquanto que no segundo momento, existe um forte diálogo com a necessidade dúbia de reviver e/ou libertar-se das antigas relações de trabalho e de vivência.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, o “sentido” tanto do Ferruge e como do Boi, só podem ser entendidos no “sentido imaginado e subjetivo dos sujeitos da ação” (WEBER, 2001, p. 400), ou seja, a sua complexidade está no fato de ele representar a necessidade de as pessoas dar sentido e significação inconscientemente a estes rituais e não a outros, por exemplo. Este sentido é o que pode instrumentalizar nossa tentativa de interpretação deste elemento simbólico posto nas relações sociais correspondentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todavia, o fato de no Ferruge as pessoas aceitarem pacificamente sujarem a si próprio e a seus colegas, rasgarem a roupa e sujarem as casas de seu vizinho, representa uma relação de intimidade e de companheirismo não mais possível na atualidade, onde o carnaval “limpo” cria uma atmosfera de “cada um em seu lugar”, apesar de estarem todos num lugar só. O Boi pode ser reflexo de uma época de intensificação dos individualismos, onde brinca-se somente para ter seu divertimento pessoal e não mais o divertimento do coletivo, onde a inversão parece ter um sentido não tão vivo em comparação às antiga relações. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Portanto, são diversas as possibilidades de adentramos no estudo destas representações momentâneas desta comunidade e este trabalho teve apenas o intuito de colaborar com uma análise comparativa aberta a críticas e comentários, a fim de aprofundar as possíveis decifrações de códigos criados por este povo, que manteve por uma forte identidade por um relativamente longo período e que tem à deriva suas possibilidades de incorporar ou permanecer com novos hábitos e auto estima social.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;REFERÊNCIAS&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: 2002 informação e documentação: referência: elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. 24p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: 2002 informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de janeiro: ABNT, 2002.7p &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ALMEIDA, Luiz Sávio de. Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. Maceió: EDUFAL, 2006. 157p. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ALMEIDA, Jaime de. Uma teoria da festa: o carnaval brasileiro. In: _____. ALMEIDA, Luiz Sávio de (Org.); CABRAL, Otávio; Araújo, Zezito. O negro e o construção do carnaval no Nordeste. Maceió: EDUFAL, 2003. P. 13-22.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BAKHTIN, Mikhail. Introdução. In: ____. A cultura popular na idade média e no renascimento: contexto de François Rabelais. São Paulo; Brasília: Hucitec;EdUnb, 1993. p. 1-50.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BAUMAN, Zygmunt. Prefácio. In: ____. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 7-22. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BONNEVITZ, Patrice. Primeiras lições sobre a sociologia de P. Bourdieu. Petrópolis: Vozes, 2003. 149 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BRANDÃO, Théo. O reisado alagoano. Maceió: EDUFAL, 2007. 230 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BURKE, Peter. O mundo do carnaval. In: ____. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: Cia das Letras, 1993. p. 202-228.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. 350 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2008. 155 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;______. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 483 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;FARIAS, Ivo dos Santos. Fernão Velho: memórias de uma cultura operária. 2008. 50f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História). Universidade Federal de Alagoas. Maceió, 2008.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;LESSA, Golbery. Para uma história da indústria têxtil alagoana. No íris alagoense, Maceió, dez. 2008. Disponível em: http://novoirisalagoense.blogspot.com. Acessado em: 15 dez. 2009.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;LOPES, José Sérgio Leite. A tecelagem dos conflitos de classe na “cidade das chaminés”. São Paulo: Editora Marco Zero, 1988. 623 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;MARX, Karl; ENGELS, Friederich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Grijalbo, 1977. 138 p.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;MARX, Karl; ENGELS, Friederich. O manifesto do partido comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998. 65 p. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;MEMÓRIA da vida e do trabalho. Direção e produção de Celso Brandão. Argumento e texto: José Sérgio Leite Lopes e Rosilene Alvim. Roteiro: Regina Coeli. Maceió: Estrela do Norte, 1986. 1 DVD (20 min). son., color.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;WEBER, Max. Conceitos sociológicos fundamentais. In: ____. Metodologia das ciências sociais (parte 2). 3. ed. São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2001. p. 399-429.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-7288853006412872366?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/7288853006412872366/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=7288853006412872366&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7288853006412872366'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/7288853006412872366'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2010/04/carnaval-operario-ivo-dos-santos-farias.html' title=''/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/S9bnaUIaRJI/AAAAAAAAKIg/4mE9yp-HQOQ/s72-c/ferrugem4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-4341393351623489672</id><published>2010-01-31T14:20:00.001-02:00</published><updated>2010-01-31T14:22:18.689-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Acervo Arquivo Público de Alagoas'/><title type='text'>Fotos Antigas Alagoas</title><content type='html'>picasaweb.google.com.br/golberylessa&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-4341393351623489672?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/4341393351623489672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=4341393351623489672&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/4341393351623489672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/4341393351623489672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2010/01/fotos-antigas-alagoas.html' title='Fotos Antigas Alagoas'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-5881884607106495048</id><published>2009-12-08T11:21:00.006-02:00</published><updated>2009-12-29T18:09:54.705-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gabriel Magalhães Beltrão'/><title type='text'>A CONTINUIDADE DA ABORDAGEM POSITIVISTA ACERCA DO FOLKLORE NA OBRA DE THEO BRANDÃO</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/Sx6b3yCFWVI/AAAAAAAAJ5M/hwAsmiEvXHE/s1600-h/Digitalizar0001.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5412935184771537234" src="http://1.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/Sx6b3yCFWVI/AAAAAAAAJ5M/hwAsmiEvXHE/s320/Digitalizar0001.jpg" style="cursor: hand; display: block; height: 240px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/Sx5cjsr5JVI/AAAAAAAAJ40/v_sZBUW5SAw/s1600-h/Digitalizar0001.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Foto: Revolução de 1930 em Alagoas (acervo APA) &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Por&lt;/em&gt; Gabriel Magalhães Beltrão (sociólogo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seguinte trabalho a respeito do intelectual folclorista Theo Brandão segue a linha do projeto de iniciação científica que anseia trazer à tona os precursores das ciências sociais no Estado de Alagoas. A partir deste mote é que se torna de fundamental importância a análise do referido autor, pois este foi um dos que iniciaram a institucionalização das Ciências Sociais em Alagoas a partir do antigo curso de Estudos Sociais – predecessor direto do curso de ciências sociais da Universidade Federal de Alagoas - onde ministrava a disciplina de antropologia física. Apesar de possuir um caráter também historiográfico, não é este o foco central da nossa empreitada: buscamos primordialmente realizar uma análise sociológica da intelligentsia a partir das orientações dadas por Michel Löwy em A Evolução Política de Lukács: por uma sociologia dos intelectuais revolucionários; ou seja, buscaremos explicitar quais os vínculos do pensamento de Theo Brandão com a sua realidade sócio-histórica, tomando a sua abordagem a respeito do folclore como o fulcro para desvendar tais relacionamentos contidos no seu pensamento que aparece supostamente indepedente a uma leitura apressada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 – O folclore numa abordagem positivista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pensamentos científicos positivista e evolucionista de Augusto Comte e Spencer, respectivamente, apregoam a idéia de que a sociedade burguesa se configura enquanto o ápice da evolução humana, estágio evolutivo marcado pela razão em contraposição ao saber tradicional. Assim, a modernidade é identificada ao saber racional característico da ciência que teria suplantado as formas empíricas de conhecimento identificadas ao arcaico, ao tradicionalismo, ao pré-moderno. Instaura-se com esses autores uma abordagem dicotômica das sociedades ocidentais: apesar de terem atingindo o momento último da evolução estas sociedades ainda trazem consigo reminiscências arcaicas que estariam, inelutavelmente, em vias de desaparecimento. Haveria uma natureza distinta entre as formas de ser, de existir e de pensar associadas às camadas populares, a todo aquele conjunto formado por proletários e camponeses que estão desprovidos de uma cultura moderna&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn1" name="_ftnref1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;[1]&lt;/a&gt;, racional, e que, ao contrário, se caracterizam pelas relações pessoais, pelo saber empírico, pela cultura oral, pela produção própria de utensílios como os brinquedos, etc. A burguesia, no entanto, era a representação clara da modernidade e do progresso à medida que suas relações são impessoais – intermediadas pelo dinheiro – , sua cultura é culta (erudita) marcada pela escrita e pela intencionalidade autoral.&lt;br /&gt;Surge dessa abordagem o espaço para o surgimento de uma nova ciência típica da modernidade: aquela que tem por objeto específico o saber popular. Havia nas sociedades civilizadas uma cultura arcaica que sobrevivia no interior da modernidade apesar de nada ter a ver com ela; justamente esse saber popular que se encontra a margem do civilizado é que seria o objeto sui generis responsável pela emersão da ciência da saber popular – o folclore. Sobre essa pretensão diz Florestan Fernandes em um dos seus muitos escritos sobre o folclore:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em síntese, o objeto do folclore seria – pode-se dizer assim, dentro desse esquema – o estudo dos elementos culturais praticamente ultrapassados: as “sobrevivências”. Ou seja, como o definiu Sébillot: “a ciência do saber popular”, partindo da significação do próprio vocábulo (folk = povo; lore = saber), tal como propusera o seu criador, William Thoms. Essa é a pista seguida por Saintyves na definição que apresentou mais tarde e que logo se tornou clássica, principalmente entre os folcloristas latinos: “o folclore é a ciência da cultura tradicional dos meios populares dos países civilizados”. &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn2" name="_ftnref2" style="mso-footnote-id: ftn2;" title=""&gt;[2]&lt;/a&gt; (Pg. 41)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao folclore enquanto ciência cabe a tarefa de descrever e sistematizar tudo que estiver relacionado à cultura popular o que gera uma distinção da atividade do folclorista em relação às demais ciências sociais. Por partir do pressuposto de que o folclore é uma mera reminiscência, o folclorista não busca realizar explicações causais a respeito do conteúdo dos fatos folclóricos, ou seja, não há qualquer pretensão de desvelar o relacionamento dos fatos folclóricos com a totalidade social na qual eles estão inseridos. Essa abordagem meramente descritiva faz bastante sentido à medida que o pressuposto teórico é proveniente do positivismo que encara o folclore como um anacronismo em vias de desaparecimento. Algo que é anacrônico é retrogrado e estranho ao moderno e, por sua vez, não possui grandes significados sócio-culturais já que não se relaciona com a modernidade em voga. Os antropólogos e sociólogos não comungam desta idéia e vêem o folclore inserido “numa ordem de fenômenos mais ampla – a cultura – e podem ser estudados como aspectos particulares da cultura de uma sociedade” (Idem pg. 48); qualquer que seja a fundamentação teórica do sociólogo ou do antropólogo o folclore sempre será encarado como um conjunto de manifestações culturais específicas, mas que está em conexão com a sociedade como um todo não havendo essa dicotomia típica dos folcloristas. Finalizando, diz F. Fernandes sobre a maneira distinta como a sociologia e a antropologia enxergam os fatos folclóricos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os fatos folclóricos não passam de um aspecto da cultura totalmente considerada e são fatos que se referem a modalidades diferentes dessa cultura e, por conseguinte, só podem ser explicados a partir dessa mesma cultura. (Idem, pg. 49)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.1 – A continuidade de Theo Brandão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito essas considerações a respeito da concepção positivista clássica do folclore, buscaremos agora demonstrar a vinculação de Théo Brandão com a mesma. Segundo Florestan Fernandes, a busca incessante inicial por consolidar o folclore enquanto uma ciência particular mediante as discussões teóricas foi suplantada por uma nova geração menos afeita a esse nível de discussão e mais interessada em realizar trabalhos descritivos. Dessa forma, a tradição folclorista da América Latina se interessava quase que exclusivamente pelo trabalho de campo, pela descrição das manifestações populares e pela busca da origem de tais manifestações, eximindo-se totalmente de explicações causais destes fatos folclóricos. Tratava-se de estudos “biográficos” de determinados elementos folclóricos, como gosta de dizer F. Fernandes.&lt;br /&gt;A obra folclorista do médico de formação e alagoano Théo Brandão se insere na concepção teórica positivista e neste contexto prático característico da América Latina por vários fatores que tentaremos enumerar a partir de agora. Em palestras ao Rotary Club em 1949 Théo Brandão assim define o folclore:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folclore, segundo o mais recente conceito enunciado por André Varagnac é civilização tradicional, isto é, engloba todos os elementos culturais não elaborados intelectualmente, tudo aquilo que o homem, de qualquer nível social aprendeu fora dos livros, da escola e dos diversos meios de difusão cultural: o fonógrafo, o cinema ou o rádio.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn3" name="_ftnref3" style="mso-footnote-id: ftn3;" title=""&gt;[3]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O folclore é claramente definido como civilização tradicional, ou seja, como aquela parcela da cultura que está distanciada da modernidade, que é externa e estranha aos mecanismos modernos da cultura, tal como a escola, o cinema e o rádio – locus do saber racional. O tradicional é definido como os elementos culturais não elaborados intelectualmente à medida que possui um caráter diretamente empírico, desprovido de sistematização conceitual, e é propagado mediante a oralidade e não através da escrita. O homem de qualquer nível social pode está inscrito nesta parcela tradicional, arcaica, sendo este reconhecimento de Théo Brandão bem característico da nossa formação capitalista hiper atrasada onde a inexistência de ruptura histórica ocasiona sempre processos marcados pela sobrepujança da continuidade sobre as descontinuidades: mesmo as nossas elites agro-exportadora e mercantil – portadoras por excelência da modernidade – trazem consigo marcas inelutáveis do tradicional. Apesar dessa constatação de que o arcaico não é exclusivo ao povo no estado de Alagoas, em uma passagem da sua monografia Reisado Alagoano Théo Brandão diz implicitamente que a modernidade é uma exclusividade das nossas elites. Diz se referindo ao reisado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando em vilas ou cidades não encontram casa que os aceitem para dançar (o que é muito mais comum hoje do que antigamente, quando a aristocracia rural dos bangüês e a classe média das cidades do interior a ela ligada ainda não possuíam, nem rádios, nem vitrolas, nem cinemas e era a grande apreciadora das folganças populares) realizam os folguedos nos mercados públicos. Ou então, se algum chefe político ou pessoa influente da localidade patrocina a exibição, ela se realiza em armazéns, pátios cimentados, galpões e não mais nas salas de visita ou de jantar como acontecia nos tempos antigos. (pg.26)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tom nostálgico da passagem não encobre o fato de que nela podemos identificar a associação da modernidade à aristocracia rural do estado, aquela responsável pela adoção de valores culturais modernos que deixam para trás o tradicional reisado. Ao homem do povo resta a continuidade das suas manifestações culturais tradicionais, a partir de agora não mais valoradas pelos “senhores do tempo” que trazem para o mesmo espaço geográfico a modernidade dele (do povo) excluída. O arcaico pode até respingar na elite agro-mercantil alagoana, no entanto, a modernidade é vista como uma exclusividade desta, tornando-se o povo reprodutor por excelência da cultura tradicional; a este a modernidade é estranha assim como o é a sua processualidade.&lt;br /&gt;Seguindo a tônica positivista, ao homem do povo é excluída a sua participação no moderno e sua cultura passa a ser etiquetada como um anacronismo exótico que deve ser descrito e sistematizado por uma área específica do saber – o folclore como ciência do saber popular. Temos que ressaltar aqui, entretanto, uma tênue distinção de suma importância. Nas sociedades que atingiram o capitalismo pela via clássica – Inglaterra, França e Estados Unidos –, evidenciou-se uma transformação abrupta em toda a sociedade onde os elementos pré-capitalistas foram rapidamente substituídos por um conjunto de práticas e valores essencialmente distintos; neste contexto, há até um certo sentido em se dizer que os aspectos tradicionais são anacrônicos, meras reminiscências, justamente pelo fato de que tais práticas e valores serão em um curto prazo suplantados por aqueles plenamente capitalistas. Este não é o caso da formação brasileira, especificamente da sub-região representada por Alagoas. Não seria nem um pouco plausível a Théo Brandão afirmar explicitamente – tal como o fazia os propagadores da concepção positivista clássica - que a cultura popular é um anacronismo existente na sociedade alagoana, afinal, longe de está em vias de dissolução, ela faz parte intrinsecamente à nossa modernidade capitalista. A nossa formação capitalista traz consigo elementos eminentemente pré-capitalistas que fazem parte do próprio desenvolvimento do capital local: não se trata de uma relação dicotômica, mas, ao contrário, de uma unidade dialética onde o velho se sintetiza ao novo como forma de potencializá-lo – no caso potencializar a exploração capitalista. Diante disso, Théo Brandão absorve a perspectiva teórica que taxa a cultura popular como isenta da modernidade e numa relação de externalidade em relação a ela, mas com uma sutil diferença em relação ao positivismo clássico, visto que o arcaico aqui não está em vias de dissolução e por isso o sentido mais puro do ser alagoano deve residir precisamente neste tradicionalismo. Enquanto numa França revolucionária o referencial identitário reside nos valores tipicamente modernos, para Théo Brandão a identidade alagoana se encontra nas suas tradições culturais mais apartadas da modernidade – especificamente no reisado e no guerreiro.&lt;br /&gt;Poderíamos dizer, então, que há um positivismo velado na abordagem de Théo Brandão sendo este justificado pelas especificidades sócio-históricas da nossa formação capitalista. Uma reprodução em mesmo tom desta abordagem de origem francesa na peculiaridade da nossa formação não possibilitaria que o nosso autor lograsse êxito na sua empreitada de formular uma interpretação da identidade alagoana que se tornasse hegemônica. Afinal, o seu objetivo foi tão bem realizado que a bandeira de Alagoas foi substituída pela sua proposta que está diretamente voltada à exaltação das tradições culturais alagoanas. A bandeira do estado estaria representando a “essência” do povo alagoano, aquilo que é mais próprio à nossa identidade, mesmo que esta resida numa dimensão da sociedade que é alijada da modernidade; talvez seja justamente por este distanciamento quase que absoluto existente entre a cultura popular e a modernidade que as manifestações tradicionais sejam entronadas como a nossa essência última. Por este fato é que se evidencia uma certa repulsa quanto ao movimento interno de transformação existente no folclore; diz Théo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atualmente, a preocupação com os improvisos de “peças” e com as intermináveis “embaixadas”, do mesmo modo que a lei do menor esforço que não se coaduna com o tirocínio e a virtuosidade necessários à aquisição da antiga técnica do bailado, levam ao abandono dos “passos” difíceis e por isto mais belos, substituídos por danças mais simples que requerem muito menor esforço e por uma independência de movimentos, uma descoordenação do todo que, embora não deixe de ter seus atrativos, não se pode comparar com a uniformidade e a precisa marcação dos antigos reisados. (pg.76)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O hiato entre o popular e o moderno não é absoluto e, por isso, evidenciam-se as transformações no interior do folclore, mesmo que a contragosto do folclorista. Apesar dessas modificações, ao folclorista não cabe a tarefa de entendê-las – explicá-las - , mas, tão-somente, descrevê-las e, principalmente, remeter-se às origens destas manifestações para daí apreender a sua essencialidade que não se perde com esses movimentos pontuais, que apenas aparentemente são degeneradores. Desta essencialidade é que provém a nossa identidade que nos distingue dos demais povos da federação.&lt;br /&gt;Como já havia dito anteriormente, o caráter dicotômico da perspectiva positivista a respeito do folclore conduz à defesa do folclore como ciência do saber popular e, por se tratar de um anacronismo, tal ciência estaria isenta do caráter explicativo causal existente nas demais; afinal, pensar o folclore é pensar uma cultura que, por mais que defina a nossa identidade, não tem vínculos com a modernidade em voga, não havendo a necessidade de se buscar explicá-la à luz da sociedade tomada como um todo. Théo Brandão faz uma crítica às abordagens teóricas que abandonam a busca pelas origens do folclore em prol da compreensão da sua função no contexto cultural; diz ele no artigo Influencias Africanas no Folclore Brasileiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demais, tem contribuído fortemente para que se tornem mais árduas essas dificuldades, a ausência, nos últimos anos, de interesse, valoração e prestígio para os estudos genéticos no folclore, e conseqüente abandono da pesquisa das influencias e fontes de nossas tradições populares. Dominam entre folcloristas as teses funcionalistas e aculturacionistas segundo as quais é ociosa e contraproducente o estudo das fontes e origem dos nossos costumes e do nosso folclore, o seu estudo cientifico interessa-se por sua função no contexto cultural ou pelas modificações por eles sofridas em nossa sociedade e cultura, em face da interação com outros fatos e costumes autóctones e alienígenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Théo Brandão quer um estudo que se atenha à busca pelos elementos genéticos do folclore, buscando trazer à tona as influências múltiplas que contribuíram à formação do folclore alagoano; em outras palavras, busca-se a “essência” das nossas tradições culturais que formam a nossa identidade alagoana. Por mais que o folclore sofra um processo de transformação – seja por fatores exógenos ou endógenos à sociedade alagoana – isso não é o que deve interessar ao folclorista, cabendo a este trazer à tona a pureza do tradicional que não se perde nas transformações modernizadoras. Não cabe também ao folclorista buscar desvendar qual a função do folclore no interior da sociedade, afinal este objetivo nunca foi – desde as abordagens clássicas acerca do folclore – próprio ao folclore enquanto ciência; “é preciso procurar as origens, antes que as causas”&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn4" name="_ftnref4" style="mso-footnote-id: ftn4;" title=""&gt;[4]&lt;/a&gt;, num claro objetivo “biográfico” dos fenômenos folclóricos. Pode-se dizer que a essência alagoana contida no folclore possui um caráter metafísico, visto que esta passa incólume por todas as transformações sofridas pelo próprio folclore enquanto complexo social partícipe da totalidade social; ou seja, Théo Brandão opera uma reificação da identidade alagoana ao atribuí-la uma dimensão essencial metafísica.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn5" name="_ftnref5" style="mso-footnote-id: ftn5;" title=""&gt;[5]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Essa carência explicativa na obra de Théo Brandão – advinda, segundo a minha hipótese, da sua filiação teórica com a abordagem positivista a respeito do folclore – foi notada por Florestan Fernandes que teceu os seguintes comentários a respeito da sua premiada obra O Reisado Alagoano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A monografia do sr. Théo Brandão sobre o “O Reisado Alagoano”, contemplada com o primeiro prêmio, distingue-se pela documentação extraordinariamente rica, quase toda inédita e exposta de maneira minuciosa, clara e objetiva. O autor teve o cuidado de indicar o local e a data em que foram colhidos os textos, as melodias e outros dados. Interessantes e valiosas são as informações sobre as mudanças sofridas pelo “reisado” no decorrer do período a que se refere a pesquisa do autor. Pena é que o sr. Théo Brandão não tenha procurado elaborar cientificamente o excelente material que apresenta. A análise etnográfica não é completa, mas em muitas partes pelo menos satisfatória, ao passo que a discussão sociológica apenas se esboça em algumas passagens. Não há nenhuma conclusão geral do estudo. &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn6" name="_ftnref6" style="mso-footnote-id: ftn6;" title=""&gt;[6]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra é reconhecida pela sua capacidade de documentar o reisado alagoano, demonstrando uma série de modificações existente entre o reisado daquele período em relação ao reisado praticado nos anos 20 e 30 – épocas em que o autor era neto de um senhor de engenho e adorava quando o seu avô aceitava que o reisado fosse realizado no interior da Casa Grande. Apesar desse reconhecimento, Florestan deixa claro as limitações do autor que não realiza uma elaboração científica do seu material, ou seja, não tem qualquer pretensão em compreender o sentido das manifestações culturais tradicionais para a sociedade alagoana, muito menos buscar explicações para as transformações evidenciadas no interior destas.&lt;br /&gt;Feito essas considerações que buscam provar a hipótese de que Théo Brandão dá continuidade à abordagem positivista a respeito do folclore, mesmo que com uma peculiaridade decorrente da nossa formação social específica, passaremos agora a uma nova etapa do relatório de caráter mais propriamente teórica. Nesta, anseia-se refletir a respeito do que se trata a cultura, bem como sobre o papel dos intelectuais na formação de uma identidade regional; daremos ênfase ao reconhecimento de que a identidade é um espaço de conflito e que, conseqüentemente, não há interpretações acerca dela que não tenha uma determinada vinculação de classe. Em todo esse percurso terá a figura de Théo Brandão um papel central já que é dele que estamos tratando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – Cultura, formação da identidade regional e o papel dos intelectuais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se pensa a cultura normalmente se faz uma associação com os fenômenos subjetivos, com a dimensão das crenças e valores que diferenciam um povo de uma área geográfica específica dos demais povos, de maneira que estas representações imaginárias se consubstanciem em práticas sociais distintas. Dessa forma, toda e qualquer sociedade seria necessariamente cultura haja visto que todas possuem um conjunto de significados, signos e condutas peculiares que fundamentam a sua identidade, pressuposto indispensável ao sentimento de pertença e da alteridade. Certamente todo povo possui cultura, afinal é uma barbaridade etnocentrista se distinguir entre os povos de cultura e aqueles isento de cultura. Todavia, a cultura que é própria ao ser social é entendida aqui como a complexa articulação existente entre subjetividade e objetividade, nunca numa abordagem que dissolva a objetividade na subjetividade. Isso significa dizer que as culturas dos povos não podem estar desconectadas das suas relações sociais objetivas, mas, antes, se configuram precisamente enquanto a complexa articulação existente entre as práticas sociais primárias (o trabalho) e aquelas práticas sociais de caráter intersubjetivo (arte, folclore, direito, culinária, senso comum, etc.). É neste sentido que o sociólogo alagoano Golbery Lessa propõe a substituição do conceito de cultura – que se restringe à subjetividade – pelo conceito marxiano de práxis, pois neste caso busca-se elevar à consciência as múltiplas mediações que unificam os pólos distintos da subjetividade e da objetividade pondo um termo às abordagens culturalistas. Sobre essa perspectiva da cultura citemos Lukács:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(…) tudo que a cultura humana criou até hoje nasceu, não de misteriosas motivações internas espirituais (ou coisa que o valha), mas do fato de que, desde o começo, os homens se esforçaram por resolver questões emergentes da existência social. É à série de respostas formuladas para tais questões que damos o nome de cultura humana.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn7" name="_ftnref7" style="mso-footnote-id: ftn7;" title=""&gt;[7]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cultura humana deve ser encarada como um conjunto de respostas que os homens já deram às demandas surgidas para a sua existência social, respostas estas que são dadas de acordo com as possibilidades historicamente existentes. Assim, o reisado alagoano descrito por Théo Brandão se configura enquanto uma resposta específica dada pelos sujeitos para expressarem em termos estéticos a eles cabíveis as suas realidades sócio-históricas peculiares; torna-se, desta forma, uma manifestação historicamente fincada e que traz consigo todas as marcas características da formação social específica que fundamentou o seu engendramento pelos trabalhadores dos engenhos de cana de açúcar da província de Alagoas. Precisamente neste sentido diz Golbery Lessa no artigo Outra Alagoanidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alagoanidade não é só um fenômeno subjetivo, não é apenas um estado de consciência ou um jeito próprio de cada alagoano expressar sua individualidade, no sentido de possuir essas ou aquelas atitudes mentais. A alagoanidade é o conjunto articulado de sistemas que estruturam a formação social alagoana e possui singularidades em relação aos conjuntos análogos de outras formações sociais.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn8" name="_ftnref8" style="mso-footnote-id: ftn8;" title=""&gt;[8]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A formação social alagoana possui peculiaridades que a distingue de outras formações, mesmo aquelas mais similares. Há, portanto, singularidades que distinguem, por exemplo, a nossa economia mesmo que seja em relação àquela existente em Pernambuco, que é bastante similar à nossa em função do nosso passado colonial; destas peculiaridades relacionam-se uma série de outras características que são próprias ao alagoano em outros complexos sociais, sem que com isso estejamos desconsiderando a autonomia relativa destes. Nas palavras de Golbery Lessa: “É fértil procurar no sistema econômico singularidades que são pólos de reprodução de singularidades de outros complexos da práxis alagoana. Isso não significa desprezar ou diminuir a importância da lógica interna de cada complexo social específico (…)”. Por tudo isso, nossa abordagem acerca do folclore pode ser definida como diametralmente oposta àquela proposta por Théo Brandão: estamos longe de considerar o folclore como uma manifestação cultural que não tenha nexos causais indissolúveis com a sua realidade sócio-histórica que fundamentou a sua emergência; nem muito menos achamos que tal manifestação cultural está isenta de movimentos internos que expressam as transformações da formação social alagoana. Por ser partícipe de uma totalidade social complexa, o folclore não pode em hipótese alguma ser considerado um anacronismo histórico que conviva à margem - em paralelo – da sociedade moderna; por mais que o seu surgimento nos remeta ao passado colonial, ele se transforma em consonância com o lento processo de transformação da sociedade alagoana, passando a conviver com o moderno não numa posição de externalidade dicotômica, mas numa relação de síntese dialética que unifica o que aparentemente se repele.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn9" name="_ftnref9" style="mso-footnote-id: ftn9;" title=""&gt;[9]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;É de fundamental importância que toda formação social busque promover uma consciência de si mesma, no caso de Alagoas, que haja uma interpretação acerca do ser alagoano que seja universalizada a todos aqueles que habitam este espaço geográfico específico. A interpretação a respeito desta realidade social peculiar não é um espaço harmônico como às vezes se propõe, mas, ao contrário, toda e qualquer interpretação que anseie delinear uma identidade cultural traz consigo as marcas do seu ponto de vista de classe. Além disso, propor uma interpretação sobre a identidade de um povo significa não somente delimitar o que ele é, visto que a partir desta delimitação se define em larga escala o que ele deve ser. Ou seja, qualquer interpretação a respeito do que seja o ser social alagoano não é ingênua, pois está necessariamente vinculada a uma determinada posição no conflito social preponderante, bem como prescreve – mesmo que de forma inconsciente – como deve se dar o devir desta mesma formação social.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn10" name="_ftnref10" style="mso-footnote-id: ftn10;" title=""&gt;[10]&lt;/a&gt; Mais a frente nos debruçaremos sobre Théo Brandão para exemplificar esta relação entre identidade cultural e conflito.&lt;br /&gt;Dirceu Lindoso nos mostra que desde a época em que Alagoas ainda era uma comarca da capitania de Pernambuco já havia uma peculiaridade desta região em relação ao norte da capitania. Diz ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há indícios de que no século XVIII o espaço alagoano se apresentava como dotado de um modo diferencial de falar-se o português de origem minhota ou além-tejana; como um aglomerado populacional onde se iniciavam certas formas de distinções de conduta social, de aglutinamento dos elementos culturais; de definição política da organização social em aldeias indígenas, povoações, vilas, freguesias, comarcas; de um espaço físico configurado e de referências topográficas nítidas.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn11" name="_ftnref11" style="mso-footnote-id: ftn11;" title=""&gt;[11]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ressalta o autor que já no século XVIII essa distinção já se formalizava ao nível da escrita através dos relatórios dos governos de Pernambuco que sempre delineavam a peculiaridade da região sul da capitania. Durante todo o século XVIII há esse processo de gestação da imagem peculiar a respeito do território, da economia, da política e da sociedade da comarca de Alagoas que vai atingir o seu ápice em 1817, data em que o ato régio eleva a comarca ao posto de capitania. A partir do momento em que cessa a sujeição política em relação a Pernambuco é que se dar a “criação de um espaço cultural alagoano, que constitui a materialização da imagem diferencial que se vinha formando numa antecedência de mais de dois século”&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn12" name="_ftnref12" style="mso-footnote-id: ftn12;" title=""&gt;[12]&lt;/a&gt;. Continua Lindoso:&lt;br /&gt;A formação da imagem diferencial das Alagoas, embora constem suas raízes na época colonial, se materializa no Reino Unido, quando se estabelece por decreto régio, a capitania das Alagoas em 1817. A destinação das Alagoas como entidade política de autonomia relativa no corpo do Brasil Reino se prefigura na imagem diferencial que se produz na escrita do século XVIII. (…) Só a partir de 1817 as Alagoas são uma imagem política homogênea e autônoma, que se passa a definir na difícil história social e política do futuro Império.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn13" name="_ftnref13" style="mso-footnote-id: ftn13;" title=""&gt;[13]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir deste momento é que se inicia o processo de maturação da formação da identidade alagoana, sendo cunhada a partir da ótica dos senhores de engenho e dos comerciantes urbanos. Isso significa dizer que a interpretação a respeito do que seja o ser alagoano durante o séc. XIX é realizada exclusivamente – ao nível da escrita e dotada de uma sistematização mínima - por estas camadas sociais hegemônicas econômica e politicamente; “A imagem diferencial se materializa, e se consolida como fato de poder”, sintetiza Lindoso.&lt;br /&gt;Antes de prosseguirmos, é fundamental trazer as considerações de Golbery Lessa a respeito desta necessidade de se construir identidades nacionais ou regionais por parte das classes dominantes. Este autor traz no seu artigo acima citado as contribuições do austro-marxista Otto Bauer sobre as construções das identidades nacionais; segundo a sua hipótese, percorrem-se três etapas para se constituir esta identidade nacional ou regional. Sinteticamente, são as seguintes: 1) o momento inicial de erudição onde uma elite intelectual se debruça sobre o passado histórico e cultural de um povo para daí propor uma interpretação sobre esta peculiaridade; 2) no momento intermediário, um conjunto de agitadores culturais e políticos buscam propagar aquela interpretação da identidade, buscando relacioná-la às instituições políticas para que também se tornem propagadoras da mesma; 3) por último, aquela interpretação da identidade nacional ou regional é assimilada pelo conjunto da população de um dado espaço geográfico, tornando-se partícipe do senso comum o que contribui para a formação da unidade nacional e a soberania do Estado-nação.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn14" name="_ftnref14" style="mso-footnote-id: ftn14;" title=""&gt;[14]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Podemos dizer que às classes dominantes de Alagoas do século XIX também era de suma importância se cunhar uma dada identidade sobre o ser alagoano, devendo esta ser universalizada com o objetivo de reiterar a hegemonia econômica e política constituída. Tal identidade que anseia preservar as relações de classe da província busca apagar as ações contra-hegemônicas de segmentos da classe explorada, tal como a Guerra dos Cabanos de 1832 que é abstraída da identidade do povo alagoano. O que se observou foi uma imputação criminal a esta revolta que não estava em conformidade com a natureza do alagoano, sendo proveniente de seres desprovidos do espírito alagoano. Estavam em consonância com o espírito alagoano aqueles sujeitos que não questionassem a sociedade escravista, baseada na produção agro-exportadora de cana de açúcar, o Estado liberal-escravista e seus senhores de engenhos. É importante salientar que o Instituto Histórico Alagoano foi um dos primeiros do país datando de 1862, o que demonstra que a elite aristocrático-mercantil do estado desde cedo teve a preocupação de elaborar a sua interpretação da história da província. Afora isso, Dirceu Lindoso demonstra minuciosamente que a própria interpretação da província vai sendo modificada, modernizada relativamente, à medida que o capital mercantil vai se sobrepujando ao capital agrário-exportador; passa-se a identificar nos escritos a necessidade de modernização dos engenhos mediante a adoção das modernas usinas, a necessidade de políticas que incentivassem a indústria têxtil do estado, a crítica à estrutura burocrático-autoritária do Império em favor do liberalismo econômico, entre outros aspectos que demonstram que no interior da própria elite alagoana havia divergências relativas ao futuro da província.&lt;br /&gt;Ao início do século XX Alagoas já havia sentido internamente um processo considerável de modernização capitalista, seja através da intensificação do comércio - principalmente em Maceió - ou do surgimento das primeiras indústrias têxteis que intensificavam ainda mais a vida urbana – sendo Fernão Velho e Rio Largo os principais focos. Aliando o esse movimento interno é de suma importância considerarmos processos regionais, nacionais e internacionais que ocorriam concomitantemente e que influenciam consideravelmente a realidade local e os sujeitos históricos aqui existentes. Todo esse cenário sócio-econômico do estado se irradiava sobre diversos complexos sociais: na política, a sobrepujança do capital mercantil intensificou o processo de urbanização e de modernização da produção de cana-de-açúcar através das substituições dos bangüês, mesmo que a contragosto dos senhores de engenhos – este processo de modernização da política se concretizaria em 1912 com a queda da oligarquia Malta que é substituída por uma outra oligarquia de caráter mais progressista, modernizante; na cultura, à medida que novos sujeitos emergiam neste processo – proletariado urbano, setores médios ligados à burocracia estatal republicana, entre outros – a formulação da identidade alagoana foi sendo transformada, modernizada, seja por parte da perspectiva conservadora, republicano-democrática ou mesmo socialista. Justamente por isso surgem figuras como Otávio Brandão com seus escritos anarquistas, Graciliano Ramos na literatura, a Escola de Viçosa com seus estudos folclóricos, Arthur Ramos&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn15" name="_ftnref15" style="mso-footnote-id: ftn15;" title=""&gt;[15]&lt;/a&gt; e os seus estudos sobre os índios, negros e mulheres - que rompem com a abordagem tradicionalmente racista da interpretação da classe dominante alagoana sobre a alagoanidade - , além da modernização na historiografia com Craveiro Costa e Moreno Brandão. Esse processo de transformação da realidade social e do discurso sobre a mesma prosseguiu até 1930 quando se deu a vitória do tenentismo, responsável pela potencialização deste processo modernizante dentro das limitadas capacidades do capitalismo brasileiro.&lt;br /&gt;As transformações vivenciadas nas relações de produção se configuram enquanto o momento predominante que exigiram dos sujeitos históricos respostas imprescindíveis para a reprodução social; a interpretação da identidade é certamente uma resposta a esta necessidade oriunda do trabalho e que passa a compor a totalidade social. As propostas identitárias para o ser alagoano se tornam mais numerosas a partir do século XX em função do já referido surgimento de novos sujeitos e do espaço extremamente débil, mas existente, da democracia nos perímetros urbanos. Como havia dito anteriormente, cada uma dessas interpretações não se limitam a representar sobre o que é o ser alagoano, mas trazem consigo uma necessária projeção acerca do que deve ser este ser alagoano.&lt;br /&gt;Todos esses comentários historiográficos são imprescindíveis para situarmos Théo Brandão historicamente. Não podemos defini-lo como um mero folclorista, por mais que fosse assim que ele se identificasse, mas ele “foi um dos contemporâneos mais ativos na construção de uma consciência da alagoanidade”.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn16" name="_ftnref16" style="mso-footnote-id: ftn16;" title=""&gt;[16]&lt;/a&gt; Atuou ativamente na elaboração de uma identidade alagoana que representasse uma modernização da interpretação aristocrático-burguesa até então em voga, ou seja, foi um erudito capaz de perceber o movimento de seu tempo e a partir daí realizar esta atualização indispensável para que a identidade alagoana propagada pela elite local se tornasse plausível. O homem é um ser que dá respostas e estas são dadas a partir do momento em que as necessidades surgem na realidade social; no caso de Théo Brandão, as transformações existentes na realidade alagoana – assim como os discursos já existentes sobre o humano a nível mundial – o impeliram a dá respostas palatáveis sobre o ser alagoano do ponto de vista de sua classe de origem&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn17" name="_ftnref17" style="mso-footnote-id: ftn17;" title=""&gt;[17]&lt;/a&gt;. Uma série de outros alagoanos também realizou esta empreitada em outras dimensões (do ponto de vista da elite local), como Moreno Brandão na historiografia, Arthur Ramos na antropologia, que trazia à tona uma série de interpretações até então obscurecidas pela abordagem tradicional da classe dominante e Manuel Diegues Jr. que faz uma interpretação modernizada dos bangüês alagoanos. Gilberto Freyre se configura enquanto um marco divisor de águas que influenciou toda uma geração subseqüente: não havia mais como tematizar a identidade excluindo o negro e o índio que se tornam partícipes indispensáveis para sua efetivação; entretanto, estes são trazidos para o discurso dominante mediante uma atenuação da trágica relação efetivamente existente, bem como por uma bestialização destes sujeitos historicamente dominados.&lt;br /&gt;Théo Brandão enquanto intelectual orgânico&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn18" name="_ftnref18" style="mso-footnote-id: ftn18;" title=""&gt;[18]&lt;/a&gt;da elite agro-mercantil alagoana não pode trazer as camadas populares para o debate político, não pode equipará-las à elite dentro de um projeto transformador de caráter popular-democrático tal como ocorreu na França revolucionária. Lá, os trabalhadores e os camponeses foram chamados pela burguesia para agirem enquanto sujeitos históricos e porem a baixo o velho regime, instaurando a modernidade capitalista alicerçada nos ideais de igualdade e liberdade. O distanciamento da burguesia em relação às camadas populares já havia sido evidente na Alemanha e na Itália, onde a debilidade da burguesia impedia que ela se contrapusesse revolucionariamente à velha aristocracia feudal, além de que a incapacidade do capitalismo em efetivar os ideais humanistas alardeados durante a revolução francesa abrira espaço para projetos societais que questionavam a ordem do capital, causando temor por parte das burguesias nacionais ainda ávidas por poder político. A intitulada via prussiana, por Lênin, ou a revolução passiva ou transição pelo alto, por Gramsci, significa precisamente esta transição para o capitalismo em que as massas são apartadas do processo histórico, justamente porque a burguesia quer vê-las distante do poder como forma de impedir que elas ponham as suas demandas a serem efetivadas; instaura-se nesses países instituições muito mais autoritárias, chauvinista, um capitalismo onde a intervenção estatal é uma constante à medida que eles estão retardados no processo de acumulação de capital, em suma, não há a emergência de uma democracia liberal burguesa. Todos esses problemas decorrentes da via prussiana ao capitalismo existem na transição ao capitalismo pela via colonial, mas tais problemas assumem nestes países um caráter muito mais nocivo, como é o caso do Brasil. Evidenciamos um processo muito mais acentuado de apartamento das camadas populares das tomadas de decisão, o que fica claro nos processos de independência e de proclamação da República: o distanciamento destes para com a massa é gritante, quase que absoluto. Há também um fortalecimento ainda maior do Estado sobre a sociedade civil com o objetivo frustrado de realizar a modernização capitalista no país a partir da acumulação do capital nacional; entretanto, essa transição hiper tardia ao capitalismo impede a acumulação do capital nacional que se torna sócio minoritário do capital monopolista dos países centrais; ao receio das camadas populares por parte da burguesia nacional fundamenta acordos desta com as oligarquias agrárias de maneira que os avanços progressistas do capitalismo sejam inexistentes ou limitados, fortalecendo o chauvinismo em detrimento da participação popular. Sobre essa transição diz Carlos Nelson Coutinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste tipo de transição, as camadas subalternas manifestam-se através de um “subversivismo esporádico e elementar” (a expressão é de Gramsci), ao passo que as classes dominantes reagem a esses embriões de um movimento que vem de baixo precisamente com manobras pelo alto, que implicam um acordo e uma conciliação entre os segmentos “modernos” e os segmentos “arcaicos” dessas classes. Não se tratam, essas transições, de meras contra-revoluções, mas são precisamente aquilo que Gramsci chamou de “revoluções-restaurações”, ou “revoluções passivas”, que, ao mesmo tempo em que se introduzem novidades, conservam muitos elementos da velha ordem. A especificidade deste tipo de transição é precisamente esta: que o novo surge na história marcado por uma profunda conciliação com o velho, com o atraso.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn19" name="_ftnref19" style="mso-footnote-id: ftn19;" title=""&gt;[19]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa panorâmica sobre as formações capitalistas é importante para compreendermos a forma positivista como Théo Brandão traz o povo para a interpretação da identidade alagoana. As transformações sociais exigem a atualização desta identidade cunhada pela elite agro-mercantil do estado de forma que Théo Brandão retire as camadas populares do ostracismo, emergindo-as no discurso dominante como sujeitos passivos, inertes e impossibilitados de fazer a sua própria história. Diz Golbery Lessa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro: o homem do povo – que ele gosta de chamar o homem “folk” – não é visto nunca como o protagonista de sua própria história, ou de seu futuro, de seu devir. O homem folclórico é visto sempre por Theo Brandão como aquele homem que está apartado da modernidade, que não é e nem pode ser um cidadão, que não é um potencial revolucionário, que não pode ser um potencial protagonista de projetos políticos e propostas globais para a sociedade. O homem folclórico é idealizado romanticamente como um homem de necessidades básicas, um homem que não se revolta, um homem que aceita a vida como ela é e que mesmo assim com todas essas limitações reproduz o “espírito” mais profundo de Alagoas - nos seus folguedos, nas suas danças, na sua literatura oral, na sua arte de fazer brinquedos, na sua arte de confeccionar objetos populares . É uma visão paternalista desse homem; é uma visão que isola esse homem da modernidade, da vida real e do universo político. Eu creio que é uma visão extremamente cruel, extremamente preconceituosa que nega a humanidade ao homem do povo. Ao invés de trazer o homem do povo para o diálogo com o intelectual de classe média, ao invés de respeitar esse homem do povo ele é etiquetado, condicionado dentro de determinados espaços em que ele existe como uma espécie de espécime exótico; o exótico que seria fundamental pra determinar a singularidade da identidade alagoana. &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn20" name="_ftnref20" style="mso-footnote-id: ftn20;" title=""&gt;[20]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa forma de trazer a massa explorada para o seu discurso revela que a modernização do pensamento da classe dominante é extremamente limitada, tratando-se de um movimento de inovação marcado fortemente – enquanto predominância - pelo velho, ou seja, pela continuidade das tradições preconceituosas que assumem uma nova roupagem. Nada mais é do que a “modernização conservadora” que assola não só o pensamento da elite sobre a realidade, mas é imanente ao próprio movimento verificado na realidade material; o historicamente novo é submisso ao historicamente velho no desenvolvimento capitalista de Alagoas.&lt;br /&gt;À guisa de conclusão, a formação capitalista alagoana bem como a vinculação de classe do autor são os elementos que fundamentam a sua absorção da abordagem positivista a respeito do folclore. Os fundamentos básicos da conceituação positivista clássica a respeito do folclore servem bastante ao seu intento: encarar o folclore como uma área específica do saber à medida que possui um objeto sui generis – a civilização tradicional como diz o próprio autor – ; ciência essa que está isenta das explicações causais comuns ao saber científico pelo fato de que seu objeto não possui implicações sociais amplas, pois se trata de anacronismo em relação à modernidade em voga. Estes aspectos estão em consonância com o objetivo de Théo Brandão de atualizar a imagem da classe dominante alagoana sobre o estado, pois: 1) a cultura popular (folklore) por está apartada da modernidade é entendida como uma dimensão da sociedade carente de autonomia, composta por sujeitos passivos presos à tradição, residindo nela, ao mesmo tempo, o “espírito alagoano” que é generalizado a toda Alagoas e universalizado no tempo, fundamentando-se uma visão paternalista sobre o homem do povo; 2) por se trata de anacronismo cultural, o folclore não deve ser encarado como uma dimensão de grande importância explicativa à realidade social existente, cabendo apenas a sua descrição e a busca pelas suas origens por parte dos folcloristas; ou seja, o folclore está isento das contradições que permeiam o mundo moderno, sendo um espaço onde não há conflito, mas sim harmonia típica do “espírito alagoano”. Diz Golbery Lessa sobre essa carência de teorização:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu creio que, a partir da perspectiva de Théo Brandão, teorizar muito sobre o homem folclórico alagoano implicaria em uma série de antinomias, ficariam mais explícitos todos os defeitos que eu sublinhei anteriormente. Ou seja, não teorizar – não sei se ele tinha isso consciente ou inconsciente – implicava em esconder essas várias antinomias éticas e teóricas que a abordagem dele do folclore alagoano possui.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn21" name="_ftnref21" style="mso-footnote-id: ftn21;" title=""&gt;[21]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta imagem sobre Alagoas proposta por Théo Brandão foi acatada por nossa elite local pelo fato de que satisfazia ao seu interesse, visto que a sua definição da identidade alagoana se coadunava com a prospecção que esta tinha em relação ao futuro do estado. Isso não desconsidera a existência de frações conflitantes no interior da elite alagoana, mas reconhece que a proposta de Théo Brandão expressa uma interpretação da identidade alagoana bastante plástica, capaz de angariar concordância seja na fração da elite mais relacionada ao capital mercantil-industrial, seja naquela parcela agro-exportadora que reconhece o processo modernizante como inelutável – mesmo que não seja capaz de fazer cessar o sentimento nostálgico dos bangüês alagoanos.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref1" name="_ftn1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;[1]&lt;/a&gt; Diz Florestan Fernandes: “Para os autores da época e ainda para alguns contemporâneos o termo cultura significaria o patrimônio cultural das classes mais elevadas; e seria, caracteristicamente, uma cultura transmitida por meios escritos, compreendendo todos os conhecimentos científicos, as artes em geral e a religião oficial. O termo folclore significaria e abrangeria, pois, todos os elementos que constituem o que se poderia entender “a cultura das classes baixas”, transmitida oralmente. Aqui começou a série de analogias e termos de comparações entre os “meios populares” e os “primitivos”, no folclore, ambos considerados povos pré-letrados ou “incultos”, isto é, gente sem a cultura das classes “superiores”. (Fernandes, Florestan, 1920-1995. O folclore em questão/ Florestan Fernades. – 2ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2003. – (Raízes). Pg.39 nota 1)&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref2" name="_ftn2" style="mso-footnote-id: ftn2;" title=""&gt;[2]&lt;/a&gt;Fernandes, Florestan, 1920-1995. O folclore em questão/ Florestan Fernandes. – 2ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2003. – (Raízes).&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref3" name="_ftn3" style="mso-footnote-id: ftn3;" title=""&gt;[3]&lt;/a&gt; Palestra ministrada ao Rotary Club em 1949; coletada no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e extraída do livro Folclore de Alagoas/Maceió – Alagoas (1949).&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref4" name="_ftn4" style="mso-footnote-id: ftn4;" title=""&gt;[4]&lt;/a&gt; Frase Maunier retirada do livro acima citado de Florestan Fernandes, pg. 60.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref5" name="_ftn5" style="mso-footnote-id: ftn5;" title=""&gt;[5]&lt;/a&gt; Para evitar equívoco, deixa-se claro que a busca pelas origens de uma formação social não é necessariamente realizada mediante uma abordagem positivista - que isola um determinado complexo da totalidade social, como o folclore, identificando nele uma “essência” pétrea e inatingível que não se transforma em função das mudanças evidenciadas na realidade social. Longe dessa universalização de uma essência hipostasiada, o materialismo histórico busca apreender a essência de uma formação social considerando-a historicamente, como produto de práticas sociais específicas. Refuta-se categoricamente o suposto abismo existente entre essência e fenômeno que hipostasia o primeiro e restringe a historicidade ao segundo; em suma, a realidade social nada mais é do que a articulação complexa existente entre esses dois momentos distintos igualmente históricos e que se unificam mediante uma série de mediações.&lt;br /&gt;Mais considerações sobre a relação essência-fenômeno ver em Lessa, S. Notas sobre a historicidade da essência em Lukács no link www.sergiolessa.com&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref6" name="_ftn6" style="mso-footnote-id: ftn6;" title=""&gt;[6]&lt;/a&gt; O prêmio referido advém do 4ª concurso de monografias sobre o folclore nacional instituído em 1949 pela discoteca pública municipal/SP.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref7" name="_ftn7" style="mso-footnote-id: ftn7;" title=""&gt;[7]&lt;/a&gt; Citação extraída da dissertação de Ester Vaisman “O problema da Ideologia na Ontologia de G. Lukács” proveniente do livro de W. Abendroth Conversando com Lukács.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref8" name="_ftn8" style="mso-footnote-id: ftn8;" title=""&gt;[8]&lt;/a&gt; Os grifos são meus.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref9" name="_ftn9" style="mso-footnote-id: ftn9;" title=""&gt;[9]&lt;/a&gt; Seguindo a lógica de Théo Brandão, poderíamos afirmar que a carroça a propulsão animal – com pneus de fusca e molas de caminhão - que faz parte do cotidiano da capital alagoana se configura enquanto uma reminiscência arcaica, tradicional, que convive numa relação de externalidade com os meios de transporte modernos (carros, motos, etc.). Neste sentido, a carroça também faria parte do que há de mais puro do ser alagoano: seria um exemplo da nossa tradição que não se rende ao movimento da sociedade em vias de modernização. Entretanto, longe de possuir um significado reificado cunhado em suas origens – engenhos coloniais – que nada tem a ver com a nossa modernidade, a carroça é um grande exemplo que demonstra a imbricação entre o novo e o velho do capitalismo alagoano mesmo em sua fase globalizada; longe de ser um anacronismo se configura enquanto um partícipe direto da nossa formação capitalista hiper atrasada onde o novo e o velho se sintetizam dialeticamente numa totalidade complexa, tendo o velho um caráter predominante.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref10" name="_ftn10" style="mso-footnote-id: ftn10;" title=""&gt;[10]&lt;/a&gt; Esta relação entre a interpretação a respeito do ser com o vir-a-ser é imprescindível para pensarmos a cultura. Como um conjunto de idéias e valores assentados em uma dada realidade sócio-histórica, a cultura dá sentimento de pertença aos indivíduos de maneira que estes ocupem um dado papel nesta sociabilidade; entretanto, a sociedade não é uma mera reprodução do mesmo, mas se depara com o contínuo jorrar do novo, com o incessante surgimento de necessidades que precisam ser respondidas pelos sujeitos. É neste momento que identidade cultural é fundamental para o vir-a-ser da sociedade, pois as respostas que os sujeitos históricos darão às necessidades oriundas de seu ser social estão em larga escala delimitadas por este conjunto de idéias e valores que chamamos de cultura. O homem responde às necessidades históricas de seu ser social escolhendo entre as alternativas inscritas no âmago deste mesmo ser social, sendo a identidade cultural fundamental para estes momentos de tomada de decisão entre alternativas.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref11" name="_ftn11" style="mso-footnote-id: ftn11;" title=""&gt;[11]&lt;/a&gt; Citação extraída do livro Interpretação Da Província – Estudos da Cultura Alagoana, especificamente do artigo Representação Social na escrita da cultura alagoana no século XIX, pg. 32.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref12" name="_ftn12" style="mso-footnote-id: ftn12;" title=""&gt;[12]&lt;/a&gt; Idem, pg. 35.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref13" name="_ftn13" style="mso-footnote-id: ftn13;" title=""&gt;[13]&lt;/a&gt; Idem, pág. 36.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref14" name="_ftn14" style="mso-footnote-id: ftn14;" title=""&gt;[14]&lt;/a&gt; Conferir em Outra Alagoanidade.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref15" name="_ftn15" style="mso-footnote-id: ftn15;" title=""&gt;[15]&lt;/a&gt; Podemos dizer que há em Arthur Ramos uma modernização mais progressista do que a existente em Théo Brandão. Para este último, a “essência alagoana” contida no folclore era uma amálgama decorrente da posição simétrica – eqüitativa – das três matrizes culturais basilares da nossa formação: a africana, a indígena e a portuguesa; ao que nos parece, há nesta abordagem a diluição da relação assimétrica baseada no domínio econômico, político e cultural da matriz portuguesa representada nos senhores de engenho. Já em Arthur Ramos, parece-nos que as relações de poder existente entre as matrizes culturais são reconhecidas e não dissolvidas em um suposto resultado final – o folclore; tanto o é que Arthur Ramos se incumbiu de realizar interpretações sobre o negro e o índio que explicitassem tais dominações e que servissem de base para políticas públicas específicas que reconhecessem a discrepância histórica.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref16" name="_ftn16" style="mso-footnote-id: ftn16;" title=""&gt;[16]&lt;/a&gt; Outra Alagoanidade, Golbery Lessa.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref17" name="_ftn17" style="mso-footnote-id: ftn17;" title=""&gt;[17]&lt;/a&gt; O fato de Théo Brandão ter estudado a identidade alagoana a partir do ponto de vista de sua própria classe não significa dizer que esta relação seja absoluta, inexorável. Afinal, ícones do pensamento do proletariado como Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Lukács não faziam parte desta classe propriamente dita, mas abandonaram o ponto de vista de suas classes de origem e assimilaram o ponto de vista do trabalho para pensar a realidade social em que viviam. Michel Löwy nos mostra que alguns intelectuais da pequena-burguesia e até da própria burguesia assumem o ponto de vista da classe trabalhadora por serem sensíveis à antinomia existente entre o capitalismo e os valores humanistas propagados pela própria burguesia revolucionária. Instalada essa “crise” de identidade nestes sujeitos, abrem-se dois caminhos a serem escolhidos por eles: por um lado, o da crítica irracionalista-romântica ao realmente existente que conduz a um pensamento místico como forma de superar a angustia existencial; e por outro lado, a opção da crítica do ser social burguês a partir da ótica do trabalho, que conduz a uma crítica profunda do capitalismo ao mesmo tempo em que se torna claro a possibilidade do vir-a-ser histórico impulsionado pela classe trabalhadora.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref18" name="_ftn18" style="mso-footnote-id: ftn18;" title=""&gt;[18]&lt;/a&gt; Termo cunhado por Gramsci em Os Intelectuais e a Organização da Cultura.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref19" name="_ftn19" style="mso-footnote-id: ftn19;" title=""&gt;[19]&lt;/a&gt; Coutinho, Carlos Nelson. Intervenções: o marxismo na batalha das idéias – São Paulo: Cortez, 2006. pg.144&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref20" name="_ftn20" style="mso-footnote-id: ftn20;" title=""&gt;[20]&lt;/a&gt; Citação retirada da entrevista realizada pelo bolsista Gabriel Magalhães Beltrão que segue em anexo.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref21" name="_ftn21" style="mso-footnote-id: ftn21;" title=""&gt;[21]&lt;/a&gt; Citação também extraída da entrevista.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-5881884607106495048?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/5881884607106495048/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=5881884607106495048&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/5881884607106495048'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/5881884607106495048'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2009/12/continuidade-da-abordagem-positivista.html' title='A CONTINUIDADE DA ABORDAGEM POSITIVISTA ACERCA DO FOLKLORE NA OBRA DE THEO BRANDÃO'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/Sx6b3yCFWVI/AAAAAAAAJ5M/hwAsmiEvXHE/s72-c/Digitalizar0001.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-8853519526362411780</id><published>2009-06-10T11:45:00.006-03:00</published><updated>2010-01-05T11:17:06.816-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Golbery Lessa'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA&lt;br /&gt;Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA&lt;br /&gt;Superintendência Regional de Alagoas – SR-22/AL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTA TÉCNICA 01-2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alternativas sustentáveis para as terras e os parques industriais das antigas usinas AGRISA e PEIXE a partir das suas eventuais desapropriações para fins de reforma agrária&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assessoria do Gabinete da Superintendência*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Nota Técnica elaborada por Golbery Lessa, Especialista em Política Pública e Gestão Governamental do quadro funcional do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), em exercício no Incra (SR22) como assessor especial do Gabinete da Superintendência, a partir dos debates do seminário “Viabilidade técnica da Agrisa integrada ao Plano Regional de Reforma Agrária e alternativas econômicas para a região” e das considerações do grupo de trabalho formado no seminário para apresentar uma posição sobre o tema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maceió – março de 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Introdução&lt;br /&gt;1. Usina de açúcar e destilaria de álcool: os piores negócios do mundo&lt;br /&gt;1.2. Setor Sucroalcooleiro e o Capitalismo Periférico em Alagoas&lt;br /&gt;2. Cooperativa agroindustrial sucroalcooleira: todos os males e nenhum benefício&lt;br /&gt;2.1. Quais são as vantagens de uma cooperativa?&lt;br /&gt;2.2. O funcionamento da Agrisa como cooperativa agroindustrial&lt;br /&gt;2.3. Uma Alternativa: cooperativas de produção de frutas, cereais e hortaliças&lt;br /&gt;2.3.1. Introdução e Metodologia&lt;br /&gt;2.3.2. Análise das Tabelas&lt;br /&gt;2.3.3. Conclusões e Projeções&lt;br /&gt;3. Referências Bibliográficas&lt;br /&gt;4. Anexo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Introdução&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A provável desapropriação de 20 mil hectares de terras pertencentes ao grupo empresarial Nivaldo Jatobá (áreas ligadas às falidas usinas AGRISA e PEIXA), localizadas nos municípios de Joaquim Gomes, Flexeiras e São Luís do Quitunde, tornará disponível para o assentamento de trabalhadores rurais sem-terra a maior área da história de Alagoas pertencente a um único proprietário e, por outro lado, que representa trinta por cento do que já foi disponibilizado em toda a história da reforma agrária do Estado. A possibilidade de equacionar alguns dos mais agudos problemas sociais desses municípios (já que haveria espaço para o assentamento de 2 mil famílias) tem deixado mais evidente a necessidade de aprofundarmos a reflexão sobre os rumos da reforma agrária, principalmente no que se refere às alternativas econômicas para o desenvolvimento dos assentamentos e no que toca à sua relação com os outros setores do mundo rural e da sociedade como um todo.&lt;br /&gt;As grandes dificuldades enfrentadas pelos cerca de cem assentamentos existentes em Alagoas, expressas na freqüente desorganização da produção, na falta de integração com os mercados locais, nacionais e internacionais e no caráter rotineiro da tecnologia que empregam, unidas à ideologia legitimadora que envolve secularmente a lavoura da cana-de-açúcar, constituíram um espaço para que alguns setores técnicos da máquina pública e da academia passassem a aceitar a possibilidade de que as terras e o parque fabril das antigas usinas AGRISA e PEIXA fossem, tão logo desapropriados, alocados para a formação de uma cooperativa agroindustrial constituída por famílias de trabalhadores sem-terra com o objetivo de produzir cana, açúcar e álcool. A proposta tem sido apresentada como inovadora, já que aparece como uma espécie de superação da posição considerada sectária de perceber a lavoura da cana-de-açúcar em si mesma como a causa essencial dos problemas fundiários e agrícolas do Leste Alagoano.&lt;br /&gt;Como procuraremos detalhar neste texto, esta proposta constitui-se no contrário do que aparenta. Uma cooperativa para produzir o mesmo que os usineiros de Alagoas têm produzido há séculos não possui viabilidade econômica e nem supera a lógica perversa das relações sociais típicas do capitalismo periférico estabelecido em terras caetés. A não ser que se transforme em um enorme ralo por onde as instâncias do governo federal e estadual façam correr rios de subsídios, insustentáveis a partir de quaisquer padrões de desenvolvimento econômico, social e político, a referida cooperativa sucroalcooleira teria poucas chances de competir vitoriosamente no mercado e, caso conseguisse fazê-lo, tenderia a reproduzir as dimensões mais perversas do modelo canavieiro tradicional: superexploração do trabalho, monocultura exportadora (que inibe o desenvolvimento do mercado interno e da divisão social do trabalho), destruição dos recursos naturais e fortalecimento de uma cultura política oligárquica e patrimonialista. Resultados que estariam em pleno desacordo com as principais diretrizes do Plano Nacional de Reforma Agrária, o qual está alicerçado no desenvolvimento sustentável da agricultura familiar e na crítica ao modelo do chamado agronegócio.&lt;br /&gt;1.Usina de açúcar e destilaria de álcool: os piores negócios do mundo&lt;br /&gt;Ao contrário do que parece, uma unidade fabril do setor sucroalcooleiro é um dos empreendimentos mais difíceis de sobreviver em um mercado competitivo. Sem uma série de interferências e de ausências da máquina estatal, bem como várias práticas ecológica e socialmente condenáveis, dificilmente este setor teria sobrevivido no Brasil, notadamente na região Nordeste. Os principais problemas da indústria canavieira têm relação direta com os limites que a própria cana e seus derivados colocam para a sua produção em moldes capitalistas, a saber: 1) a pouca absorção de mão-de-obra durante a fase do plantio, da maturação e do processamento da matéria-prima; e 2) a natureza imediatamente perecível que a cana adquiri após a colheita.&lt;br /&gt;A baixa absorção de mão-de-obra na produção de cana-de-açúcar repete-se, em outro patamar e por outras razões, no seu processamento. A natureza essencialmente química da fabricação do açúcar e do álcool impõe um processo de trabalho no qual os operários não entram em contato direto com a matéria-prima, o que torna mais rápido, como em toda indústria química, o processo de diminuição do número de trabalhadores por unidade fabril; isso significa um rápido avanço relativo do capital fixo em relação ao capital circulante; fato que gera uma diminuição particularmente rápida no valor impregnado em cada unidade dos produtos finais.&lt;br /&gt;O caráter extremamente perecível que a cana-de-açúcar adquire após o corte impede a existência de um comércio mundial desta matéria-prima. Segundo os técnicos mais experientes do setor, atualmente só é economicamente viável a cana plantada até 100 km de distância da unidade fabril em que será processada, o que é determinado pelos altos custos relativos do transporte e pelo caráter perecível do produto. Essa natureza perecível da cana colhida também impede a existência de um mercado nacional e mesmo estadual; o processo de compra e venda desta gramínea acaba sendo realizado num circuito municipal ou intermunicipal. Esse caráter perecível torna também impossível a constituição de estoques. Qualquer usina é obrigada a localizar-se muito próxima dos canaviais e, quase sempre, está territorialmente envolvida por estas plantações.&lt;br /&gt;As singularidades físicas e químicas da planta impõem outras particularidades decisivas para as relações capitalistas no setor. A inexistência de um mercado mundial de cana para abastecer ininterruptamente as unidades fabris e a impossibilidade da constituição de estoques desta matéria-prima que tivesse o mesmo objetivo impõem à parte industrial do setor uma grande diminuição na velocidade de rotação do capital, o que determinará uma tendência de baixa significativa na massa de lucro. Sabe-se que dois capitais de igual grandeza e iguais taxas de mais-valia e de lucro produzem diferentes massas de mais-valia e de lucro, se tiverem tempos de rotação diferentes. Ou seja, pressupondo duas empresas de mesmo capital, é mais rentável a empresa que fabrica e vende mercadorias todos os dias do que uma empresa que gasta um tempo mais longo entre a preparação e a venda de seus produtos. A primeira empresa faz girar o seu capital circulante (matéria-prima e gastos com mão-de-obra) mais rapidamente e, portanto, mais vezes, o que determina uma maior absorção de mais-valia, uma maior massa de lucro, um menor tempo de amortização do capital e uma maior disponibilidade de liquidez.&lt;br /&gt;Enquanto uma indústria automobilística produz e vende muitos veículos a cada dia do ano, uma usina produz e vende açúcar apenas durante seis meses de cada ano, já que precisa esperar a maturação dos canaviais. Os meses de paralisia somente podem ser compensados pelo aumento das escalas produtivas (mas esse recurso tem limites relativamente estreitos, já que os aumentos de escala também geram externalidades negativas, como o aumento do tempo de amortização do capital) e pela brutal elevação da taxa de mais-valia, entre outros expedientes de graves conseqüências sociais e ambientais.&lt;br /&gt;Para aumentarem sua massa de lucro e continuarem acumulando capital, os usineiros têm utilizado os seguintes expedientes: 1) ampliação das áreas de “cana própria” com o objetivo de amealhar as rendas absoluta e relativa da terra e para tornar frágil a posição dos fornecedores de cana no mercado dessa matéria-prima; 2) aumento contínuo das escalas de produção, com o intento de diminuir o impacto financeiro negativo da baixa absorção de valor por unidade de cana e de produto final, o que implica na multiplicação dos latifúndios e na imposição da monocultura; 3) efetivação de altas taxas de sonegação de impostos estaduais e federais, bem como de retenção ilícita das contribuições para a previdência social; 4) descumprimento de vários artigos fundamentais da legislação trabalhista, com graves prejuízos para a vida profissional dos trabalhadores canavieiros; 5) combinação do uso da mais-valia relativa com a mais-valia absoluta, adquirindo esta última contornos realmente trágicos, expressos nos baixíssimos salários e na alta intensidade do trabalho, com impactos corrosivos para os sindicatos e outras organizações preocupadas com a organização dos trabalhadores agrícolas; 6) descumprimento da legislação ambiental, com o intuito de diminuir os custos de produção, com trágicos resultados para o equilíbrio ecológico; e 7) radicalização da captura das instâncias estadual e municipal da máquina pública e da cultura patrimonialista.&lt;br /&gt;1.2. Setor Sucroalcooleiro e o Capitalismo Periférico em Alagoas&lt;br /&gt;A agroindústria sucroalcooleira alagoana não é a industrialização do campo, é a ruralização da indústria. Constitui-se em um verdadeiro dinossauro econômico; a sua calda agrícola extensiva embarga-lhe o passo, esmaga gerações de trabalhadores alagoanos, atravanca a divisão social do trabalho e inibe o desenvolvimento dos traços mais positivos do capitalismo. Nas condições alagoanas, este setor econômico tem, além disso, o enorme inconveniente de possuir um grande potencial de reproduzir-se por séculos. Isso acontece não porque Alagoas tenha uma vocação genética, cultural ou metafísica para produzir açúcar, mas porque essa agroindústria inibe radicalmente a divisão social do trabalho e, portanto, dificulta muito o surgimento de atividades econômicas que possam superá-la. Há séculos o litoral nordestino, o alagoano em particular, é dominado pelos canaviais e pelo subdesenvolvimento radical que impõem.&lt;br /&gt;Não podemos confundir o desenvolvimento agrícola do capitalismo clássico com o desenvolvimento agrícola do capitalismo periférico. Por exemplo, a grande propriedade agrícola nos Estados Unidos de hoje, que tira vantagens do uso da economia de grande escala, é resultado do desenvolvimento da pequena propriedade rural capitalista, é a expressão de toda uma trajetória progressista e democrática durante a qual criou-se um amplo mercado interno de bens agrícolas, o qual foi decisivo para o barateamento dos alimentos e, portanto, para aumento relativo da renda dos trabalhadores e para a consolidação da mais-valia relativa em detrimento da mais-valia absoluta (como se sabe, a mais-valia relativa é também acionada pelo barateamento dos bens consumidos pelos trabalhadores, que pressupõe o desenvolvimento da produtividade na constituição desses produtos). No caso alagoano, a grande propriedade é a expressão do mais completo atraso, representa a negação do caminho progressista e democrático trilhado pelos Estados Unidos. A economia de grande escala das usinas alagoanas não expressa a modernidade, mas o desperdício em escala aumentada e representa uma enorme muralha que paralisa a verdadeira modernidade capitalista na agricultura; modernidade que se fundamenta na oferta de alimentos a preços constantemente declinantes para os trabalhadores urbanos.&lt;br /&gt;Alguns intelectuais têm utilizado, muitas vezes inconscientemente, a teoria de Lênin sobre o caráter progressista da economia de escala na agricultura para defender o setor canavieiro alagoano. Ora, Lênin se referia a economia de grande escala no contexto do capitalismo clássico e não no seio dos capitalismos prussiano e colonial. O autor de O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia sabia mais do que qualquer outro cientista as enormes diferenças entre o caminho clássico e o caminho não clássico de desenvolvimento da agricultura, tanto que foi quem mais aprofundou as reflexões de Marx e de Engels sobre o tema. Sabia claramente que em um contexto prussiano ou colonial a grande propriedade agrícola era um estorvo para o avanço do capitalismo no campo e em todas as esferas da sociedade. Utilizar de maneira descontextualizada a teoria do líder bolchevique sobre determinadas vantagens da grande propriedade na agricultura é o mesmo que inverter essa teoria e inviabilizar a compreensão adequada das realidades particulares.&lt;br /&gt;Apesar de todas as debilidades econômicas que possuem e de constituírem-se na causa principal do atraso do capitalismo alagoano, as usinas criam fortunas milionárias para os seus proprietários e impõem-se na paisagem com a perenidade das pirâmides. Isso é possível devido à colaboração dos governos federal e estadual e, principalmente, pelo fato de que a sociedade alagoana é essencialmente organizada no sentido de doar todos os seus recursos, de todas as suas esferas, para que essas empresas possam dar a maior massa de lucro possível aos seus proprietários. Por um lado o governo da União, por meio de subsídios generosos, da reserva de parte do mercado exterior (a chamada cota americana) e nordestino para o açúcar alagoano, afasta o máximo possível a concorrência e todos os outros mecanismos de mercado que representem perigo para esses capitais; por outro lado a sociedade e seu aparelho estatal são utilizados por essas empresas como um vasto campo de concentração, no qual podem encontrar ilimitados sacrifícios humanos de toda a ordem e magnitude. Outro suporte básico dessas empresas é a monopolização da renda da terra, ou seja, daquele ganho proveniente não do capital empregado mas do simples fato de deter um monopólio geográfico. Como as propriedades rurais dessas empresas são imensas, grandes parcelas dos seus ganhos são provenientes desse monopólio de largos pedaços da natureza; ganhos que não custam nenhum investimento.&lt;br /&gt;Pela ajuda generosa que historicamente ofereceram ao setor canavieiro, os vários governos federais do passado receberam o apoio de muitos deputados e senadores alagoanos, os quais, em sua maioria, são patrocinados diretamente pelos usineiros e sempre se colocam como fiéis defensores dos interesses desses capitalistas. A maioria da população alagoana, ao contrário, não ganha absolutamente nada por constituir-se em um mero instrumento da lucratividade desses capitais; cada centavo dos lucros das usinas é constituído por cada fato concreto da tragédia social, cultural e política vivida pela maior parte do povo alagoano. Entre outros fatos conhecidos de todos, as fontes de cada partícula dos ganhos monetários da agroindústria canavieira alagoana são as seguintes: 1) a morte das crianças da classe trabalhadora e o seu sepultamento em covas rasas; 2) a inibição do seu crescimento físico e intelectual pela precariedade dos alimentos e pela debilidade dos sistemas de saúde e educação; 3) a velhice precoce de homens e mulheres devido à dureza do trabalho e aos longos períodos de subalimentação e doença; 4) a destruição das culturas popular e erudita e de milhares de novos talentos artísticos, literários e científicos; 5) a precariedade da alimentação que atinge toda as regiões do Estado; 6) a marginalização de todos os valores morais democráticos e humanistas em benefício da prepotência, das hierarquias ilegítimas e do poder econômico; 7) a inexistência de recursos estatais para a constituição de políticas públicas adequadas; 8) a repressão à liberdade de pensamento e de organização sindical e política; 9) a destruição das estradas, do equilíbrio financeiro do sistema energético e de outros elementos da infra-estrutura sob a responsabilidade do estado; 10) o descumprimento das legislações trabalhista e ambiental e o aniquilamento de todos os recursos naturais mais importantes, como as matas, os animais silvestres e as fontes de abastecimento de água potável; e 11) o aproveitamento da desvalorização da moeda nacional frente ao dólar ou ao euro para a ampliação de sua rentabilidade.&lt;br /&gt;As precárias condições de vida que surgem desse modelo econômico tendem a tirar a legitimidade ideológica da burguesia agroindustrial; mesmo gastando muito em várias formas de propaganda ideológica, esta classe está sempre na iminência de ficar desmoralizada e desacreditada diante da opinião pública e da massa popular. O seu domínio, geralmente, sustenta-se muito mais na coerção do que no consenso, ou seja, mais na força bruta do que na sua capacidade de convencer as outras classes sociais das positividades do modelo de sociedade que propõe. Para que evitemos profundos erros teóricos e políticos, é preciso perceber claramente que esta classe social não tem condições objetivas de propor uma alternativa de desenvolvimento menos precário e desumano; as suas debilidades econômicas congênitas empurram-na para uma brutalidade constante e crescente e para o mais radical estreitamento político. Não há qualquer setor progressista, democrático e antiimperialista no seio dessa burguesia agroindustrial. Nenhum membro dessa classe dominante pode propor o progresso, a democracia e defesa dos interesses de Alagoas e da soberania nacional porque essa classe não representa o pólo moderno no nosso Estado, representa a união indissolúvel de um moderno atrasado, em relação ao moderno das regiões mais desenvolvidas do país, com um atraso também mais acentuado do que o atraso dessas regiões. Para esta classe social, combater o atraso seria combater a si mesma, o que certamente não está disposta a fazer. Além de construir, pela utilização da mais-valia absoluta, uma sociedade de miseráveis, a agroindústria alagoana, por seu caráter exportador, cria uma sociedade sem estabilidade econômica, sem mercado interno substancial e carente de qualquer grau significativo de divisão social do trabalho. A atual economia alagoana superou a escravidão, porém conserva ainda, de maneira modernizada, os outros traços da economia alagoana do período colonial; ainda baseia-se na monocultura, na união entre agricultura e indústria e na exportação dos seus principais produtos.&lt;br /&gt;Quando uma empresa vende um milhão de dólares, está trocando, do ponto de vista do valor, “seis por meia dúzia”, ou seja, está trocando um milhão em mercadorias por um milhão em dinheiro; o valor econômico é o mesmo, tendo havido apenas uma mudança na maneira de expressar-se: antes, expressava-se em mercadoria, depois da troca, expressa-se em dinheiro. O lucro das empresas não vem dessa troca de valores iguais; o lucro vem da troca desigual entre os empresários e seus trabalhadores, origina-se no fato de que os trabalhadores oferecem uma mercadoria (sua força de trabalho) que produz muito mais do que aquilo que os capitalistas pagam por ela; o lucro do capitalista vem dessa troca desigual e não da venda ao consumidor. Pelo desconhecimento desse mecanismo e o seu relacionamento com a constituição dos preços, muitas pessoas imaginam que a exportação é a única e principal fonte de riqueza de qualquer formação social. Ora, os países mais desenvolvidos do mundo baseiam sua riqueza no mercado interno e não na exportação. Os EUA e o Japão, por exemplo, não exportam atualmente mais do que quinze por cento de seus produtos; essas nações vêem o mercado exterior apenas como uma válvula de escape para os seus excessos de produção e como um dos mecanismos básicos de controle do valor de suas moedas.&lt;br /&gt;O preço de uma mercadoria oscila em torno do seu valor, mas a estabilização do mercado desta mercadoria tende a igualar valor e preço. Antes de haver a confluência completa entre valor e preço, é possível ganhar ou perder vendendo esta mercadoria acima ou abaixo do seu valor. O setor sucroalcooleiro alagoano dá tanta atenção às exportações pelo fato de que, por meio destas, consegue vender suas principais mercadorias acima do valor contido nelas, o que é possibilitado pelo sistema de câmbio, isto é, pela conexão particular da moeda brasileira com a moeda norte-americana e o euro. Em outras palavras, as trocas econômicas entre dois países, pelo fato de serem muito afetadas por variáveis não-econômicas (taxas, impostos e subsídios) e pela diferença de produtividade nas duas nações, constituem um mercado particularmente afetado pela dificuldade de confluência entre valor e preço. O setor sucroalcooleiro alagoano aproveita esta natureza particular do mercado mundial para auferir um lucro extra que, na maioria das conjunturas, não acontece na mesma magnitude no abastecimento do mercado interno.&lt;br /&gt;Pelo fato de exportar a maior parte de seus produtos, Alagoas entra em um círculo perverso: quanto mais exporta, mais fica dependente de poucos produtos e de poucos mercados e, por outro lado, mais inibe a diferenciação interna da sua economia e mais reproduz o modelo exportador. O Estado ergue, então, o mesmo tipo de economia no qual o Brasil estava submerso antes do processo de substituição de importações, iniciado nos anos trinta. O país exportava café e outros produtos tropicais e importava todos os outros bens que necessitava. É o que ocorre ainda hoje em Alagoas; importamos de outras formações sociais (principalmente de Estados brasileiros) quase todos os produtos industrializados e agrícolas, bem como grande parte dos serviços que necessitamos. Essa situação inviabiliza qualquer desenvolvimento econômico capaz de tornar a economia auto-sustentável e de possibilitar uma melhor distribuição dos recursos econômicos entre as várias classes e setores sociais da população.&lt;br /&gt;Enfim, a grande propriedade agroindustrial é a principal protagonista do atraso da Zona da Mata alagoana. O interior dessas propriedades é um dos locais privilegiados da reprodução da subjugação do historicamente novo pelo historicamente velho e da profunda inércia histórica que é a característica básica desta formação social. A condenação desse tipo de empreendimento e da espécie de capitalismo que pressupõe não é apenas ou principalmente um impulso ético, configura-se no resultado de uma análise apoiada em uma constatação científica que acompanha de perto algumas das mais importantes teorias produzidas pelas correntes progressistas de pensamento existentes no Brasil e no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Cooperativa agroindustrial sucroalcooleira:&lt;br /&gt;todos os males e nenhum benefício&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.1. Quais são as vantagens de uma cooperativa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais seriam as diferenças e identidades entre uma usina administrada por uma cooperativa de trabalhadores rurais e uma usina administrada por capitalistas? Como toda cooperativa em uma sociedade regida pelo mercado, a entidade proposta seria uma espécie de “capitalista coletivo”, contudo com algumas singularidades em relação a uma empresa capitalista tradicional, empresas estas que se distribuem entre as de capital fechado e as de capital aberto. Em relação a uma empresa de capital aberto, qualquer cooperativa possui como principal singularidade o fato de que cada um de seus membros tem a mesma quantidade de poder nas decisões gerenciais. Cada associado representa um voto na assembléia geral e, portanto, as diferenças em termos de número de cotas, ou seja, as distintas quantidades de investimento individual, mesmo que determine diferentes rendimentos, não se expressam em um superior poder de influenciar a gestão. Como se sabe, uma sociedade anônima comporta diversos tipos de ações e os participantes podem enfeixar distintas porcentagens do total desses papéis, isso possibilita diferentes quantidades de poder de gestão e de acesso aos rendimentos líquidos da empresa. Em relação a uma empresa de capital fechado, a cooperativa possui a singularidade de ser um empreendimento igualitário em termos de gestão.&lt;br /&gt;O igualitarismo na gestão, que é da essência de uma cooperativa, determina que esse tipo de empresa seja mais adequado para determinados ramos produtivos e operações econômicas e menos adequado para outros. A igualdade de todos na gestão inibe o interesse dos grandes capitalistas que estão em busca de alta rentabilidade; isso impõe, na grande maioria dos casos, graves limites para o tamanho do patrimônio e para o capital de giro de uma cooperativa, o que vai determinar a sua inadequação aos ramos da economia nos quais os investimentos são mais altos. Uma grande siderúrgica dificilmente pode sobreviver no mercado durante um tempo significativo se for organizada como cooperativa. Na verdade haveria enormes dificuldades até para formar o capital inicial, que é muito grande nesse ramo. Existem exceções a essa tendência, mas são determinadas por circunstâncias muito específicas, de natureza política e de capacidade de obtenção de consenso em torno da visão do sistema de idéias cooperativista.&lt;br /&gt;O sistema cooperativista é eficiente para reunir em um único corpo econômico os pequenos e médios produtores, consumidores e trabalhadores que precisam adquirir ou vender produtos ou serviços, bem como ter acesso mais vantajoso ao crédito. Ou seja, a cooperativa atua bem no sentido de diminuir a concorrência entre os pequenos e médios agentes econômicos no seu confronto cotidiano com os grandes agentes ou no seu contato com as dificuldades infra-estruturais do seu ramo de atividade ou de seu consumo individual. As estatísticas mais recentes sobre o cooperativismo no Brasil comprovam essa maior adequação do sistema cooperativista a essas funções; demonstram também que as cooperativas na agropecuária são mais numerosas do que em outros ramos, seguidas pelas cooperativas de crédito e de trabalho. Outros números da mesma fonte nos informam que a maior parte dessas cooperativas é formada por pequenas e médias empresas. As cooperativas de produção, que abarcam a indústria, têm números pouco expressivos.&lt;br /&gt;2.2. O funcionamento da Agrisa como cooperativa agroindustrial&lt;br /&gt;Pressupondo as características do cooperativismo e da economia mercantil, bem como suas singularidades em Alagoas, como funcionaria uma cooperativa agroindustrial que assumisse as terras e o parque fabril das usinas AGRISA e PEIXA? Como qualquer usina, cada uma dessas empresas seria uma mistura entre agricultura e indústria, contudo teria a singularidade de também se constituir em uma mistura entre agricultura familiar e patronal. As duas mil famílias assentadas seriam gestoras da parte coletiva do projeto, formada pela área agrícola comum (se houvesse opção pela constituição de uma área desse tipo, como ocorreu na usina Catende, no município do mesmo nome, em Pernambuco) e pelo parque industrial, bem como das suas respectiva parcelas individuais. Na medida em que a cana, o álcool e o açúcar são produtos que impõem uma agricultura extensiva e uma produção industrial de grande escala e o cooperativismo não se compatibiliza com esse modelo, a configuração organizacional proposta pressuporia graves problemas de adequação do cooperativismo à parte fabril e aos tipos de mercadorias produzidas.&lt;br /&gt;Haveria também problemas para a consolidação da lógica da agricultura familiar. Já que as parcelas seriam necessariamente muito pequenas, com cerca de sete hectares utilizáveis, e as famílias não poderiam fazer retiradas significativas do lucro do parque industrial sem descapitalizar a empresa, o caráter extensivo da lavoura canavieira, que determina um baixo rendimento por hectare, imporia uma renda agrícola muito baixa para cada família e talvez não as pudesse elevar acima do nível da pobreza, mesmo somando esta renda com a auferida pelos salários ganhos na parte industrial e no trabalho na lavoura comum. A possível coletivização não teria qualquer efeito significativo no sentido de aumentar a renda ou a produtividade, já que a constituição de uma área comum a partir da diminuição das parcelas individuais não teria o condão de multiplicar os rendimentos por hectare e nem diminuir o número de pessoas que precisaria obter rendimentos da mesma área de produção, bem como não representaria nenhuma modificação técnica relevante (pressupondo que as famílias teriam acesso às mesmas condições técnicas para trabalharem suas parcelas).&lt;br /&gt;Um dos problemas mais importantes da fábrica residiria no fato de que o seu capital não poderia ser aberto, isto é, não poderia contar com uma capitalização por meio do mercado de ações. Por outro lado, na medida em que a usina teria que passar vários anos sem distribuir parte substancial do seu lucro líquido com seus gestores, sob pena de tornar-se inviável, e os salários seriam parte decisiva da renda das famílias assentadas, a empresa teria sérios problemas com a rigidez relativa da mão-de-obra, já que tenderia (como ocorre na usina Catende) a ser pressionada a não despedir parte significativa da mão-de-obra agrícola (no caso da existência de uma área comum) e industrial no período da entressafra. Sabe-se que as usinas alagoanas e de outros estados dispensam cerca de metade da mão-de-obra industrial e dois terços da mão de obra agrícola na entressafra; essa dura característica do setor sucroalcooleiro imporia uma grande desvantagem comparativa para a cooperativa agroindustrial proposta.&lt;br /&gt;A falta de capitalização, a rigidez da mão-de-obra e as fortes pressões para a distribuição do lucro líquido da empresa provenientes da baixa remuneração da parte agrícola somar-se-iam às dificuldades de ampliação da massa de lucros típicas do setor sucroalcooleiro para transformar rapidamente a cooperativa numa empresa cronicamente deficitária e ávida por subsídios governamentais cada vez mais freqüentes e abundantes. Essa fome de subsídios seria maior do que a apresentada tradicionalmente pelas empresas privadas do setor, na medida em que as dificuldades econômicas seriam maiores. As pressões sobre as instâncias estatais também seriam mais intensas, já que os argumentos sociais seriam mais fortes do que os comumente utilizados pelos usineiros. Estaríamos diante de um “elefante branco” com a cara dos oprimidos da terra. Enfim, a cooperativa agroindustrial sucroalcooleira proposta não seria competitiva e nem proporcionaria uma elevação substancial do padrão de vida das famílias assentadas. Seria uma espécie de ornitorrinco econômico, capaz de transformar em desvantagens as características mais positivas da grande empresa e as da agricultura familiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.3. Uma Alternativa: cooperativas de produção de frutas, cereais e hortaliças&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.3.1. Introdução e Metodologia&lt;br /&gt;O mercado consumidor de produtos agropecuários no Estado de Alagoas é muito significativo, principalmente nos municípios de Santana do Ipanema, Batalha, União dos Palmares, Palmeira dos Índios, Arapiraca e Maceió. A capital, por exemplo, conta com cerca de 800.000 habitantes. Contudo uma porcentagem muito grande do abastecimento alimentar da população alagoana é suprido por produtos provenientes de outros Estados da Federação. Levando em conta o consumo doméstico e o consumo industrial, Alagoas é auto-suficiente apenas em açúcar, leite, alguns tipos de queijo, manteiga, carne bovina, banana, mandioca e laranja lima. A produção de coco-da-baía, que é suficiente para abastecer o consumo doméstico, não é suficiente para abastecer a fábrica da Sococo, uma das maiores da América Latina. O Grupo Coringa, localizado em Arapiraca, que produz alimentos à base de arroz, milho e mandioca, consumiria em quinze dias de trabalho toda a produção alagoana de milho, se esta tivesse preços competitivos e qualidade suficiente para não ser preterida pelo milho de outras regiões do país. União dos Palmares e Palmeira dos Índios, que são grandes produtores de aves de corte e ovos, também possuem uma demanda de milho incapaz de ser suprida pelos produtores alagoanos.&lt;br /&gt;Temos portanto um amplo mercado de produtos agrícolas que poderia ser suprido pela produção local. Com exceção daqueles produtos cujo clima alagoano não permite a exploração comercial, que constituem uma mínima parte dos produtos consumidos, seria possível produzir com competitividade vários alimentos que hoje são importados de outros Estados e de outros países. A principal vantagem competitiva é o baixo custo do frete para que a produção alagoana de hortaliças, cereais e frutas chegue ao mercado do próprio Estado. Alagoas, uma das unidades da federação com o menor território, está cortada por uma rede de estradas significativa. Por outro lado a existência de três climas bem demarcados nas três mesorregiões do Estado determina a possibilidade da produção dos produtos agrícolas mais diversos. Com base nessa constatação geral sobre o mercado de alimentos, veremos nas tabelas em anexo os números que demonstram as boas condições para a produção de hortaliças, cereais e frutas nas terras a serem desapropriadas.&lt;br /&gt;Antes de entramos na análise das tabelas, é necessário apresentarmos as fontes e a metodologia empregadas. As principais fontes foram o IBGE (Censo Agropecuário e PAM - Pesquisa Agrícola Municipal) e a EMBRAPA (as estatísticas sobre hortaliças no Brasil, baseadas em dados da FAO), bem como o estudo sobre o mercado de hortaliças no Maranhão elaborado por uma empresa de consultoria. As fontes organizadas pelo IBGE não trazem dados sobre o rendimento das hortaliças, nem informações (principalmente área colhida e produção total) a partir dos quais calcularmos este rendimento. O Censo Agropecuário traz informações apenas sobre quatro hortaliças e nem para essas é possível calcular o rendimento. A PAM sequer trata desses produtos. Encontramos no site da EMBRAPA, em artigos de revistas especializadas e em outros estudos esparsos (como o que trata do mercado de hortaliças no Maranhão) os rendimentos médios no Brasil das principais hortaliças. Não foi possível encontrar dados sobre o rendimento médio dessas hortaliças em Alagoas, inclusive porque muitas delas nem são produzidas no Estado. Alguns dados sobre rendimento no Brasil são mais precisos; são datados do ano de 2003. Os dados menos precisos, mas confiáveis, como o rendimento médio de determinadas hortaliças não contempladas pelas estatísticas da EMBRAPA, não têm data precisa; apesar disso, procuramos tomar as estimativas dos estudos mais recentes. Não há, portanto, perigo de estarmos trabalhando com rendimentos muito defasados.&lt;br /&gt;As tabelas são organizadas para correlacionar as dimensões macro e micro do mercado de hortaliças, cereais e frutas em Alagoas. Isso implica, naturalmente, na inclusão de números sobre o Nordeste e o Brasil, para que seja possível aquilatar a competitividade da eventual produção local. Cada tabela inicia-se com um balanço do suprimento em Alagoas de cada produto escolhido. O consumo total alagoano é calculado a partir do consumo médio anual por habitante (Pesquisa de Aquisição Alimentar 2003 - IBGE) multiplicado pela população alagoana. O total da produção alagoana por produto foi tirado da PAM de 2003. Segue os rendimentos agrícolas de Alagoas (dividido em suas três mesorregiões), do Nordeste e do Brasil. A distinção por mesorregião é importante devido às suas diferentes condições climáticas e de solo, que são mais adequadas para determinadas lavouras. Como já afirmamos, não apresentamos os rendimentos para Alagoas (e para o Nordeste) de várias hortaliças por falta de dados. Após esse item, as tabelas (no que se refere aos produtos para os quais temos informações) trazem a área plantada e a área colhida em Alagoas. Essas informações são decisivas para aquilatarmos o grau de estabilidade de suprimento dos produtos considerados. Por essa via, percebemos, por exemplo, que o milho e o feijão em Alagoas foram colhidos em menos da metade das áreas nas quais foram plantados. O que revela uma profunda fragilidade em suas cadeias produtivas. O outro item refere-se ao valor por tonelada, por kg e o valor produzido por hectare, bem como ao valor total da produção (ou seja, a soma dos valores recebidos por todos os produtores). Naturalmente, cada um dos três primeiros elementos citados é obtido por meio de determinada relação entre o valor total produzido e área colhida. Por último, as tabelas trazem, para aqueles produtos cuja produção local não supre completamente o consumo, o número de hectares que seriam necessários para o suprimento do mercado alagoano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.3.2. Análise das Tabelas&lt;br /&gt;As quatro tabelas (tabelas 1, 2, 3 e 4) relativas ao tema foram constituídas de tal forma que pudessem apresentar os três principais tipos de relação entre o consumo e a produção alagoana. A tabela 1 apresenta exemplos de produtos consumidos e não produzidos localmente. As duas tabelas seguintes apresentam alguns dos principais produtos consumidos, mas insuficientemente produzidos em Alagoas. Os dados sobre esses produtos foram separados em duas tabelas para diferenciarmos os produtos para os quais tivemos acesso a dados completos dos produtos para os quais não encontramos todos os dados necessários, principalmente o rendimento agrícola, a produção total e a área colhida no Estado e no Nordeste. A tabela 4 expõe alguns dos principais produtos que têm o consumo suficientemente coberto pela produção local.&lt;br /&gt;A análise da tabela 1 demonstra que Alagoas não produz cinco dos produtos mais importantes do mercado agrícola: tomate, cebola, batata-inglesa, melão e uva. Os três primeiros são produtos essenciais na cesta básica e os outros dois são significativos para a população que tem um poder de compra mais alto. Todos são plantados no Nordeste com um rendimento superior ao brasileiro, o que revela as boas possibilidades para que sejam explorados pelos agricultores alagoanos. Isto é, a insuficiência de sua produção não é determinada por um problema de inaptidão do clima e do solo local, na medida em que os outros Estados nordestinos de condições naturais parecidas produzem-nos em grande escala e com competitividade. É impressionante o fato de que, apesar de possuir condições naturais propícias, Alagoas não plante e comercialize produtos de tão alto faturamento por hectare. Três dos produtos citados possibilitam um faturamento situado 11 e 14 mil reais (pressupondo o rendimento nordestino); os dois restantes, o melão e a uva, apresentam um faturamento de 21 e 43 mil reais, respectivamente. Para se ter um bom parâmetro de comparação desses faturamentos, é importante observar a cana-de-açúcar colhida em Alagoas no ano 2003 possibilitou um faturamento localizado entre 2.000 e 2.500 reais por hectare, dependendo da produtividade do município considerado.&lt;br /&gt;No que se refere às terras das antigas usinas AGRISA e PEIXA, os dados da tabela comentada e informações agronômicas que tivemos acesso apontam para a possibilidade de as famílias assentadas plantarem melão, tomate, cebola e batata-inglesa e, sob determinadas condições, seria possível explorar até mesmo a uva. Naturalmente o aproveitamento dos produtos referidos pressupõe um grande aporte tecnológico, o qual será necessário criar por meio de um sistema formado pelo o Governo Federal, o Governo do Estado, os Municípios e a sociedade civil. A ausência desse esforço de desenvolvimento tecnológico tem sido uma das principais causas da não exploração desses produtos em solo alagoano, o que por sua vez é um fato determinado pela hegemonia política, econômica e ideológica das grandes propriedades produtoras de cana-de-açúcar.&lt;br /&gt;A tabela 2, uma das que apresentam os produtos insuficientemente abastecidos pela produção alagoana, mostra que o pimentão e o inhame possuem porcentagem significativa (38,85 e 81,16%, respectivamente) do seu consumo suprida pela produção de Alagoas. Os outros produtos (pepino, beterraba e cenoura), igualmente decisivos na cesta básica, têm uma porção mínima de suprimento local. Como já afirmamos, essa tabela está incompleta em relação à anterior. Apesar disso, se usarmos os dados de rendimento do Brasil, podemos ver que é bastante alto o faturamento por hectare desses produtos (média de 6.600 reais), quando comparado ao faturamento das lavouras da cana-de-açúcar, do feijão, do milho e do arroz, que ocupam áreas significativas em Alagoas.&lt;br /&gt;Organizamos a tabela 3 de forma a sublinhar as características específicas de três grupos de produtos. O primeiro grupo é formado pelo arroz, o milho e o feijão; estes são os produtos básicos entre os básicos, já que a maior parte da energia consumida pela população em forma de alimentos é proveniente deles. Pelas suas próprias características, os cereais têm a função de esteio energético em quase todas as nações. No Brasil, o feijão, mesmo não sendo um cereal, também passou a ser uma das colunas da alimentação, principalmente no Nordeste, onde disputando espaço com a mandioca (consumida, como se sabe, principalmente em forma de farinha). O arroz tem uma penetração nacional, enquanto o milho é muito mais presente no Sul e no Sudeste do país. O segundo grupo é formado por três frutas tropicais: o mamão, a melancia e a goiaba. São três das principais frutas consumidas no Brasil e possuem um bom faturamento por hectare. O último conjunto é formado apenas pela castanha de caju, produto de alta rentabilidade quando destinado ao mercado internacional e pouco ofertado no mercado local.&lt;br /&gt;A análise do primeiro grupo demonstra, inicialmente, que há um déficit muito significativo (cerca de 50%) entre a área plantada e a área colhida de feijão e de milho, revelando sérios problemas nessas lavouras. O déficit não é um acidente, os dados do IBGE demonstram que este fenômeno repete-se todos os anos. Esses produtos são explorados principalmente no Sertão e no Agreste. Não temos elementos suficientes para explicar o fenômeno, mas talvez esteja relacionado com a seca (na área produtiva do Sertão), as pragas e as dificuldades de armazenamento e comercialização. Seja como for, no que toca as esses alimentos, Alagoas somente produz um quarto do que consome. Para piorar a situação, o rendimento por hectare dos dois produtos é uma dos mais baixos do país.&lt;br /&gt;É importante sublinharmos que o consumo de milho que apresentamos na tabela (37.000 t) é o resultado da soma do consumo in natura do cereal, que é relativamente pequeno (6.420t), com o milho necessário para fabricar as toneladas consumidas de flocos e fubá de milho. Por não termos encontrados os dados necessários para o cálculo, deixamos de lado o milho necessário para suprir a avicultura alagoana, instalada principalmente nas cidades de União dos Palmares e Palmeira dos Índios. Contudo é relevante acrescentar que a Secretaria de Agricultura e Pesca do Estado de Alagoas estima em 50 mil toneladas o consumo total de milho. Como o feijão não costuma ser industrializado no Estado (e, mesmo no Brasil, a industrialização é insignificante), o consumo in natura coincide com consumo total.&lt;br /&gt;No caso do arroz, há uma constatação positiva e uma negativa. Alagoas tem um rendimento por hectare muito mais alto do que os rendimentos do Nordeste e do Brasil e, por outro lado, produz apenas 27% do arroz que sua população consome. Não estamos levando em consideração o consumo industrial do arroz, principalmente aquele que é usado como matéria-prima pelo Grupo Coringa. É impressionante o fato de que o Estado que tem as melhores condições naturais para a cultura do arroz tenha que importar dois terços deste cereal de outras unidades da Federação.&lt;br /&gt;Ainda na tabela 3, apresentamos o resultado do cálculo da área necessária a ser explorada com esses três produtos para que o consumo alagoano seja suprido pela produção local. Constatamos que a área necessária é maior que a área colhida existente. Os números são muito expressivos, principalmente no que se refere ao milho e ao feijão. A soma das áreas necessárias dos três produtos chega a 139 mil hectares; número que respalda bem a tese de que o suprimento local do consumo alagoano implica na diminuição significativa da área ocupada pela monocultura da cana-de-açúcar. O outro grupo de produtos considerados na tabela não precisa de áreas tão grandes, mas podem ser muito importantes para um projeto específico, como o que estamos planejando para as terras das antigas usinas AGRISA e PEIXA, já que têm um faturamento bastante significativo por hectare.&lt;br /&gt;O caso da castanha de caju é, na realidade alagoana, muito particular e por isso merece ser tratado com mais detalhes. Observemos, inicialmente, que o rendimento por hectare da Leste Alagoano (1.250 kg/h) é três vezes maior do que o rendimento do Ceará (300kg/h), que é o maior produtor e exportador brasileiro. Segundo informações que obtivermos, a produtividade alagoana pode alcançar 2.000kg/h, ou mais, com facilidade. Se considerarmos o atual preço atual do quilo da castanha no mercado externo (4,4 U$) e a solidez da demanda do produto, chegamos à conclusão de que a exploração da castanha no Leste Alagoano seria um empreendimento bastante rentável e com potencialidade de ocupar produtivamente milhares de hectares.&lt;br /&gt;Se fizermos um cálculo considerando o rendimento alagoano de hoje e o preço pago pela castanha no mercado internacional, o faturamento por hectare e a rentabilidade dessa lavoura seriam impressionantes, quando comparados com os outros produtos já mencionados, com exceção da uva. Pode-se objetar que o preço da castanha no mercado internacional não seria o mesmo pago ao agricultor, mas essa objeção deve ser respondida com a afirmação de que os próprios lavradores podem beneficiar a sua produção por meio de fábricas organizadas em regime de cooperativa. Como veremos detalhadamente adiante, a principal desvantagem da produção da castanha se relaciona com a possibilidade de reprodução da lógica da monocultura, o que poderia ser evitado por meio de um pacto entre o Estado e a sociedade civil em torno da administração racional dessa cultura.&lt;br /&gt;Finalmente, a tabela 4 expõe os produtos básicos que são suficientemente supridos pela produção alagoana. Entre esses produtos, há aqueles que são explorados com o objetivo principal de suprir o mercado interno (mandioca, manga e batata-doce) e aqueles que são plantados e beneficiados para a exportação, ou seja, para outros Estados da Federação (laranja e banana) ou outros países (maracujá e abacaxi). O maracujá e o abacaxi são produzidos principalmente na Cooperativa Pindorama, localizada entre Coruripe e Penedo, e só uma pequena parte da sua produção deve chegar à mesa do alagoano. A laranja produzida em Alagoas tem o inconveniente de ser de uma única espécie (lima), enquanto nosso mercado demanda também outros tipos. Isso não ocorre, felizmente, no caso da banana, cujo consumo de todos os seus principais tipos é suprido pela produção local.&lt;br /&gt;O consumo total da mandioca foi obtido, de modo análogo ao do milho, por meio da soma do seu consumo in natura e em forma de farinha. Isso se justifica porque o consumo in natura é tão pequeno em relação aquele em forma de farinha que, caso levássemos em conta apenas o primeiro, chegaríamos a uma representação bem distante da realidade. Em 2003, o consumo de mandioca foi de 8.490 toneladas e o de farinha de 33.702 toneladas. Considerando o aproveitamento atual de uma tonelada de mandioca quando beneficiada (250 kg de farinha), chegamos à conclusão de que o consumo da raiz e da farinha em 2003 demandou 134.808 toneladas de mandioca. Em contrapartida, foram produzidas nos mesmo ano 181.181 toneladas dessa raiz, o que dá uma sobra de 46.373 toneladas. Esses números demonstram que o Estado tem auto-suficiência no que se refere a esse produto e ainda exporta para outras unidades da Federação uma porcentagem significativa de sua produção.&lt;br /&gt;A batata-doce, mesmo sem ter a enorme presença da mandioca, é plantada na microrregião da Mata Norte e a sua produção supre o mercado local de um dos alimentos mais típicos da culinária alagoana, principalmente nas cidades da zona rural do Leste Alagoano e do Agreste. Palmeira dos Índios e União dos Palmares produzem alguma manga em um esquema mais racional, o resto dos municípios parece aproveitar mangueiras esparsas, localizadas nos quintais e plantações de outros produtos. Isso implica no fato de que a qualidade do produto, bem como a sua variedade, deixa bastante a desejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.3.3. Conclusões e Projeções&lt;br /&gt;As tabelas comentadas trazem-nos dados capazes de levarmo-nos a conclusões muito relevantes sobre a questão do abastecimento em Alagoas e relativas às possibilidades dos novos assentamentos que serão implantadas nas terras das antigas usinas AGRISA e PEIXA. Uma primeira conclusão importante é a de que, se excetuarmos a área necessária para que a produção de arroz, feijão e milho supra o consumo alagoano, a área a ser ampliada para a produção local dos outros produtos da cesta básica ultrapassa pouco os 2 mil hectares, o que, a título de comparação, representa a mesma área ocupada por dez grandes fazendas canavieiras (de 240 hectares). Pela pouca área que precisam ocupar para satisfazer as necessidades dos alagoanos, a exploração desses produtos não requer o questionamento prático do modelo monocultor e latifundiário do Leste alagoano, embora implique numa denúncia teórica desse modelo; a sua não exploração nas dimensões necessárias relaciona-se a outras variáveis, como a inexistência em Alagoas de um aparato tecnológico que dê suporte a essas lavouras e à pequena dimensão do mercado de consumo alagoano, que faz os detentores de grandes capitais preferirem produzir cana, açúcar e álcool para os muito elásticos mercados internacionais desses produtos (além de pagarem em dólar). A situação é diferente quando levamos em conta o milho e o feijão, pois requerem grandes espaços para ampliarem suas áreas colhidas de maneira suficiente, os quais necessariamente seriam disputados à lavoura canavieira.&lt;br /&gt;O quadro abaixo sumariza os números que embasam essas considerações. Pode-se perceber que a área para o arroz, o feijão e o milho abarca 98,50% da área que necessita ser implantada. Por outro lado, é fundamental sublinhar que a área necessária total, que é de 141.080,76 hectares, que seria localizada majoritariamente no Leste Alagoano, representa 33,6% da área ocupada atualmente pela lavoura canavieira. Outro aspecto muito relevante encontra-se no fato de que a área existente ocupada com lavouras voltadas para o mercado interno teria que ser aumenta 257% para suprir o consumo do Estado. Isso revela um grande atraso no desenvolvimento da divisão social do trabalho, que é uma das principais características do capitalismo periférico em Alagoas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quadro 1 &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É decisivo refletirmos sobre as condicionantes do preço (principalmente impostos, taxas, condições naturais e fretes) e sobre a origem dos produtos agropecuários importados pelo Estado (que releva o leque de concorrentes dos produtos plantados em solo alagoano), bem como detalharmos algumas características singulares do consumo local de produtos da cesta básica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alagoano está entre os brasileiros que consomem menos alimentos e as famílias do Estado ocupam o primeiro lugar entre aquelas que afirmam ter dificuldade de acesso aos alimentos necessários. O consumo per capita em Alagoas é 78,5 % do consumo paulista, 83,6% do consumo baiano e 76,4% do consumo brasileiro (POF/2003). Isso se explica pelas diferenças de renda média, de preço e qualidade dos produtos entre os Estados brasileiros. O alagoano tem menos dinheiro para gastar, o que freia o seu consumo de alimentos e de outros itens (apesar de a cesta básica alagoana está entre uma das mais baratas do Brasil; mas o que conta mesmo é a relação entre o preço desta cesta e a renda disponível para adquiri-la, ou seja, o decisivo é o poder de compra do consumidor e não o nível dos preços em si); por outro lado a baixa qualidade relativa de vários produtos que são importados de outros Estados (como as frutas tropicais e várias hortaliças), principalmente devida às longas distâncias que percorrem (as frutas precisam ser colhidas ainda muito verdes e as verduras acabam se machucando na viagem), poda o seu impulso de ampliar os gastos com alimentos em detrimento de outros.&lt;br /&gt;Desse modo, para sermos rigorosos em nossos cálculos sobre a área a ser plantada, seria preciso levar em conta as possibilidades de aumento de consumo no curto e médio prazo. Esse aumento poderá ser causado pela expansão da renda dos pobres, principalmente via programas de transferência de recursos patrocinados pelo Governo Federal e pela diminuição do preço e melhoria da qualidade que uma produção local pode provocar. Na medida em que o menor consumo alagoano em relação ao brasileiro incide na grande maioria dos produtos alimentares, podemos projetar com alguma razoabilidade que a área necessária para suprir este aumento de consumo gira em torno de 25% da área necessária para suprir o consumo alagoano atual. Contudo esse cálculo precisa ser feito com mais vagar, em um momento posterior da reflexão sobre o assunto.&lt;br /&gt;Não podemos subestimar o papel dos problemas da oferta no baixo consumo relativo do alagoano. Os produtos provenientes de outros Estados não enfrentam barreiras causadas por taxas e impostos (já que um dos componentes da famosa guerra fiscal entre os Estados brasileiros é a prática de quase todos isentarem seus produtos agrícolas de ICMS), mas os produtos não nordestinos, devido às grandes distâncias, têm incorporado aos seus preços um frete tão caro que inviabiliza a sua venda no Estado. Dependendo do caso, o frete pago por um agricultor paulista para transportar o seu produto para Alagoas encarece de 30 a 65% o preço final. Isso torna inviável a exportação para Alagoas da maior parte dos produtos agropecuários de Estados que estejam localizados em outras regiões do país. O problema principal é que o faturamento por tonelada da maioria desses produtos fica bem próximo do custo do frete por tonelada. Desse modo, o abastecimento de Alagoas só pode ser feito, essencialmente, pelos Estados de Pernambuco, Sergipe, Paraíba e Bahia. Portanto, do ponto de vista dos impostos, os produtores alagoanos não têm vantagens comparativas em relação aos produtores de outras unidades da Federação que desejem abastecer o mercado de Alagoas, a grande vantagem comparativa dos produtores alagoanos refere-se ao frete, seus produtos não incorporam os caríssimos fretes das viagens interestaduais.&lt;br /&gt;Tudo isso nos leva a concluir, quando pensamos sobre as alternativas produtivas para as os assentamentos nas terras das antigas usinas AGRISA e PEIXA, que é viável projetar uma área plantada com o objetivo de aproveitar as vantagens comparativas da produção local (além do frete, temos a vantagem de precisar colher os produtos em períodos mais próximos de sua maturação, o que melhora muito a sua qualidade), contudo é necessário constatar que essa espécie de área não é extensa o suficiente para abarcar a maior parte da área disponível. Será necessário projetarmos uma área com esses mesmos produtos com o objetivo de disputar mercados no nível regional (principalmente os de Sergipe, Bahia, Pernambuco e Paraíba). E também será preciso ocupar uma parte da área com produtos de exportação alternativos à cana-de-açúcar. Essas áreas podem ser dividas em termos de risco, entre outras clivagens. A produção para o mercado alagoano tem o menor risco, enquanto que a produção para o mercado exterior tem o maior; mas isso pode ser diferente, dependendo dos produtos que forem exportados, já que existem mercados bem sólidos para determinados gêneros tropicais, como é o caso da castanha.&lt;br /&gt;Na medida em que o conjunto das famílias assentadas teria direito a plantar em 13 mil dos 20 mil hectares desapropriados (os 7 mil hectares restantes constituiriam as áreas de preservação ambiental e reserva legal), chegamos à conclusão de que a área a ser ampliada para atingir o pleno suprimento local dos produtos alimentícios da cesta básica, com exceção do milho, do feijão e do arroz, poderia ocupar 2.500 hectares, que representa cerca de 20% da área disponível. Considerando parcelas que só explorassem esse tipo de produto, o que é apenas uma das possibilidades, essa área ocupada daria rendimentos líquidos médios de 1.200 reais por família. Contudo, das 2.000 famílias assentadas, somente 357 famílias estariam com os seus problemas de emprego e renda equacionados. Restariam ainda 1.643 famílias.&lt;br /&gt;Essas famílias restantes, ocupando uma área de 10.500 h, sempre pressupondo que as parcelas explorassem uma única fatia de mercado, teriam que ser divididas entre aquelas que explorariam os produtos da cesta básica para competir no mercado regional e aquelas que explorariam produtos de exportação para outros países, principalmente a castanha de caju. A dimensão das áreas totais desses dois tipos de exploração somente pode ser calculada em outro momento de nossa reflexão sobre o tema, já que requer um tempo de pesquisa que não dispomos. Contudo, podemos salientar que a exploração de produtos para competir no mercado nordestino é viável, mesmo que mais arriscado que a exploração dos outros dois mercados mencionados. Mesmo com relativamente poucos investimentos, o rendimento do cajueiro é tão alto no Leste Alagoano, o mercado internacional é tão sólido e os concorrentes brasileiros têm rendimentos tão baixos que a exploração da castanha de caju nos assentamentos parece ser o melhor negócio possível, pelo menos em termos de renda líquida média por família. Por outro lado, mesmo sendo muito segura e rentável, a exploração da castanha para o mercado internacional tem o risco de promover a constituição de uma nova monocultura em parcelas significativas do Leste Alagoano. Contudo esse problema pode ser contornado por meio de um pacto entre as várias instâncias do Estado e da sociedade civil no sentido de administrar politicamente a exploração da castanha, com o objetivo de obrigar a sua produção a limitar-se a uma determinada área e a enquadrar-se em um modelo de agricultura social e ecologicamente sustentável.&lt;br /&gt;Com base nos números das tabelas apresentadas no anexo, podemos perceber que a necessidade de introduzir uma área significativa de produtos de exportação para o mercado internacional, que implica no risco de construir uma nova monocultura, tem relação com o tamanho relativamente reduzido das parcelas que estarão disponíveis para cada família. Se essas parcelas tivessem o dobro de hectares, a maioria das famílias poderia plantar aqueles produtos que são a base da alimentação dos alagoanos (o milho, o arroz e o feijão) e cuja exploração é decisiva para constituir as bases da segurança alimentar e do desenvolvimento de uma agropecuária moderna, já que voltada essencialmente para o mercado interno e capaz de estabelecer uma densa rede entre a agricultura, a pecuária e o beneficiamento dos alimentos. A cadeia do milho é fundamental em qualquer sociedade contemporânea. A exploração suficiente de milho ativa a indústria de produtos alimentares, a avicultura e a suinocultura e, na seqüência, estimula o beneficiamento das carnes dessas duas atividades. Isso cria um círculo virtuoso entre produção de milho, aumento do valor agregado, da qualidade dos alimentos, dos empregos e da renda. Algo parecido ocorre com o arroz, que também é capaz de aumentar os empregos e provocar o surgimento de fábricas de beneficiamento e de produtos alimentícios derivados. O feijão, por sua vez, mesmo não tendo a possibilidade de ser usado como ração animal, tem um papel tão importante na alimentação do alagoano que qualquer melhoria no seu preço e ampliação da sua área colhida implica em grandes conseqüências positivas em termos de empregos e renda.&lt;br /&gt;Seria importante mencionar que a três áreas de exploração referidas poderiam ser espalhadas em porcentagens em cada uma das parcelas, respeitando evidentemente os tipos de solo e outras condições naturais. Isso poderia aumentar a diversidade biológica das parcelas e nivelar os riscos e a renda de todas as famílias envolvidas no projeto. Outra medida importante seria o consórcio das culturas mais comerciais com as culturas mais usadas para o consumo da própria família, como o milho, o feijão e o arroz (o arroz somente seria viável nas várias parcelas que possuem área das várzeas dos vários rios da região de Joaquim Gomes, Flexeiras e São Luís do Quitunde). O excedente dessa produção de subsistência poderia ser comercializado, o que também faria aumentar a renda líquida da família. Por outro lado, devido à existência de vários pequenos rios perenes na região, a piscicultura poderia ser uma alternativa muito importante, principalmente devido ao fato de ser achatado o consumo de pescados em Alagoas pela grande deficiência na oferta de peixe e camarões frescos. Por fim, não podemos esquecer os vários recursos existentes nas áreas de proteção ambiental e reserva legal (sete mil hectares) que podem ser explorados de maneira sustentável, principalmente o mel e outros produtos silvestres.&lt;br /&gt;Enfim, essas são as conclusões que pudemos chegar com os recursos e o tempo que dispomos.&lt;br /&gt;1. Não é viável a constituição de uma cooperativa agroindustrial para produzir cana, açúcar e álcool nas terras das antigas usinas AGRISA e PEIXA, pelo menos no contexto no social, econômico e político no qual foram desapropriadas. Devido à pequena dimensão das parcelas, o baixo faturamento da cana por hectare e a rigidez da mão-de-obra provocada pela inadequação da forma cooperativa para uma usina ou uma destilaria, a constituição de uma cooperativa desse tipo repetiria os graves defeitos que se pode constatar na Cooperativa Harmonia (que administra a usina Catende) e significaria a construção de um verdadeiro “elefante branco”, com prejuízos para todas as partes envolvidas no projeto. A Cooperativa Pindorama, que ainda não moeu cinco safras, é sempre bom lembra isso, possui condições muito diferentes daquelas existentes na Cooperativa Harmonia e das que existiriam numa cooperativa sucroalcooleira constituída nas antigas usinas AGRISA e PEIXA. As principais diferenças encontram-se no tamanho dos lotes e na ausência de rigidez da mão-de-obra em Pindorama, além da sua sólida infra-estrutura constituída em décadas de apoio financeiro nacional e internacional a fundo perdido. Em Pindorama, os lotes possuem entre 20 e 30 hectares e a mão-de-obra é assalariada; isso significa uma renda líquida alta por lote e a não existência da rigidez de mão-de-obra no campo e na parte industrial. O modelo de Pindorama não se aplica às condições que existiriam numa cooperativa constituída antigas usinas AGRISA e PEIXA, pelo menos no contexto em que foram desapropriadas, ou seja, com um número de demandantes que impõe lotes de 7 hectares por família e, devido a isso, a impossibilidade de usar outros trabalhadores a não ser aqueles integrantes das próprias famílias assentadas, o que gera necessariamente a referida rigidez de mão-de-obra.&lt;br /&gt;2. A melhor alternativa seria a constituição de várias cooperativas articuladas para explorarem o plantio, o beneficiamento e a venda de produtos agropecuários e de origem animal, com exceção da cana, do açúcar e do álcool (pelas razões expostas acima). Essas cooperativas poderiam ser divididas por produto, movimento social ou por fatia do mercado a ser explorada. Na medida em que cada faixa do mercado implicaria em riscos e rentabilidade diferentes, seria importante que cada parcela fosse composta por produtos destinados a mercados distintos, evitando que algumas famílias ficassem sobrecarregadas com determinados riscos e outras privilegiadas com uma renda mais alta. Essa verdadeira engenharia social implicaria em uma série de pactos decisivos entre as varias instâncias estatais, os movimentos que lutam pela reforma agrária e outros setores da sociedade civil preocupados com a resolução da questão agrária em Alagoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Referências Bibliográficas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANDRADE, Manuel C. de. Usinas e destilarias de Alagoas: uma contribuição ao estudo da produção do espaço. Maceió: EDUFAL, 1997.&lt;br /&gt;CARVALHO, Cícero P. de. Análise da reestruturação produtiva da agroindústria sucro-alcooleira alagoana. Maceió: EDUFAL, 1998. (Série Apontamentos, 42).&lt;br /&gt;CARVALHO, Cícero P. de. Pindorama: a cooperativa como alternativa. Maceió: EDUFAL, 2005. (Série Apontamentos, 50).&lt;br /&gt;HEREDIA, Beatriz A. Formas de dominação e espaço social: a modernização da agroindústria canavieira em Alagoas. São Paulo: Marco Zero; Brasília, DF: MTC/CNPQ, 1988.&lt;br /&gt;IANNI, Octávio. Origens agrárias do Estado brasileiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984.&lt;br /&gt;LIMA, Araken A. A agroindústria canavieira alagoana: da criação do IAA a desregulamentação na década de 1990. Campinas: Instituto de Economia/UNICAMP, 1994. (Dissertação de Mestrado).&lt;br /&gt;LIMA, Araken A. de. A crise que vem do verde da cana: uma interpretação da crise financeira do Estado de Alagoas no período 1988-96. Maceió: EDUFAL, 1998. (Série Apontamentos, 30).&lt;br /&gt;MELLO, Paulo D. A. Reestruturação produtiva na atividade canavieira: ação sindical e dos movimentos sociais rurais em Alagoas a partir de 1985. Recife: Departamento de Ciências Sociais/UFPE, 2002 (Tese de Doutorado).&lt;br /&gt;SZMRECSÁNYI, Tamás. O planejamento da agroindústria canavieira do Brasil: (1930-1975). São Paulo: HUCITEC/UNICAMP, 1979.&lt;br /&gt;UFSCAR – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS. A competitividade do sistema agroindustrial da cana-de-açúcar e novos empreendimentos viáveis baseados na utilização de matérias-primas originadas da cana-de-açúcar e seus derivados. São Carlos/SP: UFSCAR/CNI/IEL/SEBRAE, 2004. (Relatório de pesquisa)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-8853519526362411780?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/8853519526362411780/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=8853519526362411780&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/8853519526362411780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/8853519526362411780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2009/06/ministerio-do-desenvolvimento-agrario.html' title=''/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-3839651089187384787</id><published>2009-06-10T11:39:00.001-03:00</published><updated>2009-12-29T18:08:44.313-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Golbery Lessa'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Crise na Assembléia e Limites Políticos da Sociedade Civil Alagoana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Golbery Lessa, historiador)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em fevereiro do presente ano, a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) que abriu a possibilidade do retorno à casa de Tavares Bastos dos deputados estaduais afastados pela Justiça teve o efeito de despertar na sociedade civil maior vigor na busca de novos caminhos para a mobilização referentes à mudança da cultura política local. A postura anterior das várias entidades reunidas no Movimento Contra a Criminalidade e a Corrupção (MSCC) baseava-se no elitismo, num exagero na moderação prática e ideológica (algo fora do lugar num contexto de emergência política e ética) e no excesso de confiança no discurso jurídico (como se este fosse suficiente e o único pertinente). O esperado golpe da atual ilegítima mesa diretora de não instalar os trabalhos legislativos do ano de 2009 no dia marcado para uma significativa manifestação popular foi respondido, brilhantemente, com o contragolpe da ocupação do plenário e a instalação simbólica de uma “Assembléia Legislativa Popular”, contundente recado sobre a possibilidade real de um afastamento irreversível entre os poderes constituídos e a sociedade civil, com ocorreu em 17 de julho de 1997. Contudo, ainda há um logo caminho a percorrer para que os alagoanos encontrem forças suficientes para renovar o Poder Legislativo estadual e as suas práticas políticas. Será necessária principalmente uma profunda autocrítica do campo progressista.&lt;br /&gt;Por quais motivos a sociedade civil não está conseguindo mobilizar-se com eficiência e efetividade contra as presumidas ilegalidades (mesmo respeitando o princípio do contraditório e sem querer julga no lugar da Justiça, temos o direito de dizer que existe uma montanha de indícios) praticadas na Assembléia Legislativa? As limitações políticas e ideológicas da mobilização popular estão expressando as limitações da sociedade civil alagoana na presente etapa de seu desenvolvimento, particularmente dos trabalhadores sindicalizados mais atuantes e dos setores empresariais “não-canavieiros”. Essas limitações têm relação com a configuração particular das classes sociais no Estado e a história das idéias e das práticas políticas locais. Deixemos os setores empresariais referidos para um artigo futuro e analisemos o outro sujeito social citado.&lt;br /&gt;Os trabalhadores até agora mobilizados estão reunidos principalmente em entidade de funcionários públicos municipais, estaduais e federais, além de estarem nos movimentos de luta pela terra, cujos membros formam a massa disposta às ações mais contundentes e o grosso das passeatas. Segundo o site do MSCC, o movimento teria sido fundado pelos seguintes sindicatos e entidades: Sindicato dos Policiais Rodoviários (SINDPRF), Sindicato dos Servidores do Judiciário Federal e MPU (SINDJUS), Sindicato dos Urbanitários, Sindicato dos Trabalhadores em Seguridade Social (SINDPREV), Sindicato dos Servidores Públicos de São Miguel dos Campos (SIMESC), Sindicato dos Médicos, Sindicato dos Taxistas, Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTEAL), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Ordem de Advogado do Brasil – AL. Vê-se que o grosso das entidades fundadoras do movimento é formado de funcionários públicos, principalmente federais, secundados pelos servidores estaduais (urbanitários e trabalhadores na educação). Esse perfil manteve-se inalterado até o presente momento (junho de 2009); basta ver que os “deputados populares” escolhidos simbolicamente durante a ocupação do plenário foram, na maioria, os dirigentes das entidades apontadas e uma minoria de lideranças dos movimentos agrários. O grosso dos trabalhadores do setor privado, a maioria dos trabalhadores da capital e do interior, e suas entidades representativas estiveram ausentes; essa ausência tem tido um impacto decisivo nos rumos práticos e ideológicos do movimento. Por quê? Porque sem diálogo e aliança com os trabalhadores do setor privado o sindicalismo dos funcionários públicos tende a projetar alguns limites estruturais de sua natureza nas práticas e na subjetividade dos movimentos políticos dos quais participa.&lt;br /&gt;Os principais limites do sindicalismo no serviço público são os seguintes: 1) a estabilidade no emprego, arma necessária contra o clientelismo, modifica bastante o significado da greve e de outros atos de rebeldia da força de trabalho; a greve torna-se burocrática e destituída do caráter épico que tem no setor privado, onde existe a angustia pela possibilidade de perder o emprego, o ódio natural contra os pelegos, a vigilância radical dos acordos feitos pelas lideranças, entre outros dilemas; o caráter rotineiro da greve no serviço público cria espaço para um sindicalismo marcado pela moderação, o desleixo com o debate fundamentado de questões mais amplas e a supervalorização política das ações judiciais; essas circunstâncias geram a perpetuação das mesmas lideranças, dificuldade a renovação dos quadros sindicais; 2) a significativa quantidade de servidores que entraram sem concurso público (antes de 1988) por terem “costas quentes” e o grande número de cargos de confiança acabam cooptando para o “patrão” (o governo) ou para as correntes de clientelismo relevante parte das lideranças existentes na categoria, o que dificulta a organização pela base e as mobilizações por bandeiras políticas concretas; e 3) o servidor tem o estado como patrão e não a diretoria de uma empresa privada, o que termina gerando uma identidade entre mobilização sindical e mobilização política, ou seja, os servidores se colocam contra o governo de plantão com mais facilidade do que os trabalhadores privados e parecem se politizar muito mais rapidamente do que estes; contudo, ocorre de fato mais freqüentemente uma “politicização” do que uma politização, isto é, os servidores tendem a limitar os temas políticos a aspectos superficiais e a prognosticar o moralismo como remédio para todos os males, tendo grande dificuldade de perceber os embates econômicos decisivos entre as forças sociais e econômicas que estão na base do universo político; essa dificuldade de perceber os verdadeiros interesses em jogo é ainda reforçada pelo fato de que o próprio exercício da função pública, que objetiva regular os conflitos sociais, gerar a ilusão em quem a exerce de estar acima das classes , de ser um juiz imparcial dos interesses em luta.&lt;br /&gt;Em 1950, os trabalhadores da indústria eram 44% da força de trabalho urbana de Alagoas e os funcionários públicos tinham uma participação muito menor, em torno de 10%. A expansão das atividades estatais iniciada no Estado Novo, continuada na época do “milagre brasileiro” e reforçada pela Constituição Federal de 1988 inverteu esse quadro: em 2000, os funcionários públicos passaram a ser 25% dos assalariados urbanos e os operários industriais foram reduzidos para 18%. Os servidores agora recebem quase 70% da renda do trabalho no Estado e têm em média a metade da participação entre a população que recebe de 3, 5, 10 e 20 salários mínimos. O setor privado passou a ser formado pelos comerciários (13% em 1950 do emprego urbano, 21% em 2000) e pelos prestadores de serviço (24% em 1950 do emprego urbano, 23% em 2000) na maioria empregada em empresas pequenas, mas não apenas nelas. Essas modificações na configuração da força de trabalho acompanharam as modificações no PIB, que passou a ser formado, a partir de meados dos anos 1980, majoritariamente pelo setor de serviços, com forte presença neste das atividades do setor público (administração, saúde, segurança e Justiça), numa porcentagem só alcançada em outros estados menos desenvolvidos do país.&lt;br /&gt;Esta nova realidade quantitativa criou as possibilidades de um mundo diferente na representação sindical e política dos trabalhadores. As lutas sindicais do passado, baseadas nos trabalhadores do setor privado e lideradas pelos comunistas e trabalhistas deram lugar, notadamente a partir de meados dos anos 1980, a lutas nucleadas pelos funcionários públicos e orientadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Uma minoria entre os trabalhadores urbanos protegida pela estabilidade no emprego, lotada em entidades com centenas de indivíduos e possuidora de 70 % da massa salarial, passou a hegemonizar o sindicalismo e a representação política dos assalariados, deixando na penumbra uma maioria formada por operários industriais dispersos nas duas dezenas de usinas, na construção civil e em outros ramos industriais de menor expressão demográfica (os químicos são poucos, mas produzem 20% do PIB alagoano), bem como uma grande quantidade de comerciários espalhados em milhares de pequenas lojas (com exceção dos supermercados) e de assalariados do setor de serviços pessoais e a empresas. Criaram-se, assim, as condições para a existência de duas culturas políticas específicas, com lideranças, idéias e lógicas distintas e, em várias dimensões, antagônicas. Os trabalhadores do setor privado passaram a agir e pensar a política fora dos marcos clássicos do sindicalismo de esquerda, já que foram praticamente abandonados - ou incompreendidos - por esta corrente ideológica, convergindo apenas em alguns momentos com as idéias e as ações dos funcionários.&lt;br /&gt;De modo geral, os trabalhadores alagoanos do setor privado são mais difíceis de organizar devido à existência de um substancial exército laboral de reserva no Estado e da inexistência de estabilidade no emprego, entre outras variáveis. Além destas, cada uma das categorias desses trabalhadores possui dificuldades específicas. Os operários das usinas têm dificuldade de se organizar porque os seus direitos de associação e expressão são negados na prática pelos empresários e outras instâncias de poder (são mais vigiados porque podem parar o coração econômico da oligarquia canavieira); os trabalhadores da construção civil, apesar de estarem concentrados em poucas grandes empresas, têm a desvantagem de conviverem com uma intensa dispersão das equipes ao final de cada obra; os comerciários na maioria estão dispersos em milhares de pequenas lojas, onde o paternalismo patronal e a vigilância se exercem com o mesmo empenho, com a exceção dos grandes supermercados. Algo análogo ocorre com as trabalhadoras domésticas (60 mil em Alagoas) e os assalariados do setor de serviços a empresas. Apesar disso tudo, esses assalariados teriam uma chance de constituírem sindicatos mais fortes se o imaginário político alagoano não estivesse tomado desde meados dos anos 1980 por idéias feitas à imagem e semelhança dos limites do sindicalismo dos servidores públicos, sindicalismo que nega a importância política do trabalhador do setor privado (visto como um lumpemproletariado que vende o seu voto e atrapalha o progresso das idéias progressistas), por mais que esta negação não apareça formulada com sinceridade.&lt;br /&gt;O dia 17 de Julho de 1997, jornada de protesto liderada pelos servidores públicos estaduais que motivou a renúncia do então governador Divaldo Suruagy, ponto culminante de uma crise econômica que se expressava, entre outras coisas, no não pagamento do funcionalismo, foi emblemático dos limites e possibilidades do sindicalismo alagoano contemporâneo. Sua análise ensina sobre as atuais dificuldades de mobilização. Os funcionários públicos estaduais, com o apoio de toda a sociedade civil, derrubaram o mesmo governador no qual tinham votado dois anos e meio antes; o tinham escolhido na esperança de que Suruagy trouxesse de novo uma época áurea para os vencimentos dos servidores. Só que o governador, que até aquele momento era um verdadeiro mito, não foi capaz de realizar a tarefa impossível de trazer de volta a conjuntura de seus primeiros mandatos, nas quais havia dinheiro suficiente para obras públicas e expansão do gasto com pessoal. O “acordo dos usineiros” havia acabado de debilitar os cofres públicos e uma série de circunstâncias legais e econômicas impediram rolagem da dívida do Estado. Diante do acúmulo de meses sem pagamento, os servidores transformaram o apoio em crítica, a simpatia em ódio.&lt;br /&gt;O verdadeiro levante armado de 17 de Julho de 1997 foi uma saída democrática e popular para uma quadra histórica na qual as classes dominantes caíram na inércia porque não tinham coesão nem projeto político definido, não possuíam lideranças públicas com iniciativa e só assistiam sua hegemonia deteriorar-se progressivamente. A partir de um determinado momento, a quase totalidade da população apoiava, mesmo que não ativamente, a vanguarda de sindicatos e associações de servidores públicos que encetou vários tipos de protestos e formas de mobilização até conseguir a destituição do governador, tendo realizado a tarefa aparentemente impossível de impor a sua vontade à maioria folgada que Suruagy possuía na Assembléia Legislativa. Esse movimento político tão poderoso não foi, por outro lado, capaz de aprofundar significativamente o seu diagnóstico e os seus objetivos; virou-se para uma saída moderada demais e muito imprudente para quem havia sofrido tanto com as aventuras do status quo: apoiou uma candidatura (Ronaldo Lessa) sem um compromisso claro com mudanças estruturais e se absteve de eleger uma bancada de deputados progressistas ao lançar a principal liderança do movimento (Heloísa Helena) para o senado federal. Ronaldo Lessa fez dois governos de centro-direita, repetindo no básico os projetos políticos tradicionais (é sempre possível encontrar um roda-pé progressista em qualquer governo e seria possível encontrá-lo no de Lessa, mas isso não muda o seu rumo político essencial). Heloísa transformou-se em liderança nacional e o Brasil a furtou de Alagoas (sua volta com vereadora em 2009 parece ser a forma que a história encontrou para reparar esse erro). Após 12 anos do dia 17 de Julho de 1997, a esquerda alagoana demonstra ter perdido o rumo ideológico e os votos, tornando-se uma força temporariamente residual; o poderoso movimento popular pariu um rato porque expressou a força e os limites de sua principal base social: os servidores públicos isolados dos trabalhadores do setor privado. Muita moral, revolta e capacidade de luta, mas diagnóstico superficial e idéias tímidas. &lt;br /&gt;A fragilidade relativa da atual mobilização da sociedade civil alagoana contra o status quo político na Assembléia Legislativa se explica, entre outras variáveis, pelos limites ideológicos e políticos da base social da vanguarda sindical mobilizada, que se expressa na subjetividade e na ação dessa vanguarda. Seu discurso tem sido abstrato, fragmentado, legalista e eivado de um moralismo empobrecedor do debate. Diz que o sistema político é corrupto porque as principais lideranças são corruptas (uma afirmação quase tautológica) e esquece-se de explicar quais variáveis permitem que os corruptos cheguem ao poder e permaneçam nele.&lt;br /&gt;Os seguintes fenômenos estruturais que determinam a corrupção e a crise no Legislativo são esquecidos: 1) a universalização da aposentadoria rural, a estruturação dos sistemas nacionais de financiamento da saúde e da educação, o Bolsa Família e os programas oficiais de crédito aos pequenos agricultores, entre outros fenômenos análogos, bem como a diminuição radical do número dos moradores das fazendas (a partir de meados dos anos 1980) provocaram mudanças profundas na situação do eleitorado, dando-lhe mais independência das redes de clientelismo e tornando muito mais cara a manutenção das chamadas “bases eleitorais”; 2) a participação majoritária do setor de serviços no PIB, a partir dos anos 1980, determinou o aumento do nível de urbanização do eleitorado e o fortalecimento de novos atores, como o funcionalismo público, os comerciários e os prestadores de serviço a empresas, robustecendo a sociedade civil e o peso da opinião pública no resultado das eleições (na verdade, essa urbanização do voto constituiu-se numa “reurbanização”, já que nos anos 1950 a impossibilidade do voto do analfabeto fizera o voto urbano ter uma importância decisiva, representando por volta de 40% do eleitorado), fatos que “inflacionaram” ainda mais o voto rural e tornaram o voto citadino muito caro para ser “comprado” sem um rede dispendiosa de clientelismo; e 3) o fortalecimento do poder político da União em relação aos Estados a partir de 1995 (por meio do Plano Real e uma série de medidas implementadas pelos governos de Fernando Henrique Cardoso: Lei de Responsabilidade Fiscal, Lei Kandir, Programa de Apoio à Reestruturação e ao Ajuste Fiscal dos Estados, vinculação de recursos para as áreas da educação básica [FUNDEF] e da saúde [Emenda Constitucional n° 29], etc.) diminuiu as arbitrariedades nas contas dos Estados que eram aproveitadas politicamente pelas oligarquias; esse desequilíbrio do pacto federativo, apesar de suas intenções neoliberais, teve, em Alagoas, um impacto positivo no que toca ao fortalecimento do espaço democrático ao abrir espaço para a valorização da polícia federal e do Ministério Público, agora reestruturados por constantes concursos e melhorias salariais.&lt;br /&gt;As presumidas irregularidades no uso do dinheiro público na Assembléia Legislativa explicam-se, em nossa opinião, pelo conflito entre as novas circunstâncias hostis ao antigo status quo político e sua disposição de resistir às mudanças democratizantes que a nova realidade impõe. A inflação dos gastos nas campanhas políticas alagoanas originou-se do aumento radical da monetarização dos laços políticos nas cadeias de clientelismo e dos gastos com o marketing necessário para amealhar o voto de um eleitor mais moderno e independente. Em decorrência, diferente do passado, no qual o mandonismo político se realizava com acordos a fio de bigode, o poder político passou a ser determinado, para aqueles que não desejaram trilhar o saudável caminho da disputa democrática, cada vez mais pela capacidade de amealhar dinheiro sonante em quantidades cada vez maiores, daí a busca de acesso irregular aos fundos públicos. A corrupção no sistema político alagoano contemporâneo não é, portanto, expressão da onipotência de um grupo de políticos e a pretensa prova de que tudo permanecerá igualmente miserável nessa terra de natureza luxuriante, é a demonstração que uma nova etapa de modernização se aproxima e de que a sociedade civil precisa superar os seus limites para atenuar as dores do parto e moldar o futuro de maneira mais generosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maceió-AL, junho de 2009.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-3839651089187384787?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/3839651089187384787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=3839651089187384787&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/3839651089187384787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/3839651089187384787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2009/06/crise-na-assembleia-e-limites-politicos.html' title=''/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-4241284075691215461</id><published>2008-12-19T09:58:00.003-02:00</published><updated>2010-04-15T13:51:41.503-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Golbery Lessa'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/SUuNTHFE86I/AAAAAAAAHfw/nJx0tOu4rk8/s1600-h/F%C3%A1brica+Alagoana+recortado+1.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5281470347479413666" src="http://2.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/SUuNTHFE86I/AAAAAAAAHfw/nJx0tOu4rk8/s320/F%C3%A1brica+Alagoana+recortado+1.jpg" style="cursor: hand; display: block; height: 227px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para uma História da Indústria Têxtil Alagoana&lt;br /&gt;[por Golbery Lessa] &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn1" name="_ftnref1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;[1]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;[Introdução: a história de Alagoas não é a história do açúcar]&lt;br /&gt;Na historiografia alagoana clássica, surgida entre a segunda metade do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, não existe a proposta de exagerar o papel da atividade canavieira na história do Estado e subestimar o significado de outros setores econômicos, como a pecuária, o comércio, a lavoura algodoeira e a produção de tecidos. Nos textos de Tomás Espíndola, Dias Cabral, Moreno Brandão e Craveiro Costa, para citar alguns dos autores mais conhecidos, inexiste a tese de que a história de Alagoas seria a história do açúcar. Entretanto, os livros Açúcar e Algodão, &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn2" name="_ftnref2" style="mso-footnote-id: ftn2;" title=""&gt;[2]&lt;/a&gt; de Humberto Bastos, e O Bangüê nas Alagoas,&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn3" name="_ftnref3" style="mso-footnote-id: ftn3;" title=""&gt;[3]&lt;/a&gt; de Manuel Diegues Júnior, publicados em 1938 e 1949, foram interpretados de maneira distorcida por uma opinião pública impressionada com o poder adquirido pelas usinas a partir dos anos 1960 e ajudaram, involuntariamente, na invenção de uma teoria canavieira sobre a formação social alagoana que, mesmo sem conseguir impregnar a historiografia, tornou-se hegemônica nos discursos político, jornalístico e burocrático.&lt;br /&gt;A partir da interpretação canavieira fica difícil escrever a história de municípios tão importantes como Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios, Arapiraca, Penedo e Maceió, estruturados por atividades agropecuárias, comerciais, de serviços e industriais muito distintas do setor açucareiro. Vastas regiões do Estado e mesmos momentos históricos decisivos de áreas do atual Leste Alagoano não podem ser suficientemente explicados por um raciocínio baseado na noção de “civilização do açúcar” ou qualquer um dos seus sucedâneos. Na trilha dos clássicos, historiadores contemporâneos de distintas perspectivas metodológicas, como Dirceu Lindoso, Sávio de Almeida, Douglas Apratto, Osvaldo Maciel, Fernando Medeiros e José Alberto Saldanha, têm sublinhado a importância de outras atividades econômicas, temas e regiões e, desse modo, deixado aberta a possibilidade para abordagens mais complexas da história de Alagoas.&lt;br /&gt;Citemos alguns dos inúmeros fatos que não cabem na teoria que exagera o papel do açúcar: 1) a ascensão da cultura do algodão durante quase todo o século XIX e sua presença significativa até a primeira metade do século XX, envolvendo amplas áreas dos atuais Sertão e Agreste, definindo as bases da estrutura fundiária dessas regiões e chegando a ser cultivado na área tradicionalmente canavieira; 2) a proeminência econômica da burguesia comercial de Jaraguá (com decisiva presença de portugueses e outros europeus) durante aquele mesmo período, simbolizada pela centralização do poder em Maceió (1839) e pela criação da Associação Comercial (1866); 3) o papel decisivo do capital mercantil (alagoano, nordestino e estrangeiro) na constituição das primeiras grandes usinas locais (Brasileiro, Utinga Leão, Serra Grande e Sinimbu) e na constituição das doze fábricas de fiação e tecelagem; 4) o fato de que essas fábricas têxteis chegaram a rivalizar com a indústria do açúcar entre os anos 1930 e 1960 em termos de capital investido, valor produzido e número de operários; e 5) a grande descontinuidade existente entre o engenho e a usina, tanto em termos de suas lógicas econômicas básicas quanto no que se refere à origem de seus capitais.&lt;br /&gt;É um universo de personagens e questões decisivas que tem sido negligenciado. Se observarmos apenas os casos da burguesia e da classe trabalhadora das fábricas têxteis, já entramos num espaço importante para entender melhor os descaminhos do ethos capitalista e das relações sociais mercantis em Alagoas, na medida em que esses sujeitos encarnaram a vanguarda desse mundo burguês entre o final do século XIX e meados do século XX. Isso implica em abrirmos a possibilidade de compreender melhor um dos momentos decisivos da reafirmação do caráter colonial, tardio e autoritário do capitalismo alagoano.&lt;br /&gt;[Virada do século XIX para o século XX: entre a usina e a fábrica têxtil]&lt;br /&gt;Após um primeiro momento de consolidação, vivido entre a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX, a indústria têxtil alagoana chegou ao seu amadurecimento entre os anos 1930 e 1950, passando a apresentar uma configuração que a colocava como pólo decisivo de uma alternativa econômica mais progressista. Pode-se iniciar a comprovação deste fato por meio de números que possibilitam a comparação entre o complexo têxtil e o setor canavieiro durante o período citado.&lt;br /&gt;Em 1933, com o objetivo de dar publicidade às reivindicações que fizera a Getúlio Vargas, a Associação Comercial de Maceió publicou um livreto intitulado Alagoas na Economia do Brasil.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn4" name="_ftnref4" style="mso-footnote-id: ftn4;" title=""&gt;[4]&lt;/a&gt; O texto assinado por Antonio de Mello Machado, presidente da entidade e um dos proprietários da União Mercantil, fábrica têxtil de Fernão Velho,&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn5" name="_ftnref5" style="mso-footnote-id: ftn5;" title=""&gt;[5]&lt;/a&gt; apresenta os seguintes números: em 1932, o setor canavieiro, contando com 27 usinas e 700 engenhos, alcançou um valor de produção de 52.388.580$000 (em contos de réis), constituído pelos seguintes itens: açúcar (46.969.260$000), álcool e aguardente (3.500.000$000), cana exportada para outros Estados (1.240.323$000) e cana consumida de outras formas (680.000$000); no mesmo ano, a cadeia produtiva têxtil, com 10 fábricas de fiação e tecidos, alcançou uma valor de produção de (40.516.800$000), a partir dos seguintes itens: tecidos (32.062.552$000), algodão (3.696.800$000) e caroço de algodão (1.620.000$000). Diante desses dados (o universo têxtil era responsável por 43,6% da soma dos valores produzidos pelos dois setores), fica difícil sustentar que a produção alagoana girasse apenas ao redor do engenho e da usina.&lt;br /&gt;Para aquilatar o grau de desenvolvimento e as potencialidades trazidas pela parte industrial desses setores no início dos anos 1930, podemos calcular o valor médio da produção por unidade fabril e a contribuição da tecnologia tradicional e da maquinaria para o processo produtivo. A divisão entre o valor total do açúcar e o número de usinas tem como resultado 1.740.000$000, a divisão entre o valor total dos tecidos e o número de fábricas resulta em 4.050.000$00. A quase totalidade do tecido e dos fios era produzida nos dez grandes estabelecimentos fabris. Por outro lado, a partir de uma tabela do Instituto do açúcar e do Álcool (IAA) apresentada pelo economista Humberto Bastos, no citado livro Açúcar e Algodão, pudemos chegar à conclusão de que 30% da produção açucareira alagoana ainda eram efetivados por engenhos, fato demonstrativo de que a tecnologia tradicional ainda tinha um espaço relevante neste setor. A partir de dados relativos ao montante de capital investido apresentados no citado livreto da Associação Comercial, pode-se calcular que uma usina possuía em média um capital de 3.009.556$000 e uma fábrica têxtil, 5.763.383$000. Ou seja, uma fábrica representava quase o dobro de poder econômico de uma usina.&lt;br /&gt;Em 1940 e 1950 a indústria têxtil tinha, respectivamente, 6.294 e 10.514 operários, pagava um total de 7.125 e 57.382 (em milhares de cruzeiros) em salários e produzia tecido e fios no valor de 64.663 e 353.457 (em milhares de cruzeiros). &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn6" name="_ftnref6" style="mso-footnote-id: ftn6;" title=""&gt;[6]&lt;/a&gt; Nestes censos a indústria açucareira foi submersa no conceito de indústria alimentar, o que dificulta um pouco a comparação, mas não a inviabiliza porque sabemos por outras fontes que o setor canavieiro deveria corresponder a 98% do valor da produção daquela indústria (a produção de álcool ainda não era relevante naquelas décadas, sua exclusão não macula nossas conclusões). Os números dessa atividade eram, a partir dos mesmos censos industriais de 1940 e 1950, os seguintes: empregava 4.419 e 6.917 operários, pagava um total 5.011 e 25.719 (em milhares de cruzeiros) de salários e sua produção valia 94.723 e 392.995 (em milhares de cruzeiros). Ou seja, a indústria têxtil superava a indústria açucareira no que se referia ao número de operários, ao montante dos salários pagos (mais do que o dobro em 1950) e chegava bem próximo no tocante ao valor da produção. Segundo o Anuário Estatístico Brasileiro, em 1954 a indústria têxtil teve um valor de produção um pouco maior do que a indústria de alimentos em Alagoas.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn7" name="_ftnref7" style="mso-footnote-id: ftn7;" title=""&gt;[7]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Caso observemos a dimensão agrícola dos dois setores no século XX, perceberemos que o algodão abrangia uma área muito maior do que a cana pelo menos desde os anos 1930 até&amp;nbsp;meados dos anos 1950 &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn8" name="_ftnref8" style="mso-footnote-id: ftn8;" title=""&gt;[8]&lt;/a&gt; e, devido ao costumeiro uso das propriedades rurais camponesas para seu cultivo, alcançava um maior número de trabalhadores. Em 1933, as lavouras de algodão e cana ocupavam, respectivamente, 66.700 e 26.060 hectares, enquanto os seus valores de produção eram 36.890$000 (somando o algodão em rama e o caroço de algodão) e 27.197$000 mil-réis.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn9" name="_ftnref9" style="mso-footnote-id: ftn9;" title=""&gt;[9]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;No século XIX, o&amp;nbsp;espaço agrícola do algodão foi maior desde as primeiras décadas até o início do&amp;nbsp;último quartel. O aumento da demanda inglesa pela fibra fez surgir milhares de pequenas glebas algodoeiras nos atuais Agreste e Sertão da então Província das Alagoas.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn10" name="_ftnref10" style="mso-footnote-id: ftn10;" title=""&gt;[10]&lt;/a&gt; Essas proporções se explicam pela retração do mercado para o açúcar brasileiro durante a primeira metade do século XIX e pelo fato de que a cana, com a tecnologia da época, não tinha capacidade de ir além das estreitas faixas de terra espremidas nos vales. O algodão alagoano era, como no Brasil inteiro, uma cultura de pequenos agricultores pobres, de descaroçadores remediados e de grandes comerciantes. &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn11" name="_ftnref11" style="mso-footnote-id: ftn11;" title=""&gt;[11]&lt;/a&gt; O baixo investimento inicial, o consórcio como o feijão, o milho e mamona e as conjunturas intermitentes de preços altos determinavam que o algodão se espalhasse com facilidade, chegando às vezes a ocupar parte da terra de engenhos de açúcar.&lt;br /&gt;O universo industrial têxtil não era um mero coadjuvante do mundo canavieiro entre o início dos anos 1930 e o final dos anos 1950. A indústria de fiação e tecelagem foi se consolidando e constituindo-se num espaço econômico, ideológico e político bastante particular em relação aos antigos e novos espaços da sociedade alagoana, como os espaços dos bangüês, das usinas e do sertão agropecuário. Apesar de suas singularidades, esse mundo têxtil das fábricas com vilas operárias não era um elemento isolado na formação social alagoana, mas uma das formas particulares do processo de urbanização e modernização mercantil-financeira que transcorreu desde a metade do século XIX e concentrou-se em Maceió e outras cidades marcadas pelo comércio, como Penedo e Pilar. Compartilhava com o espaço das usinas a mesma lógica essencial determinada pelo metabolismo do capitalismo periférico e retardatário, entretanto tinha uma abertura maior para processos de superação dessa lógica, representava uma alternativa mais progressista do que o mundo centrado no açúcar.&lt;br /&gt;Em um dos textos mais esclarecedores sobre a história alagoana contemporânea, afirma Dirceu Lindoso sobre as singularidades desse mundo fabril têxtil:&lt;br /&gt;Geraram, as vilas operárias urbanas, pela primeira vez na cultura alagoana, formas culturais urbanas proletárias. Essas formas, embora contivessem ingredientes ainda rurais, revelavam um conteúdo de nítida oposição às formas tradicionais de organização social vigente na cultura rural. Embora, de início, essa oposição não se revelasse nítida, entretanto já registrava, em termos sociais, uma distinção com as formas sociais de vida de tradição rural. A integração urbana de mão-de-obra de origem rural, fixada em vilas e cidades, fez-se nas condições de existência social que as vila operárias representavam e através do regime disciplinar de trabalho nas fábricas. Esse processo de concentração de moradia em forma padronizada e na nova disciplina de trabalho industrial realizou a homogeneização das disparidades da mão-de-obra rural numa força de trabalho que representava um fato novo na organização do trabalho social em condições alagoanas: a padronização da vida nas vilas operárias correspondia à padronização do trabalho nas fábricas. E esse processo de padronização proletário-urbano diferia da dispersão e disparidade da organização do trabalho em situação camponesa. Marcava-se de um modo diferente do tempo tradicional camponês. A escrita e a alfabetização eram componentes da vida urbana, enquanto dominava na organização do trabalho em situação camponesa a hegemonia absoluta da oralidade e do agrafismo. &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn12" name="_ftnref12" style="mso-footnote-id: ftn12;" title=""&gt;[12]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica evidenciado que o espaço têxtil foi um dos principais focos de urbanização e modernização do cotidiano, do trabalho, da política e da subjetividade. Além de ser um dos pioneiros na apreciação sistemática desse papel progressista do universo têxtil, o autor ainda tem o outro grande mérito de identificar e descrever a metamorfose econômica, política e subjetiva vivida pela sociedade alagoana a partir da segunda metade do século XIX. Identifica uma nova etapa de desenvolvimento do capitalismo em Alagoas, marcada pela industrialização, a urbanização e o surgimento de um novo bloco histórico. Analisa a decadência dos senhores de engenho e sublinha a ascensão de um agrupamento de classes baseado nas cidades e no capital mercantil-industrial. Este novo bloco seria composto pelos usineiros, os donos de fábricas têxteis, os grandes comerciantes e os financistas. Por outro lado, os novos atores trouxeram as condições de existência que possibilitaram a autoconstrução das classes trabalhadoras urbanas em geral e, em particular, do proletariado fabril.&lt;br /&gt;[Usina de açúcar: negação e afirmação da lógica retardatária]&lt;br /&gt;Entre a Abolição (1888) e o fim do Estado Novo (1937-45), o sistema econômico vigente no Estado de Alagoas moveu-se no sentido de radicalizar, num primeiro momento, a proeminência do capital mercantil e, num momento posterior, de transferir a hegemonia econômica para a indústria, subordinando a esta a agricultura e o comércio. Repetiu-se o que se passou em outros Estados no mesmo período e o que ocorrera nos países centrais entre o início e a metade do século XIX. No entanto, Alagoas (repetindo a trajetória de Pernambuco) concentrou cerca de metade dos capitais disponíveis em um setor agroindustrial, o canavieiro, cujas especificidades materiais (caráter perecível da cana após a colheita, o que impede a existência de um mercado estadual, nacional e internacional dessa matéria-prima) tendem a construir um espaço produtivo no qual a lógica da parte fabril torna-se excessivamente dependente da lógica da parte agrícola.&lt;br /&gt;Os engenhos bangüês sobreviveram relativamente pouco tempo à Abolição porque sua base técnica, marcada por um desenvolvimento muito vagaroso e pela dificuldade de ampliar as escalas de produção, era incompatível com a nova realidade na qual o valor dos produtos passava a ser determinado predominantemente a partir da quantidade social média de trabalho assalariado.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn13" name="_ftnref13" style="mso-footnote-id: ftn13;" title=""&gt;[13]&lt;/a&gt; No que se refere a essas dimensões básicas, a usina representou uma grande ruptura com o passado e, ao menos para quem não prefira a escravidão ao trabalho assalariado, um passo adiante em vários aspectos. As três primeiras grandes usinas alagoanas (Brasileiro, Utinga Leão e Serra Grande, surgidas entre 1892 e 1894) &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn14" name="_ftnref14" style="mso-footnote-id: ftn14;" title=""&gt;[14]&lt;/a&gt; e as fábricas têxteis representaram o pioneiro estabelecimento da subsunção real do processo de trabalho ao capital, ou seja, constituíram relações capitalistas na sua forma típica: trabalho assalariado, maquinaria e desenvolvimento tecnológico contínuo.&lt;br /&gt;O Barão Vandesmet (usina Brasileiro), representante do capital francês, Luiz Amorim Leão Filho (usina Utinga Leão), de família portuguesa enriquecida no grande comércio, e Carlos Benigno Pereira Lyra (usina Serra Grande), de clã pernambucano cosmopolita,&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn15" name="_ftnref15" style="mso-footnote-id: ftn15;" title=""&gt;[15]&lt;/a&gt; traziam capitais e ethos muito diferentes daqueles que moviam a prática econômica dos senhores de engenho. Entretanto a modernidade que traziam chocou-se com um obstáculo decisivo e até hoje insuperável no ramo que escolheram para aplicar seus capitais: numa circunstância na qual o caráter perecível da cana inviabiliza a existência de um mercado regional, nacional e internacional dessa matéria-prima, a planta fabril acaba tendo sua atividade condicionada pelos lentos ciclos biológicos dos canaviais próximos, o que ameaça a usina de ser contaminada pela lenta rotação de capital da parte agrícola e pela conseqüente queda na taxa de lucro. Para tentar escapar dessa armadilha estrutural, a usina obrigou-se a organiza-se também com empresa agrícola e não apenas como empresa industrial; por meio da chamada cana própria, procurou não ficar dependente do preço da matéria-prima proposto por seus fornecedores e apressar a rotação de capital nos canaviais a partir do uso de técnicas agrícolas modernas.&lt;br /&gt;O novo desenvolvimento do setor canavieiro representou um avanço do capitalismo no campo e, contraditoriamente, uma “ruralização” da indústria, com conseqüências negativas tanto nas finanças quanto no ethos da vanguarda empresarial, o que foi decisivo para a diminuição do potencial de desenvolvimento capitalista que este segmento representava e um dos motivos do subdesenvolvimento econômico posterior. A cana própria consolidou o latifúndio no Leste Alagoano, dificultando o surgimento de um campesinato produtor de alimentos e matérias-primas a preços declinantes, uma das premissas para o barateamento dos meios de vida dos assalariados e da generalização da mais-valia relativa, muito mais progressista do que a mais-valia absoluta, pois possibilita que o aumento do lucro coadune-se com a melhoria das condições de vida do trabalhador. O fenômeno da entressafra açucareira obriga as plantas fabris a uma paralisia completamente irracional durante seis meses, o que se procura compensar pela diminuição radical da remuneração dos trabalhadores e pelos aumentos astronômicos nas escalas de produção, fato que amplia o risco de superprodução.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn16" name="_ftnref16" style="mso-footnote-id: ftn16;" title=""&gt;[16]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;[Fábrica têxtil: possibilidade de superação da lógica retardatária]&lt;br /&gt;A outra metade dos capitais disponíveis nas Alagoas foi aplicada na indústria têxtil, movida por uma lógica significativamente distinta. As fábricas têxteis também usavam um produto agrícola como matéria-prima básica, mas a durabilidade do algodão após a colheita possibilitava a existência de um mercado regional, nacional e mesmo internacional dessa fibra, bem como a constituição de estoques nos armazéns das próprias empresas. As fábricas não necessitavam empatar capitais na compra ou arroteamento de terras e fazer gastos com seu manejo e administração. A existência de um mercado amplo de algodão e a natureza pulverizada da classe dos produtores diretos (pequenos agricultores) dificultava o monopólio dessa matéria-prima (apesar da existência de uma estrutura de comercialização que concentrava os lucros entre os atravessadores e descaroçadores) e possibilitava que as fábricas alagoanas pudessem obtê-la a preços razoáveis até os anos 1930.&lt;br /&gt;Ao contrário das usinas, as fábricas não passavam por um processo anual de paralisia na entressafra agrícola. Funcionavam com uma lógica plenamente industrial, sem subserviência excessiva aos humores da agricultura. Suas singularidades tinham conseqüências bem mais progressistas do que aquelas provocadas pelas singularidades da usinas. Os salários eram melhores e as leis trabalhistas puderam ser aplicadas, a partir da Revolução de 1930, sem que as empresas fossem à bancarrota. A maior capacidade de oferecer empregos por unidade de capital e sua localização em cidades de grande relevância econômica e política (Maceió, Penedo, Pilar, Rio Largo, São Miguel dos Campos e Delmiro Gouveia) foram determinantes para que estas empresas cumprissem o papel modernizador sublinhado de modo pioneiro por Dirceu Lindoso.&lt;br /&gt;As personas do grande capital alagoano (e estrangeiro em Alagoas) nas primeiras décadas do século XX apenas começavam a perceber as diferenças entre o setor têxtil e o açucareiro e ensaiavam investimentos nessas vias. Não se sabia qual deles iria vingar e tornar-se o caminho essencial do desenvolvimento; era uma época de experimentação e risco. A maior parte dos grupos empresariais escolheu uma das alternativas e alguns ensaiaram os dois ramos simultaneamente. Emblemáticas do tatear de alguns capitais entre os dois setores foram as compras, em 1938, da fábrica União Mercantil pelos proprietários da usina Utinga Leão, e da pequena usina Coruripe, em 1941, por Tércio Wanderley, rico comerciante, dono de fábrica de sabão localizada em Maceió, acionista minoritário de fábricas têxteis e proprietário, desde 1936, da Companhia Antunes de Fiação e Tecelagem (Nova Aliança, Sergipe, atual Neópolis). &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn17" name="_ftnref17" style="mso-footnote-id: ftn17;" title=""&gt;[17]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;[Vazio de poder no bloco histórico dominante e violência política]&lt;br /&gt;Em Alagoas não havia muitos adeptos da Revolução de 1930 antes que as tropas da nova ordem chegassem à capital.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn18" name="_ftnref18" style="mso-footnote-id: ftn18;" title=""&gt;[18]&lt;/a&gt; Na terra de Pedro Aurélio de Góis Monteiro, um dos homens mais influentes no novo regime, houve dificuldades para estabilizar o novo poder porque os impasses do capitalismo local tinham constituído um bloco econômico dominante radicalmente contrário às propostas modernizadoras dos tenentistas.&lt;br /&gt;Existiam setecentos engenhos bangüês sobrevivendo a partir da estratégia de diminuir os custos monetários da produção por meio da mistura entre o assalariamento e relações sociais pré-capitalistas. Os bangüês não aceitaram desaparecer sem luta. Competiram por força de trabalho, terras e mercado consumidor com as usinas.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn19" name="_ftnref19" style="mso-footnote-id: ftn19;" title=""&gt;[19]&lt;/a&gt; As usinas ainda não estavam consolidadas financeiramente e nem tinham incorporado vários dos principais avanços técnicos agrícolas da nova etapa capitalista. &lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn20" name="_ftnref20" style="mso-footnote-id: ftn20;" title=""&gt;[20]&lt;/a&gt; A cana continuava sendo plantada no massapê, terra que dificultava o emprego de máquinas e outros equipamentos pesados. Para não perder sua força de trabalho para os engenhos e para diminuir os custos monetários da produção, os usineiros reproduziram a figura do morador em suas fazendas e resistiam a qualquer legislação trabalhista.&lt;br /&gt;O capital mercantil com sede em Jaraguá estava exclusivamente interessado na existência de boas condições para os seus negócios e de algum produto de exportação para os mercados brasileiro e internacional, tanto fazia que fosse açúcar ou algodão, couro ou mamona, madeira ou tecido; tanto fazia que fosse produzido por grandes ou pequenos proprietários, por moradores ou assalariados. Eram esses grandes comerciantes que ficavam com a maior parte da riqueza produzida pela economia alagoana. Somente as três maiores usinas eram capazes de fugir da subordinação ao grande comércio de importação-exportação. As fábricas têxteis tiveram que lutar muito para que a rede de distribuição de tecidos não ficasse com grande parte dos lucros do setor.&lt;br /&gt;As reformas propostas pelos tenentistas também não encontraram apoio entre os industriais têxteis devido às singularidades desse setor no Estado. As fábricas locais tinham dois problemas principais : 1) o alto preço e a péssima qualidade do algodão produzido em Alagoas; e 2) o alto custo da produção da energia elétrica por meio de caldeiras abastecidas com lenha. Em São Paulo, maior produtor de tecidos do país, o início da década de 1930 foi marcado pelo começo de enormes safras sucessivas de algodão de ótima qualidade, resultado do retalhamento planejado das antigas fazendas de café e da intervenção do estado na lavoura algodoeira. As empresas bandeirantes passaram a ser independentes da matéria-prima nordestina. As várias quedas d’água existentes no relevo paulista, o amplo mercado consumidor e a abundância de capitais interessados em produzir energia hidroelétrica já tinham resolvido o problema energético do setor têxtil bandeirante desde a década anterior. O mundo têxtil alagoano estava começando a pagar caro a não resolução da questão agrária e a dificuldade de planejamento econômico do bloco social dominante, determinada pelo contínuo vazio de poder no seu interior.&lt;br /&gt;Os senhores de engenho e usineiros estavam longe de ter os mesmo interesses imediatos e estratégicos, já que representavam etapas distintas do capitalismo. É anacronismo imaginar a existência de um setor açucareiro unificado e politicamente capaz de subordinar os outros segmentos das classes dominantes nesse período e nas duas décadas posteriores. Em 1930, três usinas fundadas pelo capital mercantil produziam 48% do açúcar branco alagoano (Leão, 234.000 sacos, Serra Grande, 183.000 sacos e Brasileiro 90.00, sacos); seis usinas menores, que produziam entre 30.000 e 47.000 sacos (Sinimbu, Coruripe, São Simeão, Alegria, Esperança e Uruba), eram responsáveis pela produção de 26 % do mesmo açúcar; várias delas, como a Coruripe, tinham surgido por iniciativa de senhores de engenho mais capitalizados, mas nem por isso eram capazes de evitar as freqüentes bancarrotas; as sete usinas restantes eram tão pequenas que contribuíam com apenas 3,7 % da produção. A maioria dos usineiros ainda não era financeiramente poderosa como seria no futuro&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn21" name="_ftnref21" style="mso-footnote-id: ftn21;" title=""&gt;[21]&lt;/a&gt; e a crise de superprodução determinada pela perda do mercado externo era uma espada de Dámocles sobre o setor.&lt;br /&gt;Como afirmamos, a burguesia mercantil interessava-se por continuar parasitando o valor produzido por outros personagens econômicos e, por outro lado, em transferir paulatinamente parte dos seus capitais para investimentos que provassem ser lucrativos, como as usinas e as fábricas têxteis. Estas fábricas, por sua vez, já produziam quase metade do valor econômico do Estado, mas lutavam com obstáculos estruturais para continuar sobrevivendo e não tinham uma presença econômica e demográfica suficiente para alçarem-se à hegemonia política.&lt;br /&gt;As insuficiências econômicas desses vários segmentos criavam um vazio de poder estrutural no interior do bloco histórico dominante, ou seja, produziam uma grande dificuldade para o estabelecimento de uma hierarquia política permanentemente renovada e legitimada por regras democráticas. Isso resultava em apelos constantes à violência e na tentativa de desmoralização dos adversários, bem como na busca por parte de cada grupo situacionista de constituir uma espécie de ditadura sobre o resto da sociedade, de restringir ao máximo as instituições republicanas para impedir o fortalecimento dos opositores. Até por instinto de sobrevivência e preconceito de classe, estes segmentos sociais uniam-se celeremente contra as classes trabalhadoras, como o campesinato e os assalariados; mantinham a ordem estabelecida com relativa facilidade, mas isso não significa que se unificavam de modo consistente para a efetivação de um programa avançado e coerente de desenvolvimento.&lt;br /&gt;No início dos anos 1930, diante do impasse histórico provocado pela inércia das classes dominantes locais, os trabalhadores alagoanos aproveitaram os avanços da Revolução de 1930 para intensificar sua luta pela humanização do sistema econômico por meio das leis trabalhistas, dos direitos fundamentais e do fortalecimento das instituições republicanas. Os comunistas e socialistas reformistas que estavam à frente do movimento não propunham a revolução social imediata, restringiam-se a agitar as bandeiras de modernização que os liberais não assumiam. A liberdade sindical, por exemplo, consiste apenas no direito de o trabalhador negociar a sua força de trabalho como se faz com qualquer outro produto, representa o direito de gerir de modo racional, pacífico e burguês a mercadoria “força de trabalho“. No entanto, partir de 1933, muitos trabalhadores foram perseguidos, presos, humilhados e deportados para o Rio de Janeiro sob a acusação de estarem tentando subverter a ordem e o sistema social.&lt;br /&gt;[Causas da decadência do setor têxtil e do seu proletariado]&lt;br /&gt;O vazio de poder referido e o seu impacto no planejamento econômico inibiram as tendências renovadoras em todos os quadrantes da formação social alagoana; o sistema econômico não conseguiu alcançar novas etapas, restringindo-se a acomodar reativamente seu atraso às circunstâncias cambiantes ao seu redor. Nesse contexto, o setor local de tecidos entrou em decadência devido aos impactos da irresolução dos problemas estruturais do capitalismo alagoano numa conjuntura na qual seus concorrentes passaram a receber grandes benefícios da melhor articulação interna de suas classes dominantes e de um enfretamento mais eficiente dos obstáculos para o desenvolvimento do sistema.&lt;br /&gt;Quando São Paulo passou a produzir algodão de ótima qualidade e em grande quantidade, deixou de ser importador da fibra nordestina e passou a ser exportador. A partir do início dos anos 1930, quando esta virada ocorreu, o setor têxtil alagoano (e o nordestino) perde um dos seus diferenciais competitivos básicos em relação ao Sul, já que o algodão correspondia na época ao principal custo variável na produção de fios e tecidos. A Revolução de 1930 impôs a limitação da jornada de trabalho e uma série de outros mecanismos legais (como o salário mínimo) que diminuíram a margem de mais-valia absoluta com a qual as empresas alagoanas podiam contar para aumentarem sua competitividade a partir de uma fuga para trás, uma volta a etapas anteriores do sistema.&lt;br /&gt;Outro problema estrutural que diminuía a competitividade das fábricas alagoanas, pelo menos até 1955, era o alto custo da energia elétrica utilizada, dependente de um custoso setor de produção de lenha, seja o próprio ou o contratado. Enquanto isso, as fábricas de São Paulo, como já assinalado, contavam com energia hidroelétrica desde as duas primeiras décadas do século XX. A disparidade de custos de energia, que tinha relação com as maiores escalas do mercado paulista para as empresas do ramo elétrico, contribuiu muito para o atraso econômico relativo das fábricas alagoanas.&lt;br /&gt;A partir dos anos 1930, São Paulo tinha as seguintes vantagens sobre Alagoas: 1) algodão mais barato e de melhor qualidade; 2) energia mais barata; 3) proximidade dos maiores mercados consumidores; e 4) uma legislação trabalhista nacional que estancava a possibilidade de seus competidores usarem o achatamento das condições de vida dos trabalhadores como principal arma competitiva. Não havia grandes diferenciais tecnológicos, já que as máquinas utilizadas até os anos 1960 eram de procedência estrangeira e as empresas nacionais ainda não investiam em desenvolvimento tecnológico autônomo. Os industriais do Rio de Janeiro e de São Paulo tentaram o tempo todo dificultar a proliferação de concorrentes no resto do país defendendo uma lei que impedisse a livre importação de teares, conseguindo que vigorasse um decreto nesse sentido entre os anos 1930 e 1936.&lt;br /&gt;Para resolver o problema da qualidade e do preço do algodão em Alagoas, teria sido necessário um planejamento estatal ancorado num bloco histórico dominante coeso, internamente hierarquizado, capaz de práticas políticas pacíficas e possuidor de um projeto de avanço capitalista conseqüente. Era preciso enfrentar os atravessadores, as práticas abusivas dos poderosos donos dos descaroçadores e construir uma estrutura pública de crédito para o pequeno produtor de algodão, a base de todo o sistema. Essas mudanças beneficiariam muito as fábricas têxteis, mas seus proprietários precisavam convencer os outros setores e as lideranças políticas da necessidade de realizá-las. As mudanças na produção e no comércio de algodão requeriam o enfretamento de vários pequenos e médios poderes econômicos e políticos e, desse modo, necessitavam ser realizadas por atores poderosos.&lt;br /&gt;As fábricas têxteis, mesmo sendo economicamente mais modernas do que as usinas, não tinham força suficiente para acabar com o vazio de poder no bloco histórico dominante e construírem um estado capaz de superar os gargalos que entravavam o desenvolvimento do setor. Esse impasse se expressava no conservadorismo político dos industriais têxteis e na sua aliança com os usineiros e a burguesia comercial; tratava-se, portanto, de um conservadorismo político objetivamente determinado. O caminho escolhido foi suicida, já que inviabilizou as mudanças necessárias para que o setor têxtil sobrevivesse; entretanto, a aliança com o proletariado e o projeto popular-nacionalista, representado por Ismar de Góis Monteiro, Muniz Falcão e o Partido Comunista do Brasil (PCB), também tinha a potencialidade de solapar as bases dessa indústria, na medida em que implicava em aumentos imediatos dos gastos com a força de trabalho para unidades fabris acossadas por competidores muito mais capitalizados e bem posicionados no mercado.&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftn22" name="_ftnref22" style="mso-footnote-id: ftn22;" title=""&gt;[22]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado e na outra ponta do espectro social, o proletariado têxtil esteve geralmente compondo a vanguarda contrária à barbárie social e ao atraso econômico e político de Alagoas. Dentro do setor que expressava o maior avanço da modernidade, foi seu pólo político mais ativo, progressista e generoso. Os operários têxteis alagoanos deixaram um legado decisivo para as novas gerações, em termos de idéias, práticas políticas e compromisso com uma modernidade coerente com suas próprias promessas, ou seja, comprometida menos com o mercado e mais com os valores democráticos, as instituições republicanas, a justiça social e, no limite, com o socialismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maceió, 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref1" name="_ftn1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;[1]&lt;/a&gt; Historiador, Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. O presente texto é um dos produtos do projeto Trama da Memória, Tecitura do Tempo: registro da memória e da iconografia das famílias de tradição operária têxtil residentes no bairro de Fernão Velho - Maceió/AL, desenvolvido pela Pró-reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), com o apoio do Ministério da Cultura (Programa de Apoio à Extensão Universitária - PROEXT Cultura 2007) e da Petrobras.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref2" name="_ftn2" style="mso-footnote-id: ftn2;" title=""&gt;[2]&lt;/a&gt; Cf. BASTOS, Humberto Bastos. Açúcar e Algodão. Maceió: Casa Ramalho, 1938.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref3" name="_ftn3" style="mso-footnote-id: ftn3;" title=""&gt;[3]&lt;/a&gt; Cf. DIEGUES JÚNIOR, Manuel. O Bangüê nas Alagoas: traços da influencia do sistema econômico do engenho na vida e na cultura regional. Rio de Janeiro: Edição do Instituto do Açúcar e do Álcool, 1949.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref4" name="_ftn4" style="mso-footnote-id: ftn4;" title=""&gt;[4]&lt;/a&gt; Cf. ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE MACEIÓ. Alagoas na Economia do Brasil. Maceió: Casa Menezes, 1933, p.31-32. Trata-se de um livro bastante raro, mas pode ser encontrado para consulta no acervo do Arquivo Público de Alagoas.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref5" name="_ftn5" style="mso-footnote-id: ftn5;" title=""&gt;[5]&lt;/a&gt; Pioneira empresa do ramo têxtil em Alagoas e um das primeiras do país. Foi fundada em 1857 e sua fábrica começou a funcionar a partir de 1862. Na atualidade (novembro de 2008), ainda está em funcionamento.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref6" name="_ftn6" style="mso-footnote-id: ftn6;" title=""&gt;[6]&lt;/a&gt; Cf. IBGE. Censo Industrial de 1940. Rio de Janeiro: IBGE, 1940. IBGE. Censo Industrial de 1950. Rio de Janeiro: IBGE, 1950.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref7" name="_ftn7" style="mso-footnote-id: ftn7;" title=""&gt;[7]&lt;/a&gt; Cf. IBGE. Anuário Estatístico do Brasil de1956, p. 126-29.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref8" name="_ftn8" style="mso-footnote-id: ftn8;" title=""&gt;[8]&lt;/a&gt; Em 1952, o algodão era plantado em 57. 288 hectares e a cana em 59.022 hectares.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref9" name="_ftn9" style="mso-footnote-id: ftn9;" title=""&gt;[9]&lt;/a&gt; Encontramos o valor total da produção de açúcar e não o da cana; desse modo, deduzimos o valor da safra desta a partir do pressuposto, aceito por vários autores, de que 70% do preço do açúcar são constituídos de sua matéria-prima básica. Cf. SZMRECSÁNYI, Tamás. O Planejamento da Agroindústria Canavieira do Brasil (1930-1975). São Paulo: Hucitec, Unicamp, 1979.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref10" name="_ftn10" style="mso-footnote-id: ftn10;" title=""&gt;[10]&lt;/a&gt; Durante a primeira metade do século XIX, assim como ocorreu em outras Províncias do atual Nordeste brasileiro, em Alagoas o algodão rivalizou com o açúcar em termos de valor exportado. Cf. MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da Restauração Pernambucana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p.19-20.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref11" name="_ftn11" style="mso-footnote-id: ftn11;" title=""&gt;[11]&lt;/a&gt; No Relatório ou exposição a respeito da plantação e cultura do algodão na Província das Alagoas, apresentado ao Excelentíssimo Senhor Presidente da mesma em 18 de fevereiro de 1875, documento anexo ao ofício da Associação Comercial de Maceió, da mesma data, há informações importantes sobre a estrutura agrícola e comercial da lavoura do algodão em Alagoas (Acervo do Arquivo Público de Alagoas, AS. 1856-77 maço 13, estante 02.).&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref12" name="_ftn12" style="mso-footnote-id: ftn12;" title=""&gt;[12]&lt;/a&gt; Cf. LINDOSO, Dirceu. Interpretação da Província: estudo da cultura alagoana. 2ª Ed., Maceió: Edufal, 2005.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref13" name="_ftn13" style="mso-footnote-id: ftn13;" title=""&gt;[13]&lt;/a&gt; Gnaccarini, José C. A Economia do Açúcar: processo de trabalho e processo de acumulação. In: Cardoso, Fernando Henrique [et. al.]. O Brasil Republicano: estrutura de poder e economia (1889-1930). 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref14" name="_ftn14" style="mso-footnote-id: ftn14;" title=""&gt;[14]&lt;/a&gt; Essas usinas produziam a maior parte do açúcar alagoano nos anos 1930. As duas últimas até hoje continuam entre as maiores usinas do Estado.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref15" name="_ftn15" style="mso-footnote-id: ftn15;" title=""&gt;[15]&lt;/a&gt; Para se ter uma idéia da visão ampla do clã, basta dizer que durante a segunda década do século XX o grupo adquiriu o Diário de Pernambuco, jornal decisivo na disputa por hegemonia ideológica e política em Pernambuco, com influência em todo Nordeste.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref16" name="_ftn16" style="mso-footnote-id: ftn16;" title=""&gt;[16]&lt;/a&gt; Cf. SZMRECSÁNYI, Tamás. O Planejamento da Agroindústria Canavieira do Brasil (1930-1975). São Paulo: Hucitec, Unicamp, 1979.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref17" name="_ftn17" style="mso-footnote-id: ftn17;" title=""&gt;[17]&lt;/a&gt; A trajetória de Tércio Wanderley é emblemática das relações econômicas e subjetivas entre os dois ramos. Antes de comprar a usina Coruripe, em 1941, com capital emprestado sem juros por Arthur Mello Machado (cuja família vendera a União Mercantil ao grupo Leão em 1938), seu amigo de longa data, o futuro comendador tinha aprendido muito com a participação nos conselhos fiscais e nas assembléias gerais de algumas fábricas têxteis. Segundo Aurino Vieira da Silva, um dos seus biógrafos, o jovem Tércio Wanderley tinha Gustavo Paiva como ídolo e absorveu muito do seu conhecimento em longas conversas privadas. Cf. Silva, Aurino Viera Da. Comendador Tércio Wanderley. Maceió: 2005.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref18" name="_ftn18" style="mso-footnote-id: ftn18;" title=""&gt;[18]&lt;/a&gt; Cf. Gusmão, Carlos de. Boca da Grota. Maceió: Serviços Gráficos da Gazeta de Alagoas, 1970. RODRIGUEZ, Clódio. O Sorriso do Tempo. Maceió: Casa Ramalho, s.d. Tenório, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: HD Livros, 1997.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref19" name="_ftn19" style="mso-footnote-id: ftn19;" title=""&gt;[19]&lt;/a&gt; Cf. Gnaccarini, op. cit.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref20" name="_ftn20" style="mso-footnote-id: ftn20;" title=""&gt;[20]&lt;/a&gt; Cf. SANTANA, Moacir Medeiros de. Contribuição Para a História do açúcar em Alagoas. Recife: Museu do Açúcar, 1970.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref21" name="_ftn21" style="mso-footnote-id: ftn21;" title=""&gt;[21]&lt;/a&gt; Cf. LIMA, Jorge de. Calunga. Agir: Rio de Janeiro, 1959.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=23899664#_ftnref22" name="_ftn22" style="mso-footnote-id: ftn22;" title=""&gt;[22]&lt;/a&gt; TENÓRIO, Douglas Apratto. A Tragédia do Populismo: o impeachment de Muniz Falcão. 2ª e.d. Maceió: Edufal, 2007.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-4241284075691215461?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/4241284075691215461/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=4241284075691215461&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/4241284075691215461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/4241284075691215461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2008/12/para-uma-histria-da-indstria-txtil.html' title=''/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_2TdFHAVMlvs/SUuNTHFE86I/AAAAAAAAHfw/nJx0tOu4rk8/s72-c/F%C3%A1brica+Alagoana+recortado+1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-943245115044260803</id><published>2008-03-04T11:12:00.002-03:00</published><updated>2009-12-29T18:10:16.984-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Golbery Lessa'/><title type='text'>Artigo sobre a crise na Assembléia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Mandonismo e Democracia em Alagoas: crise na Assembléia Legislativa e inédita hegemonia econômica de Maceió&lt;br /&gt;Golbery LessaQuais são as variáveis econômicas, sociais e culturais que determinaram as características históricas do Legislativo alagoano e fizeram surgir dúvidas tão radicais quanto aquelas que hoje prevalecem na sociedade civil sobre o caráter democrático deste Poder? A insatisfação e mesmo o repúdio que parte da população vem demonstrando atualmente em relação à Assembléia Legislativa expressam, na essência, o conflito entre a crescente necessidade de modernização política de Maceió, cujo peso eleitoral tem recebido o reforço nos últimos dez anos de um aumento muito grande de sua participação no PIB do Estado (cerca 75% desde 1999, quando em 1996 detinha 50% e em 1949, 30% - Dados do IPEADATA), e a prevalência do mandonismo na maior parte das cidades alagoanas.&lt;br /&gt;A clássica diferença entre as possibilidades de modernização no interior e na capital do Estado adquiriu um novo patamar com o expressivo aumento do peso específico da economia maceioense e com as necessidades de modernização política e cultural que este fenômeno vem impondo. Ou seja, a crise presente no Legislativo estadual surge como uma manifestação aguda do descompasso entre o novo peso de Maceió e o mandonismo político fundamentado no interior. A esfera política está se movendo, pelos mais variados canais (intervenção federal, mobilização dos trabalhadores, críticas da sociedade civil organizada, clamor de parte da classe média por segurança pública etc.) para adequar-se à nova configuração econômica, que não é compatível com o alto grau de mandonismo político vigente.&lt;br /&gt;O particular atraso do capitalismo em Alagoas, expresso no significativo papel econômico da agricultura em relação à indústria e em outras dimensões decisivas, determinou uma sobrevida mais longa do mandonismo, com suas inevitáveis conseqüentes: o clientelismo e o patrimonialismo. A prevalência da agroindústria canavieira durante grande parte da nossa história, setor que submete necessariamente a dimensão industrial à dimensão agrícola (impondo a figura da entressafra e a dependência da parte industrial à lenta rotação de capital da agricultura, o que determina que a taxa média de lucro somente seja alcançada com a superexploração do trabalho, da natureza e dos fundos públicos), determinou a dispersão territorial das manchas industriais e sua submissão econômica e geográfica à ruralidade. Esse quadro econômico fez surgir, com o aparecimento da República, uma realidade política marcada pelo fato de que a maioria absoluta dos eleitores permaneceu espalhada em pequenas e médias cidades com economia ruralizadas e dependentes dos usineiros. Os operários das plantas fabris das usinas permaneceram dispersos numa vasta região e ilhados pelo próprio isolamento que a agroindústria impõe a cada usina e destilaria, além de estarem submetidos à concorrência de uma enorme população sem trabalho e a uma atmosfera política inibidora da liberdade sindical e de expressão. A existência de uma população rural submetida ao regime de moradia, fenômeno típico da zona canavieira, e a baixa divisão social do trabalho facilitaram muito a sobrevivência de várias formas de mandonismo.&lt;br /&gt;Mas a história não deixou de avançar, mesmo que lentamente, e preparar a superação de vários dos principais anacronismos da formação social alagoana. As modificações vêm ocorrendo pela seguinte via: a economia baseada na agroindústria canavieira necessitou de uma cidade que fosse o seu pólo administrativo, comercial e portuário; com o passar do tempo, esta cidade criou e recriou necessidades próprias (típicas do mundo urbano) e, em determinado momento dessa trajetória, passou a ser uma antítese do mundo rural que lhe deu origem. Este fenômeno estrutural vem se expressando no universo político como um conflito entre as propostas de modernização originárias da capital e o antigo status quo baseado no mandonismo. Não é por acaso que as iniciativas mais radicais de modernização vêm sendo propostas pela vanguarda sindical maceioense e por amplos setores da classe média da cidade. A capital sempre foi mais progressista, mas houve uma mudança de qualidade no seu peso nos últimos dez anos, determinando um novo equilíbrio de forças que precisa se expressar na modernização das práticas políticas e no aprofundamento da cultura democrática. O conflito político hoje tem dois protagonistas principais: o setor canavieiro (com presença em 54 municípios do Leste Alagoano, 1 milhão de habitantes, 100 mil trabalhadores, 30% dos votos e 20% do PIB) e a cidade de Maceió (com 900 mil habitantes, milhares de trabalhadores, 25% dos votos e 75 % do PIB – setor de serviços, comércio, turismo, indústria da construção civil e indústria química). É preciso deixar evidenciado que esse novo equilíbrio de forças, no qual Maceió ganha um inédito protagonismo, luta para expressar-se também no Executivo. A hegemonia do setor canavieiro no governo Teotônio Vilela Filho é, portanto, um anacronismo, não corresponde mais à base econômica da formação social alagoana; este descompasso é o segredo da crise deste governo e de seu alheamento em relação às necessidades do povo. Ficou evidente, por exemplo, que a greve geral dos funcionários públicos contra as primeiras medidas de arrocho salarial propostas pelo Executivo teve o apoio de todos os setores econômicos de Maceió; os comerciantes sabem que suas vendas dependem do volume de recursos existentes nas mãos dos consumidores e que suas empresas não dependem diretamente de qualquer potentado interiorano.&lt;br /&gt;Este quadro não implica, necessariamente, que estamos no limiar de uma era radicalmente democrática em Alagoas. O passado nos oprime com o peso de uma pirâmide e o mandonismo político está impregnado na subjetividade dos indivíduos. A cidade de Maceió, novo palco decisivo da economia e da política, esta dividida em classes sociais com interesses históricos antagônicos e com diferentes potenciais estratégias de desenvolvimento; sua classe dominante, mesmo precisando de práticas políticas e elementos culturais mais modernos do que os usineiros, tende a defender uma tipo de desenvolvimento capitalista excludente e periférico, baseado na superexploração do trabalho, na destruição da natureza, na especulação imobiliária e na dependência cultural e tecnológica. Ou seja, as classe proprietárias de Maceió podem ser aliadas da classe média e dos trabalhadores alagoanos contra o passado rural, mas têm seus próprios limites e problemas. Para os trabalhadores alagoanos resta, como sempre, agir no sentido de barrar os processos mais bárbaros do capitalismo por meio da luta por políticas públicas socialmente justas e, com calma e energia, preparar as condições teóricas e práticas da efetivação das propostas socialistas. No curto prazo, o principal desafio é preencher de maneira progressista o vazio de poder aberto com a desconstrução do papel político da Assembléias Legislava, que também enfraquecerá o Executivo estadual e outras instâncias estatais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Maceió-AL, 13 de dezembro de 2007. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-943245115044260803?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/943245115044260803/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=943245115044260803&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/943245115044260803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/943245115044260803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2008/03/mandonismo-e-democracia-em-alagoas.html' title='Artigo sobre a crise na Assembléia'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-3567771354189973483</id><published>2007-03-14T13:43:00.001-03:00</published><updated>2009-12-29T18:11:12.504-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Golbery Lessa'/><title type='text'>Outra Alagoanidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Outra Alagoanidade&lt;br /&gt;Golbery Lessa*&lt;br /&gt;O que é alagoanidade? A quem interessa? Deve ser mantida na sua configuração atual ou precisa ser reconstruída? Como a alagoanidade se insere no moderno? Qual sua relação com as questões agrária, étnica, de gênero, social, democrática e republicana? São essas algumas das perguntas que se fazem hoje os nossos viventes. Houve vários outros momentos históricos nos quais existiu a urgência de identificar e responder essas questões. Cumprindo o destino de todas as identidades que relacionam uma população, um território e um aparato de estado, a alagoanidade teve que se reinventar ao longo da história, notadamente quando foi exposta a desafios colocados pelas várias etapas de modernização experimentadas pelo seu entorno.&lt;br /&gt;O local foi periodicamente posto em cheque pelo regional, o nacional e o global; teve que lutar para adequar as suas relações sociais e visões de mundo às novas realidades circundantes. Mas é decisivo lembrar que o atraso radical da modernização em Alagoas, que constituiu um processo histórico extremamente marcado pela lentidão, torna um grave erro a tendência de superestimar a identidade entre o conteúdo das etapas de desenvolvimento exógeno e as modificações da alagoanidade. Do ponto de vista do desenvolvimento das etapas pelas quais passa o sistema capitalista na sua forma clássica, o capitalismo alagoano está radicalmente atrasado; entretanto evidentemente esse abismo estrutural, essa diacronia lógica (no sentido da lógica do sistema na sua expressão clássica), convive com uma sincronia cronológica (ou seja, Alagoas está inserido no mesmo tempo objetivo do entorno, usa o mesmo calendário vigente em Pernambuco, São Paulo e Nova Yorque), o que tem implicações decisivas na própria maneira como o atraso alagoano se configura, se reproduz e convive com outras realidades.&lt;br /&gt;A percepção dessas intricadas mediações auxilia-nos a explicar, por exemplo, fenômenos tão complexos quanto a lógica do desenvolvimento da música eletrônica em Alagoas. Circunstâncias práticas e o corolário de ideologia pós-moderna com o qual esse tipo de música tem sido envolvido determinaram, no caso da Inglaterra, que os bailes surgissem nos galpões das fábricas desativadas pela reestruturação produtiva dos anos oitenta do século XX; em terras caetés, os bailes têm sido realizados na estação ferroviária ou nos desativados armazéns de açúcar, expressões arquitetônicas do final do século XIX e símbolos de uma etapa incipiente do desenvolvimento capitalista. Estaria a música eletrônica fora de lugar em Alagoas? Aqui precisamos de Roberto Schwartz. Como ser pós-moderno numa formação social na qual o moderno não se completou e nem está em vias de completar-se? Essa carência de chão social adequado para sua reprodução clássica vivida pelo ponto de vista pós-moderno também acomete as visões de mundo liberal, social-democrata e marxista, embora está última perspectiva possa compreender melhor o imbróglio por ter um compromisso radical com a percepção das contradições do sistema e, portanto, tenha potencialidade de apontar saídas para o impasse.&lt;br /&gt;A identidade alagoana não é a soma aritmética de todos os costumes dos habitantes desta terra espremida entre a Bahia, Sergipe e Pernambuco; também não é a consciência que os alagoanos podem ter de suas singularidades culturais e de sua história comum. A alagoanidade não é só um fenômeno subjetivo, não é apenas um estado de consciência ou um jeito próprio de cada alagoano expressar sua individualidade, no sentido de possuir essas ou aquelas atitudes mentais. A alagoanidade é o conjunto articulado de sistemas que estruturam a formação social alagoana e possui singularidades em relação aos conjuntos análogos de outras formações sociais. Nesse sentido, a descrição analítica da alagoanidade passa pelo desvelamento das peculiaridades das nossas relações sociais básicas, das especificidades do relacionamento entre estas e o espaço geográfico em que se dão e das singularidades dos complexos sociais nos quais a subjetividade tem maior peso (arte, ciência, direito, culinária, folclore etc).&lt;br /&gt;É comum se dizer que cultura é tudo aquilo que o homem cria e vive. Esse conceito torna-se muito próximo do conceito de práxis desenvolvido por K. Marx em suas célebres Teses sobre Feurbach, e significa a atividade própria do ser humano, que relaciona de maneira peculiar e complexa a subjetividade e a objetividade. Entretanto a maior parte da reflexão sobre a cultura acabou relegando a lição marxiana e dissolvendo a objetividade na subjetividade. Ora, mas o modo de produção também é cultura; é criado e vivido pelos homens; trata-se de um sistema de relações entre seres humanos, em que naturalmente estão presentes várias das dimensões da subjetividade, a partir do qual a sociedade distribui importantes elementos objetivos, como trabalho, o tempo livre e a riqueza socialmente produzida.&lt;br /&gt;É fértil procurar no sistema econômico singularidades que são pólos de reprodução de singularidades de outros complexos da práxis alagoana. Isso não significa desprezar ou diminuir a importância da lógica interna de cada complexo social específico, como a arte, a culinária e as relações de gênero; significa apenas buscar conexões que são importantes para tornar as coisas caetés/palmarinas/calabarianas mais compreensíveis. Ao observar essas conexões, ao não restringirmos o conceito de cultura apenas à subjetividade e, portanto, substituí-lo pelo conceito de práxis, podemos perceber que o latifúndio canavieiro é tão alagoano quanto a violência política, o assassino de aluguel, o guerreiro, o pastoril, as praias, o rio São Francisco, a caatinga e a tradição religiosa e lingüística legada pelos bantos. O caráter oligárquico do poder político em Alagoas é tão alagoano quanto o sururu de capote. Isso implica, necessariamente, numa complexa atitude de aproximação e repulsa da alagoanidade. Para encontrar a saída do impasse, precisamos refletir sobre a consciência da alagoanidade, que por vezes é confundida com a alagoanidade em si. Antes, entretanto, é imprescindível fazermos uma rápida digressão teórica sobre os processos de construção das identidades nacionais.&lt;br /&gt;Eric Hobsbawm, em seu erudito e esclarecedor livro Nações e Nacionalismos desde 1780: programa, mito e realidade, publicado pela editora Paz e Terra em 1991, corrobora a opinião de Otto Bauer, austro-marxista do início do século XX e um dos pioneiros dos estudos relativos à construção das interpretações sobre as identidades nacionais, quando este afirma que os movimentos nacionais tendem a percorrer três fases (ver o texto de Otto Bauer intitulado “A Nação”, in Gopal Balakrishnan (org) Um Mapa da Questão Nacional. RJ, Contraponto, 2000): 1) uma elite intelectual investiga as peculiaridades culturais e históricas de seu povo e propõe uma interpretação dessa identidade; trata-se de um momento de erudição e trabalho de pesquisa realizado por um conjunto pequeno e articulado de especialistas; 2) um número significativo de agitadores culturais e políticos fazem a propagada daquela interpretação da identidade nacional construída pelos acadêmicos e buscam estabelecer instituições públicas reprodutoras de suas idéias sobre a nacionalidade; 3) a interpretação proposta pelo grupo de eruditos e pelos agitadores culturais é aceita pela maior parte do povo e torna-se elemento componente do senso comum; o que ajuda a consolidar a unidade nacional e constitui uma das principais bases da formação de um Estado com soberania sobre um determinado território e uma população definida.&lt;br /&gt;Otto Bauer, por encontrar-se no Império austro-húngaro, que estava eivado de nacionalidades mobilizadas, preocupava-se em demonstrar aos companheiros marxistas a necessidade de tratar teoricamente a questão das nacionalidades; procura então sublinhar principalmente as relações entre nacionalidade e classe social, desenvolvendo a tese de que em várias sociedades capitalistas da época as classes dominantes não estavam permitindo que o proletariado tivesse acesso à nacionalidade, ou seja, não demonstravam interesse de efetivar a terceira etapa de desenvolvimento dos movimentos nacionalistas. O proletariado alemão, por exemplo, estaria sendo impedido pela burguesia de ter acesso ao rico acervo da cultura erudita germânica, fato que seria demonstrado pelas dificuldades de os operários terem acesso à escola e à leitura. O austro-marxista reivindicará, em conseqüência, a socialização da identidade nacional. É importante observar que Otto Bauer não incluirá as singularidades do modo de produção de um povo no conceito de identidade nacional, que define como a consciência que uma população tem de uma trajetória histórica e cultural comum.&lt;br /&gt;E. Hobsbawm, egípcio que foi muito bem acolhido na Inglaterra e desenvolveu uma profunda ligação com este país, está preocupado em justificar a existência do Reino Unido e, conseqüentemente, em tratar sem grandes romantismos as causas dos nacionalismos escocês, gaulês e irlandês. Procura demonstrar, entre outros pontos relevantes de sua fértil abordagem, o fato de ser muito comum que as interpretações das identidades nacionais elaboradas pelas elites acadêmicas estejam muito em desacordo com a realidade histórica e cultural, ou seja, grande parte do conteúdo dessas interpretações que fundamentam os movimentos nacionalistas são invenções, construções aleatórias, projeções do desejo de enaltecer a trajetória de um povo, tornando-a mais heróica do que realmente foi. Assim o autor demonstra, por exemplo, que somente dois e meio por cento dos habitantes da Itália falavam o moderno italiano quando ocorreu a unificação do país na segunda metade do século XIX. Fato análogo ocorreu na Alemanha, cuja língua tornada oficial só era conhecida por uma minoria erudita no momento da unificação. De modo análogo, no começo do movimento nacionalista irlandês, os militantes ensinavam de manhã para o povo os rudimentos de sua a antiga língua que estavam aprendendo à noite. Enfim, esses e outros fatos configurariam o que o historiador vai denominar de “invenção das tradições”.&lt;br /&gt;Essas e outras reflexões sobre os movimentos nacionais podem ser adaptadas para discutirmos a questão da alagoanidade e de outras identidades estaduais, já que aqui também se trata de um processo no qual uma população luta para ter consciência de sua especificidade e para constituir instituições políticas com determinado grau de poder sobre um território específico. A principal diferença entre os dois fenômenos reside no fato de que, a partir de um determinado momento, essas “nacionalidades” aceitaram-se como partes de uma nacionalidade mais ampla, constituindo uma federação. Em vários casos essa aceitação não foi pacífica e teve muito de pura e simples imposição pela força das armas, como nos clássicos casos de Pernambuco e do Rio Grande do Sul. O conflito entre centralização e descentralização política na história brasileira tem evidentemente uma relação forte com a definição das bases da nacionalidade. Aureliano Candido Tavares Bastos, sem dúvida uma das mais importantes personalidades alagoanas, foi o primeiro grande defensor teórico dos direitos políticos e culturais das então províncias brasileiras.&lt;br /&gt;Sabe-se que Téo Brandão, nosso admirável folclorista, preocupou-se em aprofundar seus conhecimentos de heráldica para, na segunda metade da década de cinqüenta, propor um novo brasão e uma nova bandeira para o Estado de Alagoas. Como outros indivíduos da época, acreditava que os símbolos vigentes até então não representavam adequadamente a história e a cultura alagoanas e teriam sido compostos sem o respeito aos mais razoáveis padrões heráldicos. O novo brasão ostenta as cores dos folguedos alagoanos, os símbolos dos três primeiros povoamentos, os ramos das duas principais culturas do Estado, uma estrela expressando o pertencimento de Alagoas à Federação e três tainhas herdadas da iconografia holandesa, representando Marechal Deodoro e as lagoas. A sociedade civil formadora de opinião e os poderes públicos aceitaram o novo brasão e a nova bandeira e estes passaram a fazer parte do senso comum e da vida cotidiana de todos alagoanos. É evidente que os símbolos propostos no novo brasão e na nova bandeira e mesmo a heráldica utilizada representam apenas uma das formas possíveis de perceber-se o passado e a cultura de Alagoas, do mesmo modo que os símbolos e a “heráldica” do brasão e da bandeira anteriores. Não há, por exemplo, referências ao Quilombo dos Palmares, que é um dos fatos fundadores da nossa história e contemporâneo do período holandês tão bem contemplado nos novos símbolos oficiais. Téo Brandão não foi só um grande folclorista, foi um dos contemporâneos mais ativos na construção de uma consciência da alagoanidade. A história de sua decisão de mudar o brasão e a bandeira (que se estendeu para o brasão e a bandeira de Maceió) revela a efetivação, numa determinada escala, das três etapas geralmente percorridas, segundo Otto Bauer, por propostas de identidade que relacionam uma população e uma máquina estatal.&lt;br /&gt;No interior de cada época de elaboração da consciência da identidade alagoana as perguntas e as respostas foram naturalmente variadas, já que as diversidades regionais, municipais, éticas, econômicas, políticas e de gênero, entre outras, marcaram este solo como ocorre em qualquer formação social e, em conseqüência, semearam várias visões de mundo convivendo no mesmo espaço e no mesmo tempo. A diversidade de olhares no interior de cada época não evitou convergências, influências e acordos parciais, conscientes e inconscientes; isso ocorreu pelo fato de que a unidade de cada formação social impõe zonas de consenso até para os grupos sociais mais antagônicos entre si. O empresário mais neoliberal e o operário mais socialista precisam, por exemplo, de um ordenamento jurídico coerente que regule os vários momentos dos conflitos em torno da renda, das políticas públicas e de outros aspectos; precisam igualmente de uma língua comum e de um único sistema de pesos e medidas que facilitem a existência local das relações sociais básicas.&lt;br /&gt;Nos casos das formações sociais que possuem mais de uma língua, as pessoas se acostumam a falar duas ou mais línguas para poderem se comunicar com os outros grupos. Um sotaque próprio de cada região ultrapassa as barreiras de classe e de etnia, convivendo com formas de falar próprias de cada um desses grupos. A língua de Alagoas é falada pelo usineiro e pelo pescador, mesmo que os diferentes anos de escolarização, a distinto acesso às viagens internacionais e os diversos contatos com a mídia e as tradições imponham divergências significativas no que se refere a determinadas pronúncias e mesmo no que toca às expressões utilizadas. Muitos brasileiros apreciam as interpretações de Djavan e não percebem que estão rendendo homenagem a uma das modulações do falar alagoano, na sua vertente maceioense, que sintetiza a língua originária da região portuguesa do Minho (região de onde provavelmente vem parte da prosódia de Maceió) e toda a herança de falares negros e caboclos específicos falados pelas populações trabalhadoras da capital. A mãe soprou-lhe a África nos ouvidos, os professores do Liceu Alagoano ensinaram-lhe as formalidades da gramática oficial e a fala da classe média, o menino sintetizou as fontes e produziu uma poesia de universalidade arrebatadora. Sofisticação inexplicável para quem não conectá-la às suas origens sociais e culturais.&lt;br /&gt;A necessidade de complexos sociais que estruturem a formação social de Alagoas impõe algumas identidades às interpretações da alagoanidade propostas pelos vários grupos sociais (“interpretações” numa sentido muito amplo, que incorpora desde as opiniões do senso comum até as visões mais sofisticadas). Várias condicionantes constituíram em cada momento uma zona de acordo (limitada, mas efetiva) entre as diversas interpretações da alagoanidade conectadas a cada grupo social, Uma espécie de fundo simbólico comum que é imprescindível para operacionalizar dimensões importantes do cotidiano da reprodução social. Isso ocorre, por exemplo, no espaço das interpretações da economia propostas pelas duas classes sociais que possuem os interesses estratégicos mais antagônicos: o assalariado e o capitalista. O fato de o crescimento econômico tender a aumentar os salários e as oportunidades de emprego faz com que os trabalhadores alagoanos não sejam por princípio contrários aos planos de desenvolvimento da economia local, inclusive se estes planos representarem apenas etapas da tradicional modernização conservadora. Mesmo um líder operário marxista e com plena consciência de classe será obrigado a levar em conta a existência de uma realidade chamada “economia alagoana”, que se contrapõe, até certo ponto, às economias de outros Estados brasileiros. Desse modo, é certo que os assalariados alagoanos fazem coro com os capitalistas na defesa de mais verbas federais para Alagoas, mesmo que discordem destes na maneira de aplicá-las e no tipo de desenvolvimento e sociedade que aspiram.&lt;br /&gt;Esse fundo simbólico comum de interpretação da alagoanidade é freqüentemente mistificado, no sentido de ser interpretado como prova de uma pretensa harmonia essencial entre classes, etnias e outros grupos sociais. Operação de mistificação que fica ainda mais deplorável quando é adicionada à transformação ideológica desse fundo comum em uma pretensa verdadeira, metafísica, atávica e imutável alagoanidade. O crime político, por exemplo, pode ser por este caminho naturalizado como uma derivação necessária e insuperável da natureza violenta do homem alagoano. A monocultura, por sua vez, também pode ser apresentada como imprescindível para a preservação de uma etérea alagoanidade, que transita num mundo mágico de arquétipos impregnados do cheiro doce do mel, da pretensa bondade no tratamento dos escravos e de uma bela paisagem marcada pelas ondas que o vento espalha nos canaviais. Para evitar este caminho é preciso compor, por exemplo, uma abordagem historiográfica da figura de Floriano Peixoto que não fortaleça o mito da violência inata do alagoano. O habitante de Santa Catarina teve o nome de Floriano imposto à sua capital, após ter visto vários concidadãos serem fuzilados pelo presidente; é fácil para o catarinense acreditar no mito da violência inata do alagoano, principalmente se o próprio alagoano o reforçar sublinhando os aspectos mais negativos do governo do marechal.&lt;br /&gt;Evidentemente houve sempre interpretações hegemônicas sobre a alagoanidade, que geralmente estiveram associadas, como ocorre em toda sociedade de classe, às idéias e interesses dos grupos que estiveram no cume da pirâmide social. Entretanto é importante deixar evidenciado que os oprimidos sempre lutaram no campo simbólico, nunca foram ideologicamente passivos desde Zumbi dos Palmares, passando pela resistência indígena até chegar aos modernos sindicatos e movimentos agrários. A história é muito mais rica do que revela uma abordagem do tipo “malvados e coitados”, na qual uma visão paternalista, mesmo que bem intencionada como todas que calçam o inferno, acaba negando a dignidade dos oprimidos por percebê-los como vítimas inertes do destino. As interpretações hegemônicas da alagoanidade tiveram que conviver com várias insurgências que, em diversos momentos históricos, pareceram mesmo ameaçar-lhes. A obra de Graciliano, por exemplo, é uma bomba nuclear desconstruindo a visão dominante da alagoanidade; do ponto de vista dos argumentos literários, não fica pedra sobre pedra do status quo e, certamente por isso, a capital alagoana não possui uma estátua do nosso maior romancista.&lt;br /&gt;No presente, como em vários momentos do passado, a sociedade civil local tem a sensação de que a consciência da identidade alagoana se esvai, que ela é frágil, qual uma chama de vela na ventania do processo de globalização. Percebe-se resistência em vários setores. Na academia, nas ONG’s, no jornalismo, nas artes, entre os trabalhadores e mesmo em alguns setores empresariais ligados ao mercado interno há muita inquietação em torno da alagoanidade. Por não perceberem um movimento análogo em torno da identidade alagoana, esses grupos olham para as vigorosas afirmações de identidade da Bahia e de Pernambuco com uma profunda dor. Qual seria a causa desse impasse, dessa impotência? Por que as várias interpretações da alagoanidade não têm sido revigoradas e nem têm contribuído para melhorar nossa auto-estima e a compreensão da realidade? Esse fenômeno pode ser explicado pelas características da alagoanidade em si, não simplesmente pela natureza de suas interpretações.&lt;br /&gt;As singularidades da formação social alagoana têm determinado a constituição de interpretações hegemônicas da alagoanidade incapazes de cumprirem a meta de serem guias da nossa elevação a novos patamares civilizacionais. A particularidade do capitalismo caeté tem determinado uma consciência hegemônica da alagoanidade que não tem todos os elementos necessários para estabelecer as condições subjetivas de desenvolvimento desta formação social. O sentimento de sermos desterrados em nossa própria terra, a sensação de identidade esvaziada e sem auto-estima, a desvalorização da cultura local são elos necessários no processo de reprodução da incompletude e do caráter hiper-atrasado do sistema capitalista alagoano.&lt;br /&gt;O principal núcleo da nossa economia, a monocultura de exportação, que prevalece desde a época colonial, por complexas razões históricas submeteu a manufatura (o engenho propriamente dito, os equipamentos de elaboração do açúcar) e depois a indústria (a planta fabril da usina) à lógica econômica da agricultura de exportação e a seus problemas estruturais, principalmente a vulnerabilidade às intempéries, a dependência do mercado externo e a lenta rotação do capital (que implica numa queda acentuada na massa de lucros); esta submissão do historicamente novo ao historicamente velho teve impactos desastrosos para o desenvolvimento do capitalismo em Alagoas, abrindo espaço às características mais desumanas deste sistema em detrimento de seus aspectos progressistas. A divisão social do trabalho foi paralisada, a sociedade continuou essencialmente rural, a existência de novos setores econômicos decisivos foi inviabilizada e o mercado interno tornou-se radicalmente restringido.&lt;br /&gt;O principal setor da economia alagoana há mais de quatrocentos anos vende seus produtos para consumidores finais que não se encontram no nosso território, falam outras línguas e em muitos casos nem sabem da localização do Estado no mapa-múndi. O consumo interno é irrelevante para este setor da economia (Alagoas consome, atualmente, apenas dois por cento do açúcar que produz) e, em conseqüência, não entra no cálculo empresarial. Como demonstrou K. Marx, a produção capitalista cria tanto a mercadoria quanto constrói o seu próprio consumidor. No caso alagoano, há um distanciamento geográfico radical entre os dois pólos, o que inviabiliza a existência da forma mais progressista do ciclo econômico. Este fato, que é uma das expressões da paralisia da divisão interna do trabalho, tende a construir uma formação social abstrata, sem instituições sociais bem estruturadas que possam se articular e fundamentar um vigor coletivo.&lt;br /&gt;A ruralização da indústria alagoana, que restringe muito a massa de lucros devido à lentidão que impõe à rotação do capital industrial, determina entre os empresários uma corrida tresloucada pela diminuição dos custos, via diminuição radical dos gastos com mão-de-obra, aproveitamento desordenado da natureza, luta por subsídios públicos, busca de moedas estrangeiras fortes (daí a preferência pela exportação para mercados de outros países) e o monopólio da renda absoluta da terra (a renda absoluta da terra é uma espécie de imposto que a sociedade toda paga ao proprietário rural sem que este precise investir um centavo em troca; está renda absoluta é distinta do lucro sobre o investimento na terra, o qual é proporcional ao capital que foi investido e à taxa de mais-valia obtida). Não se tratam de livres escolhas individuais de investimento; é a própria estrutura secular da economia que impõe suas necessidades retrógradas de reprodução à consciência da classe empresarial. O impacto dessa realidade objetiva e subjetiva tem um efeito extremamente negativo no desenvolvimento da consciência da alagoanidade.&lt;br /&gt;Um dos principais resultados das circunstâncias econômicas apontadas e do divórcio entre a classe empresarial e as tendências mais progressistas do capitalismo é a extrema impotência da sociedade civil organizada, elemento que na modernidade é o esteio da identidade local, das instituições republicanas e dos valores democráticos, bem como das possibilidades da construção de perspectivas alternativas aos modelos sociais vigentes. A sociedade civil apresenta-se enfraquecida pelo fato de constituir-se de sujeitos sociais (classes, etnias e outros grupos) sem a completude, sem a inteireza, sem o pleno desenvolvimento econômico e social que possuem em sociedades de capitalismo mais desenvolvido; essa falta de completude se expressa em várias formas de incompletude política, cultural e ideológica, o que dificulta a constituição de um espaço republicano e capaz de mediar de modo civilizado distintos e claros projetos de sociedade.&lt;br /&gt;Por capitanearem um modelo econômico capitalista que, contraditoriamente, paralisa os desenvolvimento qualitativo do próprio sistema, o núcleo principal dos empresários alagoanos aparta-se da visão liberal clássica da economia, que propugna a revolução constante do modelo econômico e o aumento contínuo da divisão social do trabalho, e aproxima-se de uma perspectiva conservadora e pouco sistemática da realidade local; isso torna muito frágil a situação do status quo em qualquer arena discursiva mais sofisticada, como a Universidade. Na verdade é impossível, sem se afirmar disparates, defender cientificamente o modelo, econômico, social e político vigente em Alagoas. Desse modo, a sociedade civil fica sem o auxílio dos mais poderosos de seus membros para elevar-se aos mais altos padrões políticos, ideológicos e culturais. Isso explica a irrelevância das verbas que as instituições culturais alagoanas recebem das maiores empresas locais; fenômeno bem diferente do que ocorre, por exemplo, nos EUA, país no qual várias grandes empresas financiam generosamente bibliotecas, museus e outras iniciativas.&lt;br /&gt;Enfim, a interpretação hegemônica propõe sub-repticiamente uma alagoanidade tímida, cabisbaixa, carente de auto-estima, violenta, elitista, paternalista, hipocritamente racista, conservadora, passiva, apartada do compromisso com o progresso e a igualdade social, os valores democráticos e o aperfeiçoamento das instituições republicanas. É, como toda interpretação de uma identidade, tanto uma versão sobre o que existe quanto uma projeção sobre o que deve ser. Faz uma seleção dos piores aspectos que impregnaram a história alagoana, procura lhes dar um aspecto palatável, e os eleva à categoria de arquétipos imutáveis do homem alagoano. A violência seria apenas outro nome para a valentia; a timidez política seria expressão do desejo de ordem; o elitismo representaria a fidalguia; a monocultura seria uma vocação natural, um destino manifesto; o racismo nunca teria sido marcante e os escravos sempre teriam sido bem tratados; o conservadorismo é apresentado como um trunfo contra as idéias socialistas.&lt;br /&gt;É necessária uma nova interpretação da identidade alagoana para que possa existir uma nova alagoanidade. Milhares de camponeses, trabalhadores assalariados, pequenos e médios comerciantes ligados ao consumidor interno, profissionais liberais, funcionários públicos das três esferas, índios, sem-terras, remanescentes de quilombos, aposentados, jovens e outros grupos sociais são o esteio objetivo da inquietação atual em torno da alagoanidade. O aumento significativo das verbas federais tem provocado, nos últimos vinte anos, o desenvolvimento de várias dimensões do mercado interno, principalmente no comércio e no setor de serviços, que são essencialmente independentes do núcleo central da economia alagoana; esses resultados econômicos positivos das políticas públicas federais, que representam um fortalecimento da União em relação ao Estado, aumentam o espaço democrático e a possibilidade de intervenção dessas camadas sociais no debate político e cultural. Esses setores têm a possibilidade de interessar-se por uma interpretação da realidade alagoana que venha a propor a superação das mazelas do passado e se fundamente em valores e conceitos coerentes com o patamar de desenvolvimento já alcançado pela humanidade. Talvez já existam as condições de a formação social alagoana alcançar à sua autoconsciência e superar a interpretação tradicional de si mesma, de chegar, portanto, à compreensão das suas reais necessidades históricas, momento imprescindível para a construção de uma outra alagoanidade._________________*Professor universitário, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23899664-3567771354189973483?l=novoirisalagoense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/feeds/3567771354189973483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23899664&amp;postID=3567771354189973483&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/3567771354189973483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23899664/posts/default/3567771354189973483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://novoirisalagoense.blogspot.com/2007/03/outra-alagoanidade.html' title='Outra Alagoanidade'/><author><name>Partido Comunista Brasileiro - AL</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23899664.post-114269190797741261</id><published>2006-03-18T11:23:00.001-03:00</published><updated>2010-01-05T11:10:17.885-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Otávio Brandão'/><title type='text'>Entrevista de Otávio Brandão sobre as Alagoas de 1917</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Do site: (http://www.cpdoc.fgv.br)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS&lt;br /&gt;CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE&lt;br /&gt;HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL (CPDOC)&lt;br /&gt;Proibida a publicação no todo ou em parte; permitida a citação. A&lt;br /&gt;citação deve ser textual, com indicação de fonte conforme abaixo.&lt;br /&gt;REGO, Otávio Brandão. Otávio Brandão (depoimento, 1977). Rio&lt;br /&gt;de Janeiro, CPDOC, 1993. 139 p. dat.&lt;br /&gt;OTÁVIO BRANDÃO&lt;br /&gt;(depoimento, 1977)&lt;br /&gt;Rio de Janeiro&lt;br /&gt;1993&lt;br /&gt;Ficha Técnica&lt;br /&gt;tipo de entrevista: história de vida&lt;br /&gt;entrevistador(es): Maria Cecília Velasco e Cruz; Renato Lessa&lt;br /&gt;levantamento de dados: Maria Cecília Velasco e Cruz; Renato Lessa&lt;br /&gt;pesquisa e elaboração do roteiro: Maria Cecília Velasco e Cruz; Renato Lessa&lt;br /&gt;sumário: Nara Azevedo de Brito&lt;br /&gt;conferência da transcrição: Nara Azevedo de Brito&lt;br /&gt;copidesque: Elisabete Xavier de Araújo&lt;br /&gt;técnico de gravação: Clodomir Oliveira Gomes&lt;br /&gt;local: Rio de Janeiro - RJ - Brasil&lt;br /&gt;data: 15/01/1977 a 10/02/1977&lt;br /&gt;duração: 6h 50min&lt;br /&gt;fitas cassete: 05&lt;br /&gt;páginas: 139&lt;br /&gt;Entrevista realizada no contexto da pesquisa "Trajetória e Desempenho das Elites Políticas&lt;br /&gt;Brasileiras", parte integrante do projeto institucional do Programa de História Oral do CPDOC,&lt;br /&gt;em vigência desde sua criação, em 1975.&lt;br /&gt;Esta entrevista subsidiou a elaboração da tese de doutorado de Dulce Pandolfi, publicada no&lt;br /&gt;livro Camaradas e companheiros: memória e história do PCB (Rio de Janeiro, Relume-Dumará;&lt;br /&gt;Fundação Roberto Marinho, 1995).&lt;br /&gt;temas: Anarquismo, Astrogildo Pereira, Bloco Operário e Camponês (1928-1930),&lt;br /&gt;Cooperativismo, Greves, Movimento Operário, Otávio Brandão, Partido Comunista do Brasil,&lt;br /&gt;República Velha (1889-1930), Sindicalismo, Sindicatos de Trabalhadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sumário&lt;br /&gt;1ª Entrevista: 15.01.1977&lt;br /&gt;Origem familiar; formação escolar e intelectual; jornal A Semana Social; protesto contra a&lt;br /&gt;Primeira Guerra Mundial e a prisão; os anarquistas; sindicalismo em Maceió; criação da&lt;br /&gt;Socidadade dos Irreverentes e da Congregação Libertadora da Terra e do Homem; setores&lt;br /&gt;ativos do operariado; sindicatos amarelos; anarquismo e anarco-sindicalismo; políticos e&lt;br /&gt;movimento operário; anarquismo e revolução; Insurreição de Magé (1918); inviabilidade do&lt;br /&gt;anarquismo; sindicatos anarquistas; a Coligação Social; Federação Operária; ação política&lt;br /&gt;anarquista; caráter individualista do anarquismo; socialistas e positivistas; a imprensa e a&lt;br /&gt;questão social; relações com Prestes; o Bloco Operário e Camponês; dificuldades do BOC em&lt;br /&gt;São Paulo; Teotônio Sousa Lima; atividade política nas fábricas; aliança com o&lt;br /&gt;tenentismo.............................. p. 1-37&lt;br /&gt;2ª Entrevista: 21.01.1977&lt;br /&gt;Contatos com anarquistas; reunião em Buenos Aires e liquidação do BOC (1930); expulsão do&lt;br /&gt;Brasil (1931); influência do BOC entre os trabalhadores; I Conferência Comunista do Brasil;&lt;br /&gt;difusão do anarquismo no Brasil; José Elias da Silva; desagregação do PC; popularidade dos&lt;br /&gt;políticos entre os operários; os amarelos no porto; movimento cooperativista; jornal A Voz do&lt;br /&gt;Povo; greve da Leopoldina (1920); deportações de anarquistas por Epitácio Pessoa; Lima&lt;br /&gt;Barreto; organização das greves; greve dos gráficos (1929); adesão de Astrojildo ao&lt;br /&gt;comunismo; o Partido Comunista e a disciplina partidária; a insurreição de 1935; Coligação&lt;br /&gt;Social (1920); Everardo Dias; o grupo Clarté; o Partido Socialista; ligações dos sindicatos com&lt;br /&gt;o coronel Bandeira de Melo; luta contra os anarquistas; Astrojildo Pereira; reorganização dos&lt;br /&gt;sindicatos; insurreições da Internacional para o movimento no Brasil; atuação de Astrojildo&lt;br /&gt;Pereira; criação do PC e propostas de trabalho; I Congresso do PC; perfil dos fundadores do&lt;br /&gt;PC; o trotskismo; papel da esposa no movimento operário.......................................................&lt;br /&gt;p.37-97&lt;br /&gt;3ª Entrevista: 10.02.1977&lt;br /&gt;Influência da Internacional na fundação do PC; reorganização dos sindicatos; órgãos do PC;&lt;br /&gt;trabalho junto aos camponeses; vereador em 1946; organização interna do PC; interferência da&lt;br /&gt;Internacional na linha do partido; atividades nos sindicatos; diferenças entre anarquismo e&lt;br /&gt;comunismo; o PC e as leis trabalhistas; proposta de frente cínica entre o PC e os anarquistas;&lt;br /&gt;tentativa de ligações com a Coluna Prestes; adesão ao comunismo; II Congresso do Partido;&lt;br /&gt;política reformista burguesa nos anos 20; sistema eleitoral na República Velha; criação e&lt;br /&gt;atuação do BOC; atuação como vereador; Revolução de 1930; reunião em Buenos Aires;&lt;br /&gt;legislação eleitoral........................................................................................................... p. 97-139&lt;br /&gt;1ª Entrevista: 15.01.1977&lt;br /&gt;M.C. - Otávio, onde e quando você nasceu?&lt;br /&gt;O.B. - Eu nasci a 12 de setembro de 1896, na cidade de Viçosa, de Alagoas, no interior,&lt;br /&gt;a cem quilometros do litoral, no meio das plantações de cana-de-açúcar. Subiam,&lt;br /&gt;desciam ladeira, até as portas da cidade, aquelas plantações de cana-de-açúcar. Viçosa é&lt;br /&gt;uma cidade muito pequeno-burguesa, cercada de latifúndios, antigos engenhos,&lt;br /&gt;engenhos de açúcar. Só muito depois é que apareceu uma usina. Então, o ambiente era&lt;br /&gt;este: uma pequena burguesia urbana - uns progressistas, outros confusos, outros&lt;br /&gt;reacionários - e aquele latifúndio cercando a cidade, latifúndios de plantações de canade-&lt;br /&gt;açúcar. Lugar muito bonito, o rio Paraíba no meio dos pedregais, aquelas matas, às&lt;br /&gt;vezes matas virgens. Uma coisa raríssima na história do Brasil a gente encontrar matas&lt;br /&gt;virgens. Uma dessas, subindo a serra Dois Irmãos, atravessei com um grupo de amigos:&lt;br /&gt;seis horas subindo e abrindo caminho com um facão, porque de outra forma não era&lt;br /&gt;possível dar um passo - aquele entrelaçamento de cipós, da base até lá em cima, eram&lt;br /&gt;matas virgens. Agora estive em Itatiaia e vi lá matas bonitas, mas os paus são finos, quer&lt;br /&gt;dizer são recentes, e a mata não é virgem. A gente pode penetrar de um extremo a outro,&lt;br /&gt;como na Europa.&lt;br /&gt;M.C. - E qual era a profissão de seu pai?&lt;br /&gt;O.B. - Meu pai era prático de farmácia. Era um homem democrata, progressista, um&lt;br /&gt;homem de idéias muito avançadas para a época. Não esqueça de que, chegou 15 de&lt;br /&gt;novembro de 1889, houve a Proclamação da República no Rio de Janeiro, e chegou lá a&lt;br /&gt;notícia muito depois. Não havia telégrafo; não havia estrada de ferro. Então, os&lt;br /&gt;pequeno-burgueses urbanos reuniram-se na Câmara Municipal e proclamaram sua&lt;br /&gt;adesão à República. Bom; até aí, nada demais. Na hora dos triunfadores, sempre&lt;br /&gt;aparecem os oportunistas. O diabo é que Viçosa ficava longe, no interior, e um dia&lt;br /&gt;chegou a notícia: "Dom Pedro II recompôs a Monarquia". E todos começaram a dizer:&lt;br /&gt;"Estamos perdidos, vamos ser enforcados, porque fizemos um documento público."&lt;br /&gt;[risos] E, assim, um escândalo tremendo. Então, foram a meu pai para ele retirar a&lt;br /&gt;assinatura. Estava lá: Manuel Correia de Melo Rego. Mas meu pai respondeu: "Não; eu&lt;br /&gt;coloquei a assinatura; agora, acabou-se. Prefiro ser enforcado a retirar a assinatura."&lt;br /&gt;Então ele deu coragem aos outros pequeno-burgueses e ficou o dito pelo não dito.&lt;br /&gt;Depois é que chegou a notícia de que a República estava se consolidando, que a&lt;br /&gt;Monarquia estava perdida. Ele disse: "Está vendo? Imagine que vergonha, nós, depois&lt;br /&gt;de termos assinado esse documento, retirarmos a nossa assinatura! Teria sido uma&lt;br /&gt;desmoralização total." Eu tenho aí uma cópia desse documento.&lt;br /&gt;Era um homem assim, de caráter! Eu, do ponto de vista do pensamento, devo muito a&lt;br /&gt;meu pai, e do ponto de vista do sentimento, devo à minha mãe.&lt;br /&gt;Minha mãe era dessas mulheres amorosas, cheia de carinho, cheia de doçura. Uma&lt;br /&gt;coisa admirável. Muitos anos depois saí pelo mundo... Mas ela morreu logo, quando eu&lt;br /&gt;tinha quatro anos de idade.&lt;br /&gt;M.C. - Você tinha irmãos?&lt;br /&gt;O.B. - Tinha uma irmã - os outros morreram - que ainda está viva. Depois da morte de&lt;br /&gt;minha mãe, eu cresci, saí pelo mundo procurando suas amigas. Chegava num lugar,&lt;br /&gt;perguntava: "A senhora conheceu d. Maroquinha, da Farmácia Popular, rua do&lt;br /&gt;Juazeiro?" Ela dizia: "Ah, eu conheci:" E eu perguntava: "Como era dona Maroquinha?"&lt;br /&gt;Ela respondia: "Era uma maravilha de mulher." Para as amigas ficou aquela recordação.&lt;br /&gt;Então, do ponto de vista do sentimento, devo muito a minha mãe. Está ali o retrato dela,&lt;br /&gt;ao lado do meu pai.&lt;br /&gt;M.C. - Otávio, o que você estudou? Onde?&lt;br /&gt;O.B. - Bem; eu estudei em Viçosa. Aprendi a ler com a professora Maria do Â. Era uma&lt;br /&gt;negra. [risos] Dava bolo a três por dois. Eu tinha muito medo dela! Ela, porém, nunca&lt;br /&gt;me bateu. Aprendi rapidamente a ler. E é interessante que Graciliano Ramos, que hoje é&lt;br /&gt;uma glória nacional, também aprendeu a ler com Maria do Â. Ele num dos livros, ataca&lt;br /&gt;a Maria do Â; e eu, num artigo, no Diário de Notícias, no Suplemento Literário, a&lt;br /&gt;defendi. Ela ensinou a ler a dois escritores: [risos] um é uma celebridade; o outro é&lt;br /&gt;negado por todos os lados. É uma questão de classe! Mas, de qualquer forma, ela nos&lt;br /&gt;ensinou a ler, além de outros e outros. É uma mulher pobre, negra, professora primária,&lt;br /&gt;perdida no interior de Alagoas, vivendo só, naquela pobreza, e acabou na miséria Maria&lt;br /&gt;do Â.&lt;br /&gt;M.C. - E o ginásio?&lt;br /&gt;O.B. - Bem; depois fui para outros colégios. Sobretudo o colégio do Professor Tibúrcio&lt;br /&gt;Nemésio. Este homem tinha idéias progressistas. Era da pequena burguesia urbana,&lt;br /&gt;progressista, lá de Viçosa. Ele também contribuiu para o meu desenvolvimento. Depois,&lt;br /&gt;fui para Maceió, e aí quiseram converter num santo o caboclo rebelde de Viçosa. Era um&lt;br /&gt;colégio de Irmãos Maristas, mas eu não queria aprender o catecismo. Meu pai não me&lt;br /&gt;ensinou o catecismo, meu pai nunca me mandou à igreja. Ele só acreditava em Deus e&lt;br /&gt;na madrinha dele - esta coisa de adotar uma santa, que era madrinha da Igreja de Santa&lt;br /&gt;Rita, lá na região dos Canais e das Alagoas. Ele falava: "Só acredito em Deus e na&lt;br /&gt;minha madrinha Santa Rita." Nunca me mandou à igreja. E os Irmãos Maristas queriam&lt;br /&gt;me ensinar o catecismo. Eu não queria, então, fui castigado. Parece que era às quatro&lt;br /&gt;horas da tarde a hora de ir brincar em Maceió. Quatro horas da tarde, eu era castigado. Ia&lt;br /&gt;para um salão, ficava olhando a parede [risos] durante duas horas. Parece que foram&lt;br /&gt;trinta e tantas horas de castigo para eu me tornar católico! Eu, de fato, não era católico e&lt;br /&gt;não conhecia o catecismo. No fim, eu, desesperado, sem ter para quem apelar, penso:&lt;br /&gt;"Se eu recusar, volto a Viçosa, e lá não tem nada, não tenho futuro. Que fazer?" No final&lt;br /&gt;aceitei e me tornei católico.&lt;br /&gt;M.C. - E quando é que você rompeu com o catolicismo?&lt;br /&gt;O.B. - Fui católico dois anos e meio. Em 1912, rompi totalmente e nunca mais voltei ao&lt;br /&gt;catolicismo. Fui o primeiro a romper na família. Então foi um escândalo, uma coisa&lt;br /&gt;tremenda. Meu tio, Alfredo, que pagava meus estudos, ficou desesperado e dizia:&lt;br /&gt;"Quando eu morrer, vou pagar este crime de ter contribuído para educá-los, e você saiu&lt;br /&gt;assim contra a Igreja!" Havia um tio padre, irmão da minha mãe. Foi também uma luta&lt;br /&gt;tremenda contra ele. Havia o bispo de Alagoas, que também era Brandão. Tudo era&lt;br /&gt;Brandão e tudo católico. E essa gente toda caiu em cima de mim. Uma coisa&lt;br /&gt;terrível! Foi uma luta desesperada, que durou de 1912 a 1919. Em 1919 tudo se&lt;br /&gt;complicou, porque havia nossa luta no seio da família, mas também havia a luta social,&lt;br /&gt;em Maceió, ajudando os operários a conquistar o dia de oito horas, conquistar aumento&lt;br /&gt;de salários, liberdades sindicais. Aí fui metido na cadeia de Maceió, e a única solução&lt;br /&gt;era fugir de Alagoas. A família se opunha, mas havia já um bandido para me matar.&lt;br /&gt;Então, foi em 1912 a ruptura. Claro que eu não podia ter a base teórica que tenho hoje:&lt;br /&gt;falta de livros, falta de amigos. Fiquei sozinho naquela luta, anos e anos. E a família&lt;br /&gt;toda dizendo:" Volta, volta ao catolicismo."&lt;br /&gt;M.C. - Você participou de algum grupo anticlerical?&lt;br /&gt;O.B. - Não.&lt;br /&gt;M.C. - Existia algum em Maceió?&lt;br /&gt;O.B. - Não; não havia ninguém. Eu falava com uns, com outros, ninguém queria. Eu&lt;br /&gt;sozinho, absolutamente só, anos e anos. Tal o atraso! Não havia livros, não havia&lt;br /&gt;ambiente, não havia nada. Fui estudando literatura em geral, como, por exemplo,&lt;br /&gt;hindus, que consegui, os gregos sobretudo, os alemães, os russos etc. E, estudando&lt;br /&gt;filosofia, li o livro de Büchner, Força e matéria, li Darwin, li Haeckel, biólogos. O que&lt;br /&gt;encontrei, eu fui lendo e devorando com aquela ansiedade. Para poder resistir àquela&lt;br /&gt;pressão toda do ambiente. Li Nietzsche. E isto me salvou. Eu digo:" Não; não volto&lt;br /&gt;nunca mais, nunca mais."&lt;br /&gt;M.C. - Isso foi na época em que você estava na faculdade?&lt;br /&gt;O.B. - Sim; eu estava no Recife, em 1912, estudando farmácia. Estudei três anos e&lt;br /&gt;completei o curso no Recife. Mas, paralelamente, estudei os naturalistas, ciências&lt;br /&gt;naturais, teoria e prática. Saía pelos arredores de Recife estudando botânica,&lt;br /&gt;mineralogia, geologia. E estudando literatura universal. Aí conheci os hindus; conheci o&lt;br /&gt;Rig-Veda, que é o mais bonito dos quatro Vedas. Li o Rig-Veda; li Sa Kuntale,1 de&lt;br /&gt;Kalidaga; li o que encontrei. Até hoje eu guardo esse exemplar do Sa Kuntale. Eu&lt;br /&gt;admirei muito os hindus. E fui procurando os materialistas, aqui, ali e acolá.&lt;br /&gt;M.C. - E como você entrou em contato com as idéias anarquistas?&lt;br /&gt;O.B. - Isso já foi depois, em Maceió. Em Maceió, houve um tipógrafo, Antônio&lt;br /&gt;Bernardo Canelas. Ele era tipógrafo, jornalista, tudo. Ele editou o jornal A Semana&lt;br /&gt;Social, em Maceió. Ele não estudava. Acreditava demais na própria intuição, mas era&lt;br /&gt;muito inteligente. Tinha antenas; pegava as coisas no ar. Canelas editou esse jornal.&lt;br /&gt;Esse jornal teve muita importância, porque, quando o governo declarou guerra à&lt;br /&gt;Alemanha, A Semana Social botou lá a manchete: "Abaixo a guerra imperialista."&lt;br /&gt;Somente Maceió, Rio e São Paulo é que protestaram contra a guerra. A esmagadora&lt;br /&gt;maioria dos intelectuais: Rui Barbosa, Coelho Neto, toda essa gente apoiando os&lt;br /&gt;Aliados contra os alemães. E nós contra os Aliados e contra os alemães, de modo que&lt;br /&gt;foi um coisa impressionante. E Canelas tinha amizade com Astrojildo Pereira, aqui no&lt;br /&gt;Rio de Janeiro. Astrojildo morava em Niterói, a correspondência vinha para o Rio de&lt;br /&gt;1 Sa Kuntale (o anel perdido) é uma peça do poeta indiano Kalidaga (Sec. V).&lt;br /&gt;Janeiro. Então, Astrojildo começou a dar indicações. Aí eu li Bakunin, Deus e o Estado;&lt;br /&gt;li Kropotkin, A conquista do pão; li Sebastião Faurre; li Malatesta. O que encontrei, fui&lt;br /&gt;lendo. E li Nietzsche, que contribuiu muito, porque, como ele mesmo diz, no prefácio lá&lt;br /&gt;de um dos seus livros: "Retirai deste livro amargo, razões para tudo." [riso] É como a&lt;br /&gt;Bíblia, a gente tira dali o que bem quer. E então, Nietzsche serviu para eu resistir àquele&lt;br /&gt;ambiente clerical, àquela pressão da família, àquilo tudo. Ele representou um papel&lt;br /&gt;positivo. E as outras idéias dele, em filosofia e em sociologia, eu repudiei. Admirei&lt;br /&gt;sobretudo as poesias, como aquele "Canto da Noite", que ele escreveu em Roma.&lt;br /&gt;Quanto às idéias, muitas das idéias dele, que depois contribuíram para o nazismo, eu&lt;br /&gt;rechacei já em 1916, 1917, quando ele diz: "O Estado é o mais frio dos monstros..."&lt;br /&gt;Porque Nietzsche tem muitas coisas anarquistas e tem coisas que serviram para Hitler. A&lt;br /&gt;primeira parte foi a que eu adotei. O livro dele O anticristo, que é uma crítica ao&lt;br /&gt;cristianismo, também li. E foi o que eu encontrei em Maceió. Sobre a Rússia, o único&lt;br /&gt;livro que encontrei foi um livro do século passado... Stepniaquim descrevendo os&lt;br /&gt;Narodnaiavolia, os terroristas do século passado. Foi o único livro que encontrei, não&lt;br /&gt;encontrei mais nada de lá. Ou então artigos de jornal, mas artigos caluniosos. Todos&lt;br /&gt;esses jornais caluniando a revolução na Rússia.&lt;br /&gt;M.C. - A Semana Social foi fundada quando?&lt;br /&gt;O.B. - Mais ou menos em 1916 ou 1917, por aí assim.&lt;br /&gt;M.C. - E você começou a escrever para o jornal em que época?&lt;br /&gt;O.B. - Escrevi artigos contra, por exemplo, aquelas coisas do Olavo Bilac, o&lt;br /&gt;militarismo, a defesa nacional, aquilo tudo. Escrevi um artigo de que ainda me lembro.&lt;br /&gt;Fui à redação, sentei-me num canto qualquer e fui ditando, Canelas escreveu e publicou.&lt;br /&gt;E um outro... Eu li A mãe, de Máximo Gorki, que exerceu uma influência muito grande&lt;br /&gt;em mim, porque eu vi a mãe proletária, a mãe operária, que, levada pelo carinho e pelo&lt;br /&gt;amor do filho, foi-se transformando até se tornar uma revolucionária. A mãe, de&lt;br /&gt;Máximo Gorki, exerceu grande influência na minha vida. E escrevi [risos] influenciado&lt;br /&gt;pelo livro de Gorki, um apelo à revolta. Foi um escândalo! Saiu em A Semana. Foi um&lt;br /&gt;escândalo, uma coisa terrível, chamando o povo todo à revolta contra os comendadores,&lt;br /&gt;os latifundiários, a burguesia.&lt;br /&gt;M.C. - O jornal tinha uma tiragem grande?&lt;br /&gt;O.B. - Não; grande não podia ser, porque era boicotado. Somente grupos de operários,&lt;br /&gt;em Maceió, e pequeno-burgueses urbanos progressistas é que liam A Semana Social.&lt;br /&gt;M.C. - Ele era boicotado de que forma?&lt;br /&gt;O.B. - Bem; dinheiro não tinha. Canelas deixava de comer para juntar dinheiro para&lt;br /&gt;poder comprar papel, e havia sempre dificuldades.&lt;br /&gt;M.C. - Ele era o único editor do jornal?&lt;br /&gt;O.B. - É; ele era o tipógrafo, o jornalista, o doutor, o escritor, tudo, tudo. Ele não tinha&lt;br /&gt;cama. Havia, assim, um lugar debaixo... Não tinha linotipo, era tipógrafo.&lt;br /&gt;Debaixo daquelas caixas dos tipos, um cantinho, era ali que ele dormia.&lt;br /&gt;M.C. - E os operários em geral liam esse jornal?&lt;br /&gt;O.B. - Liam; os operários de Maceió liam esse jornal. Grupos de operários. Acabou tudo&lt;br /&gt;na cadeia de Maceió. Uns 14!&lt;br /&gt;M.C. - Por quê?&lt;br /&gt;O.B. - Imagine! A Igreja Católica zangada, porque eu fiz conferências, mostrando a&lt;br /&gt;origem da terra alagoana através de milhões de anos, e perguntavam: "E Deus?" Eu&lt;br /&gt;respondia:" Deus não tem nada a fazer nesse terreno. É a geologia. Deus não entra nesse&lt;br /&gt;terreno." Então a Igreja muito zangada, pois queria que eu fosse um esteio da Igreja&lt;br /&gt;Católica como os outros Brandões. Por exemplo, se a gente chegava num lugar e&lt;br /&gt;perguntava: "Quem construiu aquela igreja?" A resposta era sempre: "Foi um tal&lt;br /&gt;Brandão." Mais adiante, a gente perguntava: "E essa outra?" "Foi um tal Brandão." E&lt;br /&gt;quando não construiu, pelo menos reconstruiu. O irmão da minha avó, o vigário&lt;br /&gt;Francisco de Borja Barros Loureiro, reconstruiu a igreja de Viçosa, que até hoje está lá.&lt;br /&gt;M.C. - Quer dizer que a sua família é uma família tradicional em Alagoas?&lt;br /&gt;O.B. - E clerical, com aquele fanatismo danado, muito duro, muito duro. E essa coisa de&lt;br /&gt;virgindade de Maria! Eu dizia: "Não me aborreçam com bobagens." E eles reagiam:&lt;br /&gt;"Como bobagem? Isso é uma coisa sagrada, e não sei o quê." Eu dizia: "Ela foi mãe e&lt;br /&gt;ficou grávida, não podia ser mais virgem." Eles respondiam: "Mas que escândalo!" E os&lt;br /&gt;tios ficavam ofendidos, não queriam discutir. Eles diziam: "Mas que desaforo, que&lt;br /&gt;ofensa." Eu explicava: "Não estou ofendendo o senhor, não estou dizendo nada." "Um&lt;br /&gt;menino que vi nascer outro dia quer me dar lição." "Eu não quero dar nenhuma lição,&lt;br /&gt;mas estudei religião, e o senhor não estudou." "Que desaforo, que ofensa." Não havia&lt;br /&gt;meio de discutir. Nesse ambiente era muita coação, sempre. Os parentes todos, um&lt;br /&gt;bando de beatos. Precisava ter paciência, se não eu os mandaria: "Vão para o inferno,&lt;br /&gt;que se danem!" Mas eu não dizia.&lt;br /&gt;M.C. - Mas como é que os operários foram presos? O senhor estava contando...&lt;br /&gt;O.B. - Bem; isso já foi depois. Em 1917, esse protesto contra a guerra repercutiu muito.&lt;br /&gt;Maceió teve essa glória - Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo. Ninguém mais protestou.&lt;br /&gt;Um avacalhamento geral. A massa dos intelectuais era toda de aliadófilos, como Rui&lt;br /&gt;Barbosa. Todos diziam "Esta é a última guerra! Esta é a guerra da justiça! É a guerra do&lt;br /&gt;direito contra a força! Eu sou pela força do direito, contra o direito da força!" E diziam&lt;br /&gt;"Muito bem! Viva Rui Barbosa!" Essa palhaçada toda. E nós, contrários.&lt;br /&gt;Isso abalou aquilo tudo. O jornal foi fechado. Canelas teve que ir embora para o&lt;br /&gt;Recife, não pode mais ficar. E, pela primeira vez, penetrei na vida ilegal. Passei 15 dias&lt;br /&gt;no interior. Veio a multidão - imagine -, a multidão envenenada: empregados do&lt;br /&gt;comércio, estudantes, cerca de cinco mil pessoas. Fizeram um comício na praça dos&lt;br /&gt;Marítimos e, depois, saíram para a redação de A Semana Social. Lá, bateram à porta,&lt;br /&gt;que estava fechada, pois o Canelas estava dormindo. Uma vizinha veio e acordou o&lt;br /&gt;Canelas. Ele acordou com aquele barulho: "Lincha Canelas! Mata Canelas! Espião&lt;br /&gt;boche!" (Chamavam os alemães de boches.) Então, a vizinha passou pelos fundos...&lt;br /&gt;Sabe como são essas casas no interior: não têm quintal, e passa-se de uma casa para a&lt;br /&gt;outra. Essa senhora levou Canelas para a sala de jantar e botou a rede por cima dele. Ele&lt;br /&gt;ficou ali encolhido, ouvindo esse barulho de cinco mil pessoas gritando: "Espião boche!&lt;br /&gt;Acaba com isso! Mata! Lincha o bandido!" E, naquele meio, um sujeito, não sei quem,&lt;br /&gt;gritou: "Quem escreveu o artigo contra a guerra não foi Canelas, foi Otávio Brandão!&lt;br /&gt;Vamos quebrar as costelas dele!" [riso] Minhas costelas não são de ferro! Eu já previa&lt;br /&gt;isso e estava no interior, lá em Viçosa. Então, no final, os amigos que estavam na&lt;br /&gt;multidão, disseram: "Não; não foi Otávio Brandão que escreveu o artigo contra a&lt;br /&gt;guerra."&lt;br /&gt;Passou; mas o jornal morreu. Minha família aí embrulhou tudo, e todos&lt;br /&gt;começaram a dizer: "Antes era por causa do catolicismo; agora já se mete no meio&lt;br /&gt;desses desordeiros e é acusado de espião boche." Eu digo: "Eu não; não tenho nada de&lt;br /&gt;espião boche. Essa guerra é um crime, nós somos contra os alemães e contra os&lt;br /&gt;Aliados."&lt;br /&gt;Depois, no final, houve a insurreição de 1918, dos operários aqui, e Oiticica foi&lt;br /&gt;deportado para Maceió. Eu fui visitá-lo no engenho Mundaú, da família dele. Então,&lt;br /&gt;conversamos um pouco. Sei que aproveitaram umas conferências de um espírita e&lt;br /&gt;lançaram um manifesto. A Polícia saiu atrás do autor do manifesto, e o encontrou.&lt;br /&gt;Meteram-no na cadeia. Fui visitá-lo e, por crime de solidariedade, fui preso. Creio que&lt;br /&gt;13 ou 14 pessoas, inclusive operários, foram presas, acabaram na cadeia de Maceió.&lt;br /&gt;M.C. - O manifesto era sobre o quê?&lt;br /&gt;O.B. - Não me lembro mais. O manifesto foi provocado por esse Viana de Carvalho,&lt;br /&gt;que era espírita e andava fazendo propaganda do espiritismo. Então, parece que Oiticica&lt;br /&gt;escreveu este manifesto. Não tinha grande importância, mas a questão era que antes nós&lt;br /&gt;tínhamos levantado esses problemas todos, e a Polícia aproveitou para acabar com o&lt;br /&gt;movimento. Invadiu os sindicatos, deu pancada a torto e a direito...&lt;br /&gt;M.C. - Que sindicatos?&lt;br /&gt;O.B. - Ah! Nós criamos um sindicato de operários. Era o Sindicato de Ofícios Vários.&lt;br /&gt;Quer dizer, da Igreja Católica, zangada por causa da nossa explicação materialista da&lt;br /&gt;origem da terra alagoana, perguntavam: "E Deus?" Eu dizia: "Deus não entra, não tem&lt;br /&gt;nada a fazer na geologia." A burguesia zangada, por que os operários trabalhavam 12,&lt;br /&gt;14, 16 horas na fábrica de tecidos de Fernão Velho, em Rio Largo, por um salário&lt;br /&gt;miserável, e nós lutávamos pelo dia de oito horas. E fomos conquistando aqui, ali e&lt;br /&gt;acolá, o dia de oito horas, aumento de salários e liberdades sindicais. Bom: a burguesia&lt;br /&gt;zangada; a Igreja Católica zangada; os agentes do imperialismo, que vendiam gasolina e&lt;br /&gt;essa coisas todas, zangados, porque provei que Alagoas tinha petróleo, e eles diziam&lt;br /&gt;sempre: "O Brasil não tem petróleo! O Brasil não tem petróleo!" E eu provei que&lt;br /&gt;Alagoas tinha petróleo. Isto em 12 de outubro de 1917. Os latifundiários zangados,&lt;br /&gt;porque nós penetramos no interior pregando divisão das terras. "A terra aos&lt;br /&gt;trabalhadores de enxada." Então se juntaram todos: a Igreja Católica, os agentes do&lt;br /&gt;imperialismo, a burguesia, os latifundiários. E o ódio. Então, publicavam:&lt;br /&gt;"Maximalismo em Maceió." Aquelas manchetes e aquilo tudo.&lt;br /&gt;M.C. - Quer dizer que você também atuou politicamente na cidade?&lt;br /&gt;O.B. - Isso em 1917; e fui ao interior, aos engenhos dos meus parentes, procurar lá os&lt;br /&gt;trabalhadores de enxada e dizer: "A terra pertence a vocês! Divisão das terras! A terra ao&lt;br /&gt;trabalhador de enxada!" A família se reuniu e disse: "Ainda mais essa! O homem é um&lt;br /&gt;inimigo de Deus, um inimigo de Cristo, e agora é inimigo dos próprios parentes, quer a&lt;br /&gt;desgraça dos parentes!" Houve um conselho da família proibindo que eu visitasse, lá, os&lt;br /&gt;latifúndios.&lt;br /&gt;R.L. - Otávio, só havia anarquista em Maceió?&lt;br /&gt;O.B. - Houve o Canelas, que era anarquista; houve o... Rosalvo Guedes; que foi meu&lt;br /&gt;amigo, uma criatura excelente, ele foi preso. Houve um que tinha um nome estrangeiro&lt;br /&gt;mas era brasileiro.&lt;br /&gt;M.C. - Mas todos morando em Maceió?&lt;br /&gt;O.B. - Todos vivendo em Maceió.&lt;br /&gt;M.C. - E fora de Maceió?&lt;br /&gt;O.B. - Fora de Maceió, houve o meu amigo Alcides Pimenteira, um alfaiate. Um dia a&lt;br /&gt;Polícia foi lá prendê-lo e o encontrou: "Onde é que está Alcides Pimenteira?"&lt;br /&gt;Mostraram o morro do cemitério e disseram: "Está ali; vão buscá-lo." Estava morto.&lt;br /&gt;M.C. - E ele morava onde?&lt;br /&gt;O.B. - Morava em Viçosa, na rua Elói Brandão.&lt;br /&gt;M.C. - Em Viçosa, tinha alguma fábrica?&lt;br /&gt;O.B. - Não; não tinha fábrica, mas havia o descaroçador de algodão, havia os padeiros,&lt;br /&gt;havia assim um movimento. Em 1946, criaram uma célula e deram o meu nome a essa&lt;br /&gt;célula. Célula do Partido Comunista. Mas isso em 46.&lt;br /&gt;M.C. - E, em Maceió, era grande a classe operária?&lt;br /&gt;O.B. - Não era grande; havia muito artesão, operário de construção civil, alfaiate&lt;br /&gt;artesão, alfaiate a domicílio. Juntando esta gente toda, dava alguma coisa. Fizemos um&lt;br /&gt;comício com quinhentas pessoas na sede do Sindicato de Ofícios Vários. Aquela massa&lt;br /&gt;ali, e nós falando.&lt;br /&gt;M.C. - Existia outro sindicato?&lt;br /&gt;O.B. - Existia um outro na rua 16 de Setembro: Sindicato de Ofícios Vários. O que&lt;br /&gt;houve foi que nós fomos procurar e mexer essa gente toda; mas nós não tínhamos,&lt;br /&gt;assim, uma base teórica. Depois eu lhe dou o meu livro, Caminho, que descreve esse&lt;br /&gt;movimento em Maceió, de 1916, 1917, 1918, até março de 1919. Acabou tudo logo, na&lt;br /&gt;cadeia de Maceió.&lt;br /&gt;M.C. - Quer dizer que nem todos esses artesãos eram sindicalizados?&lt;br /&gt;O.B. - Não; não eram sindicalizados. Nós ainda fazíamos um trabalho de propaganda,&lt;br /&gt;de congregar essa gente toda. Sindicato de Ofícios Vários, isto é, de qualquer um.&lt;br /&gt;Qualquer um, de qualquer que fosse o ofício aderia ao sindicato. A gente jogava a rede,&lt;br /&gt;dizia: "Nós somos pescadores. Nós lançamos a rede de arrasto e puxamos. O que vem&lt;br /&gt;está certo." Não podíamos, por exemplo, fazer um Sindicato dos tecelões. Havia fábrica&lt;br /&gt;de tecidos em Jaraguá, mas aquilo era como fortalezas, muito difícil de penetrar; havia&lt;br /&gt;a fábrica de tecidos de Fernão Velho, em Rio Largo, mas era também muito difícil&lt;br /&gt;penetrar.&lt;br /&gt;M.C. - Porque era difícil, Otávio?&lt;br /&gt;O.B. - Porque eu morava em Maceió, e era preciso ir morar naqueles lugares. E a&lt;br /&gt;vigilância era tão grande! Havia os capangas, bandidos pagos pelas fábricas para vigiar,&lt;br /&gt;espiões e tudo isso. O atraso era tão grande que a pessoa se arriscava muito. Eu me&lt;br /&gt;arrisquei indo lá nos engenhos e fazendas, fazendo propaganda no meio dos&lt;br /&gt;trabalhadores. Havia capangas por todos os lados.&lt;br /&gt;M.C. - E, em Maceió, como é que vocês faziam a propaganda?&lt;br /&gt;O.B. - Bem; nós, lá nos sindicatos, fazíamos conferências, fazíamos comícios. A Polícia&lt;br /&gt;foi deixando, até certa hora.&lt;br /&gt;M.C. - Vocês tinham algum jornal além de A Semana Social?&lt;br /&gt;O.B. - Não; só A Semana Social e, depois, manifestos. Imagine: havia uma roubalheira&lt;br /&gt;para aumentar o preço do açúcar. Nós conseguimos descobrir isso e denunciamos os&lt;br /&gt;nomes daqueles capitalistas. Reuniu-se a Associação Comercial de Alagoas para rebater&lt;br /&gt;a acusação. Nós lançamos um manifesto e grudamos nos postes em 1918. Foi um&lt;br /&gt;escândalo, uma coisa pavorosa. E o título era este: "Povo, à revolta!" E terminava&lt;br /&gt;dizendo que o Brasil só endireitaria no dia em que - hoje não faria assim - o último&lt;br /&gt;burguês fosse enforcado com as tripas do último político. [riso] Cada coisa dessas era&lt;br /&gt;um escândalo. Uma cidade pacata, pequeno-burguesa, cheia de funcionários públicos,&lt;br /&gt;aquela vida vegetativa, aquilo tudo, e aparece um grupo assim!&lt;br /&gt;Primeiro, fundamos a Sociedade dos Irreverentes, o nome já... Mas entrou lá um&lt;br /&gt;espírita e veio pregar espiritismo. Então, dissolvemos a sociedade. Dizíamos: "Não; já&lt;br /&gt;tem espírita de mais aí. Não precisa mais."&lt;br /&gt;M.C. - Isso foi quando, a Sociedade dos Irreverentes?&lt;br /&gt;O.B. - Mais ou menos em 1917. Então, dissolvemos a Sociedade dos Irreverentes. Mas,&lt;br /&gt;em 1918, fundamos uma coisa mais séria, que se chamou Congregação Libertadora da&lt;br /&gt;Terra e do Homem, pregando a divisão de terra, aumento de salários, a valorização da&lt;br /&gt;cultura brasileira, uma série de problemas. A questão agrária, li, discuti. E fomos&lt;br /&gt;penetrando nas fazendas e engenhos, pregando "terra aos trabalhadores de enxada", a&lt;br /&gt;divisão das terras. Um escândalo pavoroso.&lt;br /&gt;M.C. - Você fundou a Congregação com quem?&lt;br /&gt;O.B. - Fui um dos fundadores.&lt;br /&gt;M.C. - E quem mais?&lt;br /&gt;O.B. - Na maioria, eram pequeno-burgueses; os operários aderiram depois. Pequenoburgueses;&lt;br /&gt;jornalistas; o poeta Faustino de Oliveira, uma criatura excelente, ainda está&lt;br /&gt;vivo; o Rosalvo Guedes, que era um pequeno empregado; Umbelino Silva, também um&lt;br /&gt;pequeno empregado.&lt;br /&gt;M.C. - Canelas não participou disso?&lt;br /&gt;O.B. - Não; já tinha sido expulso. A Polícia obrigou-o: "Ou você vai embora, ou será&lt;br /&gt;preso e expulso." Então, ele foi para Pernambuco, e lá editou um jornal dos operários.&lt;br /&gt;Depois, foi para Paris. Esteve aqui e acolá. Esteve em Moscou, num congresso. E, de&lt;br /&gt;volta, ele disse: "Na hora de votar o projeto de Lenin, eu votei contra. Fui o único voto&lt;br /&gt;contra." Eu lhe disse: "Foi uma asneira que tu fizeste; tinha que votar a favor." [riso] Ele&lt;br /&gt;achava que ele era uma glória, mas eu disse: "Foi uma asneira; tinha que votar a favor."&lt;br /&gt;[risos] Ele guardou o anarquismo até a morte. O Canelas tinha qualidades. Era corajoso,&lt;br /&gt;valente, não se avacalhou. Mesmo no meio desses perigos, de tudo isso, era corajoso.&lt;br /&gt;Mas acreditava na intuição e não estudava nada. Mesmo em Paris, não estudou nada.&lt;br /&gt;Então, morreu anarquista. No final, acabou brigando, descompondo. Foi para o jornal A&lt;br /&gt;Pátria, na seção operária, descompondo. Mas isso já foi uma história de 1923, 24.&lt;br /&gt;M.C. - Voltando, então, para a época sobre a qual a gente estava conversando. Na&lt;br /&gt;Congregação Libertadora da Terra e do Homem, vocês tinham o apoio de algum setor&lt;br /&gt;da classe operária?&lt;br /&gt;O.B. - Tínhamos operários.&lt;br /&gt;M.C. - Que participavam?&lt;br /&gt;O.B. - Sim; era, em geral, um movimento... Os russos chamam de stirrina2 um&lt;br /&gt;movimento espontâneo dos operários. Um atraso muito grande. A macumba de lá se&lt;br /&gt;chama xangô. Eram trabalhadores que não iam às reuniões para ir ao xangô. A cabeça&lt;br /&gt;deles, cheia de xangô e iemanjá. Era uma luta muito grande. Para você ter uma idéia do&lt;br /&gt;ambiente, eram fetichistas, quer dizer, xangô e toda esta coisa, espíritas, protestantes e&lt;br /&gt;aquela massa de católicos, oficialmente católicos, mas na realidade eram católicos&lt;br /&gt;fetichistas.&lt;br /&gt;Eu trabalhava numa farmácia, e vinham aqueles doentes. Apareceu lá um doente&lt;br /&gt;com uma úlcera muito grande na perna. Eu lhe disse: "Vamos tratar desta úlcera, tomar&lt;br /&gt;injeções e lavar isso. Eu lavo." Lavei muita úlcera, muita ferida. Ele disse: "Quanto o&lt;br /&gt;senhor cobra?" Eu respondi: "Nada." Ele perguntou: "Mas por que? Em nome de que o&lt;br /&gt;senhor quer fazer isso?" Eu lhe disse: "É amor ao Brasil e à humanidade." Ele&lt;br /&gt;continuou: "Mas nem um tostão?" Eu respondi: "Nem um tostão." Ele falou: "Vou&lt;br /&gt;pensar." Dias depois, ele voltou e disse: "Não aceito. Sou espírita. Cometi muitos crimes&lt;br /&gt;numa encarnação anterior, e agora esta úlcera é uma provação. Quando eu me&lt;br /&gt;reencarnar, então, não terei mais úlcera e não terei mais esses sofrimentos todos. É uma&lt;br /&gt;2 Em russo, no original, significa movimento espontâneo.&lt;br /&gt;provação. Deus quis assim, Jesus Cristo quis assim, e isto ainda é uma bênção." Eu aí&lt;br /&gt;dei uma tunda danada em Alan Kardec e na religião, mas ele ficou irredutível. Eu lhe&lt;br /&gt;disse: "Você vai morrer, dá gangrena, e você morre." Tempos depois pedi notícias dele,&lt;br /&gt;e ele tinha falecido. Era um ambiente assim.&lt;br /&gt;M.C. - Quer dizer que a massa do operariado era toda...&lt;br /&gt;O.B. - É; operários, assim, empesteados de fetichismo, de espiritismo, de catolicismo&lt;br /&gt;misturado com fetichismo. Era uma luta muito grande e muito difícil.&lt;br /&gt;M.C. - Mas que tipo de organização era a Congregação? Era um sindicato ou era uma&lt;br /&gt;sociedade?&lt;br /&gt;O.B. - Não era um sindicato; era uma associação, assim, para lutar pela reforma agrária,&lt;br /&gt;no melhoramento das condições de vida e trabalho dos operários, por uma cultura&lt;br /&gt;nacional, para aproveitar o folclore alagoano, que foi e é muito rico. Tudo isto. Mas isso&lt;br /&gt;foi 1918, veio 1919, e a Polícia esmagou tudo.&lt;br /&gt;M.C. - E quais foram os resultados práticos da ação desenvolvida pela Congregação?&lt;br /&gt;O.B. - Bem; melhor dizer sobre todo esse processo... como A Semana Social e tudo isso.&lt;br /&gt;O resultado prático foi o seguinte: em certas fábricas, conquistamos o dia de oito horas e&lt;br /&gt;aumento dos salários. Trabalhavam 12, 14, 16 horas! Conseguimos aumento dos&lt;br /&gt;salários e liberdades sindicais e essas idéias todas foram sendo espalhadas entre aqueles&lt;br /&gt;intelectuais.&lt;br /&gt;Imagina, houve uma exposição, com cento e tantos quadros. Eu fui à exposição.&lt;br /&gt;Fui ver. Não havia um quadro inspirado por Alagoas. Nada. Nem a paisagem alagoana,&lt;br /&gt;nem os homens alagoanos. Havia cópias de coisas japonesas, cópias de paisagens da&lt;br /&gt;Europa, de Alagoas nada, nada. Uma escola de pintura, cento e tantos quadros, e não&lt;br /&gt;havia um único de Alagoas. Então, fizemos um apelo para que se inspirassem na&lt;br /&gt;natureza brasileira, no trabalhador alagoano, descrevendo a vida alagoana. E aí foram&lt;br /&gt;surgindo. O Moreira e Silva passou a pintar homens e mulheres do povo: um vencido,&lt;br /&gt;uma mulher fazendo renda e paisagens alagoanas. O outro, o Lima, este também&lt;br /&gt;dedicou toda a vida às paisagens alagoanas. Paisagens lindas! Coisas maravilhosas.&lt;br /&gt;Toda a vida, imagina! Em 1960, quando voltei a Alagoas, reencontrei-o. Ele me&lt;br /&gt;prometeu um quadro, mas não deu. Dedicou toda a sua vida às paisagens, quer dizer, um&lt;br /&gt;resultado concreto da nossa propaganda.&lt;br /&gt;M.C. - E as reivindicações, como, por exemplo, aumento salarial, diminuição da jornada&lt;br /&gt;de trabalho, foram conseguidas através de greves?&lt;br /&gt;O.B. - Não; foram dessas agitações. Os patrões com medo! E os jornais escreviam:&lt;br /&gt;"Maximalismo em Maceió! Cuidado! Perigo!" Era assim. Os patrões ficaram com medo.&lt;br /&gt;M.C. - Quer dizer que eles concederam isso...&lt;br /&gt;O.B. - Era a primeira vez, a primeira vaga de movimentos em geral. E eles diziam que&lt;br /&gt;iam parar a fábrica. Os patrões ficaram com medo. Eram patrões muito reacionários,&lt;br /&gt;muito atrasados, burrinhos, burrinhos. E, então, foram cedendo aqui, ali,&lt;br /&gt;acolá. E os resultados só não foram maiores, porque, em 1919, como eu lhe disse, os 13&lt;br /&gt;melhores militantes acabaram na cadeia de Maceió e os outros, espalhados aqui e ali,&lt;br /&gt;perderam os empregos.&lt;br /&gt;M.C. - Quais eram as principais pessoas que trabalhavam na Congregação Libertadora&lt;br /&gt;da Terra e do Homem?&lt;br /&gt;O.B. - Seu criado, Rosalvo Guedes, Alcindo de Oliveira, Umbelino Silva.&lt;br /&gt;M.C. - Os mesmos que fundaram o Sindicato de Ofícios Vários?&lt;br /&gt;O.B. - É; os mesmos.&lt;br /&gt;M.C. - E, no campo, vocês conseguiram organizar um pouco os trabalhadores?&lt;br /&gt;O.B. - Não, não; era muito difícil, muito difícil. No livro Caminho, eu escrevo que&lt;br /&gt;chego num lugar e vem logo a religião: "Mas Deus fez o mundo assim, desde o começo&lt;br /&gt;do mundo. O trabalhador ali, no cabo da enxada; e os donos das terra. É o Senhor. Foi&lt;br /&gt;Deus quem fez assim. E o senhor quer acabar com isso?" Outros faziam outras&lt;br /&gt;alegações. E, no final, os mais inteligentes disseram: "Bem; suponhamos: nós dividimos&lt;br /&gt;a terra, retalhamos a terra, acabamos com isso. Vem o soldado imediatamente de&lt;br /&gt;Maceió. O senhor garante que o soldado não virá para retomar a terra, restituir a terra ao&lt;br /&gt;dono?" Eu não podia garantir. Eles falavam: "E como é que o senhor propõe uma coisa&lt;br /&gt;que não pode garantir?" Então, eu vi que aquela propaganda não daria nada, que&lt;br /&gt;teríamos que rolar muitos anos, teríamos que estudar a questão agrária a fundo, criar&lt;br /&gt;organizações próprias para poder fazer alguma coisa no campo.&lt;br /&gt;M.C. - Vocês não tiveram tempo de criar essas organizações próprias?&lt;br /&gt;O.B. - Não; nós queríamos criar. Aliás, a Congregação Libertadora da Terra e do&lt;br /&gt;Homem já era com esse espírito. Nós pregávamos a revolução... A revolução não, a&lt;br /&gt;reforma agrária, o imposto sobre herança - que seria dedicado à compra de terras, que&lt;br /&gt;seriam entregues aos trabalhadores.&lt;br /&gt;M.C. - E quando a Congregação foi fechada?&lt;br /&gt;O.B. - Nós é que a fechamos por que não podíamos mais nos mover. Na cadeia de&lt;br /&gt;Maceió, todo
